domingo, 26 de agosto de 2012

SIGA A DICA DA LOLA BICHO E COMPRE O LIVRO DA LOLA HUMANA

     A mão da Fran, de Londrina, segura livro pra sua cachorrinha Lola ler

Anunciar funciona! Graças à propaganda do domingo passado, consegui vender dez livros esta semana. Espero que vcs repitam a dose.
No post sobre a possível não morte da Niemi, mais de um comentarista perguntou se talvez ela não tivesse inventado sua morte pra não ter que revelar sua identidade real através da conta bancária, ou, pior, como eu exijo foto de quem compra posando com o livro, ela teria que se expor demais. Ha ha, vcs são criativos! Eu não iria correr atrás da Niemi se ela não comprasse o livro, e só manda fotinho quem quer. Enfim, ninguém precisa se matar pra não comprar meu livro. Mas é certeza absoluta que ter uma dedicatória carinhosa escrita por mim prolonga a vida em cinco anos, segundo o Instituto Lolinha de Pesquisas Científicas Seríssimas.
Então vamos a mais algumas pessoas satisfeitas que compraram o elixir da juventude meu livrinho:

Da Joana, uma quase psicóloga de Curitiba: “Nem sempre eu concordo com a sua opinião nas crônicas. Mas isso que eu gosto, porque as crônicas são escritas de uma maneira tão sua, que não vemos necessidade em concordar. Afinal são crônicas, e não críticas técnicas, não é mesmo?! Você não escreve como se aquilo fosse A Verdade, A Avaliação Final. É sempre muito claro que aquele é o seu ponto de vista, e que nós podemos ter o nosso. E na maioria das vezes percebi até que há o cuidado de procurar um ponto positivo, mesmo que 90% da crônica trate de como você odiou o filme... hehehehe”. 

Jordânia, que conheci pessoalmente em Jacobina, BA: “Comecei ontem e quase não consigo mais largá-lo. Estou gostando muito. Ele é leve, divertido e promove reflexões interessantes. Eu também sou apaixonada por cinema e observar alguns dos filmes que você resenhou através dos seus comentários tem sido, desde ontem, ainda mais interessante (já acompanho o blog, então pra mim o 'jeitinho' Lola já não é novidade, mas agora é como ter a Lola entre os dedos e poder virar as páginas). Já tem um monte de filmes que quero rever e um outro tanto que tenho que ver -– essa tarde vi Filhos da Esperança e gostei muito”.  

De Nelson Alves, professor universitário em SP, em foto tirada por sua filha de 4 anos. “A Lola tem o incrível dom de fazer com que nós, seus leitores, nos apaixonemos perdidamente pelos filmes que ela gostou. E consegue nos fazer rir daqueles filmes que um dia tivemos a infelicidade de assistir também.”

Por favor, comprem o livro, que ainda tenho dezenas pra vender.
Hoje à tarde vou pra Campinas, onde ficarei até terça. Pessoas queridas dessa bela cidade, vão assistir minhas palestras, se puderem. Serão diferentes e de graça. Ambas amanhã, 27/8.
A primeira será na Faculdade de Educação da Unicamp, às 14 horas, e se chama “Educação: uma Questão de Gênero”.
A segunda é “Coisa de menino e coisa de menina: machismo e homofobia”, na Escola Estadual Celeste Pallandi de Melo, às 19 horas.
Levarei uns cinco livros caso alguém queira comprar algum, mas é mais fácil eu me inspirar quando a pessoa me diz algo sobre ela, e quando eu tenho tempo de escrever (o que geralmente não acontece ao vivo). E os livros todos que mandei essa semana chegaram tão rapidinho... Não fique fora dessa, vai.

sábado, 25 de agosto de 2012

GUEST POST: CONCURSOS DE MISS E UM PADRÃO QUE TENDE AO RACISMO

Só um país racista pra não achar essas mulheres deslumbrantes

Robson, além de ser o autor do blog Consciência, também é jornalista da ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais, e diretor do conselho de mídia da Liga Humanista Secular do Brasil. Ele é um constante colaborador de guest posts aqui no blog, já tendo escrito sobre o uso genérico da palavra homem, ateísmo, ateofobia, e direitos animais.

