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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

CLÁSSICOS: TUBARÃO / Tubarão ensina xerife a ser homem

Em Tubarão, o pânico é mais pelos homens estarem perdendo poder.

A partir desta semana, vou passar a comentar com vocês alguns clássicos do cinema americano sob a ótica de um livro que ando lendo e relendo: Camera Politica: The Politics and Ideology of Contemporay Hollywood Film, de Michael Ryan e Douglas Kellner. O livro já tem vinte anos mas, pra mim, não está datado e ainda é uma aula de história. Foi uma ótima professora minha lá da UFSC que perguntou se eu não queria dar uma olhada. Na hora, eu tinha que folheá-lo rapidamente pra decidir se iria ficar com o livro por um tempinho ou não (é que tem tanta coisa urgente pra ler num doutorado...). Fui direto numa das várias fotos com legendas, e a que me ganhou definitivamente foi uma sobre Tubarão que diz: A sedução distrai o patriarca de seus deveres... ...e uma criança vira papa de tubarão.
(Quer dizer, isso na minha tradução mais do que livre. No original é “Seduction distracts the patriarch from his duties, and a child is eaten”). Eu nunca tinha pensado em Jaws (1975) desta forma. Okay, claro que eu havia me dado conta que é uma fantasia absolutamente masculina sobre male bonding (a amizade entre os homens, que neste sociedade é considerada a amizade realmente verdadeira, já que aquela entre mulheres - reza a cartilha machista - sempre esbarra na competição). Mas no livro há várias análises que eu não tinha nem chegado perto de considerar. E não apenas sobre Tubarão, mas sobre vários clássicos americanos dos anos 70 e 80. Claro que é uma visão marxista e feminista do negócio. Os conservadores vão ver o mesmo filme sob um ângulo totalmente diferente. Por exemplo, pra muita gente de direita, Apocalypse Now é um inferno - um delírio de um cineasta de esquerda sobre o fracasso americano no Vietnã. Pra Camera Politica, ele é um filme conservador sobre a guerra, na mesma linha de O Franco Atirador, e representante do conservadorismo que tomara os EUA no final dos anos 70 (e que em seguida levaria Reagan ao poder por oito longos anos). Mas outro dia falo de Apocalypse. Agora quero falar de Jaws.
Mas não imediatamente. Antes, outra coisa: acho que nas minhas críticas (que prefiro chamar de crônicas) de cinema eu sou bastante política, e minha visão é sempre feminista e de esquerda. Mas Camera Política faz isso num outro nível, muito mais sério e acadêmico. Às vezes é até chato de ler, porque a linguagem se enrola, se bem que quase sempre é fascinante. Ah sim, só porque somos apresentados a uma nova visão não quer dizer que o filme seja ruim, ou que não devemos mais gostar dele. Não é uma maravilha ver um filme que já vimos tantas vezes, e que pensamos já conhecer de cor e salteado, e descobrir algo novo? É assim que me sinto lendo Camera.
Em Jaws, o tubarão é fálico - isso já dá pra ver pela capa - mas, de acordo com Ryan e Kellner, ele simboliza menos o pênis e mais “um sinal do que dá errado quando os homens não cumprem seu dever de liderança patriarcal”. O xerife Brody (interpretado por Roy Scheider) é fraco. A comunidade da cidade, movida pela ganância, manda nele. E sua mulher também. Ela quer domá-lo, tornar o seu homem menos macho e mais doméstico. As mulheres, aliás, são tão péssima influência em Tubarão que o terror já começa com uma moça seduzindo um rapaz. Por sua sexualidade independente, ela imediatamente será punida, indo parar, nua, no estômago de um bicho enorme e feroz.Olhem só o que Camera percebe. A mocinha corre em direção ao mar, jogando suas roupas pelo caminho. O livro aponta que as estacas da cerca vão ficando cada vez mais esparsas, à medida que a mulher avança.Isso significa que ela está deixando pra trás o poder patriarcal, que restringe e controla sua sexualidade (eu acho essa análise o máximo, e me pergunto: por que não pensei nisso antes?). Porém, numa das primeiras sequências em que vemos a família de Brody, as estacas estão todas no lugar, bonitinhas, onde devem estar. Mulher e filho estão do lado de dentro da cerca, protegidos, enquanto o xerife, que representa o patriarcado, está fora. Além do mais, o foco está justamente na palavra "polícia, bem no carro do chefão.Brody tenta prestar atenção na praia que os manda-chuvas da cidade insistem em manter aberta, mesmo com um tubarão à solta. É bem quando sua mulher desvia sua atenção que uma criança é atacada. Isso não pode continuar assim. O fraco e “afeminado” Brody terá que partir para um lugar com dois machos, longe de qualquer influência feminina, para aprender a ser homem. Isso se dará através de rituais, inclusive rituais de violência. Numa das cenas, quando os dois machos já embebedados comparam tatuagens, Brody olha pra dentro de sua calça e não encontra nada. Mais adiante, Brody tenta usar o rádio para, em mais um momento de fraqueza, se comunicar com sua casa. O que faz o alpha male (o super macho, interpretado por Robert Shaw)? Ele pega um bastão de beisebol e destrói o rádio, literalmente rompendo o cordão umbilical que ainda une Brody com a domesticidade que sua mulher deseja pra ele.Agora o xerife está pronto para resolver a crise - não apenas a do tubarão que aterroriza os banhistas, mas também a do poder patriarcal. Esse poder passava por uma enorme crise nos anos 70 por causa das malditas feministas, que exigiam direitos iguais para as mulheres, desestabilizando a família e, assim, todo o status quo. Se Spielberg tinha qualquer um desses conceitos em mente quando fez Jaws? É bem provável que não, mas isso importa? Hoje em dia recepção (como uma obra é recebida e interpretada pelo público) é muito mais relevante que intenção. Ou seja, Tubarão não é mais do Spielberg. Agora é nosso.

Bônus: veja aqui uma paródia em desenho animado de Tubarão em 30 segundos. Muito boa.