terça-feira, 26 de junho de 2012

AS DECLARAÇÕES FEMINISTAS DE VALESCA POPOZUDA

Bastante gente me pediu pra falar sobre as declarações que Valesca Popozuda deu recentemente, enquanto posava para um ensaio. Então vamulá. Antes quero deixar transparente minha abismal ignorância musical (amo Chico e Beatles, praticamente só isso).
Estou ciente que é preconceito de classe disfarçado de gosto pessoal, mas não gosto do tipo de música que Valesca faz. Nem tenho muita certeza que “tipo de música” é esse, porque não entendo quase nada de música. Isso é funk, certo? E sim, existe um preconceito enorme da classe média contra produtos culturais que não são feitos pra ela. Não vamos fingir que não existe e que só não gostamos das músicas por causa do ritmo ou da letra. Tem um classismo grande nessa avaliação. Desclassificar outras músicas e culturas e apelar pro "é meu gosto pessoal" não limpa a nossa barra.
Nunca vi nenhum vídeo da Valesca, mas outro dia li uma letra transcrita, e achei pornô. Chama-se “Mama”, em parceria com Mr. Catra. Nela, Valesca diz que “quando a p*roca tem dona é que vem a vontade de f*der”, e Catra responde que no harém dele “tem mais de cem, mas você foi a única que se ligou que uma mamada e um copo d'água não se nega a ninguém”. Não acho muito empoderador pra uma mulher fazer parte de um harém com mais de cem. E isso de se interessar por homem casado só reforça o clichê de que mulheres não podem ser amigas porque estarão sempre competindo entre si pela aprovação masculina. E acho também que qualquer pessoa tem o direito de negar a qualquer outra pessoa qualquer coisa que não queira fazer (pagar pensão pra filho: não incluso).
Tampouco acho empoderador ter que colocar silicone, posar nua pra revista, ou fazer qualquer outra coisa que a sociedade já espera de uma mulher. Não estou dizendo que acho necessariamente errado, apenas que não é revolucionário.
Não gosto do termo dar, porque ele sugere passividade. Que tal transar, que é um termo neutro e unissex? O homem come, a mulher dá. Argh. Em inglês não existe isso não. Também odeio termos como cachorra e piranha, que aparentemente são encorajados pelo funk (entre outros estilos musicais).
Sei que esse tipo de música (como qualquer outro) é muito ouvido por crianças e adolescentes, e isso me preocupa. Assim como não concordo que meninos pré-adolescentes aprendam sobre sexo através de filmes pornôs, não quero que crianças sejam expostas a músicas como “Mama” e afins. Eu já acho dançar na boquinha da garrafa bem sugestivo pra adultas, e absurdo para crianças. Não faz tanto tempo que tínhamos concursos na TV com meninas de cinco anos dançando na boquinha da garrafa. Desculpe, não tem nada de empoderador nisso.
Por outro lado, é ótimo que Valesca esteja promovendo um concurso para eleger uma dançarina transexual para o "Gaiola das Popozudas". Tudo que dê visibilidade positiva a um grupo tão discriminado como transexuais me parece excelente.
Entendo que Valesca possa simbolizar, pra muita gente, o controle de sua própria sexualidade. E isso é importante. A liberdade sexual da mulher é uma bandeira fundamental pro feminismo. O corpo de uma mulher é sempre, numa sociedade patriarcal, visto como um bem público (pra ser tocado e avaliado na rua), ou como propriedade privada de um homem (primeiro o pai, depois o marido). Logo, a total autonomia de uma mulher sobre seu corpo será sempre uma bandeira feminista.
Por isso, só posso aplaudir as declações dadas por Valesca na entrevista. Destaco algumas:

- “Ninguém tem que ser julgado pelo jeito que exerce sua sexualidade.”
- “Sempre fui independente, paguei minhas contas e na relação homem e mulher não é diferente. Nunca abaixei minha cabeça para homem, nem deixo mandar em mim. Também nunca deixei ninguém me encostar, nunca dei confiança e se encostar, bato também.”
- “Sonho com o dia que vão parar de rotular as mulheres de puta ou piranha por causa de sua postura de vida, por causa de um determinado trabalho, como é o meu caso. Ninguém tem que julgar ninguém por causa do seu corpo. Por que a mulher que beija dois é piranha e o cara que beija duas é garanhão?”
- “Só comecei a entender que minha música poderia ser usada como um discurso quando as próprias mulheres chegavam para mim e diziam que o que eu cantava dava força para elas fazerem o que queriam e que eu falava muitas coisas que elas tinham vontade de falar.”

