Ainda não tive nem tempo nem chance de falar sobre a piada de mau gosto que é ter um deputado racista, homofóbico e machista como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias.
Imagino que o resto do mundo deve estar rindo pra valer da gente, porque, sabe, colocar um pastor preconceituoso pra presidir uma comissão que deveria tratar de direitos de minorias é um tanto, digamos, irônico. Estou acompanhando e divulgando, via Twitter, os muitos protestos que têm acontecido no Brasil (e até no exterior, como este em Berlim) contra Marco Feliciano. Tenho grande orgulho das pessoas incansáveis que não o deixam em paz.
Como não podia deixar de ser, os reaças de sempre estão bastante felizes pelo governo (que eles detestam) ter deixado uma raposa pra tomar conta do galinheiro. E estão indignados contra quem tem a ousadia de protestar. Afinal, pro pessoal de direita, protesto é coisa de vagabundo. Semana passada um dos jornalistas mais conhecidos da direita brasileira (não estou falando do astrólogo que se diz filósofo) atacou manifestantes que foram ao Congresso gritar "Fora Feliciano!". Não vou linkar o texto deste cidadão aqui no blog, mas é só escrever "na base do berro reinaldo" que o Google te leva até lá.
Quem me enviou este guest post foi a estudante brasiliense Ana Vitória, que estava lá protestando. É ela quem ilustra este post. Fico honrada por publicar o seu texto, Ana. Tomara que o seu segundo nome vire uma realidade e a gente consiga tirar Feliciano da Comissão.
Sou uma das pessoas apontadas por alguns representantes da mídia como elemento buliçoso e desordeiro, com direito ao meu rosto e de outros ativistas estampado no site de uma revista “conceituada”, e comentários na TV aberta de uma jornalista que está em evidência. Para quem não sabe do que se trata, na última quarta-feira foi a segunda reunião da Comissão de Direitos Humanos e Minorias desde que Marco Feliciano assumiu a presidência, e assim como na semana anterior, diversos militantes marcaram presença, munidos de palavras de ordem, placas e muita insatisfação.
Como não poderia ser diferente, alguns jornalistas se aproveitaram para transmitir notícias no mínimo tendenciosas, nos chamando de “despreparados para a democracia”, "desordeiros" e "futuros ditadores", por usarmos nossa voz para manifestar descontentamento com a presidência da CDHM. Um deles inclusive expôs um dos ativistas mais que os outros, de forma completamente irresponsável. Lola, como o seu blog possui um largo alcance, e como sei da sua postura ética inquestionável ao tratar temas como direitos humanos, imagino que meu texto não sirva apenas como relato, mas também como um direito de resposta a esses veículos de comunicação da mídia tradicional.
Antes de tudo quero ressaltar que não pertenço a qualquer coletivo presente na Câmara, apesar de ter sido muito bem recebida por seus ativistas e por estar totalmente ao lado deles. Mas por uma questão de representatividade, prefiro frisar que estou respondendo por mim. Como não sou lésbica, nem bissexual e nem trans, não me acho no direito de ser portavoz dos LGBT. Da mesma forma, como não sou negra, não posso falar como representante dos negros. Tampouco sigo religião de matriz africana (que também tinha seus representantes na casa), uma vez que sou ateísta. Mas posso falar como mulher, feminista e simpatizante de todas as causas que considero justas por buscarem a igualdade.
Acompanhando os últimos acontecimentos da nossa política, fiquei estarrecida com o fato da presidência da CDHM ser assumida por um parlamentar completamente estranho às noções de laicidade do Estado, cidadania (que só existe quando a igualdade está assegurada) e, pasmem, direitos humanos, tema central da Comissão presidida por ele. Aproveitando que moro em Brasília, busquei informações sobre possíveis manifestações e dei de cara com coletivos muito bem articulados que já estavam se movimentando bem antes. Sem conhecer ninguém, sem ter nenhum ativista entre meus amigos, fui ao meu primeiro ato e acompanhei as duas reuniões da Comissão, mas vou me ater à última, que foi a que mais esteve na mira dos jornalistas.
A Comissão aconteceria às duas da tarde. Conseguimos entrar e garantir mais lugares no plenário, que na semana anterior havia sido tomado por evangélicos partidários de Feliciano. O que aconteceria nessa quarta-feira (20/03) era uma audiência sobre transtornos mentais, com direito à presença do representante do Ministério da Saúde, Aldo Zaiden (que foi interrompido de forma rude por Jair Bolsonaro), e do Dr. Rosinha, presidente da Comissão de Seguridade Social e Família. Feliciano ficou apenas oito minutos dentro da Comissão, não ficou feliz com nossos gritos de protesto, ameaçou chamar a polícia legislativa, e logo decidiu sair, passando a responsabilidade para o deputado Henrique Afonso prosseguir os trabalhos.
