Existenz (1999) é mais um filme muito estranho do David Cronenberg, que acho que amad
ureceu nos seus últimos dois trabalhos, os ótimos Marcas da Violência e Senhores do Crime. Outro que havia perdido desse diretor canadense e vi em dvd foi Spider (2002), com o Ralph Fiennes (gostei bastante). Não entendi muito bem o que acontece em Existenz, e acho que não há respostas concretas. Se você não viu o filme, deveria vê-lo. Em linhas muito gerais, é sobre uma designer de videogames (feita pela Jennifer Jason Leigh, de Noites Violentas no Brooklyn) que foge com seu relações públicas, o Jude Law (Perto Demais), de montes de pessoas que querem matá-la. O jogo está dentro de um jogo que está dentro de
outro jogo. Mas é uma viagem, e um prato cheio pra debates existenciais e pós-modernos. Deve haver uma dezena de teses escritas sobre ele. Infelizmente, não entendo nada de videogames, e o último que joguei foi um Atari (nisso eu já revelo a minha idade). Mas adoro quando a Jennifer e o Jude “acordam” no quarto, e ela diz pra ele: “Você está viciado. Sua vida aqui é chata, não acontece nada. E lá no jogo é cheia de ação”. E é verdade. Posso compreender por que montes de adolescen
tes não queiram se desgrudar dos seus joysticks (isso existe ainda?), onde são super-heróis. Mas a gente não precisa ficar só no âmbito dos games. O cinema é o quê, se não um universo alternativo? Lá podemos viver muitas histórias esquisitas que jamais experimentaríamos na nossa vida real. Quer dizer, quantas vezes você já viu alguém atirar noutra pessoa? Com sorte, nenhuma. Ou quantas vezes você viu uma mulher como a Sharon Stone no dia a dia? É uma fantasia atrás da outra. Isso me lembra os
filminhos que são passados à população drogada com Soma em Admirável Mundo Novo (venho citando muito esse livro ultimamente. É que eu o amo de paixão). Enquanto a platéia vibra, o selvagem (a única voz discordante no livro) reclama da violência e do sexo nesses filminhos. Ahn, parece familiar? Outro dia li uma pesquisa entre americanos. Metade deles diz que os filmes britânicos seriam melhores se tivessem mais explosões. Imagino que dessa forma não seriam tão representativos da nossa realidade monótona.
Muitas das coisas que o Cronenberg faz são absolutamente asquerosas. A Mosca e Scannners ainda são meio mainstream (apesar da gente não ver em muitos filmes de Hollywood um carinha guardar num vidro no armarinho do banheiro seu pênis que caiu – o dele, leitor, não precisa checar!). Mas Videodrome e Naked Lunch eu acho difíceis de assistir, com o James Woods tocando uma fita de vídeo em seu estômago, e com uma barata gigante falando pelo bumbum, respectivamente. Existenz certamente
entra nessa categoria de coisas asquerosas. Mas a história é muito original, então a gente perdoa. Agora, não gostaria de ver de novo todas as alusões sexuais, como um buraco nas costas, os anfíbios sendo comidos, ou mesmo as armas que atiram dentes. Acho o Cronenberg meio doente às vezes. Mas às vezes um doente genial.
Veja o trailer aqui. E, se tiver estômago, a inventiva cena do restaurante (aí embaixo). Típica do Cronenberg! Sabe quando em Gêmeos o Jeremy Irons, que faz um ginecologista, inventa instrumentos para "examinar" suas pacientes? Em Existenz o Jude Law monta uma arma com sobras de uma comida suspeita.