Discordo apenas do que Valesca responde sobre aborto. Começar com “Pessoalmente, sou contra” é comum (eu também sou pessoalmente contra). Mas a pessoa pode ser pessoalmente contra (ou seja, não abortar se engravidar) e mesmo assim achar que sua opinião não precisa virar padrão a ser adotado por toda a humanidade. Ou seja, faltou Valesca dizer que é a favor da legalização do aborto.
Se Valesca é feminista? Bom, quem sou eu pra distribuir carteirinha de feminista (e muito menos querer confiscá-la)? No que diz respeito à liberdade sexual da mulher, essas declarações de Valesca certamente são feministas. Não sei se tudo que Valesca fez, faz e fará é feminista. Como eu disse, não conheço suas músicas nem sua vida, mas imagino que ela não fale uma coisa numa entrevista e faça outra coisa em sua carreira. Por outro lado, ela não se assume feminista. 
Muitas dessas declarações de Valesca são frases que eu venho dizendo desde os meus quinze anos, quando comecei a ter vida sexual. Eu sempre exigi que meus parceiros usassem camisinha, e isso antes da Aids se tornar conhecida de toda a população. Nunca aceitei ser julgada por fazer sexo com quem eu quisesse e quando quisesse. Se os meninos podiam agir assim sem serem condenados, por que eu não poderia? Algumas coisas mudaram dos anos 80 (quando eu era adolescente) pra cá. De lá pra cá, conseguimos jogar fora o tabu da virgindade, que ainda era forte pra minha geração. Hoje só alguns malucos acham que a mulher deve se casar virgem, e aquilo de anular casamento se a mulher não fosse virgem ficou no passado. Mesmo a onda religiosa que hoje prega o celibato entre os jovens vale para meninas e meninos. Não concordo com isso (mas evito julgamentos; cada um vive como quer), acho que o melhor é experimentar bastante, mas pelo menos essa exigência religiosa pela virgindade não é feita só pra meninas.
Três décadas já se passaram desde que eu, uma menina com então 15 anos, era chamada de p*ta só por insistir em ser sexualmente livre. Hoje o julgamento moral e o padrão duplo continuam firmes pras meninas. Se Valesca ajuda a romper essa besteira de “meninas são piranhas, meninos são garanhões”, só posso ser a favor.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

