segunda-feira, 23 de agosto de 2021

FAZ MEIO SÉCULO QUE VIM PARA O BRASIL

Esqueci! Deixei passar essa data tão importante: em julho, completei cinquenta anos de Brasil!

No dia 7 de julho de 1971, minha mãe, eu, com 4 anos de idade, meu irmão e minha irmã, com menos de 2 anos e apenas 4 meses, respectivamente, saímos de Buenos Aires e desembarcamos no Rio. Claro que não lembro nada disso! Estou me baseando apenas em documentos, que nem são muitos. 

A carteira de trabalho do meu pai de 1972 diz que ele chegou ao Brasil duas semanas antes da gente, em 24 de junho de 1971. Trabalhou como gerente de marketing da Companhia Carioca Industrial, no Rio, entre outubro de 1972 e maio de 1973, quando ganhava 8.500 cruzeiros mensais. Eu lembro disso por causa dessa foto: eu me equilibrando em latas de produtos da fábrica.

Em seguida ele foi empregado como "auxiliar administração extra quadro" no Banco Lar Brasileiro, que era o Chase Manhattan, entre dezembro de 1973 e maio de 1976, com salário de 6.500 cruzeiros. Não sei se o salário dele diminuiu comparado à Carioca Industrial, ou se teve alguma troca de moeda. Eu lembro que ele falava que odiava aquele emprego, que envolvia relações públicas, coquetéis, happy hours. 

Foi por detestar o emprego, pelo que eu entendi (mas quanto da vida adulta uma criança realmente sabe?), que meu pai largou o banco. Não tinha quase nada de dinheiro guardado, minha mãe não trabalhava fora, e ele imaginava que encontraria um outro emprego rapidamente. Não foi o que aconteceu. Levou meses, e nesse tempo não tínhamos como pagar aluguel, logo fomos despejados e passamos uns meses com a minha tia, e, depois, moramos de favor num prédio abandonado de três andares, com varanda para um enorme depósito de lixo (com direito a piolhos, besouros e batatas voadoras o tempo todo). 

Havia uma lojinha no térreo do prédio que vendia bugigangas, o 1,99 da época. Eu lembro porque eu economizei qualquer mesada que recebi e comprei presente de Natal pro meu irmão e minha irmã: um mini-telefone verde e uma Moniquinha, ambos de plástico. Foi a época mais pobre da nossa vida. E ainda assim, não chegamos a passar fome. Alguém (amigos dos meus pais, nunca soube quem) emprestou um prédio abandonado caindo aos pedaços pra gente viver lá.

Eu pensava que nossa era de vacas magras no prédio abandonado tinha durado mais, pelo menos até o início de 1977, mas não. A carteira de trabalho mostra que meu pai conseguiu seu melhor emprego no Brasil em 20 de dezembro de 1976. Portanto, foi pouco tempo de miséria: do final de maio até o final de dezembro de 1976. E em sete meses perdemos tudo! Tivemos que largar a escola, não conseguíamos pagar o aluguel... 

O ótimo emprego que meu pai tinha conseguido foi em São Paulo, e minha mãe não queria sair do Rio, mas a gente não queria ficar longe do nosso pai (o tempo que passamos longe durante o impasse foi triste demais). Finalmente nos mudamos, e nossa vida melhorou muito. Agora meu pai era chefe do departamento de pesquisas e serviços de marketing da Denison Propaganda, uma das dez maiores agências do país, na época. Ganhava 30 mil cruzeiros mensais. 

Ficou lá até abril de 1986, pouco depois do dono da agência morrer e os filhos assumirem. Os diretores de cada área saíram e abriram cada um sua própria agência, e convenceram meu pai a sair também e abrir seu instituto de pesquisa, a Tendência 

Olha o que era a inflação: em 1986, seu salário era de 22 milhões quatrocentos mil cruzeiros mensais. Impossível saber quanto isso é hoje! Uma das conversões que vi indica que os 22 milhões seriam referentes a mais de 13 mil reais hoje, mas é quase impossível calcular todas as mudanças de moedas antes do real. Tanto que hoje, pro cálculo de aposentadoria, só entra o emprego que você teve antes de 1994 pra calcular tempo de serviço, mas não valores.

