Bastante gente me pediu pra falar sobre as declarações que Valesca Popozuda deu recentemente, enquanto posava para um ensaio. Então vamulá. Antes quero deixar transparente minha abismal ignorância musical (amo Chico e Beatles, praticamente só isso).
Estou ciente que é preconceito de classe disfarçado de gosto pessoal, mas não gosto do tipo de música que Valesca faz. Nem tenho muita certeza que “tipo de música” é esse, porque não entendo quase nada de música. Isso é funk, certo? E sim, existe um preconceito enorme da classe média contra produtos culturais que não são feitos pra ela. Não vamos fingir que não existe e que só não gostamos das músicas por causa do ritmo ou da letra. Tem um classismo grande nessa avaliação. Desclassificar outras músicas e culturas e apelar pro "é meu gosto pessoal" não limpa a nossa barra.
Nunca vi nenhum vídeo da Valesca, mas outro dia li uma letra transcrita, e achei pornô. Chama-se “Mama”, em parceria com Mr. Catra. Nela, Valesca diz que “quando a p*roca tem dona é que vem a vontade de f*der”, e Catra responde que no harém dele “tem mais de cem, mas você foi a única que se ligou que uma mamada e um copo d'água não se nega a ninguém”. Não acho muito empoderador pra uma mulher fazer parte de um harém com mais de cem. E isso de se interessar por homem casado só reforça o clichê de que mulheres não podem ser amigas porque estarão sempre competindo entre si pela aprovação masculina. E acho também que qualquer pessoa tem o direito de negar a qualquer outra pessoa qualquer coisa que não queira fazer (pagar pensão pra filho: não incluso).
Tampouco acho empoderador ter que colocar silicone, posar nua pra revista, ou fazer qualquer outra coisa que a sociedade já espera de uma mulher. Não estou dizendo que acho necessariamente errado, apenas que não é revolucionário.
Não gosto do termo dar, porque ele sugere passividade. Que tal transar, que é um termo neutro e unissex? O homem come, a mulher dá. Argh. Em inglês não existe isso não. Também odeio termos como cachorra e piranha, que aparentemente são encorajados pelo funk (entre outros estilos musicais).
Sei que esse tipo de música (como qualquer outro) é muito ouvido por crianças e adolescentes, e isso me preocupa. Assim como não concordo que meninos pré-adolescentes aprendam sobre sexo através de filmes pornôs, não quero que crianças sejam expostas a músicas como “Mama” e afins. Eu já acho dançar na boquinha da garrafa bem sugestivo pra adultas, e absurdo para crianças. Não faz tanto tempo que tínhamos concursos na TV com meninas de cinco anos dançando na boquinha da garrafa. Desculpe, não tem nada de empoderador nisso.
Por outro lado, é ótimo que Valesca esteja promovendo um concurso para eleger uma dançarina transexual para o "Gaiola das Popozudas". Tudo que dê visibilidade positiva a um grupo tão discriminado como transexuais me parece excelente.
Entendo que Valesca possa simbolizar, pra muita gente, o controle de sua própria sexualidade. E isso é importante. A liberdade sexual da mulher é uma bandeira fundamental pro feminismo. O corpo de uma mulher é sempre, numa sociedade patriarcal, visto como um bem público (pra ser tocado e avaliado na rua), ou como propriedade privada de um homem (primeiro o pai, depois o marido). Logo, a total autonomia de uma mulher sobre seu corpo será sempre uma bandeira feminista.
Por isso, só posso aplaudir as declações dadas por Valesca na entrevista. Destaco algumas:
- “Ninguém tem que ser julgado pelo jeito que exerce sua sexualidade.”
- “Sempre fui independente, paguei minhas contas e na relação homem e mulher não é diferente. Nunca abaixei minha cabeça para homem, nem deixo mandar em mim. Também nunca deixei ninguém me encostar, nunca dei confiança e se encostar, bato também.”
- “Sonho com o dia que vão parar de rotular as mulheres de puta ou piranha por causa de sua postura de vida, por causa de um determinado trabalho, como é o meu caso. Ninguém tem que julgar ninguém por causa do seu corpo. Por que a mulher que beija dois é piranha e o cara que beija duas é garanhão?”
- “Só comecei a entender que minha música poderia ser usada como um discurso quando as próprias mulheres chegavam para mim e diziam que o que eu cantava dava força para elas fazerem o que queriam e que eu falava muitas coisas que elas tinham vontade de falar.”
Discordo apenas do que Valesca responde sobre aborto. Começar com “Pessoalmente, sou contra” é comum (eu também sou pessoalmente contra). Mas a pessoa pode ser pessoalmente contra (ou seja, não abortar se engravidar) e mesmo assim achar que sua opinião não precisa virar padrão a ser adotado por toda a humanidade. Ou seja, faltou Valesca dizer que é a favor da legalização do aborto.
Estou ciente que é preconceito de classe disfarçado de gosto pessoal, mas não gosto do tipo de música que Valesca faz. Nem tenho muita certeza que “tipo de música” é esse, porque não entendo quase nada de música. Isso é funk, certo? E sim, existe um preconceito enorme da classe média contra produtos culturais que não são feitos pra ela. Não vamos fingir que não existe e que só não gostamos das músicas por causa do ritmo ou da letra. Tem um classismo grande nessa avaliação. Desclassificar outras músicas e culturas e apelar pro "é meu gosto pessoal" não limpa a nossa barra.
