sexta-feira, 24 de abril de 2020

O NÃO-COVEIRO CAVOU A PRÓPRIA COVA

Hoje eu não paro de sorrir desde que acordei. 
Aliás, ontem já estava divertido. Primeiro a Folha disse que o ministro da Justiça Sérgio Moro iria pedir demissão porque Bolsonaro iria trocar a direção da Polícia Federal. Os bolsominions gritaram, em coro: fake news! Folha mente! Muuuuu! O ministro chefe da Casa Civil, Braga Netto, que é quem dizem que manda no governo, desmentiu. Disse que estava tudo bem. A deputada de extrema-direita Carla Zambelli ameaçou começar um tímido "Fica Moro!" (Moro, afinal, foi seu padrinho de casamento na maçonaria). 
E hoje de manhã Moro fez mais que um pronunciamento -- fez uma delação premiada (disso ele entende). Alegou que Bolso queria interferir nas investigações da PF ("o presidente me disse mais de uma vez que queria alguém que ele pudesse ligar e pedir informações"), e que na época do governo Dilma a PF podia agir livremente. Porém, se Moro sabia dessa interferência e de outros crimes do seu chefe e nada fez, ele prevaricou. E pode ser punido por isso. Só falta alguém denunciá-lo.
No pronunciamento, Moro fez uma revelação bastante bombástica. 
Negou ter aceitado participar do governo em troca de uma vaga no STF (como Bolso revelou meses atrás), e insistiu que sua única condição era que, caso acontecesse algo com ele, sua "família não ficasse desamparada sem uma pensão". Ora, isso é ilegal! Quem iria pagar essa pensão? Queiroz? A milícia? A fantástica loja de chocolate de Flavinho?
O procurador-geral da República, Augusto Aras, escolhido a dedo para proteger Bolso de qualquer processo, hoje já pediu inquérito ao STF para investigar as acusações de Moro contra o Capetão. Moro também já foi intimado a prestar esclarecimentos na Câmara dos Deputados. 
Se está arriscado para Moro (afinal, ele não é mais juiz, não é mais ministro, não tem mais foro privilegiado, e não será mais indicado ao STF), 
está pior para Bolso. Segundo políticos, a delação de Moro pode configurar sete crimes para o Capetão. E Moro diz ter provas, mensagens que ele já entregou para o Jornal Nacional. 
Para coroar um dia emocionante (deve ter sido o primeiro desde que a covid-19 chegou ao Brasil que a pandemia não monopoliza as atenções), Bolso deu um longo pronunciamento cercado de quase todos os seus ministros, um pior que o outro. Pelo que eu ouvi depois de participar do gigantesco panelaço, Bolso gastou um tempão falando de Marielle. Por quê? Confissão de culpa?
Assumiu na cara dura (sem saber que era uma confissão) que mandou a Polícia Federal interrogar seu vizinho na Vivendas da Barra Pesada, 
Ronnie Lessa (acusado de atirar na vereadora do Psol), para saber se o 04 (Renan, quarto filho de seu Jair) havia namorado com a filha de Lessa. Lamentou que a PF não tenha perseguido o porteiro ou descoberto quem foi o mandante de Adélio Bispo (responsável pela fakeada). Além disso, acusou Moro de dizer que Bolso poderia fazer a troca da PF em novembro, depois da indicação ao STF. 
Se Bolso já andava fragilizado e isolado (como disse o haitiano que veio do futuro em 17 de março, "Você não é presidente mais"), depois da saída de Moro tudo ruiu de vez. Afinal, o ex-juiz da Lava Jato que proibiu Lula de ser candidato era o ministro mais popular e bem avaliado do desgoverno, a sustentação moral e ética da familícia. 
