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quarta-feira, 14 de outubro de 2020

FACEBOOK E ÓDIO, UM DISCURSO EM COMUM

Até que enfim, Facebook! Demorou muito, mas antes tarde do que mais tarde pra deletar páginas que neguem ou distorçam o Holocausto. Dois anos atrás, Mark Zuckerberg, que os neonazis chamam de Juderberg, assim como chamam o YouTube de Jew Tube e o Holocausto de Holoconto, disse numa entrevista que, embora achasse a negação do Holocausto ofensiva, ele não acreditava que o Facebook deveria deletar conteúdo desse tipo. Nesses dois anos, o número de páginas que negam o Holocausto só cresceu. 

Tem que ver, óbvio, o quanto essa decisão se deve a uma mudança de consciência do Zuckerberg, ou de pressão externa. Este ano, vários grupos de direitos humanos organizaram um boicote aos anunciantes do FB para exigir que a plataforma agisse contra discurso de ódio. 

Mas a decisão de ontem do FB é importante. Um estudo recente mostrou que um quarto dos adultos americanos entre 18 e 29 anos acham que o Holocausto foi um mito, que é exagerado. Sinal de que a propaganda neonazista funciona. 

Vocês devem estar lembrados de um discurso incrível que o ator e diretor Sacha Baron Cohen, mais conhecido como Borat, fez em novembro do ano passado na Liga Anti-Difamação sobre as corporações da internet. Ele falou o que eu vivo dizendo: que é preciso responsabilizar as empresas como FB, Twitter, YouTube, Instagram, Google etc pelo discurso de ódio e pelas fake news que elas divulgam. Elas não vão se regulamentar sozinhas. 

Cohen diz que, se o Facebook tivesse existido nos anos 1930s, ele teria permitido que Hitler postasse anúncios de 30 segundos sobre a solução para o "problema judeu". A internet forma a maior máquina de propaganda da história, e ela está ajudando a espalhar e a tornar mainstream teorias da conspiração e mentiras. O crescimento de teorias patéticas como o terraplanismo nunca aconteceria sem a internet. 

Cohen explica que liberdade de expressão, freedom of speech, não deveria ser confundida com freedom of reach, liberdade de alcance. Por que permitir que as piores pessoas do mundo, as mais abjetas, as mais mentirosas, as que querem semear ódio, vender pedofilia e tráfico sexual e promover massacres, tenham à disposição uma plataforma que alcance um terço do planeta? Cohen resumiu muito bem: "Aqueles que negam o Holocausto têm o objetivo de encorajar outro". 

Então, agora, o Facebook finalmente optou por não permitir que neonazis espalhem seu ódio e tentativas de recrutamento. Quanto vai demorar pra que a empresa faça o mesmo com conteúdo misógino, racista, LGBTfóbico, xenofóbico? 

Ontem li um artigo muito bom e longo do Andrew Marantz da revista americana The New Yorker. Quero compartilhar algumas coisas que ele disse aqui.

O artigo começa falando o óbvio, que o Facebook, assim como outras plataformas, está cheio de discurso de ódio e fake news. Será que o FB realmente quer resolver o problema? Será que o problema pode ser resolvido? Como todo mundo que viu o filme A Rede Social sabe, o Facebook foi criado em 2004 através do que pode ser visto como discurso de ódio do Zuckerberg, que era comparar mulheres universitárias fisicamente e descartar as feias. Na fundação da plataforma, não havia praticamente nenhuma regulamentação interna sobre moderação, sobre o que deveria ser permitido ou não. Hoje, o departamento de Relações Públicas do Facebook tenta nos convencer que a empresa não lucra com o ódio. Como um ex-funcionário do FB disse ao autor da matéria, "Ninguém quer se olhar no espelho e pensar que faz um monte de dinheiro dando um enorme megafone a pessoas perigosas". 

Teoricamente, ninguém pode publicar discurso de ódio no FB. Na prática, porém, líderes mundiais como Trump publicam o que quiserem. Em 2015, por exemplo, quando Trump ainda era um azarão para a indicação republicana para concorrer à presidência dos EUA, ele pediu na sua página no FB a proibição total para muçulmanos entrarem no país, porque eles não respeitam a vida humana. Ele se referia a todos os muçulmanos, que é mais ou menos 1 bilhão e 800 mil pessoas no mundo. Bom, isso é discurso de ódio. O FB liberou aquele post e muitos outros mais. Trump continua fazendo isso até hoje. Em outubro do ano passado, ele passou no FB uma propaganda da sua campanha de reeleição cheia de calúnias contra Joe Biden. A CNN se recusou a veicular o anúncio, mas o YouTube, Twitter e FB deixaram.

