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domingo, 30 de novembro de 2003

CRÍTICA: KILL BILL VOL 1 / Sem modéstia: mais uma obra-prima de um gênio

Chega hoje à Santa Catarina o super esperado “Kill Bill – Volume I”. Se não estrear na sua cidade, esperneie. Afinal, o troço foi lançado na Argentina e no Uruguai faz quase meio ano, acredite se quiser. E o que esses países têm que o nosso não tenha? “Kill Bill” é o mais recente filme do Quentin Tarantino, o diretor dos fantásticos “Pulp Fiction”, “Cães de Aluguel” e até “Jackie Brown” (muita gente torceu o nariz, mas eu amo). A única coisa que o Taranta fez de ruim foi um episódio no pavoroso “Grande Hotel”. O resto do conjunto da obra o coloca fácil fácil como um dos cineastas mais influentes da década de 90, se não o número um mesmo.

E é por isso, por causa desse prestígio tamanho família, que o Taranta pode filmar quanto quiser e depois, quando não sabe o que cortar na sala de edição, o estúdio o deixa fazer dois filmes. O “Volume I” é o primeiro, e já vá avisado que é incompleto. O “Volume II” estreou a pouco nos EUA, tá indo muito bem de bilheteria, sabe-se quando chegará aqui, e os críticos americanos que não haviam percebido o brilhantismo do primeiro agora se derretem em elogios. “Kill Bill” é de encher os olhos, apesar da história bastante banal: uma moça grávida, a Uma Thurman, é quase massacrada no dia do seu casamento. Apesar de tudo ela sobrevive e, após quatro anos em coma (com um enfermeiro que aluga o corpo dela pra tarados!), ela renasce pra se vingar dos seus algozes. E dá-lhe golpes de kung-fu, mulher batendo em mulher, mulher batendo em centenas de japoneses (acho que o Neo lutando contra os infinitos agentes Smith em “Matrix” perde), cabeças decapitadas, sangue jorrando, e a saga de uma de suas rivais contada via desenho animado. É um estouro. Sei que não parece nada de mais, mas é. Vai por mim.

“Kill Bill” é tão lotado de referências que seria preciso uma tese de mestrado pra identificar todas. Se você não conseguir sacar nem um terço, não tem problema. Sem as referências, “Kill Bill” é apenas um filme de artes marciais acima da média, com ritmo febril e seqüências de luta incríveis. Com as referências, é melhor ainda, porque aí a gente entende o estilo do Taranta. É mais do que o fascínio pela violência – é uma paixão por toda uma cultura pop, da música às histórias em quadrinhos. Um leitor meu, que já viu uma versão pirata, disse que “Pulp Fiction” é Pelé, “Kill Bill” é Garrincha (e o Maradona, coitado?). Seja lá o que for, é o melhor filme do ano passado. Indo direto ao clichê: não perca.

Leia mais sobre Kill Bill aqui, aqui e aqui.

CRÍTICA: KILL BILL VOL 1 / Terceira parte

Juro que é a última vez que falo de “Kill Bill – Volume I”, e espero que eu tenha a sorte de falar do Volume 2 o quanto antes. Quem já viu diz que tem mais diálogos e é mais complexo. Bom, pra nós mortais vai demorar alguns meses pra descobrir. Mas tem algumas coisinhas sobre o Volume I que eu ainda gostaria de comentar. Como já deixei claro, “Kill Bill” é fantástico, incrível, surpreendente, o grande filme do ano passado, apesar de uns probleminhas. Por exemplo: a Uma Thurman mata o enfermeiro tarado em pleno hospital, aí parte pro carro dele e fica lá no estacionamento durante treze horas... e ninguém vai lá ver?! Tudo bem, aquele hospital não zela exatamente pela segurança dos seus pacientes, mas treze horas, pelo amordedeus! Nem a polícia texana pode ser tão incompetente assim. Ah, aquela musiquinha assobiada pela Daryl Hannah ainda tá na minha cabeça. Outro ponto de incredulidade total: euzinha aqui não posso viajar de avião nem levando tesourinha de unha, e a Uma viaja com uma espada de samurai na poltrona?! Ô Taranta, pega leve.

Por falar no Tarantino, ele anda espalhando que a versão mostrada nos EUA e aqui no quintal deles (leia-se América Latina) é um lixo, que tem muitos cortes, que o moralismo americano exagerou... E clamou pra que a gente peça pra ver a versão asiática, essa sim da pesada. Sei não, mesmo esta versão já parece bem violenta. Tanto que é meio estranho que a censura seja 12 anos. Só pra lembrar: “Cidade de Deus”, que vários adolescentes meus não puderam conferir, era proibido pra menores de 16.