COMISSÃO CIENTÍFICA INCENTIVA MENINAS A NÃO SEREM CIENTISTAS

Qualquer menina vai querer ser cientista ao ver esta imagem

Muita gente pediu pra que eu comentasse o vídeo “Science: It's a Girl Thing!” (Ciência: É Coisa de Menina). O vídeo (veja aqui) foi feito pela comissão europeia para motivar garotas a se tornarem cientistas.
O vídeo original foi removido após um bocado de comentários negativos. Antes de ser retirado, a descrição dizia (minha tradução): “Ciência: é coisa de menina! Da cosmética à química, da moda à biologia, do ritmo à eletrônica, as meninas são capazes de serem bem sucedidas na ciência. Ponham os seus óculos de laboratório e vejam a ciência com um outro olhar!!!” Três pontos de exclamação. Eles não economizaram mesmo! E alguém me explica o clima retrô dos anos 80?
As intenções são maravilhosas, mas de boas intenções o inferno sabe como terminar a frase. É verdade que temos uma grande deficiência de mulheres (e, imagino, de negros) em profissões que, em inglês, são chamadas de STEM (science, technology, engineering, math). Calcula-se que, nos EUA, apenas 25% das vagas nessas áreas sejam ocupadas por mulheres. Existe toda uma mitologia que meninas não gostam, ou são ruins, nessas áreas. Esse mito é refutado pela própria ciência, que comprova que o desempenho de meninas e meninos em matemática e ciências é equivalente.
Mas crianças são inteligentes e antenadas, e percebem o que a sociedade espera delas. O incentivo que um menino recebe de seus pais e professor@s para gostar de matemática é diferente do incentivo que a menina vai receber. Aliás, é bem provável que a menina aprenda que essas áreas são masculinas, coisa de menino. É uma profecia que se realiza: se uma menina ouve que não é boa em matemática antes de fazer um teste, ela realmente se sairá pior. Pesquisador@s chamam isso de "ameaça dos estereótipos".
Por isso é tão danoso que um vídeo que queira motivar meninas a se interessar pela ciência use uma expressão como “coisa de meninas”. Um dos pontos que feministas e educador@s conscientes lutamos é pela derrubada de estereótipos. Não queremos que o mundo seja dividido em coisas pra meninas e coisas pra meninos, porque tal divisão limita ambos os gêneros.
E, claro, também é péssimo que “coisas pra meninas” sejam as de sempre, aquelas que a mídia nos vende tão bem: roupas, sapatos, desfiles de moda, esmalte, penteados, maquiagem... Esse já é justamente o universo de boa parte das meninas. E não faz com que elas queiram se tornar cientistas! Faz com que queiram se tornar misses e top models. Que é, por sinal, com o que parece o vídeo: uma convocação para virar modelo.
A recepção ao vídeo foi tão negativa que gerou algumas respostas. Aqui uma astrônoma, a Dr. Meghan Gray, explica seu desapontamento com a propaganda. Não tem nada a ver com ser contra moda e maquiagem. Tem a ver com perpetuar estereótipos sobre o que as mulheres gostam.
Uma resposta excelente (embora falte um pouquinho de timing cômico) ao vídeo foi esta, em que uma mulher fala de como a comissão europeia “se esqueceu” de citar mulheres cientistas importantes que fizeram e continuam fazendo descobertas científicas. 
Sua ironia é intercalada por dizeres cor de rosa como “A ciência é linda, tanto quanto sapatos e unicórnios!”. Ela termina: “Obrigada, comissão europeia, por lembrar a nós mulheres porque entramos na ciência em primeiro lugar, e por inspirar toda uma nova geração de meninas a fazer o mesmo -– ou seja, a usar roupas difíceis e perigosas num laboratório, ou a ser encarada por um homem com um microscópio”. Pois é, o que diachos o male gaze tá  fazendo até num comercial pra incentivar meninas a serem cientistas?
O que pode fazer com que meninas queiram ser cientistas é uma mudança na sociedade. Uma mudança na divisão por gêneros que o vídeo tenta perpetuar. É importante ter mulheres cientistas dando palestras em escolas e universidades. É importante que as escolas tenham feiras de ciências, e que a participação de alun@s seja encorajada, em vez de reprimida. É importante que sejam feitos filmes e séries e novelas com cientistas mulheres.
Mas, repito: o mais importante é acabar com estereótipos de gênero. O excelente documentário Miss Representation mostra como se preocupar demais com o visual faz meninas terem receio de falar em público e de assumirem posições de poder, porque sabem que serão sempre julgadas pelo sua aparência. 
Um estudo recente da Universidade de Michigan diz que, apesar dos campos de ciência, tecnologia, engenharia e matemática serem vistos como não-femininos, “femininizar” essas áreas faz diminuir o interesse de meninas na ciência: "Apesar das boas intenções, tentativas de glamurizar mulheres cientistas podem ser menos motivantes para meninas que mulheres cientistas mais 'cotidianas'", dizem as pesquisadoras. O estudo parece uma resposta ao vídeo, mas ele é anterior. Foi publicado em abril, e revela que "femininizar" a profissão é contraproducente para atrair meninas para a carreira científica.
Outro dia vi um estudo (que não vou encontrar agora; este é parecido, mas não é o mesmo) com meninas que tinham que provar roupa. Era assim: uma por uma, individualmente, um grupo de meninas ouvia que teria que provar um suéter. Enquanto esperava, essa menina resolvia exercícios de matemática. Em outro grupo, a menina ouvia que teria que provar um biquíni. Enquanto esperava, resolvia exercícios de matemática. Adivinha o grupo que se saiu melhor nos exercícios de matemática? As meninas que teriam que vestir um suéter. As que teriam que vestir um biquíni ficavam ansiosas e preocupadas demais com sua forma física, e isso interferia nas suas habilidades intelectuais.
O que isso prova? Não, não prova que meninas que ficam lindas num biquíni não têm condições de entender matemática. Ou que meninas "feias" tenham uma grande carreira pela frente na ciência. Nada disso. O estudo prova apenas que o modo que a sociedade faz com que as meninas pensem sobre seus corpos afeta a autoestima dessas meninas. E que uma autoestima baixa interfere em todas as áreas da vida. Opa, eu usei a palavra apenas? Pois é. É apenas isso que ser obcecada pela aparência faz. 