Vi circulando no Facebook, através de uma fanpage de orgulho nordestino, recentemente, as fotos das misses dos nove Estados do Nordeste. Como é regra oficiosa em concursos de miss no Brasil, nenhuma negra ou mulata foi eleita miss no Nordeste. Todas branquinhas, com leves diferenças de bronzeamento da pele. Também estão praticamente ausentes traços físicos de descendência indígena. Nem a Bahia, o Estado mais negro do Brasil, elegeu uma negra ou parda como miss.
Já em São Paulo, apenas duas negras, das cidades de Cordeirópolis e Santo André, figuravam entre as 30 finalistas no concurso de Miss São Paulo 2012, cuja final foi no sábado 11/08. E como era de se esperar, uma branca, da cidade de Jaú, foi a eleita.
Mais atrás este ano, em maio, o concurso Gata do Paulistão 2012, em referência a quem seria a grande musa do Campeonato Paulista 2012, também excluiu as negras do quadro de finalistas. Todas eram brancas, e metade era de loiras, numa absurda desproporção em relação à distribuição populacional de brancas loiras, brancas morenas, brancas ruivas, pardas e negras. E, no ano passado, o Miss Brasil 2011 também foi marcado pela exclusão racial vigente no padrão de beleza feminino hegemônico no Brasil: também só teve brancas entre as concorrentes. Nenhuma negra ou mulata havia sido eleita miss estadual naquele ano. 
Penso que Leila Lopes, a angolana que foi eleita Miss Universo 2011, sequer teria sido eleita miss estadual se fosse natural e habitante do Brasil. Ela teria tido sérias dificuldades em ao menos ser finalista num concurso estadual de miss, tal como a Miss Santo André 2012 e a Miss Cordeirópolis 2012.
Eu pessoalmente não espero que vá haver mais que duas pardas ou negras entre as candidatas a Miss Brasil em todo o país. Isso se sequer houver alguma moça de pele escura no páreo.
Fica patente assim o viés racista, que supervaloriza as brancas e exclui quase totalmente as negras e mulatas, do padrão de beleza hegemônico no Brasil. Brancas magras de olhos claros (azuis, verdes ou castanhos-mel), especialmente loiras, e de nariz afilado são o nosso default de mulher bonita. Considerar bonita alguma negra, ainda mais de olhos escuros (pretos ou castanhos-escuros), é exceção -– se tem fenótipo facial africano então, ser considerada bonita é muito difícil. Já com pardas/mulatas, a situação é variada na preferência individual de beleza, mas as pardas claras, principalmente se têm traços faciais europeus, prevalecem perante as pardas escuras.
As pessoas, incluindo outras mulheres, dizem: "Ah mas isso é questão de gosto pessoal"; "Eu sinceramente prefiro as brancas, mas não nego que tem muita negra linda por aí"; "Você está me chamando de racista porque eu prefiro pessoalmente as brancas de traços faciais 'finos' às negras de traços faciais 'grossos'?". Mas não percebem que seu gosto pessoal é "coincidentemente" o mesmíssimo gosto de outras dezenas de milhões de brasileiros. Talvez da grande maioria dos quase 200 milhões de brasileiros. 
Não param para pensar como seu gosto por beleza feminina foi acostumado pela publicidade, que praticamente só mostra brancas e brancos e apenas muito raramente exibe negras(os) e mulatas(os), e pelas novelas, que supervalorizam a participação dos brancos e relega os negros ao status de pequena minoria numérica, muitas vezes estereotipada como pobres, trabalhadores de funções subalternas -- como garçom e empregada doméstica -- e/ou mesmo bandidos. Não notam que negros que sobressaem na fama são contados nas mãos, como Taís Araújo, Lázaro Ramos, Milton Gonçalves e o já falecido Norton Nascimento, enquanto brancos sobressalentes e bonitões/bonitonas existem aos milhares e são lançados ao status de celebridade da teledramaturgia às dezenas ou centenas a cada ano. Nem se dão conta como a maioria das negras, incluídas mulatas, que acham bonitas têm poucos traços faciais remanescentes das suas origens africanas.
No mais, nós brasileiros, eu incluído, fomos acostumados desde sempre a achar a pele clara, as feições europeias e o cabelo liso potencializadores da beleza feminina, e a pele escura, os fenótipos faciais africanos e o cabelo crespo fatores negativos, que diminuem a beleza da mulher. Isso através da propaganda empresarial, das já descritas novelas e dos próprios concursos de beleza. Por mais que não defendamos a inferioridade dos negros, acabamos sendo orientados a ter um padrão de beleza que exclui a negritude física e supervaloriza os padrões euro-caucasianos. Ou seja, nosso padrão de beleza tende ao racismo. Para o brasileiro médio, a beleza descendente da África é inferior à beleza que descende da Europa, por mais que tentemos negar isso.
Preterir a beleza negra em prol da branca por esse viés é ajudar, mesmo inconscientemente, a perpetuar a desigualdade entre brancos e negros/pardos -– desigualdade essa que não é só socioeconômica, mas também cultural e estética. Isso precisa mudar, começando a partir do surgimento de iniciativas de incentivo de peso, seja privado, seja via terceiro setor, seja público, da valorização da estética da beleza negra. Não é que essas campanhas tentem "ditar" o que "devemos" considerar um padrão de beleza bonito, mas sim que nós sejamos acostumados a também valorizar a beleza negra. Que consideremos brancas, negras e pardas possuidoras de padrões de beleza igualmente aprazíveis.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

