sexta-feira, 25 de abril de 2008

CRÍTICA: MEU NOME É DRILBIT TAYLOR / Playground onde se fazem homens

Ser bullied na escola pode não só ser divertido como útil pro futuro

Sabe quando a gente critica as distribuidoras brasileiras por não manterem o título no original? Em Meu Nome é Taylor, Drillbit Taylor, considero isso um erro. Porque o título original não quer dizer absolutamente nada. É o nome de um desertor do exército que se tornou vagabundo profissional e é contratado para proteger dois garotos atormentados por bullies na escola. Esse sujeito, que nem é o personagem central, é interpretado pelo Owen Wilson (Penetras Bons de Bico). Na vida real, foi logo depois desta comédia sem graça que o Owen tentou se matar. Dá pra entender porquê. O maridão e eu concordamos que Drillbit foi um dos piores programas dos últimos tempos, e o maior desperdício de duas horas de que temos notícia.
O filme é ofensivo em tantos níveis que nem sei por onde começar. Tá, é ofensivo com os vagabundos, o pessoal que não faz nada ou que pede dinheiro, porque todos são pintados como ladrões. E se é pra ter pena de alguém, vamos ser solidários com uma mulher de rua com duas crianças de colo ou com um jovem homem branco de olhos azuis, bronzeado de sol? Ah, pobrezinhos dos homens brancos, esses discriminados. Se Drillbit fosse de outra cor ou falasse espanhol, poderia se integrar tão bem à escola? Poderia tirar dinheiro de criancinhas tão impunemente?
O filme é ofensivo com as mulheres. Imagina que você seja uma menina numa escola e vê constantemente alguns bullies maltratarem guris na sua frente. Você não vai falar nada? E se um deles te chamar de vadia na frente de todo mundo, você continua quietinha? Precisa mesmo que algum menino venha te defender pra abrir a boca? Tá, agora vamos supor que você esteja tomando sol de bíquini no seu quintal, e três garotos passam correndo e quase te pisoteiam. Você não apenas continua deitada, como também, quando os moleques voltam, posa de modo sexy pras câmeras de celular que eles têm, pra mostrar como você está disponível 24 horas por dia. Ok, agora suponhamos que você seja uma professora solteira, bonita e independente, apesar de burra como uma porta. Aparece um carinha do nada e você se envolve com ele. Mesmo depois de descobrir que o sujeito mentiu descaradamente, você continua apaixonada. Que homens desinteressantes se envolvam com lindas mulheres já se tornou padrão nas comédias com o toque do Judd Apatow - O Virgem de 40 Anos, Superbad, Ligeiramente Grávidos, e agora este. Queridos nerds, desempregados, e homens que não querem crescer: não se preocupem. Tá cheio de mulher deslumbrante pra te adorar do jeitinho que você é.
Drillbit é ofensivo com a escola e seus professores. Professores só existem pra tomar cafezinho. Se algum dia você precisar deles pra salvar a sua pele, desista. E nem pense em reclamar com o diretor sobre os bullies que vêm tornando a sua vida um inferno. Ele não só não vai fazer nada, como vai rir de você. Ah, e tem mais: qualquer vagabundo pode entrar na escola e fingir ser um professor substituto durante meses. Pode circular entre os alunos tranquilamente. Pode até trazer sua turma de amigos mendigos pra também dar aula e tomar cafezinho.
É ofensivo com os pais. Na realidade, os dois garotos são fracotes covardes pela falta da autoridade paterna. O pai do gordinho se separou da mãe e nunca o vê. O magrinho não tem pai - tem padrasto, que não lhe dá a menor bola. O padrasto, inclusive, revela que ele mesmo foi um pouco bully na sua época de escola, e que isso é bom e natural, e que provavelmente suas “vítimas” devem estar agradecidas até hoje. Não há ninguém para contestá-lo, porque o filme não tem nada contra os bullies, pelo contrário. Se não fossem eles, nossos teens fraquinhos não se tornariam homens (os dois atores-mirins foram escalados por lembrarem os adolescentes de Superbad. Conseguem ser os piores atores do universo).
Porém, não pense que Drillbit seja apenas contra todas as categorias mencionadas acima. Ele é favor de várias coisas. Por exemplo, tem fascínio pelo capitalismo e a iniciativa privada. Você tem que pagar pra ganhar o direito de não sofrer na escola, entende? É também extremamente militarista. O segredo pra parar de ser infernizado por bullies é faltar à escola durante o máximo de tempo possível, e ficar treinando. Violência, como os americanos sabem tão bem, só pode ser resolvida com violência. O treinamento militar é a resposta. E o filme defende uma punição mais severa para desertores do exército.
No início da década de 80, a gente teve Cuidado com meu Guarda-Costas (Adam Baldwin aparece brevemente em Drillbit como candidato). Em 93 Dazed and Confused (Jovens, Loucos e Rebeldes) fez enorme sucesso entre os críticos. Não é exatamente sobre guarda-costas, mas tem bullies atormentando guris, e toda a comunidade (inclusive as vítimas) encara isso como um rito de passagem. É aquele mantra de “a escola é um inferno”. Quem sobreviver virará uma pessoa de valor e nem perceberá quando tiver que participar de um outro inferno, como a guerra. A cada geração fazem um filme sobre bullies. A situação não muda. Depois acontece um Columbine e ninguém liga os pontinhos.
E o agressor não é um sistema que permite que esse tipo de atrocidade se repita em cada escola. Não. Nesses filmes todos o agressor é um indivíduo, com um problema individual. Em Drillbit, é um carinha desequilibrado que ainda por cima nem é muito americano e pode ser mandado embora do país. Porque os EUA não tem nada a ver com isso. Olha, mesmo sem conhecer nada sobre, sei lá, Hong Kong, sou capaz de apostar que bullying é um problema menor lá que nos EUA. Na Terra das Oportunidades, colégio é apenas o primeiro dos muitos treinamentos militares que virão.

