terça-feira, 26 de março de 2013

GUEST POST: AOS JORNALISTAS QUE ATACAM QUEM PROTESTA


Ainda não tive nem tempo nem chance de falar sobre a piada de mau gosto que é ter um deputado racista, homofóbico e machista como presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. 
Imagino que o resto do mundo deve estar rindo pra valer da gente, porque, sabe, colocar um pastor preconceituoso pra presidir uma comissão que deveria tratar de direitos de minorias é um tanto, digamos, irônico. Estou acompanhando e divulgando, via Twitter, os muitos protestos que têm acontecido no Brasil (e até no exterior, como este em Berlim) contra Marco Feliciano. Tenho grande orgulho das pessoas incansáveis que não o deixam em paz.
Como não podia deixar de ser, os reaças de sempre estão bastante felizes pelo governo (que eles detestam) ter deixado uma raposa pra tomar conta do galinheiro. E estão indignados contra quem tem a ousadia de protestar. Afinal, pro pessoal de direita, protesto é coisa de vagabundo. Semana passada um dos jornalistas mais conhecidos da direita brasileira (não estou falando do astrólogo que se diz filósofo) atacou manifestantes que foram ao Congresso gritar "Fora Feliciano!". Não vou linkar o texto deste cidadão aqui no blog, mas é só escrever "na base do berro reinaldo" que o Google te leva até lá. 
Quem me enviou este guest post foi a estudante brasiliense Ana Vitória, que estava lá protestando. É ela quem ilustra este post. Fico honrada por publicar o seu texto, Ana. Tomara que o seu segundo nome vire uma realidade e a gente consiga tirar Feliciano da Comissão.


Sou uma das pessoas apontadas por alguns representantes da mídia como elemento buliçoso e desordeiro, com direito ao meu rosto e de outros ativistas estampado no site de uma revista “conceituada”, e comentários na TV aberta de uma jornalista que está em evidência. Para quem não sabe do que se trata, na última quarta-feira foi a segunda reunião da Comissão de Direitos Humanos e Minorias desde que Marco Feliciano assumiu a presidência, e assim como na semana anterior, diversos militantes marcaram presença, munidos de palavras de ordem, placas e muita insatisfação.
Como não poderia ser diferente, alguns jornalistas se aproveitaram para transmitir notícias no mínimo tendenciosas, nos chamando de “despreparados para a democracia”, "desordeiros" e "futuros ditadores", por usarmos nossa voz para manifestar descontentamento com a presidência da CDHM. Um deles inclusive expôs um dos ativistas mais que os outros, de forma completamente irresponsável. Lola, como o seu blog possui um largo alcance, e como sei da sua postura ética inquestionável ao tratar temas como direitos humanos, imagino que meu texto não sirva apenas como relato, mas também como um direito de resposta a esses veículos de comunicação da mídia tradicional.
Antes de tudo quero ressaltar que não pertenço a qualquer coletivo presente na Câmara, apesar de ter sido muito bem recebida por seus ativistas e por estar totalmente ao lado deles. Mas por uma questão de representatividade, prefiro frisar que estou respondendo por mim. Como não sou lésbica, nem bissexual e nem trans, não me acho no direito de ser portavoz dos LGBT. Da mesma forma, como não sou negra, não posso falar como representante dos negros. Tampouco sigo religião de matriz africana (que também tinha seus representantes na casa), uma vez que sou ateísta. Mas posso falar como mulher, feminista e simpatizante de todas as causas que considero justas por buscarem a igualdade.
Acompanhando os últimos acontecimentos da nossa política, fiquei estarrecida com o fato da presidência da CDHM ser assumida por um parlamentar completamente estranho às noções de laicidade do Estado, cidadania (que só existe quando a igualdade está assegurada) e, pasmem, direitos humanos, tema central da Comissão presidida por ele. Aproveitando que moro em Brasília, busquei informações sobre possíveis manifestações e dei de cara com coletivos muito bem articulados que já estavam se movimentando bem antes. Sem conhecer ninguém, sem ter nenhum ativista entre meus amigos, fui ao meu primeiro ato e acompanhei as duas reuniões da Comissão, mas vou me ater à última, que foi a que mais esteve na mira dos jornalistas.
A Comissão aconteceria às duas da tarde. Conseguimos entrar e garantir mais lugares no plenário, que na semana anterior havia sido tomado por evangélicos partidários de Feliciano. O que aconteceria nessa quarta-feira (20/03) era uma audiência sobre transtornos mentais, com direito à presença do representante do Ministério da Saúde, Aldo Zaiden (que foi interrompido de forma rude por Jair Bolsonaro), e do Dr. Rosinha, presidente da Comissão de Seguridade Social e Família. Feliciano ficou apenas oito minutos dentro da Comissão, não ficou feliz com nossos gritos de protesto, ameaçou chamar a polícia legislativa, e logo decidiu sair, passando a responsabilidade para o deputado Henrique Afonso prosseguir os trabalhos.
O que os jornalistas da mídia tradicional contaram é que somos desordeiros e antidemocráticos, afinal, os 212 mil votos de Feliciano teriam mais valor que os 13 mil de Jean Wyllys (como se a questão fosse essa), e o mandato de Feliciano deve ser respeitado, pois o pastor foi eleito democraticamente. O que eles não contaram é que:
- Os atos não são feitos para cassar o mandato de Feliciano como deputado. Não o queremos como presidente dessa Comissão (assim como não queremos qualquer um que tenha provado ter postura contrária ao que a CDHM visa proteger);
- O protesto é um exercício da democracia, que não se resume ao voto que ocorre a cada quatro anos. A democracia assegura o direito da população em contestar sempre que houver alguma insatisfação, caso eles não saibam.