Gestar seu próprio negócio foi difícil, e nosso padrão de vida caiu bastante de novo. Era muito mais seguro ganhar um salário mensal fixo. Meu pai manteve seu instituto, a Tendência, até morrer, em abril de 1993. Eu cheguei a trabalhar lá quase dois anos como (única) secretária, com carteira assinada, em 1988. Usava uma máquina de escrever elétrica. 

Demorei pra me naturalizar, porque é um processo burocrático longo e trabalhoso, e também porque, sendo residente permanente no Brasil, eu tinha quase todos os direitos de uma cidadã brasileira. Certo, teve uma vez, nos anos 90, que eu queria jogar o campeonato feminino de xadrez, e fui impedida por não ser brasileira. Mas o principal motivo pra eu me naturalizar era um só: eu queria poder votar. Finalmente, em janeiro de 1998, quando eu já morava em Joinville, consegui me naturalizar. Lembro vagamente que tive que fazer um teste de português. Passei!

Quase todo mundo fica surpreso ao saber que não sou natural daqui porque não tenho sotaque. Mas também, eu vim pra cá com quatro aninhos, era um pinguinho de gente (e, pelos registros escolares, não foi tão fácil aprender português)! Tenho uma boa pronúncia em espanhol, só que falta vocabulário, conjugação verbal, essas coisas de quem nunca foi alfabetizada na língua materna. E certamente não sei escrever em espanhol! 

Quando vou pra Argentina, vou como turista, e entro com meu RG, não com meu passaporte argentino (que não é renovado faz tempo). Não tenho mais família lá há décadas. Eu me comunico bastante bem naquela capital que me lembra tanto meu amado pai (minha mãe era de Santa Fé, que nunca conheci). Os portenhos dizem que eu falo muito bem espanhol pruma brasileira, e às vezes fico com vergonha de dizer: "Ahn, no fundo eu sou argentina..."

Achei muito simbólico receber o título de cidadã cearense (bom, não recebi ainda, por causa da pandemia, mas algum dia vai haver uma cerimônia na Assembleia Legislativa do Ceará) bem no ano em que completo meio século de Brasil. Adoro este país, apesar de tudo, e tenho fé que conseguiremos reconstruí-lo e encontrar um rumo. Foi o país que meus pais escolheram pra viver, e que eu escolhi também, quando a gente já tem idade pra fazer escolhas. Minha vida é aqui, e não tenho vontade de morar em qualquer lugar que não seja o Nordeste!

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

BOLSO PODE IR PRO AFEGANISTÃO. LÁ TEM TUDO QUE ELE GOSTA

Não tem relação direta com o Talibã, mas serve pra mostrar bem o gosto de Bolso.

Em outubro do ano passado, ele se reuniu com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, um país quase tão nocivo para as mulheres como o Afeganistão sob o Talibã. Quando se encontrou com o príncipe em 2019, para comprar armas, disparou para as jornalistas: "Todo mundo gostaria de passar uma tarde com um príncipe, principalmente vocês, mulheres". Também revelou ter "muita afinidade" com o muçulmano, mandante da brutal execução de um repórter em 2018 (mesmo ano da execução de Marielle Franco por milicianos vizinhos do presida) e responsável pela prisão de feministas. O Capetão ainda opinou que as jornalistas ficam mais bonitas de abaya (uma túnica larga, negra e obrigatória).  

Bom, é claro que eu não fui a única a perceber que o que o Talibã faz com as mulheres no Afeganistão é o que fundamentalistas cristãos brazucas como Bolso adorariam fazer com as mulheres daqui. Mais uma vez, José Roberto Torero se supera ao falar em primeira pessoa, como se fosse o pior presidente, de uma tragédia que comove o mundo. Reproduzo aqui sua impagável coluna Diário do Bolso: 

Diário, eu tô pensando seriamente que, se eu perder a eleição aqui, o melhor é eu ir pro Afeganistão. Lá é tudo do jeito que eu gosto. Quer ver?