O que os jornalistas da mídia tradicional contaram é que somos desordeiros e antidemocráticos, afinal, os 212 mil votos de Feliciano teriam mais valor que os 13 mil de Jean Wyllys (como se a questão fosse essa), e o mandato de Feliciano deve ser respeitado, pois o pastor foi eleito democraticamente. O que eles não contaram é que:
Imagino que o resto do mundo deve estar rindo pra valer da gente, porque, sabe, colocar um pastor preconceituoso pra presidir uma comissão que deveria tratar de direitos de minorias é um tanto, digamos, irônico. Estou acompanhando e divulgando, via Twitter, os muitos protestos que têm acontecido no Brasil (e até no exterior, como este em Berlim) contra Marco Feliciano. Tenho grande orgulho das pessoas incansáveis que não o deixam em paz.
Como não podia deixar de ser, os reaças de sempre estão bastante felizes pelo governo (que eles detestam) ter deixado uma raposa pra tomar conta do galinheiro. E estão indignados contra quem tem a ousadia de protestar. Afinal, pro pessoal de direita, protesto é coisa de vagabundo. Semana passada um dos jornalistas mais conhecidos da direita brasileira (não estou falando do astrólogo que se diz filósofo) atacou manifestantes que foram ao Congresso gritar "Fora Feliciano!". Não vou linkar o texto deste cidadão aqui no blog, mas é só escrever "na base do berro reinaldo" que o Google te leva até lá.
Quem me enviou este guest post foi a estudante brasiliense Ana Vitória, que estava lá protestando. É ela quem ilustra este post. Fico honrada por publicar o seu texto, Ana. Tomara que o seu segundo nome vire uma realidade e a gente consiga tirar Feliciano da Comissão.
Sou uma das pessoas apontadas por alguns representantes da mídia como elemento buliçoso e desordeiro, com direito ao meu rosto e de outros ativistas estampado no site de uma revista “conceituada”, e comentários na TV aberta de uma jornalista que está em evidência. Para quem não sabe do que se trata, na última quarta-feira foi a segunda reunião da Comissão de Direitos Humanos e Minorias desde que Marco Feliciano assumiu a presidência, e assim como na semana anterior, diversos militantes marcaram presença, munidos de palavras de ordem, placas e muita insatisfação.
Como não poderia ser diferente, alguns jornalistas se aproveitaram para transmitir notícias no mínimo tendenciosas, nos chamando de “despreparados para a democracia”, "desordeiros" e "futuros ditadores", por usarmos nossa voz para manifestar descontentamento com a presidência da CDHM. Um deles inclusive expôs um dos ativistas mais que os outros, de forma completamente irresponsável. Lola, como o seu blog possui um largo alcance, e como sei da sua postura ética inquestionável ao tratar temas como direitos humanos, imagino que meu texto não sirva apenas como relato, mas também como um direito de resposta a esses veículos de comunicação da mídia tradicional.
Antes de tudo quero ressaltar que não pertenço a qualquer coletivo presente na Câmara, apesar de ter sido muito bem recebida por seus ativistas e por estar totalmente ao lado deles. Mas por uma questão de representatividade, prefiro frisar que estou respondendo por mim. Como não sou lésbica, nem bissexual e nem trans, não me acho no direito de ser portavoz dos LGBT. Da mesma forma, como não sou negra, não posso falar como representante dos negros. Tampouco sigo religião de matriz africana (que também tinha seus representantes na casa), uma vez que sou ateísta. Mas posso falar como mulher, feminista e simpatizante de todas as causas que considero justas por buscarem a igualdade.
Acompanhando os últimos acontecimentos da nossa política, fiquei estarrecida com o fato da presidência da CDHM ser assumida por um parlamentar completamente estranho às noções de laicidade do Estado, cidadania (que só existe quando a igualdade está assegurada) e, pasmem, direitos humanos, tema central da Comissão presidida por ele. Aproveitando que moro em Brasília, busquei informações sobre possíveis manifestações e dei de cara com coletivos muito bem articulados que já estavam se movimentando bem antes. Sem conhecer ninguém, sem ter nenhum ativista entre meus amigos, fui ao meu primeiro ato e acompanhei as duas reuniões da Comissão, mas vou me ater à última, que foi a que mais esteve na mira dos jornalistas.
