domingo, 28 de julho de 2013

GUEST POST: ENTRE A CRUZ E A ROSA LUXEMBURGO

Manifestante ontem na Marcha das Vadias do RJ, em Copacabana


Ontem aconteceu a Marcha das Vadias do RJ (sábado que vem será a de João Pessoa, e eu estarei lá!). Foi um sucesso: muita gente, muita irreverência e alegria, características desses protestos.
Mas o que a mídia deu mais destaque foi a um casal que quebrou uma estátua da virgem, e "profanou" outros símbolos sacros. 
Minha opinião? Acho totalmente ignorante fazer algo assim. Depõe contra os nossos objetivos, que é também conquistar corações e mentes. Querendo ou não (eu não quero), somos o maior país católico do mundo. Muitos católicxs que poderiam ficar do nosso lado -- até porque, aleluia, os fiéis não são tão conservadores quanto a igreja que seguem -- se revoltam ao ver esse tipo de provocação, que não ajuda em nada. 
Mas dizer que a atitude do casal que destruiu uma estátua de santa representa toda a Marcha das Vadias do RJ, ou, ainda mais risível, que representa o feminismo como um todo, é como dizer que o fiel católico que cuspiu numa das manifestantes da Marcha representa o Papa, ou todo o catolicismo.
Nós feministas temos motivos de sobra para nos rebelarmos contra a igreja católica (e demais religiões). É uma igreja machista e homofóbica que não se cansa de se meter no Estado, que deveria ser laico. É principalmente graças à igreja católica que milhares de brasileiras (em sua maioria católicas e casadas) morrem todo ano em decorrência de abortos clandestinos. 
É também por causa da igreja que temos uma "educação" sexual repressora, que é contra o uso de métodos anticoncepcionais. Se depender dessa mesma igreja, o aborto será proibido em todos os casos (inclusive em casos de estupro e risco de vida pra gestante). E a pílula do dia seguinte também. E o divórcio. E basicamente qualquer avanço feminista conquistado nas últimas décadas.
Por causa desse histórico de opressão da igreja contra as mulheres, causa espanto que alguém, como a jornalista Monica Waldvogel, tenha a ingenuidade de perguntar no seu Twitter, sem ironia: "Quem tem alguma boa explicação sobre por que o catolicismo desperta tanta irritação?"
Não é questão de "se você não gosta da igreja, não a frequente". Eu não gosto, não a frequento, e mantenho uma distância saudável. Mas a igreja não me trata com a mesma cortesia. A igreja teima em frequentar meu Estado Laico. Aliás, se fosse apenas frequentar, como algo esporádico, ainda ia. Mas estamos muito longe de termos um Estado Laico. E é uma via de mão dupla: é o Estado Laico que garante a liberdade religiosa. 
Lembrando que o ocorrido ontem não foi o primeiro confronto entre feministas e católicos: mês passado, um padre mandou a polícia prender manifestantes da Marcha das Vadias de Guarulhos porque elas ousaram marcar como ponto de concentração o marco zero, a praça central, que fica em frente a uma igreja. 
Obviamente, este é um assunto polêmico. A estudante de jornalismo Thaís Macedo me enviou este texto para por mais lenha na fogueira.

