quinta-feira, 27 de setembro de 2018

NEM MESMO OS PASTORES CONSIDERAM ABORTO UM CRIME

Amanhã é uma data importante: o Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização do Aborto. 
Para homenagear a data, e também para trazer uma visão pouco conhecida sobre o tema, publico o email que recebi semana passada de um homem que assina como Pastor X. 

Olá, Lola!
Eu sou pastor evangélico de uma igreja no sudeste há 10 anos. Infelizmente preciso ficar no anonimato. A denominação a que estou vinculado impõe restrições veladas (e outras mais explícitas) para que membros do clero exponham suas opiniões sobre política e outras questões sociais. E mesmo que não houvesse restrições vindas da hierarquia, eu não exporia abertamente o que penso pois escandalizaria a membresia da minha comunidade. 
Em certos ambientes conservadores o melhor que se pode fazer é apenas ocupar os espaços para impedir que sejam preenchidos por outros. Se eu não posso abordar os assuntos de maneira crítica e reflexiva, pelo menos não deixo que outros os abordem de forma ignorante e preconceituosa. E no trato pessoal sempre dá para deixar pistas para quem é inteligente fazer o seu próprio caminho.
Te escrevo para relatar algo ocorrido, imaginando que seja interessante o bastante para publicar no seu blog. A questão do aborto é tema sensível para os evangélicos e sempre acaba sendo tratada de forma indevida. Quando se toca no tema 'Descriminalização do Aborto' a maioria de nós entra em uma espécie de 'trava moral' que impede de olhar a questão racionalmente. Na cabeça dessas pessoas falar de descriminalizar o aborto é ser favorável a abortar e quem é 'a favor do aborto' é imediatamente rotulado como alguém perverso, imoral e porque não dizer, perigoso. A infeliz ironia é que as consequências dessa irracionalidade se mostram mais moralmente erradas do que alguém ser 'a favor do aborto'.
Há alguns anos uma pessoa da minha congregação me contou, durante um aconselhamento, o relato que segue. O casal queria muito ter filhos mas as gestações não chegavam ao fim. Ela apresentava uma condição que lhe fazia sofrer abortos espontâneos pouco tempo depois de engravidar. Em um desses casos, ao se dirigir ao hospital para receber atendimento, passou por uma experiência horrível. Foram quase duas horas sofrendo com dores na maca, sem atendimento adequado, por que o médico entendeu que ela tinha provocado o aborto e resolveu "puni-la" com a demora. Ele fazia insinuações do tipo: "Foi espontâneo, né? Sei..." e "Mas me diz, que remédio você tomou mesmo?". O médico conversava com um colega, sem nem ao menos ter o constrangimento de falar baixo para não ser ouvido, dizendo : "Deixa essa aí sofrer um pouco. Gente que não tem amor pelo filho tem de sofrer mesmo..."
Ela só foi atendida corretamente quando o marido chegou. Ao perceber que não se tratava de um aborto provocado, mas sim de um espontâneo, o médico mudou o tom de voz, deu toda a atenção à pessoa da minha igreja, fez o procedimento adequado (é curetagem que chama?) e inclusive indicou que ela procurasse um psicólogo.
Quando ela me contou esse relato eu associei apenas ao senso comum de dizer que o serviço de saúde público não funciona direito, que os médicos ganham pouco, etc, mas depois fui entender o que realmente aconteceu. Quase todos os casos de indiciamento de mulheres pelo crime de aborto são provenientes de denúncias feitas por médicos que as atenderam. Ao realizar um aborto, seja usando remédios ou por outro método qualquer, a mulher que precisar ir a uma unidade de saúde para receber atendimento, corre algum risco de sair presa.
Por isso quem aborta e vai ao hospital acaba tendo de dizer ao médico que o aborto foi espontâneo. E eles sabem disso. E os que têm uma mentalidade mais punitiva ficam pressionando, se aproveitando da fragilidade do momento, para que elas confessem.
O que essa narrativa me ensina? Que o aborto não deve ser crime.