Lá tem Congresso? Não.

Tem STF? Não.

Tem esquerdalha? Se tinha, morreu ou fugiu.

Tem arma pra todo mundo? Tem (bom, pra todo mundo, não, mas pra turma que interessa, tem).

Lá toleram gayzismo? Não.

Mulher pode encher o saco? Não. Só esvaziar, kkk!

Tem urna eletrônica? Não.

Tem vacina? Não.

Tem que usar máscara? Não.

E o governo faz tudo em nome de Deus? Faz.

Tá vendo, Diarinho, lá é o paraíso. Se eu não conseguir transformar o Brasil num Bolsonaristão, já sei pra onde ir.

Com o Talibão, ali tá bão.

PS: Só não posso esquecer de levar o Aras. Esse só tem aqui.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

PGR APELA PRO NEGACIONISMO PRA INOCENTAR SEU BANDIDO DE ESTIMAÇÃO

E a impunidade de quem a gente espera que venha a ser condenado num tribunal internacional por crimes contra a humanidade continua. 

A Procuradoria-Geral da República (PGR) disse não ver crime no comportamento do excrementíssimo presidente de não usar máscara ou promover aglomerações durante toda a pandemia. Pra PGR, esse desrespeito serial do Capetão a leis e decretos pode gerar sanções administrativas (mas nem isso, óbvio), mas não tem gravidade. 

Quem assina essa aberração é Lindôra Araújo, muito próxima ao engavetador geral Augusto Aras. A notícia-crime foi enviada ao STF pela presidenta do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) e por parlamentares do Psol. Gleisi criticou as aglomerações causadas por Bolso que, além de serem custosas aos cofres públicos, ainda causam contaminação. O Psol citou o presida ter tirado a máscara de uma criança. 

De fato, em visita eleitoreira ao Rio Grande do Norte no final de junho, Bolso carregou um menino no colo e removeu a máscara dele na hora de tirar uma foto. Depois, numa solenidade, fez um gesto a uma garota de 10 anos para tirar a máscara enquanto recitava um poema. A menina tirou, e o energúmeno fez sinal de positivo.

Para inocentar Bolso, a PGR assumiu seu lado negacionista: disse que não há certeza sobre a eficácia do uso de máscaras para conter a propagação da covid.

Curiosamente, a procuradora Lindôra, que disse não ver crime na atuação de Bolso, foi a mesma que mandou o STJ investigar aquele desembargador repulsivo que recusou usar máscara durante um passeio no calçadão de Santos, em agosto do ano passado. O desembargador acabou sendo afastado, o que pra essa gente é prêmio (ganhou seu salário de R$ 35 mil por mês sem trabalhar). 

Lógico que a procuradora não foi a única a apelar pro negacionismo para passar pano pro chefe maior. Essa é a missão diária de Alexandre Garcia. Uma jornalista perguntou a ele: "Se nós estamos falando de uma doença altamente contagiosa e que se propaga pela fala, pelo espirro, seria correto posicionar que o presidente não ofereceu nenhum risco a outras pessoas?" E o ex-porta-voz de Figueiredo respondeu: "Se ele estivesse doente sim, agora, ele não estando doente, não está distribuindo germes patogênicos. Quem fez isso foi o coronavírus, que veio da China".

Segundo a lógica do barbudo muito bem pago pela CNN, a PGR deveria era mandar o vírus pra prisão por se auto-espalhar. 

Até quando esse pessoal vai conseguir acobertar os inúmeros crimes do pior presidente de todos os tempos?


terça-feira, 17 de agosto de 2021

"ESTÃO VINDO DOS MATAR", ALERTA CINEASTA AFEGÃ

A cineasta afegã Sahraa Karimi, diretora do filme Hava, Maryam, Ayesha (1019), é a primeira e única mulher a ter um doutorado em cinema no Afeganistão e a ocupar um cargo de direção na Afghan Film Organisation. Domingo ela postou um vídeo no Instagram, dizendo: "Eles estão vindo nos matar". Escreveu esta carta aberta antes que o Talibã capturasse a capital Cabul (meu post sobre essa tragédia aqui).