Sou católica e sou feminista. E não, não acho que uma coisa exclua a outra. Na verdade, não posso deixar de ser nenhuma das duas coisas da mesma maneira. Meus conceitos ideológicos estão profundamente enraizados nessas duas coisas, e posso dizer que não sinto nenhum conflito interno. Arrisco dizer que são duas faces da mesma moeda.
Senti-me extremamente triste ao ver o confronto entre a Marcha das Vadias e a Jornada Mundial da Juventude ontem, sábado, dia 27/7. Não acredito em depreciação. Se tem uma coisa que tanto o feminismo quanto a religião me ensinaram é que a palavra-chave de tudo é TOLERÂNCIA.
Esse sempre foi o pilar principal do catolicismo. O amor, não o ódio. O ódio –- aos gays, ao aborto, ao que é chamado de pecado -– só veio séculos depois, na Idade Média. Mas lá, no princípio de tudo, no novo Testamento, tudo o que é pregado é o amor ao próximo, cada versículo de cada capítulo.
Mas, como qualquer instituição mantida por seres humanos, houve corrupção dos valores. Interesses pessoais entraram em jogo e o resultado é o que estamos tentando arrumar agora. Na última década, a Igreja pediu desculpas formais pelas atrocidades geradas durante a Inquisição. Mais do que um atraso de séculos, isso foi o início de uma mudança. A escolha de um Papa franciscano jesuíta é outra mudança.
A Igreja ainda é uma instituição milenar, entretanto. Mudanças são lentas, e mais algumas décadas vão correr antes que algum Papa diga que “it’s okay to be gay”. Mas, em algum momento, isso pode acontecer. O próprio Jorge Bergoglio, antes de virar Francisco, já havia dito que Deus não manda para o inferno quem ama de forma diferente. Vamos lembrar que a Bíblia foi escrita muito antes de existir a possibilidade do feminismo, logo seus conceitos em relação a gênero são, no mínimo, anacrônicos. 
Da mesma maneira, dificilmente veremos uma mudança no posicionamento contra o aborto ou a camisinha. Séculos de crença não mudam rápido assim. E esses dois assuntos são apenas uma bifurcação (distorcida) do amor à vida. O posicionamento da Igreja é, essencialmente, o de amar toda forma de vida, seja já existente ou apenas no início. Enquanto vivemos em um estado laico em que as bancadas católicas têm representatividade ao lado de evangélicos, espíritas, ateus e agnósticos, tudo o que a igreja pode manter é a sua ideologia entre seus iguais.
Apesar de toda essa polêmica, o que vemos nos discursos do Papa, nas homilias dos padres e nas salas de catequese não é esse posicionamento radical contra aborto e camisinha. Tudo o que vemos é o discurso de amar ao próximo, respeitar as diferenças e evitar a violência. Francisco chegou até a defender o diálogo entre povo e governo de forma bilateral.
E o que querem xs feministas? Amor livre, respeito às diferenças, fim da violência contra a mulher, diálogo com o governo. Não é nada tão diferente. Tirando fora todas as más interpretações, o que resta é o discurso do amor e do fim do preconceito.
O feminismo sempre foi, para mim, uma ideologia de respeito a todos e a todas. Por isso, quebrar uma imagem de Nossa Senhora é como uma declaração de intolerância e até hipocrisia. É desconsiderar todo o trabalho que as igrejas têm feito em favor da mulher.
Sim, a igreja também tem lutas feministas. A Pastoral da Mulher Marginalizada, por exemplo, luta para tirar as mulheres da prostituição forçada (por vícios, por exemplo) e as acolhe na comunidade. 
O acompanhamento social ajuda a denunciar casos de abuso. Na minha própria comunidade, um prédio de seis apartamentos é reservado para acolher mulheres em situação de risco, além de oferecerem transporte até a Delegacia da Mulher caso agressão física seja constatada. Uma palestra bimestral é dada às adolescentes do bairro para ensinar como prevenir gravidez indesejada -– e, acreditem, a abstinência é citada apenas como desejável, não obrigatória.
Por tudo isso, acredito que seja possível conciliar as duas ideologias. Também é possível se focar apenas nas diferenças, mas isso nunca vai levar à tolerância. E caso nada disso tenha te convencido, esqueça. O que um velhinho de 70 anos que mora do outro lado do mundo pensa sobre você e sua vida sexual não é tão importante assim.
Escrevo mais sobre a performance na Marcha das Vadias RJ aqui.

sábado, 27 de julho de 2013

GUEST POST: ESCOLA DE PRINCESAS, AS MENINAS DE HOJE E AS MULHERES DE AMANHÃ

Em janeiro publiquei um guest post do Robson sobre uma escola que ensina meninas a serem princesas. Mas o assunto não morre. 
Este não é um tema que interessa apenas feministas, mas também pessoas e grupos que são contra crianças serem transformadas em consumidoras vorazes (que é, infelizmente, o que vem acontecendo há anos, como mostra este documentário). Um dos grupos que mais se mobiliza contra a propaganda infantil é o Alana, e faz tempo que venho querendo publicar um guest post deles. Este texto é da Laís Fontenelle, psicóloga da Alana.