domingo, 24 de junho de 2012

ERA PÉSSIMO SER MULHER NA ÉPOCA DE MAD MEN

Nunca fomos tão felizes

Uma amiga me insistiu pra ver Mad Men. Não foi a primeira a me recomendar a série. Na realidade eu já tinha assistido pedaços de alguns episódios quando morei nos EUA, pelo menos quando a gente via TV, que foi no segundo semestre de 2007. Mas a série não me impressionou o suficiente, apesar do assunto muito me interessar. Afinal, eu já fui publicitária em outra encarnação!
Estou agora indo pro final da segunda temporada e gostando, não adorando. Pretendo ver as outras cinco temporadas pra ver como os personagens mudam. A princípio, o que impressiona todo mundo é como o pessoal fumava adoidado! Mas o que fica na minha mente o tempo inteiro é: putz, que época péssima pra ser mulher! (Ok, os dias de hoje ainda estão longe do ideal, mas melhorou bastante, vai. E, claro: que época péssima pra ter sido negro e gay. Mas esse não parece ser o foco da série). Sim, estamos falando do final dos anos 50, início dos 60, pré-revolução sexual, pré-luta feminista.
Li que essa onda das séries retratarem o início dos anos 60 é uma tentativa sexista de mostrar como era bacana quando as mulheres conheciam o seu lugar na sociedade. De fato, há vários programas de TV falando dessa época -– além de Mad Men, PanAm (mostrando comissárias de bordo quando elas ainda eram aeromoças e tinham que se aposentar quando chegavam aos 30 anos, ou engordassem) e The Playboy Club. Eu só vi o piloto dessas duas e achei muito fraquinhos, e realmente me pareceu uma visão nostálgica dos “bons tempos” (pra quem, né?).
Mas Mad Men não. Não digo nem de longe que MM é feminista, porque seu protagonista, Don Draper, com o qual somos incentivados a nos identificar (e fiquei de cara quando o maridão, que não tem absolutamente nada [além da beleza física] a ver com Don, disse que simpatizava com ele), certamente não é feminista. E alguns episódios não oferecem crítica nenhuma ao sistema. Mas outros... Achei totalmente feminista um episódio da primeira temporada que fala de um produto que serve como vibrador.
A série comprova tudo que Betty Friedan apontou no clássico feminista A Mística Feminina, publicado em 1963. Que os anos 50 foram um tempo de backlash total, de fazer as mulheres (de classe média) voltarem do trabalho (porque tiveram que trabalhar durante a Segunda Guerra) para o ambiente doméstico. E que as mulheres não estavam nada felizes com seu papel de donas de casa.
Foi uma época em que o trabalho das mulheres não era levado a sério. Pela primeira e única vez no século 20, nos EUA, o número de mulheres na universidade (que vinha crescendo a cada década) diminuiu. Pra que estudar, se o correto a se fazer era casar e ter filhos? Então tinha universidade que oferecia curso de culinária e etiqueta. Trabalhar, só como secretária, e só até arranjar marido.
Mad Men mostra o que acontecia: a mulher no ambiente de trabalho era avaliada apenas por sua aparência. Casos como os de Peggy, secretária que vira redatora, eram raríssimos (e a gente vê como Peggy tem que batalhar pra provar seu valor).
A vida de Betty, mulher de Don, era o padrão: entediada, deprimida, exausta, quase sem contato com o mundo exterior, com dois filhos perfeitos e um marido lindo e rico que a trai a torto e a direito. Sua vida parece um conto de fadas pra todo mundo, menos pra ela.
Isso está muito bem representado em filmes como Foi Apenas um Sonho e Longe do Paraíso.
Voltarei a falar sobre a série, prometo. Mas gostaria de recomendá-la a todos e todas que vivem dizendo que o feminismo estragou as mulheres, que antes sim é que a vida era boa e as mulheres eram felizes, podendo ficar em casa fazendo tortas. Ahã. É, a mulherada de Mad Men parece felicíssima mesmo. E, pra ser franca, nem os homens sorriem muito.