- Os atos de repúdio a Feliciano não acontecem por ele ser pastor evangélico; inclusive, há vários evangélicos do nosso lado. O que não aceitamos são seus posicionamentos racistas, homofóbicos e machistas. Qualquer um de visão parecida, seja ele padre, pastor, pai de santo, rabino ou ateu, consideraremos despreparado para o exercício dessa Comissão.
- Não agredimos ninguém, nem fisicamente, nem moralmente. Ou responder aos insultos de Bolsonaro conta, que nos mandou dar o c*, entre outros absurdos? Quero registrar aqui que aturamos os insultos que ele proferiu quase a reunião inteira sem responder, e só no final alguns responderam (estavam em seu direito. Você é ofendidx e não pode responder porque o ofensor é um parlamentar? E o decoro parlamentar?). 
Esses jornalistas se esqueceram de comentar a postura deplorável desse deputado, que gritou mais palavrões do que qualquer um ali dentro, e ainda impediu Aldo Zaiden de falar, quando este homem, que nada tinha a ver com a nossa manifestação e que estava ali atendendo a um convite da Casa, decidiu mencionar que "os direitos humanos vivem um retrocesso", ao que Bolsonaro respondeu: "O senhor se restrinja ao tema da audiência. Não faça discurso".
- Dizem esses jornalistas que não há nenhuma irregularidade na eleição de Feliciano ao cargo, só que não. Como bem apontado por Nilmário Miranda, fundador da CDHM: "Até para elegê-lo foi indispensável o constrangimento de realizar a votação a portas fechadas e protegida por seguranças, contrariando o regimento interno da Câmara".
- Não somos meia dúzia de gatos pingados. Dentro do plenário éramos uns 33, mas havia dezenas de pessoas do lado de fora que não conseguiram entrar, com seus cartazes e apitos ao nosso favor. Não existiam somente representantes do movimento LGBT, mas também do movimento negro, das religiões de matrizes africanas, do movimento feminista, além de ativistas independentes que, como eu, se revoltaram e decidiram se juntar ao coro. Isso sem contar com a petição da Avaaz que já contém mais de 450 mil assinaturas [assine!], e com os números dos muitos protestos que tem acontecido Brasil afora.
- Esses jornalistas não nos conhecem. Muitos manifestantes trabalham e arriscaram seus empregos para poderem estar lá. Temos família e amigos que se orgulham do nosso não conformismo e que estão do nosso lado, fora as manifestações de agradecimento de muitas pessoas que se sentem muito mais representadas por nós, que não somos ninguém (como foi bem enfatizado), do que por Marco Feliciano ou os representantes da grande mídia.
Gritamos sim, e muito. Da mesma forma como nossos pais gritaram contra a ditadura militar, como os caras pintadas gritaram contra Collor, e como tantos outros brasileiros gritam por não ter seus direitos assegurados. Afinal, ficar de boca fechada e se limitar à petição virtual não costumam mudar os rumos políticos do país. As mesmas pessoas que nos chamam de vagabundos (vide os comentários nesses textos), são as que dizem que a geração atual é despolitizada, e que Renan e não sei mais estão aí e ninguém protesta.
Ainda nos cobram para fazer o que eles deveriam estar fazendo: “estão protestando por causa desse pobre homem de Deus, por que não vão protestar contra os mensaleiros?”. Tal tipo de comentário vem de indivíduos que não fazem nada, que são completamente conformados e ainda querem cobrar de quem faz, decidindo o que merece ou não atenção. Nossos protestos deveriam servir de exemplo para essas pessoas que acham que protestar é coisa de vagabundo.
Somos vagabundos, assim como os professores que querem melhores salários e "atrapalham" o trânsito, como as vadias que pintam seus corpos para gritar contra a violência que as mulheres sofrem, e como tantos outros ativistas foram, são e serão chamados, sempre que estiverem insatisfeitos com as anomalias políticas que insistem em existir. Se o fato de me apropriar da minha voz para manifestar minha indignação é vagabundagem, então serei vagabunda sempre que julgar necessário.
Fora que sermos criticados por certas mídias não é demérito algum. Preocupante seria se elas concordassem com nossos posicionamentos.