Todo sonho de menina é tornar-se princesa. Essa premissa (um tanto equivocada) é o slogan de um espaço “supostamente educativo” criado por uma empresária mineira para atender meninas entre 4 a 15 anos com aulas de etiqueta, moda, beleza e culinária. 
A missão desse espaço, segundo o site, é oferecer serviços que propiciem experiências de natureza intelectual, comportamental e cotidiana da realeza e que resgatem a dita “essência” feminina. Pergunto-me: o que será que eles entendem pela essência feminina? O que de fato é ensinado a essas crianças, que estão numa fase essencial de construção de identidade e formação de valores? Que é preciso ter desde joias, tiaras, vestidos rosa, saltos, até atitudes de princesas, para serem aceitas e amadas? 
Vivemos numa sociedade em que tudo parece ter sido mercantilizado, inclusive o universo infantil. Então, quando vejo um espaço de verdade, em forma de castelo, criado para atender meninas cujos produtos e serviços oferecidos não são somente tiaras de pedras ou longos vestidos de princesas, mas valores e princípios que vão supostamente ajudar meninas a se tornar princesas de verdade e a ter confiança em si mesmas, me preocupo. Primeiro porque isso é propaganda enganosa, já que dificilmente essas meninas vão se tornar princesas; segundo porque é algo completamente distante da realidade vivida pela maioria das meninas nos dias de hoje. 
Vale destacar que ninguém aqui está dizendo que não se deve sonhar ou propiciar que as crianças experimentem o faz-de-conta, mas vender sonhos e fazer com que meninas acreditem que eles se realizarão é outra história. Pior ainda quando esse tal sonho é posto como uma possibilidade única de felicidade e plenitude.
Desde sempre os contos de fada fazem sucesso entre a criançada porque ajudam as meninas a fantasiar e também elaborar conflito. No entanto, de uns anos para cá, com o licenciamento das princesas, esse virou um foco de mercado bem aquecido e lucrativo.
Muito desse movimento de mercado está representado no site da Mattel Escola de Princesas  (homônimo a escola de Minas), lançado com o filme da Barbie em 2011. Embora o grande objetivo deste site fosse promocional, para vender os produtos da marca, é preciso prestar atenção nas mensagens que também transmitem valores -– valores não tão diferentes assim da escolinha no interior de Minas. 
Com o site, a Mattel vende o mundo cor de rosa da princesa Barbie, reforçando um modelo sexista, atrasado e muitas vezes inatingível.  Um bom exemplo disso são os jogos do site, como uma atividade em que as crianças devem escolher roupas adequadas para determinadas ocasiões ou manter a postura ereta, equilibrando um livro no topo da cabeça. Essa brincadeira esgota a capacidade criativa e imaginativa das meninas se representarem. 
Mas por que cito aqui essa grande marca de brinquedos? Para ilustrar que essa indústria acaba inspirando a criação de outras “escolas de princesas”, como a do interior de Minas, que talvez nem existissem se não encontrassem eco nas produções de massa. 
A escola de Minas é concreta e o mundo da Mattel está no virtual, mas, no fundo, vendem uma ideia bastante similar: a de que o mundo cor de rosa é atingido desde que você tenha acessórios e atitudes de princesa. Ambos vendem uma ilusão.
Não posso deixar de destacar que as brincadeiras servem, muitas vezes, como exercício para comportamentos da vida adulta. Não por acaso, quando o papel da mulher na sociedade se limitava à maternidade e aos cuidados da casa, as brincadeiras mais comuns entre as meninas eram de “mamãe ou de casinha”. Conforme a mulher foi conquistando novos espaços e representações sociais, outros brinquedos e brincadeiras surgiram, refletindo essas transformações. 
O que será então que essas meninas, que vão a essa Escola de Princesas ou brincam no site da Mattel, experimentam através de atividades “lúdicas” em que aprendem a fazer a cama, a se maquiar, a colocar uma mesa de chá e a como se comportar na mesa, sorrindo, à espera do príncipe encantado? O que é vendido é um estilo de vida a ser almejado e um modelo idealizado de beleza, família e comportamento para essas aspirantes a princesas. 
Mas será que essas meninas de hoje serão mulheres felizes amanhã? E escola não deveria ser espaço de exercício de cidadania e socialização? O que ensina de fato uma escola de princesas? Deixo aqui essa reflexão.
P.S.: Eu, Lolinha, não posso me furtar a terminar este post sem um cartum que me foi enviado esses dias. Menção especial para a pichação na parede sobre o tamanho do cetro dos monarcas. 

sexta-feira, 26 de julho de 2013

GUEST POST: CLARISSES DE CARNE E OSSO

No começo da semana, durante a visita do Papa ao Palácio Guanabara, um grupo fez protesto contra o preconceituoso "Kit Peregrino". No meio do beijaço, um casal de mulheres sem camisa se beijou. Imagine a fúria dos reaças diante desse sacrilégio! 
Por falar em sacrilégio, amanhã, não se esqueça, é a Marcha das Vadias do Rio, que vai reagir contra a onda conservadora, exacerbada ainda mais com a visita do Papa (e, só pra lembrar, dia 3/8 participarei da de João Pessoa).
A B. Henriques, uma carioca que só tem 20 aninhos, me enviou este texto brilhante, que orgulhosamente publico aqui.