ÚLTIMAS ESTRÉIAS ANTES DO TERREMOTO DAS SUPERPRODUÇÕES DE VERÃO

Esta deve ser a última semana nos EUA antes dos superlançamentos de verão, que chegam sexta que vem com O Homem de Ferro e Made of Honor. Por enquanto, há a estréia de filmes mais discretos, de orçamento menor, como Baby Mama, Harold and Kumar Escape from Guantanamo Bay, Deception e Rogue. Baby Mama, previsto pra chegar no Brasil apenas em 29 de agosto, é uma comédia em que a Tina Fey (adorável no seriado de TV 30 Rock) contrata a Amy Poehler (estrela do Saturday Night Live) pra ser sua mãe de aluguel. Eu vou ver, mas será que filminho com esse roteiro e um elenco vindo da TV consegue sobreviver na bilheteria? Deception soa mais interessante, mais adulto. Pelo trailer, parece ser um thriller, mas querem vendê-lo com uma aventura. Enfim, é com o Ewan McGregor, que se envolve num clube de sexo fácil que não dá muito certo, seduzido pelo Hugh Jackson. “Seduzido” é modo de dizer porque, pelo jeito, o Ewan tem um caso com a Michelle Williams (ex do Heath Ledger). Este tá marcado pra desembarcar no Brasil em meados de maio, mas, como não tem nem título em português ainda, eu esperaria sentada. Rogue eu mal sei o que é, só um terror com crocodilo gigante (chega aí em setembro). Já tive minha amostra de crocodilo gigante, e não estou preparada pra outra. Mas a estréia mais instigante é Harold and Kumar Escape from Guantanamo Bay, que eu não vejo nem a pau. É uma comédia imitando Cheech & Chong (nunca vi nada deles), em que dois rapazes fãs de maconha entram em várias confusões. Tá, por que instigante? É que saiu uma matéria na Entertainment Weekly sobre esse subgênero que eu nem sabia que existia: os slacker ou stoner movies, meio que filmes feitos pra adolescentes que fumam maconha, com uma trama que gira em torno de carinhas fumando maconha. Essas comédias geralmente não vão bem na bilheteria, mas fazem um sucesso estrondoso em DVD, com lucros absurdos, já que têm orçamento relativamente barato. Um diretor disse pra revista que fazer um filme desses é como imprimir dinheiro. Há toda uma indústria pra esse subgênero, e sua única queixa é não saber como atrair o público ao cinema, porque esses espectadores não saem tanto de casa (palavras de Hollywood, não minhas!). Desculpe a minha ingenuidade, mas não fazia a mínima idéia dessa história toda.