A todas as comunidades de cinema do mundo e a quem ama filmes e cinema,

Meu nome é Sahraa Karimi, diretora de cinema e atual diretora-geral da Afghan Film, a única empresa cinematográfica estatal no Afeganistão, fundada em 1968.

Escrevo a você com o coração partido e uma profunda esperança de que possa se juntar a mim na proteção de meu belo povo, especialmente os cineastas do Talibã.

Nas últimas semanas, o Talibã conquistou o controle de muitas províncias. Eles massacraram nosso povo, sequestraram muitas crianças, venderam meninas como noivas para seus homens, assassinaram uma mulher por seu traje, torturaram e assassinaram um de nossos amados comediantes, assassinaram um dos nossos poetas e historiadores, assassinaram o chefe da Cultura e dos meios de comunicação do governo, têm assassinado pessoas afiliadas ao governo, enforcaram publicamente alguns dos nossos homens, deslocaram centenas de milhares de famílias.

As famílias seguem acampadas em Cabul após fugirem dessas províncias e estão em condições insalubres. Há saques nos acampamentos, e bebês estão morrendo por não terem leite. É uma crise humanitária, mas o mundo está em silêncio. Acostumamo-nos a este silêncio, mas sabemos que não é justo. Sabemos que essa decisão de abandonar nosso povo está errada, e que essa retirada precipitada das tropas americanas é uma traição ao nosso povo e a tudo o que fizemos quando os afegãos venceram a Guerra Fria para o Ocidente.

Nosso povo foi esquecido. Agora após vinte anos de ganhos imensos para nosso país, especialmente para nossas gerações mais jovens, tudo pode ser perdido novamente neste abandono.

Precisamos de sua voz. A mídia, os governos e as organizações humanitárias mundiais estão convenientemente em silêncio, como se o tal 'acordo de paz' com o Talibã fosse legítimo. Nunca foi legítimo. Reconhecê-lo deu-lhes confiança para voltar ao poder. O Talibã tem brutalizado nosso povo durante todo o processo das negociações. Tudo o que trabalhei muito para construir como cineasta em meu país corre o risco de acabar.

Se o Talibã assumir o controle, eles vão banir toda a arte. Eu e outros cineastas podemos ser os próximos em sua lista de alvos. Eles vão tirar os direitos das mulheres: seremos empurradas para as sombras de nossas casas e de nossas vozes, e nossa expressão será abafada no silêncio. Quando o Talibã esteve antes no poder, nenhuma menina frequentava escolas. Desde que o grupo deixara o controle do país, mais de 9 milhões de meninas afegãs se matricularam na escola. Isso é incrível. Herat, a terceira maior cidade que acabou de ser dominada pelo Talibã, tinha quase 50% de mulheres em sua universidade. São ganhos incríveis que o mundo mal conhece. Nessas poucas semanas, porém, o Talibã destruiu muitas escolas, e 2 milhões de meninas foram forçadas a deixar a escola novamente.

Não entendo este mundo. Não entendo o silêncio (do mundo). Vou ficar e lutar pelo meu país, mas não posso fazer isso sozinha. Preciso de aliados como você. Ajude-nos a fazer com que o mundo se preocupe com o que está acontecendo conosco.

Ajude-nos informando aos meios de comunicação mais importantes de seus países o que está acontecendo aqui no Afeganistão. Sejam nossas vozes fora do Afeganistão. Se o Talibã assumir o controle de Cabul, talvez não tenhamos acesso à internet ou a qualquer ferramenta de comunicação. Por favor, envolva seus cineastas e artistas para nos apoiar e ser nossa voz. Esta guerra não é uma guerra civil. É uma guerra por procuração, é uma guerra imposta. Por favor, compartilhe este fato com sua mídia e escreva sobre nós em suas redes sociais. O mundo não deve virar as costas para nós.