sábado, 23 de junho de 2012

ELBA RAMALHO PEDE PROTEÇÃO DIVINA CONTRA FEMINISTAS

Fiquei sabendo ontem: Elba Ramalho diz que está sendo ameaçada por feministas, que vão persegui-la. Ok, então. Se “falar sobre” é perseguir, serei a primeira a persegui-la.
Primeiro que acho meio irresponsável mencionar “ameaças” quando um monte de celebridades realmente vêm sendo ameaçadas de morte e de estupro. Isso aconteceu (e continua acontecendo) com o deputado federal Jean Wyllys, Monique Evans, Simony... Óbvio que quem ameaça essas pessoas não são grupos feministas, e sim mascus sanctos. Alguns deles já foram presos, mas muitos ainda estão soltos. Segundo que, se vivemos numa sociedade “radicalmente democrática”, como afirma Elba, as pessoas têm o direito de se manifestar contra as declarações de alguém, sem que esse alguém se considere ameaçado.
Lembro quando, em 1989, a (grande) atriz Marília Pera se disse ameaçada e perseguida por petistas. Marilia, entre outras celebridades, como Claudia Raia, Alexandre Frota, Beatriz Segal, Dercy Gonçalvez, Ayrton Senna, e uma penca de cantores neosertanejos, apoiaram publicamente Collor em sua corrida contra Lula, na primeira eleição pra presidente desde (um pouco antes d)o golpe militar de 64. 
Em uma das inúmeras passeatas e comícios de petistas e simpatizantes (eram outros tempos; o PT ainda condenava alianças espúrias), na Av. Brigadeiro Luiz Antonio, em SP, essa militância parou alguns minutos na frente do teatro onde Marilia se apresentava e a vaiou. Eu sei, porque eu estava lá –- não no teatro, mas na passeata pró-Lula. Foi coisa de poucos minutos, só que, como havia milhares de pessoas, o barulho foi estrondoso. E pronto. Vaiamos e seguimos nosso caminho (a marcha terminava na Paulista). No dia seguinte, lá estava Marilia no programa eleitoral do Collor, dizendo como havia sido atacada por esses monstros, os eleitores do Lula.
Outra que fez campanha pro Collor inicialmente foi Elba, se bem que lá pelo meio da campanha de 89 foi cantar “Lula-lá”. Em 2002 se juntou ao coro da Regina Duarte — be afraid, be very afraid — e votou no Serra. Pois é, sei mais dos apoios políticos de Elba que de sua carreira ou da sua vida. Não acompanho muito. Gosto dela como cantora, só não gosto do seu repertório (exceção quando ela canta deus, que fez aniversário semana passada). Não sei nem quando ela se tornou cristã, se foi antes ou depois de 2001. Até lá ela era ufóloga, das que acreditam terem sido abduzidas por ETs.
Hoje Elba centra sua energia em causas mais sérias, digamos, como na defesa para que o aborto continue ilegal no Brasil. Pior ainda: pela declaração de Elba, ela quer que o aborto seja proibido até nos raríssimos casos em que é permitido (estupro, risco de vida pra mãe e, recentemente, na gestação de anencéfalos). 
As pessoas têm certa dificuldade em compreender essa palavra, “permissão”, e a confundem com “obrigação”. Se uma mulher que é estuprada quiser levar a gravidez adiante, é direito dela. As feministas somos contra que uma mulher seja forçada a realizar um aborto. Se uma mulher que corre risco de vida quiser continuar com a gravidez e acabar morrendo, é a escolha dela. Se uma mulher, como Elba, por convicções pessoais/ religiosas decidir que nunca fará um aborto, é uma decisão dela. Apoio totalmente. Mas outra coisa bem diferente é querer que a sua decisão valha para todas as outras mulheres. Lutamos para que o aborto seja legalizado para que a mulher possa escolher, sem que o governo ou grupos religiosos mandem no nosso corpo.
Eu, pessoalmente, nunca fiz um aborto. Mas um montão de gente fez: Hebe Camargo, Marilia Gabriela, Cassia Kiss, Cissa Guimarães, entre milhões de brasileiras. Ah sim, e Elba Ramalho. Sabemos porque, em 1997, época em que a Veja ainda não era rabidamente direitista como é hoje, a revista fez uma reportagem de capa com o título “Eu fiz aborto”. Se compararmos a discussão que havia naqueles tempos com o “debate” que tivemos no segundo turno das eleições de 2010, ou mesmo na decisão do Supremo em liberar aborto de anencéfalos, podemos ver como regredimos. Conseguem imaginar uma revista hoje reunindo oitenta mulheres, entre celebridades e anônimas, pra assumir que fizeram um aborto? A Hebe?! Só se fosse pra se arrepender de quando fez um aborto.
Estaríamos mais conservador@s hoje que quinze anos atrás?
Pras feministas, mulheres que fizeram aborto não são melhores nem piores que outras pessoas. Portanto, logicamente não somos nós que condenamos o aborto que Elba fez. Quem condena e quer mandar pra cadeia mulheres que tiveram a audácia de escolher o que querem que aconteça no seu corpo é o pessoal que é contra o estado laico. Talvez esse pessoal que criminaliza todas as mulheres desde Eva perdoe Elba pelo bem que ela está fazendo agora -- lutando contra feministas, essas bruxas.
Enquanto isso, milhões de brasileiras continuam fazendo aborto. Muitas delas morrem em decorrência desses abortos clandestinos. Obviamente, os embriões e fetos (que só viram “crianças” muito tempo depois) morrem também. Mas quem é contra o aborto acha que fazendo com que ele continue proibido as mulheres vão parar de abortar.
Enquanto isso, Elba critica a “contradição” do Brasil ter leis em que matar um passarinho seja crime, mas pense em legalizar “a morte de bebês inocentes”. No terço em que segura, cada conta representa um útero com um feto dentro.
Elba, isso não é uma ameaça, mas faça um favor: fique longe do meu útero.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

