sábado, 23 de agosto de 2008

OS EFEITOS COLATERAIS DE SER HOMEM

"Esse é o corpo que eu queria ter", pensa o diretor, à direita.

Agora que as Olimpíadas estão quase no fim, é um bom momento para falar de um ótimo documentário que vi em Detroit, e que provavelmente só chegará aqui em dvd, se tivermos sorte. Trata-se de Bigger, Stronger, Faster (Maior, Mais Forte, Mais Rápido), um estudo sobre o uso de esteróides e os “efeitos colaterais de ser americano” (que é o subtítulo do filme – veja o trailer aqui). E de ser homem também.

O diretor Christopher Bell faz o tipo de documentário “pessoal”, narrado por ele próprio (como o grande Michael Moore). Nascido numa família de gordinhos, ele e seus dois irmãos logo começaram a se envolver com esportes, na tentativa de trocar gordura por músculos. Seus ídolos eram os da maioria dos garotos americanos da década de 80: os bombados e bélicos Schwarzenegger e Sylvester Stallone, entre outros. Mas Chris não sabia que, pra ficar como eles, era necessário mais que exercícios físicos. (Um adendo: é impressionante como o corpo musculoso foi uma arma da guerra fria. Lembra de Rocky 4? O lutador soviético tem uma equipe gigantesca que o treina e injeta anabolizantes nele, enquanto Rocky, sozinho, se prepara pro combate “naturalmente”, pulando corda e cortando lenha). E assim, seus irmãos rapidamente passaram a tomar esteróides, algo “mais americano que torta de maçã”. A insatisfação eterna se tornou a tônica. Eles nunca estavam suficientemente bem. Tinham que tornar-se mais fortes, maiores, mais bem sucedidos. A julgar pelo documentário, esses três irmãos, incluindo o diretor, jogaram décadas de suas vidas fora nessa obsessão de “melhorarem”. Uma vida fútil e estúpida que gira em torno do tamanho dos biceps. Opa, não parece familiar pras mulheres? As que se pesam e contam calorias diariamente?

No entanto, é fascinante que o documentário, ao invés de condenar os anabolizantes, mais ou menos condena o estilo de vida (“querer vencer a qualquer custo”) que leva a eles. Quanto aos esteróides em si, Chris tenta desmitificar a má fama que eles têm. Por exemplo, o exército americano não apenas é o único do mundo que permite o uso de anfetaminas, mas que também as encoraja. É bom pros soldados, já que, como um entrevistado declara, é preciso trapacear para ganhar, tanto nos esportes como na guerra. Se o uso de anabolizantes traz riscos? Claro que sim, respondem os entrevistados, mas muitas coisas na vida são arriscadas. Pular de pára-quedas por diversão envolve riscos, e a gente poderia argumentar que é um risco desnecessário. Mas, se eu não proibiria alguém de escalar o Himalaya, tampouco proibiria quem se deforma através de cirurgias plásticas, ou que usa drogas. Se eu sou a favor da eutanásia, preciso achar que cada adulto tem o direito de fazer o que quiser com seu corpo (mesmo que seja perigoso).

Chris entrevista o velocista canadense Ben Johnson (que teve que devolver a medalha após ser pego em doping na Olimpíada de Seul em 1988), que diz que “todo mundo trapaceia”, e Carl Lewis, que ficou com a medalha, ainda que pairem suspeitas sobre ele. Segundo o documentário, 15% dos esteróides nos EUA são usados por atletas, e 85% por rapazes em academias de musculação. Chris faz algumas observações provocantes: por que anabolizantes são proibidos em competições esportivas? Bom, acima de tudo, porque trazem vantagens indevidas aos atletas. Mas várias outras invenções fazem o mesmo. Um ciclista dorme numa câmera de ar comprimido, pra aumentar sua resistência. Isso não seria uma vantagem indevida? Nas escolas americanas, milhares de alunos usam drogas (legais) para manterem-se acordados e aumentar o poder de concentração. Até no mundo das orquestras se faz isso, o que supostamente melhora o desempenho dos músicos. E, pra quem pensa que músicos não competem, ao contrário dos atletas, pra que serve uma audição, se não pra selecionar os melhores? Então deveria haver doping para tudo no nosso dia a dia? Ou esteróides e outras drogas de “risco calculado” deveriam ser liberadas? Como indaga um entrevistado, “Se você tivesse que tomar drogas com efeitos colaterais conhecidos para manter seu emprego e sustentar sua família, você o faria?”. Pra muitos atletas, essa é a questão. Em certas modalidades, como halterofilismo, você não se mantém competitivo sem esteróides.