MINHA IMPRESSÃO: NIEMI VIVE

Ok, gente. Eu acho que a Niemi está viva. Cheguei a esta conclusão ontem de madrugada, quando uma comentarista querida disse que no flogão da Lay gótica há um link para o orkut da Layanne. Layanne é a moça que usa a mesma foto no perfil que Niemi usava. Não fui atrás de nada disso, não tenho os links, nem sei o que é flogão, não investiguei o orkut nem o blog de Layanne, mas, se era difícil crer que ela e Niemi fossem a mesma pessoa, por não terem nada em comum, agora, com essa conexão gótica, a ligação fica mais forte. (Atenção: Layanne me enviou um email e negou qualquer envolvimento). Mas a questão é que fui juntar alguns emails da Niemi pra enviar pra essa comentarista e, nessa curta compilação, fiquei com toda a impressão que Niemi vive.
Não vou resumir tudo o que aconteceu, porque nem era minha vontade fazer um post. Só estou fazendo porque há muita gente (como eu) bastante perturbada com essa história toda. Quem quiser pode ler os comentários (a partir de 15/8) no outro post, e ver como primeiro houve desconfianças acerca da doença e eventual morte de Niemi, depois concluiu-se que não existia uma Niemi com aquele nome, depois notou-se que a foto que Niemi usava pertencia a outra pessoa.
O que aconteceu, e eu ainda não havia contado pra ninguém fora essa comentarista, minha mãe, e o maridão (que não está nem um pouco interessado), é que, faz uma semana, recebi um email da Niemi. Calma, não era um email assinado por ela, mas um que veio do email dela, considerando desrespeitoso que duvidassem da sua morte. Estupefata, eu respondi o email na hora, querendo saber por que a pessoa (que não havia se identificado) estava se comunicando comigo por meio do endereço de uma pessoa morta! Ela respondeu: “Lola, desculpa mil perdões, sou a pessoa que ela confiou a senha eu ia te mandar do meu email particular mas acabei mandando do dela. vc por favor me perdoa?” Eu não falei nada mas achei o cúmulo: por que aquela pessoa (que eu nem sabia quem era) estaria usando o email de Niemi?
Só que ontem, depois de ver a certeza dessa comentarista de confiança, eu fui comparar os emails. Certo, eu deveria ter comparado antes, mas tenho essa mania de acreditar nas pessoas, e crer em pessoas agressivas que já chegam com pedras na mão é diferente de crer na comentarista de confiança, que havia se comunicado com ela (ninguém se manifestou dizendo ter conhecido Niemi pessoalmente).  
Analisando outros quatro emails que havia recebido da Niemi em meses recentes, vi que o estilo era o mesmo. Neste que alguém me enviou “sem querer”, uma semana depois de sua morte, e nos de meses anteriores, aparecia o “Lolíssima” (ela não é a única a me chamar assim, mas...), e, principalmente, uma forma estranha de pontuação, incluindo uma vírgula antes do parêntesis –- por exemplo: "lésbica, (lembra que te contei?)" e "deles, (atacando de psicóloga)”. Também passei a achar melodramático demais o “vc me perdoa?” vindo de alguém que tivesse meramente se enganado de email.
Ontem enviei um email para essa suposta pessoa (pelo email normal dela, não pelo de Niemi), que a comentarista de confiança desconfiava quem era, e também desconfiava que poderia ser outro fake de Niemi. Hoje essa pessoa me respondeu, dizendo que Niemi havia deixado a senha com ela porque sua mãe não entendia nada de internet... mas também usando a pontuação errada que eu havia notado nos outros emails.