GUEST POST: RESPOSTA DE HOMEM FELIZ PRA HOMEM INFELIZ

Vocês devem se lembrar que respondi, não muito respeitosamente, a um rapaz, Francisco, que pediu dicas para ser melhor sucedido com as mulheres. Algumas pessoas acharam que minha resposta deveria ter sido mais séria. Bom, recebi email do simpático Amauri, um carioca de 32 anos, casado, hétero, que diz que já pensou igualzinho ao Francisco, e por isso gostaria de falar com ele. 
Acho interessante como a carta do Amauri ao Fran reflete um mundo de privilégios, já que ambos fazem parte de um grupo que precisa superar apenas obstáculos pessoais, não obstáculos dirigidos a todo um grupo historicamente discriminado. Mas a grande diferença é que Amauri é um homem feliz que deixou de procurar culpados (ou, no caso do Fran, culpadas) pelos seus problemas, e percebeu que só tem essa vida, e que deve vivê-la.

Caro Francisco (ou Fran, se me permitir),
Meu nome é Amauri, mas não sei se será um prazer te conhecer. Portanto não direi "prazer em conhecê-lo". Mas posso dizer que é um prazer, para mim, falar para você (e para toda esta audiência) através do espaço da Lola.
Eu gosto de falar. De ouvir só às vezes. Na melhor das hipóteses sou um interlocutor mediano (o assunto tem que ser bastante necessário/curioso/polêmico/etc para prender a minha atenção por muito tempo) e não acho que escreva bem... Estou sendo honesto contigo porque tento, sempre que possível, ser honesto primeiro comigo.
Então, digo de maneira honesta: eu entendo o que você descreveu. Eu já estive na situação de bonzinho injustiçado merecedor dos amores do mundo. E, deixe-me dizer, esta posição era, para mim, insustentável. Simples assim. Ela é válida? Sim, pois acredito que cada um escolhe seu caminho na vida, mas é ineficiente, se seu objetivo for viver uma vida feliz com seu parceir@ e as pessoas da sua comunidade, seja ela qual for.
Como você sugere a Lola que escreva "postagens ajudando os homens a melhorarem sua autoestima", leia o meu conselho: homens e mulheres, cresçam e vão ao médico! Simples assim. As pessoas que você descreveu podem sofrer de disfunções cerebrais que causam depressão. Alguns podem sofrer de distúrbios glandulares que não ajudam a ter a forma que desejam. Algumas são simplesmente assim e podem, com algumas terapias comportamentais, aprender a ter comportamentos que desejam. Vivemos numa época fantástica onde a maioria dos males tem remédio. Acredito que precisamos dizer às pessoas simplesmente "Cresçam, saiam da concha e procurem ser felizes como podem, dentro da lei".
Sim, o mundo é cruel às vezes, e às vezes é muito gentil. Sim, há bullying nas escolas (eu sofri bastante e ao ouvir outros relatos, acho que sofri até pouco) e sim, às vezes não há ninguém para nos ajudar. Sim, as pessoas mais bonitas e gostosas às vezes querem outras pessoas bonitas e gostosas. Sim, há pessoas que pisam nas outros e há pessoas que não fazem isso. O mundo está cheio dessas pequenas e grandes justiças e injustiças... Sabe qual o nome disso?
VIDA!
A vida é assim! Não é porque você sofreu bullying que você precisa descontar em alguém. Não é porque a menina mais bonita te ignorou que as mulheres são vadias desalmadas. Você está fora de forma, não tem fôlego para correr e quer ser escolhido primeiro como zagueiro no futebol da turma? Sério? Não acha que escolheu o esporte errado não?