Haja cinismo! Deltan, ex-cúmplice de Moro, reclama que uma pessoa em posição de poder possa interferir em investigações e ter acesso a informações sigilosas!
Com sua saída atirando, a bolsa despencou e o dólar disparou, batendo novo recorde e chegando a quase 6 reais. Bolso perdeu o apoio do Instituto Brasil 200, um grupo de empresários que ficava ao lado do miliciano. Pra se ter uma ideia, as tags que dominaram o Twitter hoje foram #ForaBolsonaro, #BolsonaroTraidor, #BolsonaroEnlouqueceu, #TchauQuerido, e #BolsonaroAcabou. Só agora à noite o gabinete do ódio ensaiou um #FechadoComBolsonaro, muito longe de empolgar algum robô.
Segundo a mídia (uma reportagem da Veja diz que a gota d'água para Bolso querer tirar o diretor da PF foi um inquérito sigiloso apurando Carluxo como chefe do gabinete do ódio), o fim de Bolso também foi a percepção dos militares que compõem o governo. Eles não sabiam da mudança da PF. Ao assistirem o pronunciamento de Moro, alguns auxiliares militares choraram e diziam "Agora acabou" e "Este é o fim de muitas ilusões, inclusive as nossas".
Resta saber, depois da demissão de Mandetta e Moro, qual será o próximo "super ministro" a deixar o Titanic. Será Paulo Guedes? Ou Bolso cai antes? Como Bolso vai cair, através de impeachment (até o PSL entrou com pedido!) ou por renúncia? Pra mim parece improvável que um ególatra arrogante como seu Jair renuncie. Todos sabem que ele quer dar um golpe de Estado. E que, se ele já não tinha o apoio dos militares antes, agora é que não terá mesmo. 
Ele certamente tem apoio de paramilitares, alguns policiais, milicianos e seguidores fanáticos, mas é pouco. Insuficiente para sustentar um golpe. 
O entusiasmo da ex-bolsominion
E por falar em golpe, a saída de Moro definitivamente foi um golpe duro nos bolsominions, a grande maioria dos quais via o ex-juiz como um herói (a narrativa deles era que Bolso seria reeleito em 2022, Moro em 2026 e 2030, e Dudu Bananinha e talvez outros filhos do miliciano a partir de 2034). Óbvio que vez por outra o gabinete do ódio de Bolso mandava bater de levinho em Moro, mas agora os ataques serão constantes e pesados, com direito a ameaças de morte. E Moro vai pedir proteção a quem, à PF? A terra plana dá voltas!
Por enquanto, até que os bolsominions nocauteados se recuperem do golpe de hoje, a narrativa parece ser: a gente gosta muito do Moro, mas votamos mesmo foi no mito, e nossa lealdade é a ele. Não precisa ser bidu pra saber que essa boa vontade não vai durar.
E Moro, que é um orador tão sofrível quanto Bolsonaro, e que também é um mau caráter e mentiroso de marca maior, foi esperto ao sair quando o governo prova ser insustentável. Assim, ele, que se humilhou e blindou Bolso durante quase um ano e meio como ministro, agora se coloca como opositor. 
E já é candidatíssimo a presidente em 2022. Pra onde será que ele vai? PSDB, DEM, MDB, Novo? Muitos partidos de centro-direita e direita irão disputá-lo. Parece que ele já recebeu convites dos governadores do Rio e de Santa Catarina para ser secretário de Justiça dos respectivos governos estaduais. E tem ao seu lado toda a mídia tradicional. 
Mas, enfim, hoje estou otimista: Bolso vai cair. O que virá a gente não sabe, e pode ser quase tão hediondo quanto ele. Mas chegando lá a gente vê. O importante primeiro é chegar lá. Fora Bolso!
Eu também, Rosângela