Então é isso. Depois de todas essas suspeitas, digo que Niemi está viva. Não sei se ela é a Layanne, não sei se toda a história da Finlândia ou da doença era mentira. Por um lado estou muito feliz, lógico, porque não queria que ninguém morresse aos 26 anos. Por outro, sinto-me enganada sem entender porquê. Certo, Niemi sofreu perseguição e ameaças de trolls. Certo, talvez Layanne seja Niemi e, agora que está casando, ela queira começar sem sombras (não é: Layanne nega, e não temos motivos pra duvidar disso). Mas Niemi poderia ter anunciado que estaria deletando seu perfil pra sempre, em vez de dizer que morreu como a pessoa de verdade que todos acreditávamos que fosse. Tudo foi muito desnecessário. Ou pelo menos assim parece pra mim, que sou uma pessoa que se expõe totalmente na internet, que não tem segredos.
Não quero nenhuma caça às bruxas. Não me importo em saber sua identidade real. Niemi deve ter tido seus motivos pra fazer o que fez -– algo que, aliás, não é nada raro na internet (a partir de agora, só acredito na morte de alguém que só conheço pela internet após ver obituário). O que vale, pra mim, é que, com sua identidade de Niemi, ela foi importante pra muita gente. E espero me lembrar dela dessa maneira.

TODOS NÓS VIVEMOS NUMA CULTURA DE ESTUPRO

Mês passado um comediante americano de stand up chamado Daniel Tosh conseguiu talvez superar a piada do Rafinha. Tosh, durante sua rotina, contava piadas de estupro e dizia como essas piadas de estupro são sempre divertidas. Foi interrompido por uma espectadora, que gritou: “Na verdade, piadas de estupro nunca são engraçadas!”. Tosh pausou e, em seguida, disse: “Não seria engraçado se essa garota fosse estuprada por uns cinco caras agora mesmo? Tipo, agora mesmo? E se um bando de caras a estuprasse?” A moça saiu de lá rápido, apavorada, enquanto o público inteiro ria e olhava pra ela. Como você pode imaginar, o negócio repercutiu. Foi um escândalo.
Outro comediante de stand up, Louis CK –- este, alguém que eu e muita gente de esquerda admira -–, se queimou porque, no meio da crise envolvendo Tosh, mandou um tweet falando pro cara como gosta do show dele. De acordo com Louis CK, ele, CK, estava viajando e não sabia da crise. Só que ele foi ao programa do Jon Stewart se explicar e falou mais um monte de besteiras (tipo: que comediantes e feministas são inimigos naturais, que feministas não têm senso de humor etc). Ele também disse que leu algumas coisas em blogs que ele não sabia, como que a ameaça de estupro policia a vida de uma mulher.
Aí a gente fica pensando: sério? Um cara considerado progressista, com 44 anos nas costas e duas filhas, nunca havia pensado nisso? E a primeira resposta que eu arrisco é: pois é, homens não sabem que estupro é um problema seríssimo pras mulheres e uma ameaça constante, que afeta cotidianamente nossas vidas. Homens não sabem que vivem dentro de uma cultura de estupro (já expliquei por que vivemos numa cultura de estupro. Um exemplo interessante que veio à tona é que a foto mais celebrada sobre o fim da Segunda Guerra foi, na realidade, um beijo roubado. O marinheiro estava em NY com sua futura esposa ao lado e decidiu pegar uma enfermeira à força).
Mas Melissa McEwan, principal autora do importante blog Shakesville, e sobrevivente de um estupro, tem outra opinião. Uma opinião muito convincente, que decidi traduzir:

“Se esses homens não percebem a cultura de estupro, então como é que virtualmente todos eles conhecem seus padrões e narrativas? Como é que virtualmente todo homem, quando chega à puberdade, é capaz de culpar a vítima, armado com um arsenal inteiro de estereótipos e normas da cultura de estupro? Como é que eles estão todos tão perfeitamente versados na linguagem da cultura do estupro que credita as mulheres a 'dizer que foram estupradas', em vez de denunciar/noticiar o estupro? Como é que já ouvi meninos conversando acerca de como as mulheres mentem sobre estupro? E como é que tantos homens cis [que são identificados como homens, ao contrário de homens trans*] héteros privilegiados reclamam de serem vistos ou 'terem feitos se sentir como estupradores' por mulheres que apressam o passo ou os olham preocupadamente num lugar deserto?
Para pessoas que nunca percebem a cultura de estupro, elas definitivamente têm um vasto conhecimento de como as coisas funcionam.
E o que dizer dos 4% dos homens que são estupradores em série? Você acha que até aquele um em cada 25 homens que estuprou várias pessoas nunca percebeu a cultura de estupro?
[…] A maioria dos homens já passou pela experiência de ver uma mulher sozinha andar mais rápido por ele estar atrás dela. Alguns homens usam isso como oportunidade para empatizar com a mulher. E alguns usam isso como oportunidade de ficar bravo com ela por ela 'estar me tratando como um estuprador'.
Todos nós vivemos numa cultura de estupro. A todos nós são dadas oportunidades de perceber essa cultura.
Que nós somos condicionados a simpatizar com os vários fornecedores de desprezo pelo consentimento, ao invés de simpatizarmos com os alvos principais e sobreviventes, é outro truque da cultura de estupro que se auto-perpetua. Mas falta de empatia não é falta de percepção.
Não é que homens cis héteros privilegiados que nunca foram vitimizados por violência sexual não pensem sobre cultura de estupro. É que eles não pensam sobre isso sob a perspectiva da vítima em potencial.
E estou realmente exausta de ter que fingir que isso é a mesma coisa”.

Concordo com Melissa. Homens conhecem a cultura de estupro. E já passou da hora de enxergarem estupro com outros olhos, sob outro ângulo. Não como pretexto para fazer piadinhas "inofensivas". Se não por empatia às mulheres, pelo menos por constatar que viver numa cultura de estupro é péssimo pra eles também. Ou é bom que as mulheres tenham medo de você?
Amanhã, em várias cidades, acontecerá a Marcha Contra a Mídia Machista, uma mídia que fomenta a cultura de estupro. Saia às ruas para protestar.
Já é hoje! Vão à Marcha. Poster feito pelo Malone.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"TENHO 22 ANOS E SOU VIRGEM. SOU NORMAL?"

A T. me fez uma pergunta por email, que eu respondo abaixo.