Um dos problemas é que a enorme maioria dessas drogas e suplementos alimentares não só não causa grandes efeitos, como nem é fiscalizada pela FDA (Food and Drug Administration, órgão de controle americano). Lá pelas tantas, Chris decide lançar sua própria linha de vitaminas. Compra uns pós, contrata uns mexicanos ilegais, e vende um frasco que custou menos de dois dólares pra fabricar por 60. Pra publicidade do produto – muito mais importante que o produto em si – ele contrata um fotógrafo que faz as famosas fotos do “antes” e “depois”. No mesmo dia!

O documentário não entra nessa questão, mas eu fiquei pensando: se tantos atletas e rapazes de academia usam anabolizantes, por que negam? Tudo bem, há o fato disso ser ilegal, mas, mais ainda, parece ser um complexo de super-herói. É como se, negando, a pessoa dissesse “Eu adquiri esse corpanzil/quebrei tal recorde sozinho, sem precisar de ajuda química”. Essa reação é parecida com a das mulheres que negam ter feito plástica. “Tudo isso é natural”, sabe? Numa competição, vencer é essencial, mas a história do “eu consegui naturalmente, só com o meu esforço” acrescenta mais sabor à vitória. Um entrevistado afirma que, se esteróides fossem permitidos nos esportes, imediatamente iriam criar alguma outra coisa ilegal. A idéia é se superar. E, claro, superar os outros.

5 comentários:

cavaca disse...

Para nós homens isso se faz sentir mesmo. Agora em qualquer discoteca virou moda os homens arrancarem a camisa e exibir o corpo definido. Afinal é para isso que serve aquele tempo gasto na academia não? E parece que todo mundo quer ser desse jeito. A todo custo. É muito evidente uma pessoa que toma esteróides, eu conheço muita gente, um segurança amigo meu tomou, e disse que depois tomou outro produto para limpar os efeitos nocivos. Não sei se isso funciona, os esteróides já estão ali de qualquer maneira e vão continuar. E acho que os homens acabam fazendo isso não para agradar as mulheres, mas para mostrar aos outros homens superioridade pela sua condição fisica.

lola aronovich disse...

Obrigada por ser o único a comentar, Cavaca! Sério que os homens vêm tirando a camisa em tudo que é pista de dança de boate? Pensei que isso só acontecesse entre os gays, pra quem um corpo malhado é atraente (bom, nem todos, não dá pra generalizar). Tenho um outro post sobre as semelhanças entre essa imposição do padrão de beleza masculino e o feminino. Vou publicá-lo amanhã.

Pernambucobebendoparaomundo disse...

A pressão sobre minha cabeça foi maior. Meu pai foi remador e marombeiro, e tinha corpo semelhante a esses aí apresentados, e não havia esteróides/anabolizantes...
Cheguei a malhar algum tempo, mas nunca pra ficar deformado, exercitei mais os neurônios

Larissa disse...

Eu ouço o tempo homens meus dizendo que "mulher bonita é mulher natural", que " a gente devia usar menos maquiagem, ia ser muito mais sexy", e mulher nenhuma liga. O mesmo vale pros bombados, não existe coisa mais feia na face da Terra, e eles insistem em usar esteróides. As pessoas malham/se arruma pra quê então, já que todo mundo reclama?

brunabora disse...

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