quarta-feira, 22 de abril de 2020

DEMISSÃO MASSIVA DE MÉDICOS TRAZ INCERTEZAS AO URUGUAI

Publico hoje um relato da jornalista Patrícia Garcia, nossa correspondente de Montevidéu!

Nunca é um momento conveniente para se passar por uma pandemia mas tudo que é ruim pode piorar, se não há um comando forte e responsável das autoridades. Embora estejamos conseguindo conter o avanço da epidemia, muito pela responsabilidade e consciência do povo uruguaio, ainda temos grandes desafios diante desta situação. 
Se as atitudes vindas da sociedade (como as “ollas solidárias” -- “panelas solidárias” --, para arrecadação de alimentos para famílias carentes) são certeiras, as ações do governo refletem sua constituição como grupo governante: confusas, mal-definidas, perdidas.
Quando se cede a negociação com grupos ideológicos distintos e de gamas muito variadas dentro de um mesmo espectro político em busca de uma vitória eleitoral, várias coisas podem perder-se em meio à incessante disputa de espaço dos partidos. A coalizão da direita, que governa o Uruguai desde o dia 1 de março, é composta por 5 partidos de direita com intensidades muito diferentes. Imaginem que o PSL, a Aliança Pelo Brasil, o Prona, o Novo e o PSDB se unissem para governar o Brasil. Esta é nossa situação aqui. 
Obviamente, isso traria grandes conflitos na gestão e erros crassos a serem cometidos por pura pressão política em negociatas complicadas e cheias de interesses diversos. Em uma dessas pressões cedidas, talvez a pior para todos nós, o Cabildo Abierto (nosso “Aliança pelo Brasil”) conseguiu ganhar um dos ministérios mais delicados: o da saúde. Claro que isso gerou muita desconfiança e preocupação, pois é um partido militar de extrema-direita, colocando as mãos em um dos campos onde mais conseguimos evoluções sociais nos últimos anos. 
Tanto a Lei do Aborto, como a digitalização dos serviços médicos, a adoção de médicos cubanos (responsáveis pelas exemplares clínicas oftalmológicas que temos, elogiadas pelo mundo todo), como nosso SUS (a ASSE - Administración de los Servicios de Salud del Estado), são assuntos delicados e que geraram preocupação à população quando Guido Manini Rios foi indicado como ministro.
Em um misto tão confuso e após uma eleição que surpreendeu até mesmo seus vencedores, ficou claro com muita rapidez que eles estavam perdidos inclusive em suas indicações para cargos de confiança. Os setores mais socialmente delicados da população, como saúde e vivendas (moradia), foram alguns dos últimos a terem seu quadro de administradores e diretores renovado. A ASSE, especificamente, e mesmo em meio à pandemia, foi o último órgão do governo a ter uma direção designada, quase um mês após a posse de Luis Lacalle Pou e já com a sombra da pandemia pairando sobre o país. 
Diante disso, as orientações que recebemos com relação à epidemia, as medidas tomadas (vou explicar mais extensamente estas medidas em meus próximos textos) vieram exclusivamente da ala presidencial, o Partido Nacional e dos Colorados, nosso Novo, para as áreas econômicas. Essa demora em definir a nova direção e a fantástica tolerância baixa da sociedade uruguaia, especialmente em momentos de crise, geraram um panelaço já no primeiro mês do novo governo. Muitos julgam que as medidas de contenção são “frouxas” e pedem radicalização das determinações, como o “isolamento total” (no momento, estamos no chamado “isolamento voluntário”, onde pessoas, empresas e estabelecimentos têm liberdade para decidirem se entram ou não em isolamento e a maioria está optando por isso).
Já em meio a um caldeirão de emoções afloradas, e considerando o histórico curto mas conturbado do Cabildo Abierto (CA), era de se esperar que tivéssemos surpresas desagradáveis no meio do caminho. No início desta semana, um dos novos diretores de zona regional da ASSE, Fernando Silva (CA), deu declarações polêmicas em sua página oficial no Facebook, onde ele argumentava que os hospitais públicos eram “sujos e cheios de lixo”. 
Quem conhece um pouco do Uruguai sabe que isso é uma grande mentira e ficou óbvio que o diretor falava para a camada mais abastada da população, que nunca pisou em um hospital ou posto público. Rapidamente a comunidade médica soltou sua nota de repúdio às declarações, enviaram vídeos para as TVs com a real situação dos hospitais e solicitaram um pedido formal de desculpas e a retirada do post e dos comentários posteriores da direção.
Ao serem ignorados pelo diretor e pelo partido, na tarde de ontem (21), médicos e diretores de hospitais e postos de saúde iniciaram uma onda de denúncias em massa, iniciada pelos médicos da Regional Este (coordenada por Silva) e acompanhados, até o momento de escrita deste artigo, por mais 4 regionais. Mais de 30 profissionais de alto cargo dos centros de saúde pública já apresentaram sua demissão e solicitam a imediata remoção de Fernando Silva da direção da regional. Junto a isso, também solicitam que o governo forneça mais testes, equipamentos e que restrinja a circulação de pessoas com mais ênfase, por medidas governamentais.
Essas renúncias em massa deixam o setor da saúde fragilizado em um momento delicado. No entanto, são prova de uma consciência social e de categoria pouco vista em outros lugares. A união dos médicos e sua defesa pelo seu trabalho na linha de frente da pandemia são exemplares para que outros lugares também se levantem contra medidas absurdas e comentários baixos vindos de autoridades. 
Provavelmente, teremos uma coletiva da presidência entre hoje ou amanhã e, se eu pudesse apostar, apostaria em um recuo do governo, pois sua situação já está complicada junto ao povo e estamos em ano de eleições municipais. 
Seja como for, essa atitude é mais um exemplo fantástico de como o povo tem força e de como essa força não pode ser ignorada pelos governos, uma vez que ela é descoberta na própria sociedade. Aqui nos fazemos ouvir, nem que seja no grito, pois seguimos fielmente um de nossos motes nacionais à risca: Uruguay no baja, ni se detiene (Uruguay não se abaixa nem se detém). E entendemos que Uruguai não é algo alheio, algo fora de nós. Uruguai SOMOS nós, o país é seu povo. 
E esse povo carrega no sangue a vontade de lutar por seus direitos e por criar uma sociedade mais justa e melhor para todos. Aqui, já entendemos que só com um povo unido e com justiça social, um país vai longe. Espero, com todas as minhas poucas esperanças, que um dia nosso vizinho continental descubra dentro de seu povo a força inexorável de pessoas unidas em prol de um país melhor. Não custa sonhar.
Em coletiva de imprensa realizada nesta tarde, o diretor geral da ASSE informa que Fernando Silva não continuará no cargo e será afastado sem, inicialmente, indicações futuras para outros cargos.