Minha posição pessoal, que só expresso quando uma mulher pede minha opinião, o que já ocorreu duas vezes, é que não aborte. Não vou defender meu ponto nem a validade da opinião masculina sobre o assunto. O que estou dizendo é que tratar o aborto como crime e quem aborta como criminosa não adianta de nada. Além de não impedir ninguém de abortar, acaba cometendo uma injustiça contra quem sofre aborto espontâneo. O estigma de ser uma 'criminosa' é uma violência que nenhuma inocente merece. É melhor inocentar 1000 culpados que punir um único inocente. 
O meio evangélico precisa fugir da compreensão tacanha e simplista com que sempre trata publicamente o assunto. Na época de eleições políticos conservadores de direita aparecem para ganhar votos, prometendo uma cruzada pela vida e demonizando todos que falam em descriminalizar o aborto. 
É uma hipocrisia porque quando o assunto é tratado em âmbito privado, no momento do aconselhamento pastoral, nenhum pastor denuncia a 'ovelha' que 'confessa' que já abortou. Não conheço nenhum pastor que ao ouvir essa confissão trate a mulher na sua frente como criminosa e a aconselhe a se entregar na delegacia mais próxima. Nós, pastores, oramos, pedimos perdão a Deus, aconselhamos a não fazer novamente, etc, mas nem de longe passa por nossa cabeça querer que a pessoa seja presa. Perceba: Na prática diária, nem mesmo os pastores consideram crime!
Uma coisa é considerar uma prática errada, outra é achar que essa prática seja crime. O consumo do tabaco, para os evangélicos, é errado mas não é crime. O divórcio, na perspectiva evangélica, é algo errado mas também não é crime. Nós evangélicos consideramos errado quando alguém que pode contribuir financeiramente com as despesas da igreja não o faz. Alguém imagina que não entregar o dízimo seja um crime? Por que o aborto tem de ser?   
Tentando pensar além da visão tacanha de sempre, a verdade é que o aborto ser um crime afasta as pessoas de um aconselhamento. Alguém contaria a um desconhecido que pretende realizar um crime? É claro que não! Nas duas vezes que mulheres vieram pedir minha opinião elas já me conheciam e confiavam no meu discernimento. Isso me deu a chance de expor outros pontos de vista, sem um ambiente de condenação. Uma acabou fazendo o aborto. A outra resolveu continuar a gravidez e hoje tem uma linda filha. O ponto é que se realmente queremos que menos mulheres façam abortos, a melhor estratégia não é proibir mas garantir que todas que desejassem abortar recebessem antes um aconselhamento honesto e isento.
Na França a lei permite o aborto mas exige que haja um acompanhamento. Eu não sei como isso funciona na prática mas imaginando algo para o Brasil, poderíamos ter aqui uma certificação ou obtenção de um registro para conselheiros que atuariam quando uma mulher chegasse ao serviço público de saúde requerendo um aborto. Esses conselheiros deveriam seguir um código de ética que evitasse proselitismo e que trouxesse informações, não julgamentos, para a mulher que fossem atender. Veja como seria bom se pastores pudessem, atendendo às exigências, agir como conselheiros! 
Hoje nós só aconselhamos quem já está na igreja e nos procura. Com uma lei mais racional, poderíamos aconselhar muito mais mulheres. A ideia não seria "fazer a cabeça" delas para não abortarem mas sim estender a mão para quem está vivendo um drama e precisa de uma palavra de conforto e de orientação. Após receber isso, elas poderiam decidir com mais segurança. Hoje ninguém está ao lado de quem vai abortar. Muitas morrem e outras tantas sofrem. Quantas mudariam de ideia se tivessem com quem conversar? Quantas, ainda que decidindo abortar, estariam livres do sentimento de culpa e vergonha lhes acompanhando pelo resto da vida?
Eu escrevi para você, Lola, porque seu blog é muito lido e é uma referência no assunto. Imagino que muitas leitoras suas podem ter sofrido a mesma violência que a pessoa da minha igreja sofreu e que isso não devia ficar oculto. É mais uma razão para que se discuta mudar a lei, já que inocentes estão sofrendo uma "condenação", e nesse caso sem nem ao menos o devido processo penal ou a chance de defesa. Leitoras da Lola, o que acham? Vamos trazer essa realidade à tona? Aconteceu com mais alguém que gostaria de compartilhar (anonimamente)?
Agradecendo muito a Lola pelo espaço dado,
Pastor X