segunda-feira, 25 de março de 2013

CONSELHO DE MEDICINA SE POSICIONA CONTRA A HIPOCRISIA

Semana passada aconteceu um fato inédito e digno de celebração pra qualquer pessoal que seja a favor da liberdade de escolha. O Conselho Federal de Medicina e 27 conselhos regionais, que representam 400 mil médicos no Brasil, se posicionaram sobre a questão do aborto pela primeira vez: dois terços são a favor da vontade da gestante. Apoiam a interrupção da gravidez até a décima-segunda semana de gestação. Ou melhor, como disse o presidente do CFM, “Defendemos o caminho da autonomia da mulher”. 
Em outras palavras: não apoiam o aborto, mas a escolha da mulher em abortar. É exatamente este o ponto. Ninguém é a favor do aborto, um procedimento que deve ser feito em último recurso e que jamais substitui o controle da natalidade. Eu mesma nunca fiz um aborto, e se engravidasse, provavelmente não faria. Mas eu defendo o básico: que cada mulher tenha autonomia sobre seu corpo e, por isso, cabe a cada uma decidir. 
Agora o CFM levará sua posição à comissão especial do Senado que analisa a reforma do Código Penal. Opa, Código Penal? Mas aborto não é uma questão de saúde pública? Não no nosso país, que tem uma das legislações mais atrasadas do mundo em relação ao tema. Aqui, aborto é assunto de polícia. E aí fica aquela pergunta: você é favorável à prisão de uma mulher que aborta? Muita gente é. Tem até quem defenda a pena de morte. Felizmente, um assunto tão sério não fica nas mãos de gente com mentalidade medieval. Não é a maioria que faz ou aprova as leis para minorias, por um motivo óbvio: na maior parte das vezes, os direitos das minorias não interessam à maioria.
Nosso Código Penal tem o mesmo texto desde 1940, e é desnessário dizer que muita coisa mudou de lá pra cá. Por isso ele vem sendo discutido por uma comissão no Senado. Há vários temas polêmicos (o aborto sendo o pincipal), e, portanto, acredita-se que o texto só será levado para aprovação no plenário no ano que vem.
Faz um ano, a comissão de juristas nomeada pelo Senado aprovou um anteprojeto que aumenta as possibilidades de que aborto não seja visto como crime (hoje o aborto é permitido em apenas três casos: se a gravidez for resultado de um estupro, se há risco de vida, se o feto é anencéfalo). Nesse texto está o direito à interrupção da gravidez até doze semanas, desde que um médico ou psicólogo ateste que a gestante não tem condições de arcar com a maternidade. Agora o CFM deu respaldo a esse texto, e sem a necessidade do laudo médico ou psicológico. 
Este bloguinho que vos fala já criticou Conselhos de Medicina várias vezes, seja pela posição de conselhos contra o parto em casa, seja pela falta de punição para médicos que cometem assédio sexual. Mas esta decisão do Conselho Federal de Medicina sobre o aborto é maravilhosa, corajosa, e deve ser aplaudida. 
Os argumentos contra a legalização do aborto são poucos e previsíveis, até porque todos já foram discutidos e rebatidos nos países em que o aborto é legalizado -- nada menos que em 74% do mundo; somos nós que estamos atrasados em algumas décadas. Um argumento constante contra a legalização é que ela forçaria médicos a fazer algo que vai contra seus princípios. Claro que essa argumentação quer fazer crer que toda a classe médica é contra a legalização, o que não é verdade em nenhum lugar. 
Em geral, médicos são pessoas racionais, que sabem que abortos acontecem clandestinamente (mais de um milhão por ano no Brasil). E esta não é uma invenção feminista do século XX. Gravidez não desejada sempre aconteceu, e mulheres sempre encontraram formas de interromper um processo que acontece no seu corpo. O problema é que esses procedimentos clandestinos muitas vezes matam. Vale ressaltar que matam não só o feto, mas também a mulher. Abortos clandestinos são a quarta maior causa de morte materna no Brasil (por exemplo, aborto supera câncer de mama em internações pelo SUS). 