No Brasil, entram nas salas de cinema esta sexta Três Vezes Amor (Definitely, Maybe), Hannah Montana e Miley Cyrus Show, Encurralados e o nacional Otávio e as Letras, filme de Marcelo Masaguão com um elenco não muito conhecido. Com esse título, e com esse cartaz, deve estar restrito a poucas salas (veja uma cena fofinha aqui). Sobre Três Vezes, confesso que vi a meia hora inicial no computador, mas a cópia tava tão horrenda que parei. Pareceu uma comédia romântica bonitinha, embora pra mim seja um mistério como escalam um cara como o Ryan Reynolds (Horror em Amityville) pra estrelar um filme. Ô sujeitinho insosso! O mais legal da trama é que ele faz um assessor político na primeira campanha a presidente do Clinton, então há várias fofocas sobre o clima da época. Juro que verei o filme inteiro assim que ele sair em DVD, e aí eu comento mais um pouco. Encurralados (Butterfly on a Wheel, ou Shattered, dependendo do país) traz o Gerard Butler e a Maria Bello como pais que têm sua filhinha sequestrada, com o Pierce Brosnan a tiracolo como vilão. Até pode merecer uma olhada, mas saiba que o filme foi quase direto pro vídeo aqui nos EUA. Ninguém nem notou sua presença. Hannah Montana é um musical, ou um show filmado, sobre uma mocinha com o mesmo nome que tem uma legião de fãs. Sei tanto sobre ela quanto sei sobre stoner movies e crocodilos gigantes.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

OITO COISAS PARA REALIZAR ANTES DE BATER AS BOTAS DESTA PRA MELHOR

Pelo jeito há uma corrente percorrendo os blogs, pedindo pra que a pessoa escreva sobre oito coisas que gostaria de realizar antes de morrer. Como foi a Renata que me pediu e eu gosto muito dela, vamulá. Outro nome pra lista, no meu caso, podia ser O que dar pra alguém que já tem tudo? Pode chamar a minha lista do supra-sumo da falta de ambição, que eu não ligo. Não está em ordem de preferência nem nada. Você tá brincando, né? Já não sei o que escrever numa lista dessas, e ainda pedem que siga alguma ordem.

- Vejamos... Quero que eu e o maridão sejamos o primeiro casal bem velhinho a continuar transando até estar bem nas últimas mesmo. Ele jurou viver até os 85 anos. Bom, talvez não sejamos o primeiro casal velhinho a ter sexo regularmente, mas um dos raros. Pra isso precisamos começar já. Vou avisar o maridão.

- Quero um jardim cheio de árvores de todos os tipos. Árvores grandes, não bonsais. Adultas. Cheias de passarinhos. Eu tinha um ipê amarelo maravilhoso no meu jardim, que eu e o maridão plantamos uns treze anos atrás. Minha mãe não esperou um mês da nossa viagem aos EUA pra mandar derrubar.

- Seja lá onde acabarmos morando, quero ter um abrigo animal pra cães e gatos. Tá cheio de cidade no Brasil sem nada nesse sentido.

- Já falei que meu sonho de consumo é ter todo o conhecimento da humanidade acessível a um clique do mouse, e de graça ou estupidamente barato. Opa, não depende muito de mim realizar isso. Mas adoraria que existisse na minha vida.

- Ter um clubinho comunitário. Eu e o maridão gostaríamos de organizar um clube de xadrez bem na periferia, ensinando e motivando crianças pobres a se divertir pensando (eu sou a favor de incluir outros jogos também, mas o maridão diz que se colocar uma mesa de ping-pong ninguém joga xadrez).

- Me aceitar como sou fisicamente. Aceitar que sou gorda desde que a puberdade chegou, esse é meu tipo físico, não adianta lutar. Me achar bonita como sou. Acho que estou caminhando pra esse tipo de aceitação. Gostaria também de continuar sendo saudável como sou agora. Tirando um ou outro resfriadinho, cada vez mais raro desde que comecei a tomar vacina contra gripe, e um ou outro aviso do fígado quando exagero no chocolate, o que também tem se tornado cada vez mais raro desde que meu fígado se tornou um reclamão à toa, eu nunca fico doente. Nunca fui operada pra nada. Nunca quebrei nada. Nunca tive um dia de depressão na vida (saúde mental é igualmente importante, não?). Vejo gente tão mais jovem e mais em forma do que eu faltando ao trabalho, e eu nunca faltei. Mas me preocupo com a minha memória, cada vez mais fraquinha.

- Ganhar salário de gente rica uma vez na vida. Pra mim isso seria uns cinco mil reais por mês. Eu e o maridão nunca nem chegamos perto de ganhar isso juntos. E mesmo assim vivemos bem e gastamos menos que ganhamos. Então se um de nós recebesse um salário milionário desses por um tempinho, digamos três ou cinco anos, depois poderíamos continuar trabalhando só se quiséssemos e gostássemos muito mesmo.

- Como tenho tudo e não preciso de muito e se eu realizar os itens acima já tá ótimo, o que quero mesmo são coisas não pra mim, mas que me afetariam indiretamente. Pra começar, aquilo que dizem as misses: paz na Terra. Queria viver num mundo sem violência, sem criminalidade, verde e auto-sustentável. Um mundo que não vai acabar quando eu me for, e eu teria motivos pra ser egoísta, já que não vou ter filhos nem deixar pra ninguém o legado da minha miséria. Mas eu não sou Brás Cubas. Não tenho miséria. Eu queria simplesmente que todos tivessem o que eu tenho.