Precisamos do seu apoio e da sua voz em nome das mulheres, crianças, artistas e cineastas afegãos. Esse apoio seria a maior ajuda de que precisamos agora.

Por favor, ajude-nos a fazer com que este mundo não abandone o Afeganistão. Por favor, ajude-nos antes que o Talibã assuma o controle de Cabul. Temos tão pouco tempo, talvez dias.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

A DERROTA DOS EUA, O TALIBÃ DE VOLTA, E O DESESPERO DAS AFEGÃS

É terrível ver o que está acontecendo no Afeganistão. As imagens de pessoas desesperadas correndo para o aeroporto para tentar fugir do país agora que o Talibã tomou a capital Cabul são assustadoras. Pior ainda quando lembramos o que o Talibã representa para as mulheres e outros grupos considerados minoritários, como LGBT ou gente de outras religiões que não a muçulmana.

Mas vamos por partes. Vou tentar reunir neste texto um pouco do que andei lendo sobre a situação desse país da Ásia Central com cerca de 34 milhões de habitantes. Mesmo pequeno, ele fica próximo a potências mundiais como China, Rússia, Irã e Índia. Logo, o que acontece lá pode afetar toda a (des)ordem mundial.

Não vou nem tentar resumir a história do Afeganistão, mas vale lembrar que esses vinte anos de ocupação militar americana (no mês seguinte ao 11 de Setembro de 2001, os EUA invadiram o país) não foram novidade. Durante a Guerra Fria, em que EUA e União Soviética disputavam cada território como se estivessem num tabuleiro de War, os soviéticos invadiram o Afeganistão. Entre 1979 e 1989, os soviéticos dominaram os afegãos. Enquanto isso, a CIA treinava e armava rebeldes e milícias para derrotar os soviéticos.  

Por incrível que pareça, esse período da dominação soviética foi aquele em que as mulheres afegãs tiveram mais igualdade em sua história. Durante essa era, os direitos das mulheres eram apoiados tanto pelo governo afegão quanto pelos soviéticos, que eram contra véus e burcas e a favor da educação compulsória para todas as meninas (incluindo as da zona rural). Foi nessa época que foi criado o Conselho das Mulheres Afegãs. Não estou apoiando a invasão e ocupação soviética, assim como não apoio a americana, só descrevendo um fato. 

Pouco depois dos soviéticos saírem, começou uma guerra civil. Os talibã (que significam estudantes) surgiram em 1994, para implantar a sharia, a lei islâmica. Em novembro daquele ano tomaram Kandahar, a segunda cidade mais importante do país. Seus primeiros decretos atingiam diretamente as mulheres: forçadas a usar burcas, foram proibidas de trabalhar fora de casa, de ir a escolas, de serem atendidas por médicos homens (o que, na prática, queria dizer que não teriam atendimento médico, ponto), de usar sapatos, de fazer barulho ao caminharem etc. A penalidade para calcanhares descobertos era o chicote. Para sexo fora do casamento, morte por apedrejamento. 

Em setembro de 1996, o Talibã -- que exige que as famílias entreguem meninas e mulheres solteiras para se tornarem esposas de seus combatentes -- capturou a capital Cabul. Seu governo foi reconhecido por somente três países (Emirados Árabes, Arábia Saudita e Paquistão). Assim que tomaram o poder, proibiram todas as mulheres de trabalhar. Imaginem o caos: um quarto dos serviços civis de Cabul, todo o ensino e grande parte dos serviços de saúde dependiam das mulheres. 

As escolas femininas foram todas fechadas. Mulheres não podiam sair de casa sozinhas, sem a companhia de um parente homem. As janelas tinham que ser pintadas para que ninguém enxergasse as mulheres dentro da casa. Até a burca afegã é ainda mais restritiva que as outras -- a rede que cobre os olhos é mais apertada. Televisão, cinema e esportes também foram banidos. Todos os dias eram anunciadas novas proibições. Todos os homens tinham que usar barba, por exemplo.