A Comissão aconteceria às duas da tarde. Conseguimos entrar e garantir mais lugares no plenário, que na semana anterior havia sido tomado por evangélicos partidários de Feliciano. O que aconteceria nessa quarta-feira (20/03) era uma audiência sobre transtornos mentais, com direito à presença do representante do Ministério da Saúde, Aldo Zaiden (que foi interrompido de forma rude por Jair Bolsonaro), e do Dr. Rosinha, presidente da Comissão de Seguridade Social e Família. Feliciano ficou apenas oito minutos dentro da Comissão, não ficou feliz com nossos gritos de protesto, ameaçou chamar a polícia legislativa, e logo decidiu sair, passando a responsabilidade para o deputado Henrique Afonso prosseguir os trabalhos.
O que os jornalistas da mídia tradicional contaram é que somos desordeiros e antidemocráticos, afinal, os 212 mil votos de Feliciano teriam mais valor que os 13 mil de Jean Wyllys (como se a questão fosse essa), e o mandato de Feliciano deve ser respeitado, pois o pastor foi eleito democraticamente. O que eles não contaram é que:
- Os atos não são feitos para cassar o mandato de Feliciano como deputado. Não o queremos como presidente dessa Comissão (assim como não queremos qualquer um que tenha provado ter postura contrária ao que a CDHM visa proteger);
- O protesto é um exercício da democracia, que não se resume ao voto que ocorre a cada quatro anos. A democracia assegura o direito da população em contestar sempre que houver alguma insatisfação, caso eles não saibam.
- Os atos de repúdio a Feliciano não acontecem por ele ser pastor evangélico; inclusive, há vários evangélicos do nosso lado. O que não aceitamos são seus posicionamentos racistas, homofóbicos e machistas. Qualquer um de visão parecida, seja ele padre, pastor, pai de santo, rabino ou ateu, consideraremos despreparado para o exercício dessa Comissão.
- Não agredimos ninguém, nem fisicamente, nem moralmente. Ou responder aos insultos de Bolsonaro conta, que nos mandou dar o c*, entre outros absurdos? Quero registrar aqui que aturamos os insultos que ele proferiu quase a reunião inteira sem responder, e só no final alguns responderam (estavam em seu direito. Você é ofendidx e não pode responder porque o ofensor é um parlamentar? E o decoro parlamentar?).
Esses jornalistas se esqueceram de comentar a postura deplorável desse deputado, que gritou mais palavrões do que qualquer um ali dentro, e ainda impediu Aldo Zaiden de falar, quando este homem, que nada tinha a ver com a nossa manifestação e que estava ali atendendo a um convite da Casa, decidiu mencionar que "os direitos humanos vivem um retrocesso", ao que Bolsonaro respondeu: "O senhor se restrinja ao tema da audiência. Não faça discurso".
- Dizem esses jornalistas que não há nenhuma irregularidade na eleição de Feliciano ao cargo, só que não. Como bem apontado por Nilmário Miranda, fundador da CDHM: "Até para elegê-lo foi indispensável o constrangimento de realizar a votação a portas fechadas e protegida por seguranças, contrariando o regimento interno da Câmara".
- Não somos meia dúzia de gatos pingados. Dentro do plenário éramos uns 33, mas havia dezenas de pessoas do lado de fora que não conseguiram entrar, com seus cartazes e apitos ao nosso favor. Não existiam somente representantes do movimento LGBT, mas também do movimento negro, das religiões de matrizes africanas, do movimento feminista, além de ativistas independentes que, como eu, se revoltaram e decidiram se juntar ao coro. Isso sem contar com a petição da Avaaz que já contém mais de 450 mil assinaturas [assine!], e com os números dos muitos protestos que tem acontecido Brasil afora.
- Esses jornalistas não nos conhecem. Muitos manifestantes trabalham e arriscaram seus empregos para poderem estar lá. Temos família e amigos que se orgulham do nosso não conformismo e que estão do nosso lado, fora as manifestações de agradecimento de muitas pessoas que se sentem muito mais representadas por nós, que não somos ninguém (como foi bem enfatizado), do que por Marco Feliciano ou os representantes da grande mídia.
Gritamos sim, e muito. Da mesma forma como nossos pais gritaram contra a ditadura militar, como os caras pintadas gritaram contra Collor, e como tantos outros brasileiros gritam por não ter seus direitos assegurados. Afinal, ficar de boca fechada e se limitar à petição virtual não costumam mudar os rumos políticos do país. As mesmas pessoas que nos chamam de vagabundos (vide os comentários nesses textos), são as que dizem que a geração atual é despolitizada, e que Renan e não sei mais estão aí e ninguém protesta.
