Ninguém ganha quando Atwood é condenada pelo #MeToo
João Paulo, graduando em Ciências Sociais, me enviou este post. Há alguns equívocos, e deixo pra vocês responderem. Certamente ele é uma pessoa bem intencionada e em processo de aprendizagem. Peço diálogo nos comentários.
Margaret Atwood escreveu um artigo publicado no The Globe and Mail em janeiro que gerou revolta por parte de ativistas de esquerda, em especial as feministas. Em seu texto, a consagrada autora de O Conto da Aia e outros quinze romances, já no título começa com uma indagação provocativa, “Am I a bad feminist?” (sou uma feminista má?). Atwood cita o caso de um processo com falhas contra um ex-funcionário da Universidade da Columbia Britânica, acusado de agressão sexual, e que foi inocentado. Atwood lembra que todos devem ter direito à defesa, e acabou sendo acusada por algumas ativistas de ser uma traidora da causa feminista. Estaria Atwood equivocada no que discorre no artigo? Não. No entanto, é necessária uma reflexão sobre as agressões sexuais que mulheres sofrem durante toda a vida, desde a tenra idade até a fase adulta.
Antes de mais nada, não vou pedir licença como um homem que escreve um texto com teor feminista. Até peço desculpas por essa postura, no entanto me encontro numa posição que as mulheres também estão. Sou também vítima de um sistema patriarcal brutalmente opressor, pois desde muito cedo sofri todo tipo de humilhação por ser visto por não ter a postura masculina agressiva que se espera de garotos e adolescentes.
Peço desculpas por não pedir licença porque é importante que o feminismo esteja aberto à fala do homem que sofre nas estruturas do patriarcado. O feminismo é uma mensagem poderosíssima que pede o essencial, a igualdade entre homens e mulheres. Essa igualdade que o feminismo nos fala é tão forte, que ela acaba transcendendo fronteiras e chega a todos aqueles sujeitos que igualmente são vítimas contumazes da opressão patriarcal. Preocupa que algumas feministas radicais não estejam abertas a dar voz para que homens gays e héteros e pessoas trans possam falar sobre temáticas feministas. Acabam afastando aliados. Homens e pessoas trans não podem lutar pelos direitos igualitários e reprodutivos das mulheres?
É necessária uma certa fúria para combater o patriarcado, mas essa fúria não pode ser usada para afastar os que querem contribuir com o feminismo. Se os que querem contribuir são farsantes, como há muitos, então que sejam desmascarados. Mas se os que querem contribuir são coerentes em suas condutas com a luta feminista, então que possam participar dessa luta. De maneira alguma pode-se tirar das mulheres o protagonismo ou o pioneirismo na inauguração do feminismo, porque isso das mulheres nunca será tirado. O que questiono é se não se deve incluir no combate ao patriarcado aqueles que juntamente com as mulheres marcharão por uma sociedade digna e justa para todos os sujeitos.
Dito isto, volto ao texto de Atwood, mas antes, disponibilizo outro link, este sobre matéria do New York Times. A matéria do jornal trata de todo tipo de agressão sexual que mulheres passam na linha de montagem de uma fábrica da Ford numa planta em Chicago. O retrato do que acontece em Chicago é o que se espalha em toda a indústria do colarinho azul nos Estados Unidos. E por que compartilhar a matéria do NYT? Para fazer contraponto ao texto de Atwood.
É preciso dar direito de defesa aos homens acusados de assédio? Sim. É preciso dar aparato jurídico para as mulheres que sofrem agressão sexual? Sim, e ainda mais aparato que aquele que podem desfrutar os homens. E por que mais aparato? Porque mulheres, ainda enquanto garotas na infância, começam a sofrer agressão, e para elas desde cedo é reservado o lugar de aceitarem o que lhes acomete. O machismo é de tal modo entranhado na sociedade que mulheres por toda vida encararão o marcador do gênero.
No patriarcado o papel designado às mulheres é antes de mais nada a subalternização. Como mulheres são tratadas como inferiores, lhes é reservado acatar silenciosamente todo tipo de abuso que sofrem, e se algum dia resolverem falar sobre as agressões sexistas que enfrentam, suas palavras de pronto serão desacreditadas, porque para o patriarcado a mulher não é um ser digno de humanidade, e sim um objeto sem qualificação, com a única tarefa de servidão eterna ao homem.
Parece ser este o objetivo dos assediadores das mulheres na planta da Ford, por exemplo: fazer com que parem de trabalhar, porque o trabalho pode-lhes dar em algum grau aquilo que o patriarcado tem pavor -- independência financeira. Essa independência pode ser crucial, pois a mulher ter controle de suas finanças as põe num pé de igualdade perante os homens. É por isso que se paga salários tão baixos as mulheres. É uma forma de intimidação para que a mulher continue a se sujeitar ao homem, fazendo-a voltar à posição que o patriarcado lhes enquadra, a serventia do lar.
Atwood está certa ao pedir direito amplo de defesa aos acusados de assédio, mas existe um problema nisso. Como conceder amplo direito aos acusados se para as mulheres desde cedo lhes é negado qualquer tipo de direito? É partindo desse ponto que devemos tratar do direito à defesa entre homens e mulheres, porque a estas estão reservadas as desacreditadas estruturas patriarcais, enquanto que para aqueles desde o nascimento lhes é dado todo direito de violência contra as mulheres. Não há como tratar homens e mulheres igualmente sem reconhecer que no nascedouro patriarcal existe uma abissal desigualdade entre os gêneros.
Enquanto que para os homens é estimulado o assédio contra as mulheres, para estas é reservada a aceitação desse assédio. Porque para o patriarcado é assim que o organismo de seu sistema sobrevive, com a violência sistêmica da masculinidade contra tudo aquilo que não é masculino. Cabe às mulheres e aos homens comprometidos com a luta feminista o engajamento para que tenhamos direitos iguais. Mas enquanto mulheres continuarem sendo desacreditadas ao falarem só porque são mulheres, é impossível avançar na equidade civil e política.
Longe de mim, um simples estudante universitário com muito a aprender, querer rebater uma consagrada autora do calibre de Atwood, até porque concordo com o que ela defende no artigo. O que me refiro é como alcançar equidade de direito de defesa entre homens e mulheres se as mulheres estão numa condição de vulnerabilidade. É por isso que o feminismo apavora o patriarcado.
Ao dar à mulher uma humanidade que lhe é negada, o feminismo é poderoso instrumento para enterrar toda a artificialidade em que está assentado o patriarcado. O feminismo prova que não há absolutamente nenhuma superioridade do homem sob a mulher. E elimina todo o patriarcado, ao evidenciar que um sistema em que a todo instante o homem precisa provar sua masculinidade através de estruturas opressoras, só comprova que toda essa estrutura é uma farsa. E como a farsa que é, seu desmonte é possível, para que os diferentes sujeitos na sociedade possam viver felizes em sua plenitude humana dignificadora.












