Mas já ouvi e li muita gente dizer "bem feito". Essa gente quer que mulheres morram. Essa gente não tem a menor empatia por mulheres e nem por seus filhos. A empatia é toda por um feto, algo abstrato, sem nome, que eles chamam de criança. Assim que o bebê nasce, já não é mais preocupação deles. Agora se vira, dizem eles para a mãe. Quem mandou fazer filho?
Sei bem que mascus não representam um bom exemplo pra coisa alguma, mas às vezes, ao ver uma caricatura, percebemos as contradições de quem tem um discurso mais sutil. 
Um mascu, como quase todo ser de extrema direita que se preza, é radicalmente contra o aborto -- menos quando o filho é dele. Aí ele tem certeza que a "vadia" engravidou de propósito para tirá-lo de provedor, e pensa no que fazer para impedir essa gravidez. 
Ou seja, como é típico, mascu é contra o aborto dos outros. É o velho desejo de controlar um corpo que não é seu.
Mas vamos acreditar que mascus são contra o aborto de modo geral. Não tem nada no mundo que eles odeiem mais que mãe solteira. Ué, mães solteiras deveriam ser idolatradas por qualquer pró-vida. Deveria erguer monumentos pras mães solteiras. Afinal elas, contra todas as dificuldades, decidiram levar a gravidez adiante e ter o filho, mesmo que isso represente que ela cuidará dele sozinha, sem ajuda. Mas não. Nossa sociedade abomina mães solteiras. 
Mascus as chamam de M$ol, sugerindo que elas estão desesperadas atrás de um provedor. Sinto muito, mas custo acreditar que alguém que chama filho de mãe solteira de EAA (Esporrada Alheia Ambulante) está preocupado com um feto. Quer dizer, se mascu consegue se referir a uma criança, uma vida de verdade, como EAA, qual a empatia que pode ter por um feto, um projeto de vida? Ou por acaso este projeto de vida é mais importante que uma vida concreta, como a da mulher?
Não se engane: quem está na liderança contra a legalização do aborto no Brasil são grupos religiosos (católicos, evangélicos, espíritas) e neonazistas, como os integralistas, amplamente presentes na marcha que foi realizada em Fortaleza em novembro contra o aborto. De que lado você está? Quem é realmente pró-vida?
Em setembro, quando o Uruguai aprovou o aborto, um deputado da oposição (ele votou pela legalização, contra a decisão de seu partido) justificou assim seu voto: "Há dois tipos de sociedades que condenam o aborto: as que têm um poder religioso tão forte a ponto de submeter as liberdades ao dogma, como as muçulmanas, ou as democráticas porém hipócritas, como a nossa". 
Chega de hipocrisia. Foi o que o Conselho de Medicina fez. Mais cedo ou mais tarde, médicos acabam tratando de muitas mulheres que abortam. Muitas vão parar em hospitais -- em 2001, houve 243 mil internações no SUS por curetagens pós-aborto. Várias vezes as mulheres são atendidas tarde demais, quando já não se pode fazer nada. E elas morrem. Só pode ser a favor deste quadro quem acredita que mulheres que abortam merecem a pena de morte.
É hipocrisia sim, não tem outra palavra. A sociedade que condena o aborto é a mesma que finge não ver que uma em cada quatro gestações acaba em aborto espontâneo. Os grupos religiosos fecham os olhos para o fato de que Deus é um grande abortista. Abortos espontâneos, naturais, acontecem no primeiro trimestre de gestação, que é justamente o período que queremos para a realização do aborto induzido. Então, antes de querer condenar a mulher que quis o aborto, ou o médicx que o realizou, pense no seu deus. Pense no seu deus antes de chamar alguém de abortista (como se uma mulher ter direito sobre o corpo dela fosse um crime).