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

VAMOS TODAS E TODOS ÀS RUAS NO SÁBADO BARRAR O COISA RUIM

Este sábado, dia 29 de setembro, faltando uma semana pras eleições, teremos manifestações por todo o país contra o fascismo representado por Bolsonaro e seus seguidores.
Será lindo e acho que todas e todos nós deveríamos participar.
Sábado recebi um email de uma das organizadoras do ato em Salvador. Elas foram ameaçadas pelos fascistas de sempre, sempre ligados ao mesmo candidato. A organização da marcha #EleNao fez a denúncia ao Secretário de Segurança. Elas têm uma equipe de advogadas, têm licenças junto à Polícia Militar e órgãos responsáveis pela segurança, que será reforçada. Elas me pediram para tranquilizar as leitoras e leitores: "Nosso pior inimigo é o medo, temos que vencê-lo".
Concordo totalmente, e digo mais: custo acreditar que tem gente de esquerda questionando ou se posicionando contra as manifestações do dia 29. É muita falta de estratégia política. Vi pessoas dizendo que, como atrizes globais aderiram ao #EleNao, então é óbvio ululante que a Globo está por trás do ato. Isso é ridículo. Bolso não é o candidato da Globo, Haddad (ou qualquer um do PT) menos ainda, mas atrizes têm personalidade própria e conseguem pensar como quiserem, sem seguir a emissora.
Vi gente falando que o MBL se apropriou do #EleNao. Pô, gente, parem de espalhar fake news. O MLB é de extrema direita e apoia o Coiso. Se eles aparecerem nas manifestações, será para provocar com suas câmeras infames (recomendo ignorá-los solenemente).
Vi gente preocupada que o #EleNao seria apartidário, o que nos remete aos piores momentos das jornadas de junho de 2013, quando alguns fascistas chegaram ao cúmulo de bater em quem estivesse de camisa vermelha. O #EleNao não apoia um candidato, mas toma partido contra um candidato (o Coisa Ruim). É um ato pluripartidário. Eleitorxs de vários partidos estarão presentes. E isso é fantástico. Afinal, num segundo turno altamente provável entre Bolso e Haddad, em quem você acha que as pessoas que marcharam no #EleNao irão votar?
O #EleNao é um trailer do que veremos no segundo turno, que será uma mega baita blaster super duper união contra Bolso. Ele já tem um índice de rejeição gigante. Com o #EleNao, a rejeição aumentará ainda mais. Já tem pelo menos uns dois anos que eu digo que Bolso não ganha eleições pra cargo executivo, porque um segundo turno barra candidatos extremistas, como barrou a Le Pen na França. Bolso perde pra qualquer um no segundo turno. (Admito que eu pensava que seria mais fácil, mas sigo confiante).
Sim, o antipetismo é forte, sem dúvida, e estamos mais polarizados do que nunca. 
Mas o auge do antipetismo foi em 2016, quando o PT teve a pior eleição de sua história. Alguém acredita que esse quadro se repetirá em 2018? As filiações ao PT só cresceram, e o partido é, disparado, o mais querido do Brasil. E, se Lula pudesse se candidatar, ele teria boas chances de ser eleito ainda no primeiro turno. Portanto, minha aposta é que o antifascismo no Brasil é muito maior que o antipetismo.
E o segundo turno será uma ótima oportunidade para brasileiras e brasileiros mostrarem que não querem um candidato que, em toda a sua carreira política, só propagou o ódio. Essas manifestações do dia 29/9 serão um preview do que veremos até o dia 28/10 (lembrando que a campanha até o segundo turno é curtinha, então é bom começar logo mesmo).
Eu também tinha medo (e confesso que ainda tenho) em relação às manifestações do dia 29. Se algo der errado, faltando uma semana pras eleições, Bolso pode se beneficiar muito. E o que pode dar errado (além de seguidores fascistas dele com soco inglês partirem pra cima de mulheres? Nesse caso, seria prejuízo eleitoral pro candidato do PSL, assim como foi cantar um jingle comparando feministas a cadelas numa "Marcha da Família" em Recife -- digamos que talvez esta não seja a melhor maneira de convencer mulheres que Bolso não as odeia).
Em primeiro lugar, as manifestações precisam ser pacíficas, sem quebra-quebra. Em segundo lugar, não pode haver performances polêmicas. Algo como foi feito na Marcha das Vadias de 2013 no Rio por apenas um casal -- enfiar cruz no ânus e vagina -- até hoje é usado pra atacar feministas. Seria suicídio político. Mas mesmo exibições mais leves devem ser evitadas. Imagine o potencial de uma encenação da facada a Bolso, com todo mundo aplaudindo? Os fascistas vão aproveitar qualquer coisinha pra desqualificar as manifestações. Eles são experts em fake news e em manipular toda e qualquer notícia.
Mas tenho falado com algumas feministas que participam da organização do ato em Fortaleza e todas me asseguram que elas estão cientes desses riscos (principalmente da violência dos bolsominions) e que estão se preparando para que nada disso não aconteça.
O #EleNao é hoje um movimento internacional contra o Coisa Ruim. 
Várias celebridades de todo o mundo estão preocupadas com a ameaça fascista que ronda o maior país da América Latina. O repúdio a Bonossauro só cresce. Semana passada foram as torcidas organizadas de diversos times e as centrais sindicais que disseram #EleNao. A página do FB Mulheres Unidas contra Bolso chegou a 3 milhões de seguidoras em menos de um mês. Somos nós que estamos puxando o índice de rejeição lá pra cima.
E o #EleNao vai acontecer em dezenas de cidades pequenas, aquelas vistas como muito conservadoras. Quem acha isso pouca coisa deve poder responder o que está fazendo para barrar o fascismo no Brasil. Somos nós, #MulheresContraOBolsonaro, que vamos salvar o Brasil. Mas homens também são bem vindos às manifestações. Em vez de criticar e botar medo, venha pras ruas lutar com a gente.
Eu estarei na Praia do Crush neste sábado, a partir das 15h. E levarei o maridão.
 Veja se sua cidade está na lista e, se não estiver, adicione nos comentários