"Acompanho seu blog há algum tempo e aprecio muito seus textos. Parabéns mesmo pelas postagens. Não me considero feminista, mas seus textos são universais. E agora que já fiz a média vou fazer o pedido.                     
Gostaria de pedir um post sobre o vício cada vez maior das pessoas por sexo, a dependência que a sociedade está criando em relação a ele, e como uma coisa que era para ser boa e prazerosa virou uma obrigação. Já li textos seus sobre dúvidas de outras pessoas e foram sempre sensatos e certeiros, então talvez você possa me fazer enxergar um novo ângulo da coisa.
Tenho 22 anos e sou o tipo de pessoa introspectiva, note bem que eu disse introspectiva, não tímida. Apesar de ter bons relacionamentos com as pessoas em geral, quando se trata de relacionamentos amorosos não consigo e não quero partir para uma coisa mais íntima logo de cara, e o resultado disso é que nunca me relacionei.
Uma vez em um dos meus empregos, quando eu tinha entre 19 ou 20 anos, num papo qualquer, meu chefe perguntou algo sobre meus ex-namorados e um amigo, que sabe sobre minha “movimentada” vida afetiva, olhou para ele e disse: ex-namorados? Então meu chefe começou a rir e soltou a pérola: Sim, ou você quer me convencer que nessa idade ela só teve um? Lembro-me de ter começado a rir e pensado que é meio estúpido como as experiências são agora avaliadas não mais pela importância, mas sim pela quantidade, e que as pessoas estão se transformando em relógios gigantes em que tudo tem tempo e data marcada.
Sou muito anormal ou isso é mesmo doentio? O pior é quando descobrem sobre esse “segredo terrível”, como se experiência sexual fizesse parte do seu currículo social. É deprimente a forma como a sociedade olha, como se eu fosse infantil, estranha, anormal, retrógrada ou manipulada por alguma religião. Não é ridículo eu ter que brigar pelo direito de não fazer sexo? É tão estranho assim considerar um relacionamento saudável quando ele se constrói através do conhecimento do parceiro, da amizade e do afeto ao invés da pura e simples atração?
Não se trata de um comportamento assexuado, não estou menosprezando o poder do sexo, entendo e aprecio sua importância, mas tenho a impressão de que cada vez mais os relacionamentos entre as pessoas estão girando quase que exclusivamente em torno dele.
E então, Lola, o que faço? Trepo com qualquer um e tento me normalizar abrindo mão da minha liberdade sexual e tornando possível que alguém se interesse o suficiente para me conhecer? Ou mando todo mundo tomar no ** e sigo sozinha? (Desculpa o palavreado elevado...)
Gostaria de deixar claro que não tenho nenhum problema de autoestima e nem com minha aparência, adoooro meu corpo, apesar de brigar com ele de vez em quando.
Sou ateia, ou seja, meu comportamento não é um condicionamento religioso, e por último não acredito em amor perfeito e exatamente daí vem minha frustração, as pessoas falam de realismo nos relacionamentos, mas não têm paciência para construir um a não ser que seja tudo rápido e prático. Talvez eu é que seja estranha por funcionar em uma marcha lenta bizarra, mas é pedir demais querer conhecer a pessoa antes de enfiar a minha língua nela? Essa última frase tem vários sentidos e acho que quero dizê-la em todos eles...
O engraçado é que nesse ponto os homens sofrem mais, afinal mulher virgem no máximo é baranga ou dependendo do caso um fetiche (não sei o que é pior), mas homem virgem é incapaz, bicha, fraco, não gosta de mulher. A cobrança é muito pior para eles (culpa da sociedade machista?).
Acredito que, desde que não interfira no direito de outrem, as pessoas devem fazer o que se sentem bem fazendo e serem livres para isso. Não tenho absolutamente nenhum problema com quem consegue viver tranquilamente nesse padrão “físico”, não estou dizendo que ele é errado e nem o menosprezando, até porque NINGUÉM é dono da verdade, mas que eu sofro por não me adequar a ele eu sofro, e muito..."