Na matéria do New Yorker também citam Bolsonaro como um modelo de divulgação de ódio. Em janeiro deste ano, numa de suas lives toda quinta, que viram vídeos no FB, nosso excrementíssimo presidente da república declarou que "o índio está evoluindo" e "cada vez mais é um ser humano igual a nós". Houve discussão interna no FB pra decidir se esse vídeo racista seria removido. Uma das pessoas que queriam bani-lo fez uma apresentação detalhada mostrando como a desumanização é a base do discurso de ódio. Mas um quadro de moderadores optou por não remover. A justificativa é que Bolsonaro é sempre assim, desse jeitinho mesmo, politicamente incorreto. "Politicamente incorreto", como a gente sabe, é eufemismo pra discurso de ódio. É como chamar algo absolutamente hediondo e preconceituoso de "polêmico".

O FB tem cerca de 15 mil funcionários trabalhando como moderadores em todo o mundo, em várias cidades como Dublin, Austin, Berlim e Manila. Já ficou famoso como muitos desses funcionários desenvolveram síndrome de stress pós-traumático, porque eles ficam horas intermináveis expostos a material tóxico como pornografia infantil, decapitações, ameaças de morte, todo tipo de violência. Milhares de funcionários processaram o FB numa ação conjunta pela exposição a esse conteúdo repulsivo. O FB fez um acordo e desembolsou 52 milhões de dólares para indenizações. O departamento de relações humanas da empresa garante que hoje o FB oferece aos moderadores uma linha aberta de saúde mental 24 horas. 

Deve ser duro ser moderador no FB, sem dúvida. Fora estar exposto inúmeras horas por dia às piores imagens possíveis, a pessoa ainda tem que manter um índice de acerto de 98%. Ou seja, se o moderador decide banir uma página, essa página apela e um quadro de moderadores opta por não banir a página, isso entra como pontuação negativa pro moderador. Portanto, por que banir? É arriscado pra ele. 

E aí a gente fica com incoerências absurdas do Facebook, que rotineiramente remove propaganda de recrutamento para o ISIS e outros grupos islâmicos, mas não para grupos de supremacistas brancos. A matéria cita que uma página britânica de nacionalistas brancos chamada Britain First, ou Grã Bretanha Primeiro, tinha 2 milhões de seguidores no FB. Em dezembro de 2017, o YouTube e o Twitter finalmente removeram o canal e perfil do Britain First. Mas o Facebook deixou a página seguir até que, em 2018, um membro do grupo dirigiu sua van por cima de uma multidão perto de uma mesquita em Londres, matando um muçulmano e ferindo no mínimo outros nove. Quer dizer, ainda levou seis semanas depois disso pro FB remover a página do grupo terrorista.

Um documentário passou um pedaço de uma sessão de treinamento de moderadores do FB, que foi filmado clandestinamente. Nessa sessão, o treinador mostrou um meme, um cartum, em que uma mãe branca afoga sua filha numa banheira, com a legenda "Quando o primeiro crush da sua filha é um garoto negro". O treinador diz que, apesar da imagem "sugerir muito", não há ataque ao garoto negro, então ok, podemos ignorar isso. Esse é o treinamento para moderadores no FB: ignorem um cartum abertamente racista! 

Eu não estou no FB, não tenho página lá, mas conheço muita gente que saiu por se cansar do ódio. Todas as ativistas que têm página na plataforma narram as dificuldades. Elas denunciam uma página por discurso de ódio e raramente ela é removida. Enquanto isso, muitos dos posts delas, ativistas pelos direitos humanos, são! É vergonhoso. Entendo que é delicado que uma corporação privada como o Facebook decida o que pode ou não ser visto, que mais ou menos seis homens, donos das maiores plataformas online do planeta, ditem o que é ou não passável. Mas, ao mesmo tempo, do jeito que está, com a veiculação irrestrita de todo tipo de material radioativo, as democracias do planeta correm perigo. A gente já viu o que o WhatsApp fez com o Brasil em 2018. 