E olha que “Kill Bill” tá cheio das perversões – pedofilia, enfermeiro que prostitui pacientes em coma, menininha que vê a mãe morrer, assassina vestida de colegial... Só pra citar algumas. Aliás, qual a personagem mais assustadora? É a Gogo, lógico, a teen japonesa. Mesmo sem aquela bola medieval (me isento de não saber o nome técnico daquilo) ela já leva o troféu. Então, em homenagem a todos os membros decepados no filme e à filha que a Uma perde (ou não?), vou contar uma piadinha: um casal sem braços vai ao cinema com o filhinho. Qual é o nome do filme? “Ninguém Segura Este Bebê”. Entendeu? O Taranta apreciaria esse humor negro.

Mais Kill Bill aqui, aqui e aqui.

CRÍTICA: KILL BILL VOL 1 / Tarantino é o máximo

Morram de inveja. Assisti ao quarto e sen-sa-cio-nal filme do Tarantino,”Kill Bill – Volume I”, que só estréia no Brasil 19 de março, em Montevidéu. A má notícia é que até os uruguaios, seguramente o povo mais simpático da América do Sul, junto com os nordestinos, conversam no cinema. Mas vamos ao filmaço em primeira mão. Pra começar, que negócio é esse de volume I? Seguinte: ia dar um filme longo demais e, como o Taranta é tido como o novo gênio do cinema desde “Pulp Fiction” (e, convenhamos, “Cães de Aluguel” e “Jackie Brown” também são ótimos), falaram pra ele – não corta não, faz dois filmes. E ele fez, pra nossa sorte. Assim, ele pôde desenvolver mais cada personagem. O resultado é provavelmente a melhor obra de 2003, se o Almodóvar não dirigiu nada ano passado.

Confesso que fui ver “Kill Bill” com as expectativas lá embaixo, embora seja fã número 1 do Taranta. Filme de artes marciais? Ainda por cima com mulheres protagonizando a pancadaria? Tsc, tsc, não é pra mim, que nem gostei de “O Tigre e o Dragão”. Mas eu tava enganada, óbvio. Como disse um crítico americano, “Kill Bill” nos remete aos primórdios do cinema, quando os primeiros espectadores se assustavam com um trem na tela vindo na direção deles. Eu me senti assim: pulando, vibrando, torcendo. Agora, é difícil determinar exatamente o que adorei. A história é simplérrima, uma mera trama de vingança onde uma moça grávida é quase morta no dia de seu casamento. Depois de quatro anos em coma, ela acorda e faz uma listinha das pessoas que deve liquidar. E parte pro ataque, só isso. Os diálogos tampouco são grande coisa. Por exemplo, a Uma Thurman dá umas palmadas num integrante da máfia japonesa, essas bossas. Não, não, o que me pegou de jeito é a paixão do Taranta pelo meio. O cara sabe o que faz, e o filme tem quilos de referências pros cinéfilos. O Ministério da Saúde comprova: trabalhar em locadora assistindo todos os filmes faz bem à mente. Ou pelo menos fez no caso do Taranta. Quem mais se atreve a homenagear o Charles Bronson in memoriam?

O Taranta decidiu que tudo bem se ele tiver que fazer filme com a Uma pro resto da vida. Tudo bem com a gente também, imagino, apesar d’ela ter as mãos e os pés mais feios da história da sétima arte. “Kill Bill” começa com a Uma arrebentada, em close. Um homem atira em seu rosto, e suas últimas palavras são “O bebê é seu”. Entra uma música apropriadíssima cantada pela – pasme! – Nancy Sinatra, dizendo que bang bang é um ruído horrível. É brilhante não só porque vem logo depois de uma bala, mas também porque não se verão muitas armas de fogo ao longo do filme. O que se vê são facas. Nem deu tempo de pensar no Indiana Jones e em como um revólver acabaria com a festa de todos aqueles samurais. Eu tava envolvida demais. Minha seqüência favorita é uma em que a Daryl Hannah, disfarçada de enfermeira com tapa-olho, vai ao hospital matar a Uma. A Daryl assobia, o assobio vira música, dá o maior clima, a tela se divide pra homenagear o De Palma, que por sinal já homenageava Hitchcock – uma bela cena. Claro que o início depois dos créditos deixa a desejar. A gente não sabe nada do que está acontecendo, e a Uma começa a quebrar o pau com a Vivica Fox? Parecia filme pornô, sabe, quando os sujeitos partem logo pros finalmentes. Parecia também pretexto pra chamar mulher de vadia. Mas tudo isso é logo interrompido por uma menininha, que chega em casa pra encontrar sua mãezinha suburbana espancando alguém. Enfim, há uma outra parte bárbara em que o Taranta conta todo o passado de uma personagem usando desenho animado. Pensei que ele fez assim porque só teria coragem de mostrar membros cortados esguichando sangue num anime, mas não. O que não falta em “Kill Bill” é sangue esguichando. A mensagem que eu captei foi: tão vendo como a violência é ridícula?

Sinceramente, dane-se a violência, dane-se até o gênero de kung-fu. O principal em “Kill Bill” é o ritmo alucinante, que não deixa a peteca cair em momento algum. Chega logo, Volume II!

Quer mais Kill Bill? Leia aqui, aqui e aqui.