Minha resposta: Querida, é incrível como as pessoas insistem que todos se enquadrem no que é considerado normal, não? E o "normal", o padrão, pras mulheres, é que façamos um sexo fantástico e cheio de contorcionismos e com mil orgasmos múltiplos (menos que isso somos recatadas e mal-amadas), mas, ao mesmo tempo, com pouquíssimos parceiros, porque mais de três são suficientes pra sermos vistas como promíscuas.
Portanto, por esse lado, não sei se ser homem é pior, já que homem não tem que encontrar esse equilíbrio entre não ser santinha demais nem ser p*ta demais. O que a sociedade como um todo espera do homem é que ele faça sexo (heterossexual, lógico!) pela primeira vez cada vez mais cedo e que seja muito experiente. E sim, isso é machismo, e é péssimo pros meninos.
várias pesquisas sobre a idade média em que garotos e garotas têm sua primeira relação sexual. Geralmente, no Brasil, é próximo a 16 anos pra meninos e 18 pra meninas. Mas a noção que as pessoas têm, baseada na pressão de amig@s, é que é muito mais cedo. Só sei dizer que, sempre que pegunto pra um homem sobre sua primeira vez, ele diz que não lembra. É uma amnésia coletiva! Não lembra quando foi nem com quem foi nem como foi! E as mulheres sempre lembram (e é bem raro uma mulher ter gostado da sua primeira vez. Só em 50 Tons de Cinza mesmo). 
Só pra mostrar que o que a gente pensa da realidade pode ser diferente da realidade em si, uma pesquisa de 2011 da Playboy americana com 8 mil leitores e 2 mil leitoras revelou que 40% do pessoal entre 18 e 24 anos é virgem. Mas aí a mídia fica lançando mil e um filmes sobre a tragédia que é prum menino de 15 anos ainda ser virgem. E as pessoas acreditam que é completamente anormal alguém de 20 anos não ter experiência sexual.
Vc ficaria surpresa se soubesse quanta gente é virgem aos 20, 25, 30, 35 anos! Tanto homem quanto mulher. O pessoal fica chocado ao ler que o líder comunista Luís Carlos Prestes só transou pela primeira vez, com sua amada Olga, quando ele já tinha 37 anos. Mas pra ele aquilo não foi problema. Ele estava mais preocupado com outras revoluções, ué.
Enfim, você não está tão longe da média que as pesquisas indicam. Mas ninguém precisa seguir a média pra coisa nenhuma. Ninguém tem nada que fiscalizar a sua vida. Você só deve transar quando quiser, quando sentir vontade, com quem quiser, desde que haja consentimento. E, óbvio, lembrando sempre de usar ou pedir pra usar camisinha, desde a primeira vez. isso não é negociável!
O único ponto negativo que eu vejo pra começar a fazer sexo mais tarde é que sexo é muito gostoso, e por que ficar adiando iniciar algo que é gostoso? Ok, porque a pessoa é tímida, ou porque ainda não conheceu alguém instigante, ou porque não se sente confortável. Motivos também não faltam.
Um motivo pode ser esse que vc citou no seu email, de às vezes sentir-se assexuada. Existem pessoas assim, que não se interessam ou não gostam de sexo ou querem ter relacionamentos sem sexo. Às vezes é só uma fase, às vezes não. Existem casamentos sem sexo, e se as pessoas envolvidas estiverem de acordo, qual o problema? Há quem defenda a assexualidade como uma forma de orientação sexual, há comunidades de assexuais, e até camisetas -- embora uma camiseta escrito "Assexualidade. Não é mais só pra amebas", a meu ver, não é muito benéfica à causa. Mas as pessoas são diferentes, têm suas individualidades, e não devemos ficar julgando. (E dá pra ver que eu não entendo de assexualidade, né? Se alguém quiser me enviar um guest post sobre o assunto, agradeço).
Mas acho que vc é muito nova pra saber se não tem interesse por uma coisa que ainda nem experimentou. Então não se preocupe se vc é normal ou anormal. Seja apenas você. Mas se me perguntassem do que mais me arrependo, se das coisas que fiz ou das coisas que deixei de fazer, eu sem dúvida responderia a segunda opção.