Assim como na Arábia Saudita (eterna aliada dos EUA), foi criada a polícia de "Prevenção do Vício e Promoção da Virtude". Uma das funções era fiscalizar o único hospital em Cabul em que as mulheres podiam ser tratadas, sempre acompanhadas de um parente homem. Os médicos homens não podiam tratar ou examinar as mulheres, e as médicas mulheres haviam fugido. 

Por causa de tantas guerras, havia mais ou menos 30 mil viúvas em Cabul. Elas perderam a pensão. Sem parentes do sexo masculino, viraram mendigas. Até 2018, havia pelo menos meio milhão de viúvas no país todo. Hoje, são 2,5 milhões. Num país que considera que mulheres dependem dos homens, as viúvas constituem um dos grupos mais vulneráveis. 

Depois do ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001, as tropas dos EUA invadiram o Afeganistão para tentar capturar Osama Bin Laden. Foi fácil derrubar o Talibã. Tanto que o presidente Bush Jr decidiu invadir também o Iraque, que nada teve a ver com o 11 de Setembro. Com isso, o Talibã se infiltrou na fronteira com o Paquistão, reagrupando-se principalmente a partir de 2004. 

Os EUA prometeram que sua maior intenção com a invasão era restaurar a democracia e os direitos humanos no Afeganistão. Não era, óbvio. Era pegar Bin Laden. E os EUA fracassaram até nisso. Só em 2011, dez anos depois da invasão ao Afeganistão, o terrorista foi assassinado -- no Paquistão. E nem assim a Al Qaeda acabou.

Os atentados terroristas promovidos pelo Talibã continuavam, com a alegação de serem contra a "corrupção moral, mistura de sexos e promoção dos valores ocidentais". Na época, um porta-voz do Talibã em Catar negou violação dos direitos das mulheres. Ele disse que o grupo defende que as mulheres tenham "todos esses direitos dentro dos valores islâmicos e afegãos". Ou seja, zero de direitos.

Os EUA, cansados da mais longa guerra de sua história (a do Vietnã, que eles também perderam, durou oficialmente onze anos), em 2018 começaram negociações de paz com o Talibã. As feministas afegãs (sim, é lógico que existem feministas no Afeganistão; existem feministas em todo lugar) foram afastadas das negociações de paz por imposição do Talibã. Elas acusaram as negociações de excluírem direitos das mulheres, direitos humanos, ou sequer a preservação da Constituição do país, que garante direitos iguais. E isso que estudos da ONU provam que, quando mulheres participam de negociações de paz, um acordo tem 35% mais chances de ser cumprido. As feministas afegãs sempre avisaram que as condições das mulheres iriam se agravar se o Talibã voltasse. 

A RAWA (Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão) afirmou: "as conversações de paz com os Talibãs são insignificantes, hipócritas e simplesmente ridículas. Temos os talibãs de um lado, que são criminosos medievais, do outro, o regime fantoche composto pelos irmãos de credo dos Talibã, e o terceiro ator, os EUA, que é o criador de ambos". 

"É muito importante termos a paz, mas um tipo de paz que vai nos ajudar a continuar, não ao custo de perder o que conquistamos até agora", já dizia uma feminista afegã em 2018. "Não estamos pedindo para os EUA lutarem a batalha por nós. Estamos pedindo que os EUA nos apoiem enquanto nós lutamos para proteger nossos direitos", disse outra, três anos atrás. Onde estavam as prioridades americanas? Não na melhora da vida das mulheres, seguramente. Até o final de 2019, os EUA haviam gastado quase mil vezes mais em suas ações militares do que no auxílio para os direitos das mulheres.

Em fevereiro do ano passado, EUA e Talibã assinaram um tratado para "trazer a paz". Isso incluía a retirada das tropas americanas e da OTAN, a promessa do Talibã de impedir a Al-Qaeda nas suas áreas, e conversações entre Talibã e governo afegão. Desde abril deste ano, quando Joe Biden anunciou a retirada de todas as tropas, o Talibã foi conquistando mais e mais distritos. No final de junho, já controlava 157 dos 398 distritos do país. Ontem, tomou Cabul (a CIA previa que o Talibã entrasse em Cabul em três meses. Foi antes mesmo dos EUA retirarem suas tropas). Agora, quer proclamar a ditadura teocrática totalitária islâmica do Emirado Islâmico do Afeganistão. 