A foto acima foi postada segunda à noite pelo jornal O Globo na sua edição online. Só um prazer sadomasoquista justifica abrir a página de comentários, mas fui em frente. Desde um “Combatendo intolerância com mais intolerância” até o típico slut-shaming (“Depois querem ser tratadas com respeito”). Pior é saber que essas ideias muitas vezes saem até de grupos que se identificam como progressistas, muitos deles inclusive simpatizantes do movimento LGBT.
Colocando de lado se você acha certo ou não o que a foto representa, é claro pra qualquer um que a quebra de paradigmas sociais dela está em três fatos: 1) o beijo entre duas pessoas do mesmo gênero, que vai contra o ideal heteronormativo que rege nossa sociedade; 
2) os torsos nus das duas moças, contrariando valores patriarcais, e 3) o fato de elas estarem em frente a uma igreja, instituição que, por tradição, é homofóbica e machista (valendo frisar que eu estou atribuindo isso à Igreja enquanto instituição e não como verdade absoluta entre todos os fiéis. Afinal, uma generalização simplória dessa estaria ignorando grupos importantíssimos como o Católicas Pelo Direito de Escolher ou os milhares de fiéis que claramente se opõem a esses valores que excluem grupos historicamente marginalizados).
Considerando então o beijo da foto de forma isolada, o que há de errado num beijo? Fosse um casal heterossexual, seria nada mais do que a expressão de duas pessoas que estão envolvidas de forma mais do que platônica (mesmo que a moça nunca tivesse consentido com o beijo, como esta do lado). Um beijo entre um casal heterossexual na mentalidade social é completamente normal; mais do que isso, é esperado que aconteça. 
Fosse um beijo entre dois homens homossexuais, no entanto, as reações seriam diversas, desde o ódio manifestado em forma de violência, colocando-os em risco, a opiniões como “Ah, respeito a escolha deles, mas precisa ficar se expondo?” (o que, ainda que alguns tentem negar, é homofobia sim). 
No caso da foto do Globo, há o adendo de que a relação entre duas mulheres é fetichizada, primariamente, por homens e, consequentemente, vista como algo inerentemente sexual, obsceno.
Pare e pense quantas vezes você já ouviu alguém dizer, pra se mostrar muito liberal e transgressor, ao defender os direitos LGBT: “Ah, deixa os caras darem o c* em paz!”. Ou então um homem dizer de forma lasciva: “Pô, adoro lésbica!”. Enquanto um ignora a presença de mulheres na comunidade gay, o outro objetifica a sexualidade de todo um grupo, desprovendo-a de toda a complexidade inerente a qualquer envolvimento romântico e reduzindo-o a uma fantasia existente para satisfazer o male gaze. 
E é exatamente essa mentalidade que permite alguns a encararem a relação entre duas mulheres como um produto pornográfico, levando-os a categorizar a foto como desnecessária. Considerando os valores sociais com que somos bombardeados, é muito tentador seguir essa linha de raciocínio e dizer que talvez elas tenham passado dos limites. No entanto, porque nós insistimos em encarar a sexualidade de um determinado grupo como pertencente à esfera pública? 
A sexualidade de qualquer pessoa diz respeito a ela e somente ela, é a forma como ela expressa sua individualidade, seu direito de envolver-se (de forma consensual) com quem ela sente-se atraída, e não com quem a sociedade julga ser apropriado. O ato que essas moças se fizeram não tem poder de impedir todo um outro grupo de manifestar suas individualidades, de marginalizá-los. O beijo delas não força ninguém a esconder sua identidade, não tem poder de ameaçar a integridade física de um indivíduo ou de tirar vidas. A homofobia tem. 
Logo, o que elas fizeram nunca poderá ser equiparado -– como a pessoa que disse “combatendo intolerância com mais intolerância” sugeriu -- às ações de instituições que insistem em não reconhecer relações homossexuais, pois a ação dessas duas meninas não tem poder de oprimir e deslegitimar o grupo que as oprime.
Mudando o foco do beijo da foto para a nudez parcial apresentada pelas meninas, caímos numa discussão semelhante à anterior. O porquê de muitos terem se sentido afrontados com a imagem das duas está intimamente ligado à ambivalência com que a sociedade encara a figura feminina. 
