Amanhã é uma data importante: o Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta pela Descriminalização do Aborto.
Para homenagear a data, e também para trazer uma visão pouco conhecida sobre o tema, publico o email que recebi semana passada de um homem que assina como Pastor X.
Para homenagear a data, e também para trazer uma visão pouco conhecida sobre o tema, publico o email que recebi semana passada de um homem que assina como Pastor X.
Olá, Lola!
Eu sou pastor evangélico de uma igreja no sudeste há 10 anos. Infelizmente preciso ficar no anonimato. A denominação a que estou vinculado impõe restrições veladas (e outras mais explícitas) para que membros do clero exponham suas opiniões sobre política e outras questões sociais. E mesmo que não houvesse restrições vindas da hierarquia, eu não exporia abertamente o que penso pois escandalizaria a membresia da minha comunidade.
Em certos ambientes conservadores o melhor que se pode fazer é apenas ocupar os espaços para impedir que sejam preenchidos por outros. Se eu não posso abordar os assuntos de maneira crítica e reflexiva, pelo menos não deixo que outros os abordem de forma ignorante e preconceituosa. E no trato pessoal sempre dá para deixar pistas para quem é inteligente fazer o seu próprio caminho.
Te escrevo para relatar algo ocorrido, imaginando que seja interessante o bastante para publicar no seu blog. A questão do aborto é tema sensível para os evangélicos e sempre acaba sendo tratada de forma indevida. Quando se toca no tema 'Descriminalização do Aborto' a maioria de nós entra em uma espécie de 'trava moral' que impede de olhar a questão racionalmente. Na cabeça dessas pessoas falar de descriminalizar o aborto é ser favorável a abortar e quem é 'a favor do aborto' é imediatamente rotulado como alguém perverso, imoral e porque não dizer, perigoso. A infeliz ironia é que as consequências dessa irracionalidade se mostram mais moralmente erradas do que alguém ser 'a favor do aborto'.
Há alguns anos uma pessoa da minha congregação me contou, durante um aconselhamento, o relato que segue. O casal queria muito ter filhos mas as gestações não chegavam ao fim. Ela apresentava uma condição que lhe fazia sofrer abortos espontâneos pouco tempo depois de engravidar. Em um desses casos, ao se dirigir ao hospital para receber atendimento, passou por uma experiência horrível. Foram quase duas horas sofrendo com dores na maca, sem atendimento adequado, por que o médico entendeu que ela tinha provocado o aborto e resolveu "puni-la" com a demora. Ele fazia insinuações do tipo: "Foi espontâneo, né? Sei..." e "Mas me diz, que remédio você tomou mesmo?". O médico conversava com um colega, sem nem ao menos ter o constrangimento de falar baixo para não ser ouvido, dizendo : "Deixa essa aí sofrer um pouco. Gente que não tem amor pelo filho tem de sofrer mesmo..."
Ela só foi atendida corretamente quando o marido chegou. Ao perceber que não se tratava de um aborto provocado, mas sim de um espontâneo, o médico mudou o tom de voz, deu toda a atenção à pessoa da minha igreja, fez o procedimento adequado (é curetagem que chama?) e inclusive indicou que ela procurasse um psicólogo.
Quando ela me contou esse relato eu associei apenas ao senso comum de dizer que o serviço de saúde público não funciona direito, que os médicos ganham pouco, etc, mas depois fui entender o que realmente aconteceu. Quase todos os casos de indiciamento de mulheres pelo crime de aborto são provenientes de denúncias feitas por médicos que as atenderam. Ao realizar um aborto, seja usando remédios ou por outro método qualquer, a mulher que precisar ir a uma unidade de saúde para receber atendimento, corre algum risco de sair presa.Por isso quem aborta e vai ao hospital acaba tendo de dizer ao médico que o aborto foi espontâneo. E eles sabem disso. E os que têm uma mentalidade mais punitiva ficam pressionando, se aproveitando da fragilidade do momento, para que elas confessem.
O que essa narrativa me ensina? Que o aborto não deve ser crime.
