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domingo, 26 de outubro de 2008

CRÍTICA: AMIGOS, AMIGOS... MULHERES À PARTE / Parte 2

Primeira parte da crítica aqui.
- Oh my God! Não acredito que a Lolinha vai pichar o nosso filme... de novo!

Devo confessar que nunca tinha ouvido falar no Dane Cook antes de morar nos EUA. No meu primeiro semestre lá, assinei TV a cabo, e vi um show de stand-up comedy que ele apresentava pra um auditório lotado (veja um pedaço divertido sobre ir ao cinema aqui, só em inglês). Ele tem um tipo de “energia maníaca”, não muito diferente do Jim Carrey, mas com um humor mais agressivo e arrogante. Eu até gostei daquele show, e meio que achei o Dane bonitinho. Aí descobri que o fã clube dele é tão grande quanto seu hate club (gente que o detesta). E, ao ver mais coisa dele, consegui entender melhor seus detratores. Não que eu o deteste, nada disso. Mas ele está tentando fazer carreira em Hollywood, e os veículos que escolheu pra deslanchar são os piores possíveis. Primeiro ele fez um papel secundário no também secundário Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (que estreou sexta no Brasil, um ano depois de passar nos EUA. Ele faz o irmão do Steve Carell). Depois veio um lixo que não me atrevi a ver, Maldita Sorte, com a Jessica Alba (a premissa é que todas as mulheres que dormem com o Dane conhecem um cara sério pra se casar logo em seguida). E agora Amigos, Amigos... Mulheres à Parte. Desta vez, a premissa é que ele é tão estúpido com as moças que elas voam pros seus ex-namorados depois de saírem com ele. Dane até que tá bem interpretando um ser repulsivo.
Lembro também de ter visto na TV americana (cuja programação não é muito melhor que a brasileira) uns pedaços de um programa chamado Date from Hell (Paquera do Inferno?). Uma moça saía com um rapaz contratado pela produção, que a faria ter o pior encontro de sua vida. Acho que às vezes a pegadinha era contra os homens também. Enfim, americano faz muito filme sobre “dates” (primeiros encontros, tipo sair pra jantar), porque essa é uma instituição deles. Eles geralmente conhecem pessoas pela internet e daí marcam um encontro. No Brasil não é tanto assim, é? (pergunto porque faz muito, muito tempo que estou fora do mercado).
Na primeira saída de Dane com Kate Hudson em Amigos, ele a leva pra um clube de strip tease, o que, imagino, equivale a levar o alvo das atenções pra ver um filme pornô, como
acontece em Taxi Driver. Aliás
, americano é tão conservador que o padrão continua sendo o homem levar a mulher pra um lugar, nunca o oposto. E pobre Kate! Ela vem se especializando em comédias românticas ruins. Fala-se bastante da sua bunda, tanto que no filme somos brindados com um close dela (tá no trailer). Será que eu sou a única que acha que a Kate tem cara de velha? Ok, não tanto quanto o Alec Baldwin, mas sei lá, é como se a cara da Kate não pertencesse àquele corpo. E ela consegue a proeza de exagerar mais que o Dane, num típico exemplo de interpretação over (overacting).
uma cena que me fez rir na comédia, e não é uma cena inteligente. É quando o Jason Biggs tá no cabeleireiro e sem querer perde uma de suas sobrancelhas. Só que aí aparece um cabeleireiro gay que não tem absolutamente nada a ver com a história, a não ser fomentar a homofobia presente no filme. Além de um personagem se “xingar” de gay várias vezes (no contexto da comédia isso é um insulto), há inúmeras falas de “homem não faz isso, isso é coisa de gay”. Mais tarde, um assistente de casamento dá em cima do Jason, só pra receber o repúdio do público. Interessante como esses filmes que maltratam mulheres costumam também maltratar gays. Homofobia e misoginia caminham sempre juntos, não apenas por representarem ódio contra minorias, mas por serem uma forma de martelar o padrão dominante (homem, branco, hétero) como o único desejável. Pois é, não há nada de “à parte” no tratamento dado a mulheres e gays em Amigos, Amigos.
Posso perder o amor próprio fazendo um filme desses, mas não perco a sobrancelha!

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

CRÍTICA: AMIGOS, AMIGOS, MULHERES À PARTE / Enquanto isso, na ficção, homem é pago pra aterrorizar ex-namoradas

Porta aberta e sorriso Colgate pro terrorista emocional.