Outra hipocrisia é condenar mulheres (sempre mulheres) que engravidam sem querer. Ora, 80% da reprodução hétero é sem querer. Pergunte pros seus pais se você foi planejado (não confundir não planejado com indesejado; é possível não planejar e vir a desejar depois). A maioria esmagadora de nós não foi planejada. E, no entanto, continuamos criticando pessoas que engravidam sem planejar, e achando que só quem aborta é menina adolescente. Não é. Só 2,5% das mulheres que abortam ficaram grávidas de uma relação eventual. A brasileira média que aborta tem 25 anos, é casada, católica, e já é mãe (pense em quem você está condenando à prisão ou à pena de morte). Mas a brasileira média que morre de aborto clandestino é pobre e negra. Aquela que não pode pagar por uma clínica com as mínimas condições de higiene.
E aí a jornalista do SBT vem falar que a decisão do Conselho de Medicina pode ser uma tentativa de criar um nicho de mercado! É muita hipocrisia. Nicho de mercado existe agora, que o aborto é ilegal. Quando o aborto for legalizado -- e vou me permitir usar o quando, não o se --, as clínicas clandestinas vão fechar. A maior parte das mulheres que quiser abortar o fará pelo SUS.
O fim da hipocrisia tem que passar pelo governo. Em fevereiro do ano passado, peritos da ONU acusaram o governo Dilma de não fazer absolutamente nada para estancar a morte de milhares de brasileiras que realizam aborto clandestino. 
Ou seja, a ONU disse que o executivo é responsável por milhares de mortes por ano (fetos não contam, porque as estatísticas têm essa mania de só considerar vida quem já nasceu). E pediu para que o Brasil superasse duas diferenças de opinião para salvar essas vítimas. A perita suíça perguntou: "O que é que vocês vão fazer com esse problema político enorme que têm?" E a resposta da ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres foi a mesma que Dilma vem dando desde sua campanha: "Isso é assunto do legislativo". 
Mas não é, não. Não é só que o governo, por ter feito alianças com os setores mais retrógrados da sociedade (a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias nas mãos do PSC que o diga), fica em cima do muro. Ele se posiciona contra a legalização sempre que tem que romper seu confortável silêncio. Ao sair a decisão do Conselho de Medicina, o ministro da Saúde Alexandre Padilha se manifestou: “O governo federal, desde o começo, disse que não tomaria nenhuma medida no sentido de mudar a lei atual do aborto no Brasil”. 
Ou seja, o executivo fará tudo que é possível para frear a descriminalização do aborto. Pois é, só estamos falando da descriminalização; mesmo que o Senado apoie um novo Código Penal em que aborto não seja mais crime -- o que já seria um grande avanço --, levaria muito mais tempo até que o aborto fosse legalizado. E por que o governo quer impedir a aprovação de um assunto que é apoiado pelo estatuto do partido do governo, o PT? Pra não desapontar os partidos de sua base aliada. Mas eu não votei no PSC! Se fosse pra ter votado em alguém que é contra a legalização do aborto, eu teria logo votado na Marina (ahn, ok, não teria)!
Portanto, governo, faça como o Conselho de Medicina e posicione-se. Converse com seus aliados sobre este grave problema de saúde pública que temos. Até porque quem é contra o aborto deveria ser a favor da sua legalização. Todos os estudos mostram que mais abortos acontecem em países onde o aborto não é legalizado. Então até quando, Brasil?