É impossível passar um dia sem ser lembrado que o corpo feminino é uma mercadoria farta e está à venda. Propagandas de cerveja não estariam completas sem uma modelo de seios fartos para completar o produto, e o que seria da indústria automobilística sem suas propagandas que equivalem o valor de uma mulher ao de um carro, ambos posse de um homem? 
Os exemplos são abundantes, mas um acontecimento de alguns dias atrás diz muito sobre essa questão. Na matéria, um escultor de areia “troca” o fio dental de suas esculturas por uma saia em respeito ao Papa que vem dar-lhes a benção, pois aparentemente nossa anatomia -– mesmo que seja na forma de bonecas de areia expostas na praia -– é uma ofensa tão grande a Vossa Santidade que supera a ofensa a todo um gênero de ter seu corpo transformado em coisa pública, um mero elemento da paisagem, que está a mercê de homens de vesti-los e despi-los como lhes convêm. 
Talvez rapazes que falam que lésbicas são sexy ou os que acreditam que cantada de rua é elogio possam não entender, mas objetificação não é respeito, é uma forma -– consciente ou não –- de exercer poder ao reafirmar o status quo, diminuindo a realidade de todo um gênero a um mero fantoche sexual. É reafirmar um sistema de valores que aliena a agência de uma mulher sobre seu corpo e apropria-se dele para o prazer visual de um terceiro.
Daí, quando esse brinquedo sexual resolve tomar de volta em suas mãos como ela quer dispor de seu próprio corpo -- como as duas meninas da foto fizeram e como tantas outras moças já fazem há anos na Marcha das Vadias -- a opinião pública as acusa de vulgares, afinal seus corpos -– que não são propriedade delas e sim uma comodidade -– nada mais são do que obscenos. 
Obsceno é viver com pessoas que não enxergam que encarar a sexualidade e corpo de uma mulher como ofensa pessoal é a mesma mentalidade que permite casos de “estupro correcional”. Obsceno é ser representada por um homem que prioriza a imagem de sua cidade no exterior em detrimento da saúde mental e física de moradoras de comunidades marginalizadas. Obsceno é ser representada por ainda outro homem que reduz a individualidade de uma mulher ao seu poder de reprodução e que quer tornar os direitos dela inferiores ao de um embrião. 
Obsceno é viver num país onde se fala em liberdade de expressão para defender um "humorista" que perpetua a cultura de estupro ao trivializar a experiência traumática de milhares de mulheres, enquanto duas jovens exercendo seu direito de manifestação são recebidas com escárnio. Obsceno é o mesmo sistema que desdenha e faz notícia de duas moças que mostram ter controle sobre seus corpos permitir jovens a serem aliciadas desde a adolescência a se desprivarem de seus corpos e identidades ao transformá-los em mercadoria para turista. 
Obsceno é o sexismo, não o corpo feminino. Meu corpo não é obsceno, meu corpo não é pro seu prazer ou pros seus olhos, meu corpo não é para o Papa abençoar ou a sociedade controlar. Meu corpo é pra ser respeitado e visto como autônomo. Esteja ele de saia ou fio dental.
Quando as duas moças da foto escolheram essa forma de protestar, elas estavam cientes da atenção que ia recair sobre elas. Sabiam que iam chocar, que seriam massivamente criticadas. Mas, desculpe-me te tirar da sua bolha, ser mulher numa sociedade patriarcal é isso. Emprestando desse texto, é ser, desde o despertar da sua maturidade sexual, vilificada como “puta” por exercer seu direito de dizer “sim” e taxada de “santa” por exercer seu direito de dizer “não”. 
Talvez essas moças, como tantas outras, sejam Clarisses de carne e osso que já estão cansadas de serem vilipendiadas, incompreendidas e descartadas e resolveram libertar-se de suas próprias gaiolas, desafiando valores arcaicos e seus defensores. Talvez elas já estejam cansadas de ter sua privacidade invadida diariamente por homofobia e machismo disfarçados de moralidade pela sociedade, e o beijo seja o grito delas de “Basta!”, e não uma ofensa. O ato apenas representa duas meninas reclamando sua sexualidade e seus corpos, o que de direito é delas, e não propriedade pública, como somos ensinadxs a acreditar.