Fico pensando se odiaria tanto Amigos, Amigos... Mulheres à Parte (My Best Friend's Girl) se eu estivesse passando por uma fase menos feminista, agora que estou meio radical e muito revoltada mesmo. Mas acompanhe esta minha crítica, veja o trailer, confira o filme, quiçá, e me diga se esta não é a comédia mais misógina dos últimos tempos (uma honra e tanto, considerando a vasta concorrência). É a história de um rapaz meigo, mas totalmente chatinho (Jason Biggs, de American Pie), que se apaixona pela Kate Hudson (filha da Goldie Hawn, e ainda não entendi o que mais ela fez pra merecer uma carreira. Ah, sim: Quase Famosos). Como Kate quer ser apenas amiga dele, Jason contrata seu primo e melhor amigo, Dane Cook (de Maldita Sorte, e o irmão de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, que estréia hoje no Brasil), pra traumatizá-la tanto que ela vai voltar correndo aos seus braços. Esse é o trabalho de Dane: praticar “terrorismo emocional” com as mulheres, pra que elas percebam que os paspalhos com quem namoram são na realidade carinhas incríveis.
Apesar de Amigos ser uma comédia romântica, gênero que tem o sexo feminino como público-alvo - e foi triste ouvir várias espectadoras morrendo de rir no cinema -, o filme não foi feito apenas para mulheres. Tá cheio de iscas pra homem. As cenas num bar de strip tease, por exemplo, não estão lá só pra humilhar a Kate, mas pra satisfazer o público masculino.
Há também um grande merchandising de cigarro que deve incomodar ambos os sexos. Quando aparece a
companheira de quarto da Kate, a câmera desce, um pouco fora de foco, pra mostrar o maço de cigarros de onde vem aquelas baganas que os personagens vão usar incansavelmente. Não dá pra ver direito, mas até eu, que não só não fumo como sairia por aí cortando cigarros, entendi qual marca é. E ninguém fuma em vão num filme. Tem um lobby tremendo da indústria tabagista por trás de cada cena e de cada personagem que dá umas tragadas, como provou Obrigado por Fumar. Aliás, acabaram de descobrir que já rolava dinheiro na época em que o cigarro estava associado apenas a glamour. A indústria pagava mais de cinco milhões de dólares por ano para que Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Bette Davis, Joan Crawford e tantos outros fumassem em todos os seus filmes.
Mas voltando a Amigos. A comédia inteira é machista, porque promove que mulheres adoram cafajestes (uma idéia amplamente difundida, que tenta justificar o comportamento de muitos homens, invertendo a lógica: não são os homens que não prestam, são as mulheres que não prestam por gostarem de homens que não prestam), que amizade de verdade só existe entre homens, que relacionamento entre mãe e filha não é nada, perto do de pai e filho. Mas a enorme ofensa - essa pra entrar pro Guinness - vem do personagem do Alec Baldwin, que faz o pai do Dane. Tudo bem incluírem um velho mulherengo. O problema foi a profissão que encontraram pra ele: professor de uma universidade conceituada. E professor logo de quê? De Women's Studies! Já deve fazer uns quarenta anos que Women's Studies se tornou um curso importante nas universidades americanas. Lá se discute feminismo, problemas de gênero, autoras etc. Nem sei se existem professores homens nos EUA dando esse curso. A enorme maioria é mulher, e feminista, lógico. Aí no filme temos um nojentão mulherengo dando o curso?! E todas as alunas são gostosonas jovens que aparentemente só aparecem nas aulas pra transar com o professor (uns 40 anos mais velho que elas)?! E a assistente dele (um cargo prestigioso nos EUA) só tem importância por fazer sexo com ele? Não sei se estou conseguindo transmitir como tudo isso é agressivo. É meio que tentar jogar no lixo 40 anos de feminismo.
Mas, claro, isso é fichinha se comparado ao que deve ser a cena mais perturbadora que eu vi numa comédia recente. É a do Dane dizendo como vai ficar a namorada do Jason depois que ele aprontar com ela: não vai conseguir dormir, vai ter ataques de choro constantes, e (ele imita o gesto) vai tremer durante horas debaixo de um chuveiro, tentando se lavar. Ao que o Jason responde: “Weird, but sweet” (“Esquisito, mas doce”). Esses sintomas que Dane descreve são típicos sabe de quê, né? De vítimas de estupro. Ah, os homens vêem graça em cada coisa! Eu também queria viver num mundo em que estupro fosse uma piada, não uma ameaça. E olha o slogan do filme: “It's funny what love can make you do” (é engraçado o que amor te faz fazer). Estranho, “engraçado” não é exatamente a palavra que me vem à mente quando penso no que o “amor” fez Lindemberg fazer com Eloá.