Você acha que o mundo é uma m*rda? Meu conselho é que você mude a si mesmo e o mundo a sua volta. Como ateu, acredito que não há um deus zeloso que olha pela humanidade. Estamos aqui sozinhos e temos uns aos outros. Vivemos numa época de comunicação fácil e barata. O mundo é um lugar fantástico e cheio de oportunidades.
Eu convido qualquer um que tenha se visto na situação descrita pelo Francisco a se olhar honestamente... A Lola já disse que todas as pessoas, exceto os preconceituosos, merecem respeito, certo? Então que tal parar de ter preconceito com o mundo, com a vida, e aceitá-la por um momento como ela é? Não é o mundo que é uma m*rda, são algumas pessoas neles que te incomodam. Sim, algumas pessoas não querem sair contigo, mas e aí? Você quer escravizá-las para que saiam contigo à força? Que tipo de pessoa "leal e boa" (lawful-good! RPG rules! rs) quer FORÇAR o mundo a ser como a própria pessoa deseja? Não é a vida que é preta e cinza, é você que tem problemas de visão/depressão ou é simplesmentemente fechada demais.
A vida é assim: às vezes, o problema são algumas pessoas. Às vezes o problema somos nós. Às vezes, o problema é o nosso corpo. Então, que tal sair por aí e tentar achar o motivo da sua tristeza e tentar mudar você, depois o mundo?
Eu quis mudar e mudei. Já acreditei em deus, já pensei que ele tinha um plano para mim, que rezar resolveria... Já acreditei que eu merecia algo apenas por ser bom e justo. Até que um dia, percebi que não. Percebi que EU era um COMPLETO BABACA. Hoje, posso dizer que sou apenas meio babaca. Simplesmente comecei a aplicar uma postura cética primeiro à ideia de deus e depois à ideia do que eu chamava de EU. Mas a mudança foi (e ainda é, algumas vezes) dolorosa. A minha forma de mudar foi me olhar honestamente e dizer: "Eu penso que te entendo, eu acho que te amo, até onde sei você é tudo pra mim. Mas mesmo assim você é nocivo e devo te deixar".
Eu posso dizer, por mim, que se assumir como único responsável pelas minhas próprias decisões e posturas foi assustador a princípio. Às vezes quero resolver um problema e simplesmente não há solução possível no momento. Como não posso rezar, devo aceitar a condição, mesmo insatisfatória, do modo como ela se apresenta. Mas eu penso, EU penso, EU sou o responsável pelas MINHAS escolhas. O mundo pode fazer coisas comigo sobre as quais eu não tenho controle, mas posso tomar as minhas atitudes e manter a minha sanidade/equilíbrio.
Minha opinião final, que eu diria pra mim mesmo uns vinte anos atrás: Não há ninguém mais lind@ do que uma pessoa que se conhece em parte e que às vezes não se conhece e se redescobre. Não há ninguém mais confiável do que alguém que acredita em si mesmo e às vezes fraqueja, mas se recupera. Não há pessoa mais fantástica do que aquela que sabe algo e mesmo assim está aberta para debater e aprender. 
Pare de procurar apenas as pessoas perfeitas. Pare de só olhar para o juiz, @ medalhista de ouro e a top model internacional. Ou até olhe, a vida é sua... Mas olhe também os exploradores, os pesquisadores. Os alunos que estudam bastante ou os que nem estudam. Procure pel@ florista, @ agricultor ou @ fotógrafo. Olhe para uma mãe ou pai que vê a criança andar e correr... Procure por aqueles que entendem e escutam, por aqueles que sabem que o mundo não é perfeito, bicolor e bidimensional. Entenda que um aspecto da vida é que a top model de hoje, assim como a última descoberta científica e os passos firmes de uma criança, são o resultado de milhares de passos em potencial que nunca chegaram lá. Estas pessoas, estas experiências e estes passos estão em algum lugar, esperando para serem redescobertos. Enjoy :)