Ai, agora preciso convidar outros blogs. O primeiro convite foi pro maridão, já que está bem a meu lado:

- Você é o próximo.

- Não vou fazer listinha nenhuma.

- Mas amor, parece que é um tipo de corrente entre os blogs. Você não só tem que postar a maldita lista, como também tem que pedir pra oito outros blogs fazerem.

- Já vi isso antes... E se não fizer, o que acontece? Param de visitar meu ultra-visitado blog?

Algo me diz que ele não vai participar. Vocês também não precisam, mas sintam-se convidados(as). Decidi chamar não o pessoal dos blogs mais conhecidos (pros quais já devem ter rolado mil e um convites do tipo), mas pros meus queridos leitores(as) que também têm blogs, e dos bons, e que eu só não coloco links aí do lado porque os blogs não são atualizados duas vezes por semana.


- http://braziliankitten.blogspot.com/ : Andie, topas? Você não tem mais nada pra fazer mesmo... Só mais uma tendo que escrever tese...

- http://eujavi.blogspot.com/ e http://vitormcz.blogspot.com/ : Liris, Vitor, assim quem sabe seus blogs dêem férias pras férias?

- http://masegui.blogspot.com/ : Mario Sergio, fico no aguardo de umas análises enxadrísticas das futuras realizações.

- http://breviariodashoras.blogspot.com/ : Suzana, só pra tornar a sua vida ainda menos cansativa.

- http://cinejulio.blogspot.com/ : Julio Cesar, que adorou O Orfanato (eu detestei), e ainda mora num lugar que eu gostaria de viver (Maceió).

- http://oladodelah.blogspot.com/ : Laíza, outra que morar numa cidade hiper bacana (João Pessoa).

- http://alexinrealworld.blogspot.com/ : Alex, de volta a Joinville.

- http://notleast.blogspot.com/ : Elen, outra que mora numa cidade que eu gosto (São Luis) e não tem mais nada pra fazer fora escrever uma monografia.

- http://righttowritemeoff.blogspot.com/ : Nita, com blog novinho em folha e namorado apaixonado (bah, blog novo eu também tenho).

- http://esquizofreniavirtual.blogspot.com/ : Igor, taí uma pauta pra você.

-http://useless-little-things.blogspot.com/ ou pode ser no outro, http://rabiscola.blogspot.com/:Ju, já que você tem um blog especialista em enrolação, fazer uma lista dessas pode te poupar de fazer coisas mais importantes.