terça-feira, 25 de setembro de 2018

CARTAS DE UMA MENINA PRESA

Como vocês sabem, sou muito fã da professora Debora Diniz, da UnB. 
Em 2015 ela iniciou uma pesquisa a junto à Unidade de Internação de Santa Maria, em Brasília, habitada por adolescentes meninas privadas de liberdade por atos infracionais. Ao longo de um ano acompanhando o plantão de um grupo de agentes socioeducativas, Débora buscou entender o que seria o "estabelecimento educacional" onde a medida de internação deve ser cumprida, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Essa pesquisa gerou o estudo "Meninas fora da lei: a medida socioeducativa de internação no Distrito Federal".
Mas não foi só isso. Através do convívio com essas garotas, Débora passou a trocar cartas com elas. Uma delas foi Talia (não seu nome verdadeiro), que chegou a ser uma importante traficante do DF. Talia foi presa pela primeira vez aos 14 anos, mas já perambulava pela rua desde os 8. Não teve escola ou conselho tutelar que a resgatasse da perdição do crime, do sexo por dinheiro ou da violência.
Débora, Virgínia e Iasmim
no lançamento do livro
A correspondência virou um livro, Cartas de uma Menina Presa. Após ser rejeitado por seis editoras, o livro foi financiado por doações e publicado pela editora LetrasLivres, da Anis – Instituto de Bioética. Você pode comprá-lo por R$ 30, e esse valor irá custear o curso universitário na modalidade educação à distância para a coautora Talia, que atualmente cumpre pena em regime semiaberto na Penitenciária Feminina do DF. E também será usado para imprimir uma nova edição.
Vírginia Nabut, outra grande fã da Débora, comprou cem exemplares do livro para distribui-los em escolas. Ela conta melhor tudo isso:

Conheci a Dra. Debora Diniz por volta de 2002. Desde então acompanho sua carreira. Ora de perto, ora de longe, mas sempre muito admirada pelos temas que pauta.
No ano passado fiquei sabendo do seu trabalho na unidade de internação socioeducativa para meninas em conflito com a lei, na capital do país. Fui a um evento onde ela contou um pouco sobre a experiência, mostrou fotos (tiradas por ela mesma) e leu cartas dessas meninas com quem tinha convivido durante 14 meses em regime de plantão (24h trabalhando por 48 de descanso).
A ideia dela, antes de iniciar a pesquisa, era aplicar questionários, tirar fotos, conversar com as meninas. E todos os seus planos foram por água abaixo quando elas começaram a fazer perguntas e a escrever cartas e pediam livros para ler e queriam saber quem ela era...
Como pesquisadora, tudo o que sabia até então não lhe preparava para o que estava por vir: centenas (talvez milhares) de cartas trocadas com várias das meninas.
Como caneta pode ser usada para ferir outras pessoas, Debora importou (com o próprio dinheiro) dos Estados Unidos canetas específicas para serem usadas por presas/internas. A caneta tem corpo de silicone, é dobrável e, por isso, pode entrar nas celas. Antes as cartas só podiam ser escritas nos momentos de aula, de banho de sol, ou escondidas por alguma menina que quebrava as regras e levava a caneta escondida.
O livro são apenas algumas das cartas trocadas entre Debora e Talia.
Cartas que falam, que gritam, que choram. Cartas que movem, em uma linguagem simples de adolescente, cartas respondidas com a linguagem simples de quem soube se adaptar para conviver.
Um encontro improvável de uma das 100 maiores pensadoras do mundo (segundo o  Foreign Policy Magazine, de 2016), portadora de inúmeros títulos e prêmios, com uma menina encarcerada que era tida como “xerifa” na unidade socioeducativa.
Um livro que teve que ser publicado do próprio bolso, pois nenhuma editora quis bancá-lo. Por isso, o livro conta com apenas 1000 exemplares impressos.
Debora e Iasmim, que escreveu a
orelha do livro
Um livro que está sendo vendido, hoje, apenas pela própria Anis, e que busca, com a receita das vendas, ajudar Talia a cursar a faculdade (ela acabou de passar no vestibular) e a criar a sua filha, que hoje tem um ano.
No lançamento do livro, Talia não pode estar presente, então quem acompanhou a Debora na mesa foi a menina que dividiu a cela com Talia e que escreveu a orelha do livro.
Debora disse que não foi para lá com o intuito de salvar ninguém, de ajudar ninguém. No entanto, hoje, várias dessas meninas viraram universitárias. Várias se tornaram pesquisadoras. Algumas, como Talia, voltaram para o sistema, mas dispostas a saírem. E mostram isso todos os dias.
Elas escolheram os mais diversos cursos. Você pode esbarrar nelas em alguma universidade, pública ou privada, nos primeiros ou nos últimos semestres.
O livro, de forma alguma, é um livro acadêmico. É um livro leve (com tema pesado), mas que pode ser enquadrado facilmente como infanto-juvenil.
Deveria estar, aliás, em lugar de destaque nas bibliotecas, junto com o Diário de Anne Frank e Eu Sou Malala.
E, assim como Malala, o livro continua acontecendo e refletindo tudo o que Debora e Talia representam uma para a outra e para todas as pessoas que leram ou viveram essa realidade.
Vale ler cada linha. Vale gastar cada centavo. Vale falar dele para os amigos, conhecidos, professores de escolas públicas e particulares.
Quem sabe, assim, ele ficará tão famoso e com tantas tiragens quanto aqueles escritos por Malala e Anne Frank.
Anne, Malala e Talia. Três sobreviventes. Três pessoas reais. Três meninas que sofreram o que ninguém deveria sofrer.
E todas com uma história de luta para contar.
Boa leitura.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

MULHERES BRIGAM COM HOMENS E SE POSICIONAM CONTRA O CANDIDATO DO ÓDIO

Um excelente artigo da professora, cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado no The Intercept Brasil nos ajuda a entender o que está acontecendo, e desde quando. Leiam! (A Rosana é incrível. Eu a conheci ano passado quando ela veio dar uma palestra na UFC). 