Minha posição pessoal, que só expresso quando uma mulher pede minha opinião, o que já ocorreu duas vezes, é que não aborte. Não vou defender meu ponto nem a validade da opinião masculina sobre o assunto. O que estou dizendo é que tratar o aborto como crime e quem aborta como criminosa não adianta de nada. Além de não impedir ninguém de abortar, acaba cometendo uma injustiça contra quem sofre aborto espontâneo. O estigma de ser uma 'criminosa' é uma violência que nenhuma inocente merece. É melhor inocentar 1000 culpados que punir um único inocente.
O meio evangélico precisa fugir da compreensão tacanha e simplista com que sempre trata publicamente o assunto. Na época de eleições políticos conservadores de direita aparecem para ganhar votos, prometendo uma cruzada pela vida e demonizando todos que falam em descriminalizar o aborto.
É uma hipocrisia porque quando o assunto é tratado em âmbito privado, no momento do aconselhamento pastoral, nenhum pastor denuncia a 'ovelha' que 'confessa' que já abortou. Não conheço nenhum pastor que ao ouvir essa confissão trate a mulher na sua frente como criminosa e a aconselhe a se entregar na delegacia mais próxima. Nós, pastores, oramos, pedimos perdão a Deus, aconselhamos a não fazer novamente, etc, mas nem de longe passa por nossa cabeça querer que a pessoa seja presa. Perceba: Na prática diária, nem mesmo os pastores consideram crime!
Uma coisa é considerar uma prática errada, outra é achar que essa prática seja crime. O consumo do tabaco, para os evangélicos, é errado mas não é crime. O divórcio, na perspectiva evangélica, é algo errado mas também não é crime. Nós evangélicos consideramos errado quando alguém que pode contribuir financeiramente com as despesas da igreja não o faz. Alguém imagina que não entregar o dízimo seja um crime? Por que o aborto tem de ser?
Tentando pensar além da visão tacanha de sempre, a verdade é que o aborto ser um crime afasta as pessoas de um aconselhamento. Alguém contaria a um desconhecido que pretende realizar um crime? É claro que não! Nas duas vezes que mulheres vieram pedir minha opinião elas já me conheciam e confiavam no meu discernimento. Isso me deu a chance de expor outros pontos de vista, sem um ambiente de condenação. Uma acabou fazendo o aborto. A outra resolveu continuar a gravidez e hoje tem uma linda filha. O ponto é que se realmente queremos que menos mulheres façam abortos, a melhor estratégia não é proibir mas garantir que todas que desejassem abortar recebessem antes um aconselhamento honesto e isento.
Na França a lei permite o aborto mas exige que haja um acompanhamento. Eu não sei como isso funciona na prática mas imaginando algo para o Brasil, poderíamos ter aqui uma certificação ou obtenção de um registro para conselheiros que atuariam quando uma mulher chegasse ao serviço público de saúde requerendo um aborto. Esses conselheiros deveriam seguir um código de ética que evitasse proselitismo e que trouxesse informações, não julgamentos, para a mulher que fossem atender. Veja como seria bom se pastores pudessem, atendendo às exigências, agir como conselheiros!
Hoje nós só aconselhamos quem já está na igreja e nos procura. Com uma lei mais racional, poderíamos aconselhar muito mais mulheres. A ideia não seria "fazer a cabeça" delas para não abortarem mas sim estender a mão para quem está vivendo um drama e precisa de uma palavra de conforto e de orientação. Após receber isso, elas poderiam decidir com mais segurança. Hoje ninguém está ao lado de quem vai abortar. Muitas morrem e outras tantas sofrem. Quantas mudariam de ideia se tivessem com quem conversar? Quantas, ainda que decidindo abortar, estariam livres do sentimento de culpa e vergonha lhes acompanhando pelo resto da vida?
Eu escrevi para você, Lola, porque seu blog é muito lido e é uma referência no assunto. Imagino que muitas leitoras suas podem ter sofrido a mesma violência que a pessoa da minha igreja sofreu e que isso não devia ficar oculto. É mais uma razão para que se discuta mudar a lei, já que inocentes estão sofrendo uma "condenação", e nesse caso sem nem ao menos o devido processo penal ou a chance de defesa. Leitoras da Lola, o que acham? Vamos trazer essa realidade à tona? Aconteceu com mais alguém que gostaria de compartilhar (anonimamente)?
Agradecendo muito a Lola pelo espaço dado,
Pastor X














