Ainda nos cobram para fazer o que eles deveriam estar fazendo: “estão protestando por causa desse pobre homem de Deus, por que não vão protestar contra os mensaleiros?”. Tal tipo de comentário vem de indivíduos que não fazem nada, que são completamente conformados e ainda querem cobrar de quem faz, decidindo o que merece ou não atenção. Nossos protestos deveriam servir de exemplo para essas pessoas que acham que protestar é coisa de vagabundo.
- O protesto é um exercício da democracia, que não se resume ao voto que ocorre a cada quatro anos. A democracia assegura o direito da população em contestar sempre que houver alguma insatisfação, caso eles não saibam.
- Não agredimos ninguém, nem fisicamente, nem moralmente. Ou responder aos insultos de Bolsonaro conta, que nos mandou dar o c*, entre outros absurdos? Quero registrar aqui que aturamos os insultos que ele proferiu quase a reunião inteira sem responder, e só no final alguns responderam (estavam em seu direito. Você é ofendidx e não pode responder porque o ofensor é um parlamentar? E o decoro parlamentar?).
Esses jornalistas se esqueceram de comentar a postura deplorável desse deputado, que gritou mais palavrões do que qualquer um ali dentro, e ainda impediu Aldo Zaiden de falar, quando este homem, que nada tinha a ver com a nossa manifestação e que estava ali atendendo a um convite da Casa, decidiu mencionar que "os direitos humanos vivem um retrocesso", ao que Bolsonaro respondeu: "O senhor se restrinja ao tema da audiência. Não faça discurso".- Dizem esses jornalistas que não há nenhuma irregularidade na eleição de Feliciano ao cargo, só que não. Como bem apontado por Nilmário Miranda, fundador da CDHM: "Até para elegê-lo foi indispensável o constrangimento de realizar a votação a portas fechadas e protegida por seguranças, contrariando o regimento interno da Câmara".
- Não somos meia dúzia de gatos pingados. Dentro do plenário éramos uns 33, mas havia dezenas de pessoas do lado de fora que não conseguiram entrar, com seus cartazes e apitos ao nosso favor. Não existiam somente representantes do movimento LGBT, mas também do movimento negro, das religiões de matrizes africanas, do movimento feminista, além de ativistas independentes que, como eu, se revoltaram e decidiram se juntar ao coro. Isso sem contar com a petição da Avaaz que já contém mais de 450 mil assinaturas [assine!], e com os números dos muitos protestos que tem acontecido Brasil afora.- Esses jornalistas não nos conhecem. Muitos manifestantes trabalham e arriscaram seus empregos para poderem estar lá. Temos família e amigos que se orgulham do nosso não conformismo e que estão do nosso lado, fora as manifestações de agradecimento de muitas pessoas que se sentem muito mais representadas por nós, que não somos ninguém (como foi bem enfatizado), do que por Marco Feliciano ou os representantes da grande mídia.
Gritamos sim, e muito. Da mesma forma como nossos pais gritaram contra a ditadura militar, como os caras pintadas gritaram contra Collor, e como tantos outros brasileiros gritam por não ter seus direitos assegurados. Afinal, ficar de boca fechada e se limitar à petição virtual não costumam mudar os rumos políticos do país. As mesmas pessoas que nos chamam de vagabundos (vide os comentários nesses textos), são as que dizem que a geração atual é despolitizada, e que Renan e não sei mais estão aí e ninguém protesta.Ainda nos cobram para fazer o que eles deveriam estar fazendo: “estão protestando por causa desse pobre homem de Deus, por que não vão protestar contra os mensaleiros?”. Tal tipo de comentário vem de indivíduos que não fazem nada, que são completamente conformados e ainda querem cobrar de quem faz, decidindo o que merece ou não atenção. Nossos protestos deveriam servir de exemplo para essas pessoas que acham que protestar é coisa de vagabundo.
Somos vagabundos, assim como os professores que querem melhores salários e "atrapalham" o trânsito, como as vadias que pintam seus corpos para gritar contra a violência que as mulheres sofrem, e como tantos outros ativistas foram, são e serão chamados, sempre que estiverem insatisfeitos com as anomalias políticas que insistem em existir. Se o fato de me apropriar da minha voz para manifestar minha indignação é vagabundagem, então serei vagabunda sempre que julgar necessário.
Fora que sermos criticados por certas mídias não é demérito algum. Preocupante seria se elas concordassem com nossos posicionamentos.
Fora que sermos criticados por certas mídias não é demérito algum. Preocupante seria se elas concordassem com nossos posicionamentos.






















