"Vedetes" era o apelido das meninas que seguiam os integrantes “bondes” nos rolezinhos no shopping ou no baile funk. Alguns meninos nos relataram, por volta de 2011, que quanto mais roupas de marcas e dinheiro eles ostentassem, mais vedetes “corriam atrás”. Na vanguarda dos “rolês” estavam os homens, cabendo a elas um papel secundário, quase alegórico.
Só que as vedetes viraram o jogo.
As coisas mudaram radicalmente no Brasil nos últimos cinco anos após as Jornadas de Junho de 2013 e as ocupações secundaristas de 2016, tudo isso em meio a uma primavera feminista. Não é novidade que, nas classes populares, as mulheres exercem um papel crucial tanto como chefe de família quanto como lideranças comunitárias. 
Mas me refiro a um processo novo, de ruptura de estruturas sociais profundas, que ainda sequer é possível mensurar. Esse processo é marcado pela emergência de uma subjetividade contestatória através da qual as meninas se apropriam do debate da grande política, ajudando a formar, por exemplo, uma faixa de contenção à candidatura de Jair Bolsonaro, que encontra grande rejeição entre mulheres.
Quando eu e minha colega Lúcia Scalco visitamos escolas públicas em 2016, esperávamos que os novos “rolezeiros” tivessem participado das ocupações. Ao contrário, o que encontramos foi um discurso conservador e alinhado com Bolsonaro, esbarrando em forte oposição das adolescentes. Essa configuração é elucidativa de uma bifurcação inédita que transcende e potencializa a tradicional liderança comunitária feminina e o antigo conservadorismo patriarcal. De um lado, temos uma geração de mulheres politizadas e feministas; de outro, uma forte reação adversa masculina.
Isso ficou claro em algumas discussões em sala de aula, nas quais as meninas se sobressaiam na argumentação e eloquência diante de meninos quietos e cabisbaixos. Elas denunciavam a falta de coerência, o machismo, o racismo e a homofobia de Bolsonaro. Um deles chegou a me dizer que se sentia “oprimido” pelas colegas. Uma vez sozinhos, eles se referiam ao candidato como um símbolo, uma marca juvenil -– tal como a Nike operava na época dos bondes.
Em tempos crise da segurança pública que transformou Porto Alegre em uma das cidades mais violentas do mundo, bem como em um momento de ascensão do feminismo, a figura de Bolsonaro parece ser um totem de virilidade que representa uma arma de fogo -– uma arma que se defende de bandidos, mas também de outras ameaças inomináveis.
A divisão não se restringe a adolescentes de periferias.
Um aspecto revelador nesse sentido é desestabilização dos afetos a partir de novos conflitos entre casais causados pela política. Muitos entrevistados são motoristas de Uber, da faixa de 25-30 anos, que sonham dirigir armados, enquanto suas parceiras temem que isso traga ainda mais perigo para as suas crianças.
Presenciamos incontáveis discussões entre casais, sendo comum ouvir que política é um tema que deve ser evitado nos relacionamentos. Em uma das entrevistas, Joana, 53 anos, desatou a criticar Bolsonaro, com uma admirável capacidade argumentativa, diante de seu marido calado, que se dizia indiferente ao candidato. Horas depois, José Carlos, 64 anos, foi para o Facebook postar a famosa corrente das “42 razões para votar em Bolsonaro”. Joana relatou que, no outro dia, ele havia reclamado que ela “tinha falado demais e sido muito saliente”.
Como indicam os estudos publicados na Social Psychological and Personality Sciences e na Critical Sociology, nos Estados Unidos, já existe uma quantidade razoável de pesquisas que mostra que o voto a Donald Trump não se deu em função de uma classe média branca empobrecida, mas foi fundamentalmente motivado pelo preconceito e pela personalidade autoritária do candidato.
No Brasil, é preciso levar em consideração o contexto. Ainda não temos esses números para poder refletir com maior precisão. A crise econômica e política no Brasil foi muito brutal (do crescimento de 7,5% em 2010 para -3,7% em 2014), somando-se ao impeachment de Dilma Rousseff. A combinação do colapso econômico e o vácuo político certamente têm peso importante na intenção de votos a Bolsonaro no Brasil.
Mas não podemos ignorar o componente de preconceito de gênero, de raça e sexualidade. É muito sintomática essa identificação masculina com a figura agressiva, e ao mesmo tempo profundamente vazia, de Bolsonaro. Se o candidato tem se mantido estável em segundo lugar após Lula, é preciso lembrar que esse número muda com o recorte de gênero –- ele tem 27% de intenção de votos entre homens e 12% entre mulheres, segundo o DataFolha.
Estamos falando de penúria econômica, de falência democrática, mas também da crise do macho. E esses fenômenos são indissociáveis. A identificação com o candidato é também uma jogada desesperada de time que se vê caindo na tabela, uma reação a tantas vozes políticas emergentes que resolveram se rebelar dentro e fora de casa nos últimos anos.
Como num jogo de forças, a ordem de poder até então estabelecida tenta reverter uma transformação que parece não ter mais volta. As mulheres são a renovação política e formam um bloco de resistência contra o autoritarismo.
É a revolta das vedetes.