domingo, 24 de março de 2013

GUEST POST: MANIFESTO DO MEU CANSAÇO


A Dayane me enviou sua revolta. Um verdadeiro manifesto que dispensa apresentações.

Essa semana tive a plena consciência de que por ser mulher cis, negra, agnóstica, feminista e filha de mãe solteira, eu não valho nada pra uma grande parcela da sociedade brasileira. Percebi, inclusive, que alguns indivíduos dessa parcela encontram-se no Congresso, decidindo questões sobre mim, minha vida, minha saúde, minha integridade física e minha família.
Essa semana descobri que todo o peso cultural da expressão "cabelo de bombril" pode ser jogado no lixo em favor da "arte ousada e  subversiva" por profissionais que supostamente deveriam saber o que é Semiótica e Teoria Social.

Melhor ainda foi saber que meu cabelo crespo -- que nunca foi "duro", "fedido", "sujo", pelo contrário --, que foi chamado de "bombril" e "bucha" a vida toda, desde que eu era criança, é representado numa passarela justamente com esse material feio, opaco, usado pra limpar panelas. Melhor ainda foi ver minha área de trabalho (Artes Visuais) ser usada como desculpa esfarrapada para trabalho malfeito e para justificar naturalizações de racismo. 
E melhor ainda foi ver esses profissionais usando de desvios arrogantes, apoiados por certos veículos de comunicação de qualidade jornalística completamente duvidosa, para tentar nos culpar, o público, de seu trabalho questionável. Vi pessoas compararem isso à revolta que o Modernismo causou nos anos 20. Vi pessoas compararem esdruxulamente "racismo" com "arte", como se liberdade poética fosse inquestionável e absoluta. O mesmo pensamento pra esse "humor" medíocre brasileiro. Se você não concorda, logo é chamado de politicamente correto (a.k.a. chato e sem graça), inculto, burro e por aí vai. Porque todo mundo aqui tem que achar super engraçado piadas e "arte" que mexem de forma desleixada com temas como racismo, homofobia e misoginia, coisas que várias pessoas sofrem de forma violenta diariamente.
Essa semana vi estudantes de Direito fazerem trotes de cunho racista e machista e achando graça. Estudantes supostamente tão inteligentes e instruídos pintando a cara de uma aluna de preto, chamando-a de escrava e ainda por cima de Chica (sic) da Silva, com erro gramatical -- só pra ser bem chata. Estudantes que daqui a dez anos estarão no Judiciário, estarão em vários cargos públicos de alto escalão, estarão cuidando de mim, negra e mulher, e da minha família. Estudantes que provavelmente -- ESPERO MESMO QUE NÃO -- continuarão estudando no mesmo lugar com os mesmos privilégios e rindo da cara de todo mundo por causa do manto de impunidade que existe neste país.
No mesmo barco, vi um Doutor em Linguística, que provavelmente, em alguma parte de sua carreira acadêmica, teve seu curso sustentado pelo Estado -- que eu respondo e sustento com meu salário --, ignorar o poder de sua própria área de trabalho em favor do racismo e chamar um aluno negro de macaco. Se a tal educação que devia libertar se mostra absolutamente ineficaz, o que mais que eu posso esperar dela? 
Essa semana eu vi uma junta médica se declarar favorável ao aborto por uma questão de saúde pública, e na contramão vi um ministro apelando da carteirada e da prepotência responder "Não aprovo. Eu sou ministro da saúde. Eu sou o governo". E melhor ainda, vi uma jornalista criticando em rede nacional, agressiva e publicamente, por pura convicção pessoal e religiosa, um grupo de médicos opinando sobre uma questão de saúde. 
Mesma jornalista que disse que cristãos estão sendo perseguidos, que a sociedade brasileira rejeita a inspiração amorosa do cristianismo, que acha bonito o fato de um estado laico ter uma Constituição promulgada por deus. Uma jornalista que deveria prezar por uma mídia isenta de desonestidade intelectual. Mas depois de uma revista que nos chama de burros, na cara dura, porque não concordamos com um estilista, o que mais se esperar? E isso porque somos nós que pagamos por ela.
Vi pessoas me chamando de abortista por defender a vida feminina. Logo eu, que nunca fiz nem pretendo fazer um aborto. Logo eu, que uso DOIS métodos contraceptivos combinados. Vi pessoas apelando pra discursos filosóficos e religiosos e usando metáforas como "o sopro da vida" pra me dizer indiretamente que a vida de um embrião vale mais que a minha. Vi pessoas se declarando médicas na internet falando que aborto é "método contraceptivo". Cheguei até a ver uma pessoa dizendo que Programa de Controle de Natalidade é método de extermínio.
Chega de achar que toda essa PALHAÇADA não interfere no nosso cotidiano.
Estou cansada de pessoas questionando minha competência profissional porque sou negra, com aquela mentalidade de "negro no Brasil quando é bem sucedido sempre teve um empurrãozinho né, aff esse país ajuda demais esse povo". Estou cansada de andar na rua e ouvir um monte de homens desconhecidos me chamando de GOSTOSA e falando AÔ LÁ EM CASA. Estou cansada de estar sentada num ônibus e, do lado de fora, um caminhoneiro ficar me mandando beijos. 