Veja meu vídeo no Fala Lola Fala

terça-feira, 12 de junho de 2018

A FUGA DO FACEBOOK QUE TUDO VÊ

Esses dias abri um sorriso porque mascus estavam reclamando da dificuldade cada vez maior de manter perfis fakes no Facebook. 
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E, sem fakes, como fariam para viralizar os sites de ódio que criam? (eles precisam dos fakes para entrar em páginas progressistas e escrever "Viram que absurdo?", com link pro site de ódio. Aí o pessoal desavisado espalha, crente que tá ajudando, quando está apenas divulgando ódio -- e, de quebra, trazendo vírus pro seu computador. Por isso, nunca divulgue links de ódio. Só denuncie!).
Apesar de eu não ter FB, sei que muitas ativistas reclamam contra censuras ridículas de imagens de mastectomias, por exemplo. Sei também que o FB é uma empresa privada, e que é perigoso uma companhia ter tanto poder. Por outro lado, pra mim -- como alvo constante -- é muito bom que o FB finalmente esteja sendo mais enérgico para coibir o ódio (gostaria que o Twitter fizesse o mesmo). 
Foi algo assim que escrevi no Tw no fim de semana. Um seguidor antigo, que entende muito mais de internet do que eu, disse que não dá pra confiar no FB e me recomendou um artigo publicado recentemente por um site português, Guilhotina. É longo, mas traz muita informação, e por isso reproduzo-o aqui, com algumas pequenas adaptações pro nosso português. 