DIVAGAÇÕES SOBRE CABELO, RACISMO, ACEITAÇÃO DO CORPO E REVOLUÇÕES

Este post será sobre cabelo, já vou avisando. Ontem li um texto muito bonito de uma mulher que começou a perder o cabelo e se desesperou. Só agora, uma década depois, ela está se aceitando (você pode ler aqui; está em inglês). Ela cita uma pesquisa em que 63% das mulheres britânicas que estavam ficando carecas contemplavam o suicídio. Parece tão absurdo pensar em se matar por causa de cabelo (que tanta gente chama de “células mortas”)! Mas é um desses elementos que nos faz mulher, já que cabelo está muito ligado à sensualidade. Pense em todos os comerciais de shampoo que você já viu, e como eles são todos iguais. Agora pense em quantos comerciais de shampoo você vê por dia. E a lavagem cerebral está completa.
O post me fez pensar em várias coisas. Por exemplo, o maridão sempre foi careca, desde antes de eu o conhecer. Eu o acho o homem mais lindo e sexy do mundo e não o trocaria nem se o George Clooney, o Tom Cruise e o Denzel Washington, juntos, pedissem. Nem eu nem ele nunca ligamos que ele fosse careca. Se bem que uma vez compramos Minoxidil, e ele usou, e não funcionou, e era caro pra caramba, e ele parou de usar. Pronto. Fim do grande sacrifício pro maridão ter cabelo. Ele não fala nisso, não encuca com isso, porque não é uma preocupação no universo dele.
Agora vamos comparar com como me sinto por ser gorda. Em como me condeno por isso. Em tudo que já fiz pra tentar emagrecer, sempre sem resultado. Ou melhor: não, não vamos comparar, porque o assunto é cabelo. Esse foi só um exemplo sorrateiro de como o padrão de beleza afeta muito, muito mais as mulheres do que os homens. E ai de quem disser: “Ah, mas calvície é genética, não dá pra fazer nada”. E a minha gordura é o quê?
Mas cabelo, cabelo. Então. O post indicou um outro texto, e agora o assunto vai mudar pra racismo. É de uma moça negra que conta como é crescer negra, com “cabelo ruim” (também existe o termo nos EUA – se você não acredita que existe uma dominação branca e patriarcal, pense em quem estabelece o padrão de beleza pra chamar o cabelo de toda uma raça de ruim), vendo poucas atrizes negras na TV na época (a TV americana quarenta anos atrás devia ser como a TV brasileira é hoje: negras, só como empregadas), e, em compensação, sabendo que em todos os programas havia loiras penteando suas vastas madeixas. Que droga deve ser crescer se odiando. Infelizmente, hoje em dia, quase todas as meninas crescem se achando feias e anormais, ou sob a terrível ameaça de ficarem feias e anormais.
Ainda não acabei de ler o texto. Parei pra escrever isso. Só espero que ela não acabe fazendo propaganda de produtos pra alisar cabelo, porque se ela fizer isso eu surto. O que me chama a atenção, aqui nos EUA, fora a segregação racial, é como quase todos os negros teimam em ser parecidos (bom, brancas também. É todo mundo loira hoje). Todas as negras têm cabelo liso. Não vejo penteado afro, cabelo encaracolado, nada. Só liso. A maioria dos homens negros tem a cabeça raspada. E, pra piorar, usa bigodinho. O padrão Eddie Murphy/Jamie Foxx tá em todo canto. E não é bonito.
Meu cabelo é rebelde, crespo. E agora que faz oito meses que não o corto eu tô mais cabeluda que menina japonesa em filme de terror. E certamente estou com um penteado menos comportado que o de todas as negras que vejo. Ahn, eu gosto do meu cabelo. Só tentei alisá-lo em algumas poucas ocasiões, na adolescência. Só o tinjo pra não ficar com a cabeleira totalmente branca, mas nunca tentei mudar a cor. Pra falar a verdade, nunca pensei muito no meu cabelo. Ele existe, eu o trato bem e gosto dele, que é exatamente a mesma atitude que eu deveria adotar em relação ao resto do meu corpo. Como não tenho orgulho em ser gorda, sinto-me uma hipócrita pensando que, se eu fosse negra, teria penteado afro e sentiria o maior orgulho disso.
Acabei de ler o texto e não, a autora não faz apologia dos produtos pra alisar cabelo. Pelo contrário, fala pras negras que alisam o cabelo refletirem, ao invés de considerarem “natural” o padrão imposto. Eu gostava do slogan dos anos 70, black is beautiful. Porque é mesmo. E me impressiona como a discriminação tem os mesmos contornos, tanto faz ser mulher, negro, gay ou simplesmente gorda e careca. Trata-se de uma discriminação muito eficiente, que faz com que a gente se sinta péssima por ser como é. Quem está se saindo melhor dessa sinuca de bico, se eu posso opinar, devem ser os homossexuais. Eles estão se aceitando mais. E esse é o primeiro passo pra uma revolução: gostar de quem sou na minha própria pele. Se eu não me aceito, é mais difícil querer que os outros me aceitem.

FILMES DO SÉCULO PASSADO

Pensei que o maridão estava tão feliz quanto eu com a seleção fantástica de filmes que temos assistido através da Netflix. Mas outro dia ele deixou escapar que minhas escolhas não são tão maravilhosas assim. Eu comecei a conversa:

- Eu sou tão legal com a Netflix...

- Por quê? Por que você pega todos os filmes empoeirados deles?

- Claro que não! Você tá sugerindo que eu só pego filme antigo?

- Não, imagina. Fico até imaginando a cena: “Pessoal, cadê a chave dessa salinha?” E ninguém nem sabe que salinha é aquela. Até que um fala: “O último a ter a chave morreu!”.

- Ah, os filmes nem são tão antigos assim! Não, eu sou legal porque mando os lançamentos de volta o mais rápido possível.

- Eles não ligam pros lançamentos. Eles só ligam pros filmes empoeirados. Até pensaram em desativar aquela sala, mas você foi a salvação.

O maridão é ou não é um ingrato? Minha lista na Netflix tem uns 200 títulos, mas, pra ser democrática, perguntei pro energúmeno se ele queria incluir uns filmes. Ele só conseguiu pensar em Mad Max. E eu: “Mais alguma coisa, amore? Vivo para servi-lo, meu senhor e mestre”. Ele disse que ia pensar. Faz quatro meses e ele ainda não lembrou de mais nada. Depois reclama. (A propósito, a foto assustadora acima é de bichinhos da poeira).