terça-feira, 21 de abril de 2020

PUDIM DE CAFÉ PRA COVEIRO NENHUM BOTAR DEFEITO

Estou com preguiça hoje, desculpem! É feriado, mas a gente nem nota.
Bom, pra vocês rirem, deixo a imagem mais divertida que vi esses dias: o coveiro da democracia Bolso tossindo em ato golpista no domingo + I see dead people.
E minha mãe disse que iria fazer um pudim de café pra agradar o Silvinho, vulgo maridão, porque ele é maravilhoso com ela. Eu contei isso pro maridão. Ele ficou bastante comovido e, alguns segundos depois, emendou: "Ela não fala nada de você, se você quer saber".
Coloquei esse diálogo no meu Twitter e muita gente pediu a receita do pudim, que é realmente delicioso. Eu nunca fiz, só comi. Mas minha mãe faz desde que me conheço por gente (ou seja, mais de meio século). Ela tem um livretinho chamado "40 delicacies with coffee", só com receitas que levam café (tem até molho de café pra acompanhar lombinho), que ela acha que recebeu num avião, na época em que os aviões davam alguma coisa pros passageiros.
Mãe, gatinha Isabel e Silvio em 2014
Hoje ela fez o pudim e o Silvinho acompanhou todo o preparo e passou a receita pra mim. Parece fácil e barato. Tentem fazer e contem pra mim o que deu.
Receita de pudim de café
Ingredientes: 2 latas de leite condensado
Mãe com pudim de café em
2006 ou 07
2 sachês de Nescafé (misture cada um com água quente. Pode usar a lata vazia do leite condensado pra cada sachê. Ou uma xícara de café bem forte)
5 ovos (gema, clara, tudo menos casca)
2 latas de leite (minha mãe usa as latas vazias do leite condensado pra medir)
5 colheres de sopa de licor 
Bata tudo no liquidificador.
Separado, faça uma calda de açúcar na forma (as melhores pra pudins são as redondas com furo no meio) para formar um caramelo. 
Mãe bronzeada em
Salvador, talvez em 2004
Coloque colheres de açúcar na forma com um pouco de água. Ponha na boca do fogão e espera caramelizar. Espalhe por toda a forma quando já estiver grosso. Ponha tudo que está no liquidificador na forma caramelizada. Deixe em banho maria dentro do forno (coloque a forma com um furo no meio dentro de uma forma maior com água). Deixa assando no forno por pelo menos uma hora. Quando estiver firme (teste com palito, que deve sair limpo), tire do forno e deixe esfriar. Depois que esfriar, leve para geladeira. Desenforme quando for servir, e deleite-se.

Agora, procurando imagens pra ilustrar o post, vi que já tinha publicado a receita em 2009! Não deixe de tentar executar a receita do fantástico Sacher Torte.
UPDATE! Fotos que o Silvinho tirou hoje da minha mãe (que fará 85 anos dia 15 de maio) e do seu magnífico pudim. 

Ficou ótimo, mas um pouco molinho demais, então usem menos leite na receita!