Toda a ação dos EUA nos últimos anos foi desastrosa, culminando na retomada do Afeganistão pelo Talibã. Vinte anos de guerra e um trilhão de dólares depois, Joe Biden declarou: "Fui o quarto presidente a presidir com tropas americanas no Afeganistão -- foram dois republicanos e dois democratas. Eu não iria, e não irei, entregar esta guerra para um quinto".

A Nobel da Paz Malala Yousafzai manifestou sua preocupação com o que acontecerá com as minorias do Afeganistão com a volta do Talibã. Ela não é afegã, mas paquistanesa. Ainda assim, foi vítima de um atentado realizado pelo Talibã em 2012, um tiro na cabeça ao voltar da escola de ônibus. Seu crime: defender o direito das meninas à educação. A primeira prefeita mulher no Afeganistão, Zarifa Ghafari,  já avisou q o Talibã vai matá-la. Uma das notícias mais comentadas foi a de professores e professoras se despedindo das alunas universitárias, sem saber o dia da amanhã. 

Um porta-voz do Talibá já prometeu: "Na nossa sharia é claro: para quem tem relações sexuais e não é casado, a pena é de 100 chicotadas em público. Quem rouba deve ter as mãos cortadas". E: "Se não renunciarem à cultura ocidental, teremos que matá-los". Como alguém, de esquerda ou de direita, pode comemorar a vitória de um grupo fundamentalista? Ponham-se no lugar das meninas, mulheres e LGBT do Afeganistão. É puro Gilead. 

As mulheres e os LGBT que vivem no Afeganistão certamente devem estar comemorando o fim da opressão

O Afeganistão é um país miserável. O PIB aumentou durante a ocupação americana, mas isso não quer dizer grande coisa. Só que mais gente com dinheiro estava no país. Ao sair, levam o dinheiro. A condição das mulheres, e da população em geral, é horrível. Mas claro que houve avanços nesses vinte anos (apesar dos 241 mil afegãos mortos na guerra). A Universidade de Cabul foi reaberta após a queda do Talibã (só que agora em maio, bombardeios do Talibã a escolas de meninas em Cabul mataram mais de 85 pessoas, já indicando que os acordos de paz não seriam cumpridos). 

As conquistas que agora estão sob ameaça com a volta do Talibã são muitas. Na política, atualmente, 27%  da Câmara é dedicada às mulheres. Mulheres podem votar, dirigir carros, e participar das Olimpíadas. Também existem mulheres ministras, mulheres diretoras de ONGs, mulheres juízas, milhares de mulheres chefes de família. 3 mil postos de saúde foram criados, e a mortalidade materna caiu 40%.

Mulheres conseguiram incluir seus nomes nas certidões de nascimento dos seus filhos. Essa foi uma conquista das mulheres afegãs apenas no ano passado, através de uma campanha internacional chamada #WhereIsMyName (onde está meu nome?). 100 mil mulheres conseguiram chegar à universidade. 

Mas, como o país patriarcal que é, a violência doméstica e os "crimes contra a honra" continuam. Mesmo proibidos em 2016, os testes de virgindade continuam sendo realizados. Dependendo do resultado, a mulher pode ser presa ou executada. O Afeganistão não deixou de ser um dos piores países para ser mulher.  

Cinco meses atrás, no dia 8 de março, a RAWA acusou os EUA de impedirem "o estabelecimento de uma democracia, os direitos das mulheres e a independência e progresso do nosso país. [...] Esta traição do governo americano, embora custosa para as pessoas do Afeganistão, também tem seu aspecto positivo: nosso povo percebeu que a promessa dos EUA para instalar democracia, direitos das mulheres e progresso em qualquer país, incluindo o Afeganistão, é uma mentira descarada". 

Toda a torcida e sororidade as nossas irmãs afegãs para que consigam vencer as opressões de uma vez por todas.