Estou cansada das pessoas acharem que me sinto elogiada por isso, que não tenho medo de um desses homens me agredir, me seguir e me violentar. Estou cansada de sair de casa com um vestido que, mesmo sendo na "linha do joelho" (como se isso fizesse diferença), é motivo pra todos assoviarem e mexerem comigo. Estou cansada de sair de calça e casaco quando vou pra lugares desconhecidos de ônibus ou quando sei que vou fazer um grande trajeto a pé. 
Estou cansada de ouvir coisas como "Nossa, agora que seu cabelo tá mais curto tá mais bonito, TÁ MAIS LISO" e ter que encarar numa boa, porque foi só um comentário inofensivo. Estou cansada de ouvir coisas como "mas você nem é tão escurinha", como se isso fosse algum tipo de elogio e me impedisse de ser negra. 
Tô de saco cheio de pessoas questionarem a minha sexualidade porque meu cabelo é curto, como se um CABELO indicasse minha paixão por homens ou mulheres. Tô de saco cheio de pessoas ignorantes que soltam argumentos como "racismo tá nos olhos de quem vê", "isso aí é coisa da sua cabeça", "negro também é racista", "eu sou branco/oriental/etc e sofri racismo!".  
Tô de saco cheio de ver um político que deveria ser sério e me representar escrevendo 'QUEIMAR A ROSCA' numa audiência séria insultando homossexuais. Tô de saco cheio de ver o presidente de uma Comisssão de Direitos Humanos ser misógino, homofóbico e racista. Tô de saco cheio de reaças com argumentos RIDÍCULOS falando de "movimento gayzista", como se todxs xs homossexuais do mundo estivessem se armando com metralhadoras e obrigando todo mundo a virar gay. 
Tô de saco cheio de gente estúpida, grossa e mal educada vir tentar me dizer como eu devo me portar por ser mulher, o que devo beber, quando devo ter filhos, gente que acha um absurdo eu carregar preservativo na bolsa, gente que me olha com cara de "hmmm essa dá" quando eu tomo meu anticoncepcional que é PRA EVITAR ESPINHAS MAJORITARIAMENTE. Porque obviamente na mente dessas pessoas toda mulher que toma pílula é promíscua. Porque ter camisinha na bolsa é "coisa de puta" e porque se eu engravidar mesmo assim a culpa é minha e que eu não devo é fazer sexo. E claro que essa mesma gente me negaria o direito ao aborto.
Não aguento mais ver mulheres fazendo aborto no fundo do quintal com uma agulha e um monte de pessoas hipócritas virem me dizer que elas têm que morrer mesmo. Não aguento mais ver pessoas que se dizem pró-vida usando argumentos apelativos e ausentes de qualquer lógica. Não aguento mais essas mesmas pessoas chamando mães solteiras de vadias, abandonando seus filhos de qualquer jeito, não dando assistência a nada nem a ninguém, não adotando crianças (porque se for pra adotar tem que ser branca do ôio azul, vai adotar um negro pra quê) e não fazendo nada de efetivo pra que esse mundo onde a vida bela que eles tanto adoram defender exista de fato. 
Parei de acreditar em burrice plena. Pra mim, o problema do Brasil é a hipocrisia, a má fé e a preguiça de assumir o que está errado. Fácil é fingir que tá tudo de boa e não se mexer. O Brasil é um país doente.
Beijos da negra, mulher cis, filha de mãe solteira, feminista e agnóstica, que não vale nada pra muitos mas, mesmo estando exausta, não vai desistir tão fácil.