No fundo, o provocante documentário Bigger, Stronger, Faster é sobre aceitação do próprio corpo. Uma cena comovente ocorre quando o diretor Christopher Bell fala com sua mãe, que não consegue entender como seus filhos usam esteróides na vã tentativa de alcançar um tipo físico à la Schwarzenegger. Enquanto ela se aceita como gorda, seus filhos querem ser mais do que são. E a tristeza é que essa insatisfação eterna não começa e acaba na adolescência. Eles são homens feitos, e continuam se auto-desprezando. A i
nsatisfação se reflete em todos os outros aspectos de suas vidas. Nenhum relacionamento amoroso é pleno, nenhum emprego é bom o suficiente pra eles (ainda que o corpo malhado sirva como
cartão de visitas, eles não podem viver de musculação e de levantamento de peso. Precisam trabalhar)... Outro ponto instigante do documentário é que um homem não tenta ficar super musculoso pra fazer sucesso entre as mulheres. É pra fazer sucesso entre os homens mesmo. Um carinha americano, portador do maior bíceps do mundo (horrendo, parece deformado), conta que as moças, quando vêem seus braços, gritam “
Ui, que nojo!”. No entanto, entre os rapazes, todos querem falar com ele e parabenizá-lo pelo tamanho. É igualzinho à magreza pras mulheres. Em geral, os homens não se sentem atraídos pelas super-magras. Mas não é por eles que as mulheres querem perder peso até desaparecer. É pra competir entre elas. Ou seja, músculos, para os homens, e magreza, para as mulheres, não são algo que a pessoa faz pra a
trair o sexo oposto, e sim pra competir entre seu próprio gênero sexual.
Chris conta como, nos anos 80, o governo Reagan nomeou o Schwarzza como consultor nacional de fitness. Em outras palavras, o austríaco bombado (hoje governador da Califórnia) basicamente foi alçado a modelo de saúde. Pouco depois, com o escândalo Ben Johnson nas Olimpíadas, os EUA pro
moveram uma campanha anti-esteróides. Fica uma mensagem conflitante, não fica? Mas é idêntica à mensagem passada às meninas. As modelos, magérrimas, puro osso, são consideradas padrão de beleza (e saúde, se formos compará-las a mulheres obesas). Logo, um monte de menina fica com essa idéia fixa de ser tão magra quanto as modelos e vira anoréxica. Quando alguma garota chega a morrer em decorrência dessa obsessão, a sociedade condena o culto à magreza extrema. Não é confuso?
O documentário mostra como, ao longo dos anos, até o padrão físico de bonecos destinados ao público masculino foi mudando. Sabe o Falcon? Existe um mais popular nos EUA, chamado G.
I. Joe. Nos
anos 60, esse boneco era franzino. A cada década seu corpo tornou-se mais torneado. Hoje é uma montanha de músculos. As bonecas femininas também mudaram pra ficar cada vez mais magras. Em ambos os casos, esses bonecos/as perseguem o padrão de beleza vigente. Servem como educação do que meninos e meninas deveriam tentar ser.