Nunca vi nenhum vídeo da Valesca, mas outro dia li uma letra transcrita, e achei pornô. Chama-se “Mama”, em parceria com Mr. Catra. Nela, Valesca diz que “quando a p*roca tem dona é que vem a vontade de f*der”, e Catra responde que no harém dele “tem mais de cem, mas você foi a única que se ligou que uma mamada e um copo d'água não se nega a ninguém”. Não acho muito empoderador pra uma mulher fazer parte de um harém com mais de cem. E isso de se interessar por homem casado só reforça o clichê de que mulheres não podem ser amigas porque estarão sempre competindo entre si pela aprovação masculina. E acho também que qualquer pessoa tem o direito de negar a qualquer outra pessoa qualquer coisa que não queira fazer (pagar pensão pra filho: não incluso).
Tampouco acho empoderador ter que colocar silicone, posar nua pra revista, ou fazer qualquer outra coisa que a sociedade já espera de uma mulher. Não estou dizendo que acho necessariamente errado, apenas que não é revolucionário.
Não gosto do termo dar, porque ele sugere passividade. Que tal transar, que é um termo neutro e unissex? O homem come, a mulher dá. Argh. Em inglês não existe isso não. Também odeio termos como cachorra e piranha, que aparentemente são encorajados pelo funk (entre outros estilos musicais).
Sei que esse tipo de música (como qualquer outro) é muito ouvido por crianças e adolescentes, e isso me preocupa. Assim como não concordo que meninos pré-adolescentes aprendam sobre sexo através de filmes pornôs, não quero que crianças sejam expostas a músicas como “Mama” e afins. Eu já acho dançar na boquinha da garrafa bem sugestivo pra adultas, e absurdo para crianças. Não faz tanto tempo que tínhamos concursos na TV com meninas de cinco anos dançando na boquinha da garrafa. Desculpe, não tem nada de empoderador nisso.
Por outro lado, é ótimo que Valesca esteja promovendo um concurso para eleger uma dançarina transexual para o "Gaiola das Popozudas". Tudo que dê visibilidade positiva a um grupo tão discriminado como transexuais me parece excelente.
Entendo que Valesca possa simbolizar, pra muita gente, o controle de sua própria sexualidade. E isso é importante. A liberdade sexual da mulher é uma bandeira fundamental pro feminismo. O corpo de uma mulher é sempre, numa sociedade patriarcal, visto como um bem público (pra ser tocado e avaliado na rua), ou como propriedade privada de um homem (primeiro o pai, depois o marido). Logo, a total autonomia de uma mulher sobre seu corpo será sempre uma bandeira feminista.
Por isso, só posso aplaudir as declações dadas por Valesca na entrevista. Destaco algumas:
- “Ninguém tem que ser julgado pelo jeito que exerce sua sexualidade.”
- “Sempre fui independente, paguei minhas contas e na relação homem e mulher não é diferente. Nunca abaixei minha cabeça para homem, nem deixo mandar em mim. Também nunca deixei ninguém me encostar, nunca dei confiança e se encostar, bato também.”
- “Sonho com o dia que vão parar de rotular as mulheres de puta ou piranha por causa de sua postura de vida, por causa de um determinado trabalho, como é o meu caso. Ninguém tem que julgar ninguém por causa do seu corpo. Por que a mulher que beija dois é piranha e o cara que beija duas é garanhão?”
- “Só comecei a entender que minha música poderia ser usada como um discurso quando as próprias mulheres chegavam para mim e diziam que o que eu cantava dava força para elas fazerem o que queriam e que eu falava muitas coisas que elas tinham vontade de falar.”
Discordo apenas do que Valesca responde sobre aborto. Começar com “Pessoalmente, sou contra” é comum (eu também sou pessoalmente contra). Mas a pessoa pode ser pessoalmente contra (ou seja, não abortar se engravidar) e mesmo assim achar que sua opinião não precisa virar padrão a ser adotado por toda a humanidade. Ou seja, faltou Valesca dizer que é a favor da legalização do aborto.
Se Valesca é feminista? Bom, quem sou eu pra distribuir carteirinha de feminista (e muito menos querer confiscá-la)? No que diz respeito à liberdade sexual da mulher, essas declarações de Valesca certamente são feministas. Não sei se tudo que Valesca fez, faz e fará é feminista. Como eu disse, não conheço suas músicas nem sua vida, mas imagino que ela não fale uma coisa numa entrevista e faça outra coisa em sua carreira. Por outro lado, ela não se assume feminista.
Muitas dessas declarações de Valesca são frases que eu venho dizendo desde os meus quinze anos, quando comecei a ter vida sexual. Eu sempre exigi que meus parceiros usassem camisinha, e isso antes da Aids se tornar conhecida de toda a população. Nunca aceitei ser julgada por fazer sexo com quem eu quisesse e quando quisesse. Se os meninos podiam agir assim sem serem condenados, por que eu não poderia? Algumas coisas mudaram dos anos 80 (quando eu era adolescente) pra cá. De lá pra cá, conseguimos jogar fora o tabu da virgindade, que ainda era forte pra minha geração. Hoje só alguns malucos acham que a mulher deve se casar virgem, e aquilo de anular casamento se a mulher não fosse virgem ficou no passado. Mesmo a onda religiosa que hoje prega o celibato entre os jovens vale para meninas e meninos. Não concordo com isso (mas evito julgamentos; cada um vive como quer), acho que o melhor é experimentar bastante, mas pelo menos essa exigência religiosa pela virgindade não é feita só pra meninas.
Três décadas já se passaram desde que eu, uma menina com então 15 anos, era chamada de p*ta só por insistir em ser sexualmente livre. Hoje o julgamento moral e o padrão duplo continuam firmes pras meninas. Se Valesca ajuda a romper essa besteira de “meninas são piranhas, meninos são garanhões”, só posso ser a favor.




















