Entre 2009 e 2011, ecoou pelo mundo ocidental um número sem fim de artigos de opinião que atribuíam a redes sociais como o Facebook e o Twitter as responsabilidades pela onda de revoltas que atingiu partes do Oriente Médio e da América Latina. O tom desses artigos misturava triunfalismo tecnológico e civilizacional: “Vejam como os nossos valores superiores finalmente chegaram a estes povos incultos e imundos graças às maravilhas tecnológicas da Internet.”
No entender destes escribas, estas redes sociais haviam permitido a uma nova geração tecnologicamente apta coordenar-se para exigir democracia e liberdade contra regimes opressores. Deixemos por agora de lado que análises posteriores mais sérias sobre o fenômeno tenham revelado que o uso destas redes sociais para fins de protesto foi grandemente exagerado. Ou que a verdadeira história é que há uma enorme quantidade de jornalistas que, na realidade, não estando no terreno, não falando a língua e não conhecendo a história dos locais sobre os quais escrevem, simplesmente iam ao Twitter e Facebook para roubar fotos e vídeos e aldrabar uma coisa qualquer sobre o que se passava.
Façamos antes a pergunta – qual o verdadeiro potencial de redes sociais como o Facebook para fins políticos radicais?
Em Portugal, durante o período das manifestações anti-austeridade que começou em 2011, foi visível, em eventos como o Que Se Lixe a Troika e os Cercos ao Parlamento, a velocidade estonteante a que os eventos associados de Facebook cresciam, com milhares de novas pessoas a cada hora. Independentemente de tal não se traduzir necessariamente em participação nas ruas, era um forte sinal de que se conseguia escapar da “bolha” em que a participação política habitualmente se limita, e chegar a uma audiência maior. Foi em parte o testemunho por parte dos membros e membras da Guilhotina deste poder do Facebook de chegar às pessoas que nos fez investir na plataforma.
Várias pessoas que viriam a formar a Guilhotina já administravam uma variedade de páginas no Facebook. Fazer crescer a audiência no pré-2014 era um desafio vastamente inferior ao que é hoje. O tempo e conteúdo que no passado gerava milhares de “gostos”, hoje tem sorte se gerar centenas e chega a um número muito mais reduzido de pessoas.
Tendo em conta que a Guilhotina foi lançada em finais de 2013, esta alteração de dinâmica em 2014 foi-nos particularmente óbvia na lentidão com que a página crescia, apesar de contar agora com trabalho colectivo mais prolífico.
O que aconteceu em 2014?
Antes de 2012, uma publicação era igual a uma visualização, desde que alguém tivesse dado "like" na página. O Facebook introduziu então o “alcance orgânico”, que restringe a quantidade de pessoas que inicialmente vêem uma publicação para cerca de 16% da audiência total da página. Dependendo da quantidade de interações que a publicação angaria (comentários, partilhas e likes), o algoritmo do Facebook poderá decidir mostrá-la a mais gente ou não. Em 2014, a porcentagem de alcance orgânico caiu para 6,5%.
Se os 16% já eram um desafio, os 6,5% parecem ter sido um marco não apenas quantitativo mas também qualitativo na dificuldade em chegar à audiência. O alcance orgânico tem continuado a cair desde então, encontrando-se hoje entre os 1 a 2%, dependendo de vários fatores; por exemplo, páginas pequenas que estão começando recebem um maior alcance orgânico, que vai diminuindo conforme crescem. Os primeiros 2.000 likes são notoriamente mais fáceis de obter do que aquilo que se segue, provavelmente numa tentativa de não desencorajar aqueles que estão investindo na plataforma recentemente e fazê-los sentir que, chegando a um certo ponto, mais vale continuar, apesar do retorno reduzido.
O Facebook justificou o alcance orgânico com a necessidade de aumentar a seletividade dos conteúdos, cada vez mais abundantes, que chegavam aos usuários. Claro que se existisse uma genuína preocupação com os usuários, o Facebook podia perfeitamente oferecer-lhes mais ferramentas de seleção, ao invés de lhes retirar poder sobre o que vêem e dá-lo ao algoritmo. Na realidade, estas alterações serviram obviamente para reforçar junto dos anunciantes a necessidade de pagar o dízimo ao Mark para que lhes fosse permitido atingir à sua audiência –- ou, melhor dizendo, aos seus consumidores.
Para páginas políticas, sejam elas ligadas a movimentos, coletivos de informação ou outros –- que não contam com recursos financeiros milionários para se “promoverem” -– este foi obviamente um passo em direção à irrelevância, enquanto o capital viu reforçada a sua hegemonia, apesar de ter de passar a pagar o imposto Zuckerberg.
Traição do Facebook aos seus princípios de espalhar a livre comunicação?
De modo nenhum. Só um jornalista de tecnologia, com o cérebro esburacado devido à sobre-exposição a citações inspiradoras do Steve Jobs, poderia pensar tal coisa. O objetivo do Facebook sempre foi a extorsão via monopólio, como qualquer startup tecnológica que se preze.
O primeiro passo: identificar um novo espaço de mercado por explorar, recentemente criado pela disseminação de novas tecnologias. Segundo passo: angariar capital de investimento e entrar a todo vapor para dominar o novo espaço (neste caso, expandir o número de usuários da rede social), mesmo que para tal se perca dinheiro, o que no caso do Facebook aconteceu até 2009 –- ou seja, queimou dinheiro durante cerca de 4 anos e meio.
Mas isso é esperado, porque é neste ponto que se lançam as sementes do monopólio que virá. Se existisse a preocupação de crescer lucrativamente desde o início, este crescimento seria muito mais lento. E depois quem poderia prever o que aconteceria? E se um gigante já estabelecido como a Apple, Microsoft ou Google dissessem “Boa ideia, vou roubar”?
Não, é preciso garantir que quando chegar a hora da verdade, a utilização do produto seja tão disseminada que nem seja possível aos usuários considerarem uma alternativa, nem exista espaço para a competição crescer. Não entrar no Facebook? Mas como, agora que todos os nossos amigos e família só se comunicam por lá, agora que todos os eventos são filtrados por lá? Querem ser ostracizados? Entrem, é gratuito e sempre será. Ok, entraram e descobriram que é um tédio, e agora? Sair do Facebook? Todo mundo que conhecem está lá. Todos os interesses, todas as fotografias, todas as conversas. Impensável, suicídio social.
E é neste ponto, onde a vida sem o Facebook se torna inimaginável, onde este já estava no bom caminho de atingir os seus atuais 2.234 milhões de usuários (janeiro 2018) e capturar a maioria do mercado das redes sociais -– apesar de ter caído de um pico de cerca de quase 90% para 65% atualmente (abril 2018) -– é neste ponto que se erguem os muros.
Eis que chega o terceiro passo: exercer o poder de monopólio. Como a Google com a publicidade nos motores de busca (91% do mercado em abril de 2018) e a Microsoft com os sistemas operativos (81% nos computadores de escritório em abril de 2018), o Facebook reina incontestado no campo das redes sociais, e isso significa que é o Facebook que dita os preços e os termos. Daí a sua riqueza fabulosa, devido à competição dos anunciantes para conseguir chegar aos sumarentos consumidores no interior da rede social. O Facebook possui a vantagem, possivelmente ainda mais que a Google, de ser uma plataforma onde os próprios usuários fazem todo o trabalho de se auto-segmentar através de todas as informações íntimas que partilham com o Mark, pensando que partilham com amigos e família. Em termos de marketing, é uma dádiva sem preço poder conhecer os seus alvos com tal clareza, ou poder escolhê-los com tanta precisão.
Esta passagem do segundo passo –- expansão -– para o terceiro –- monopólio –- torna-se assim a marca de água das possibilidades políticas do Facebook, preso entre o momento onde precisa que todo mundo entre a bordo –- e portanto coloca menos restrições à comunicação -– e o momento onde atingiu a audiência necessária para começar a apertar com quem nele publica conteúdo, independentemente de ser comercial ou não.
Consequentemente, o Facebook é hoje um enorme centro comercial. Um local onde as pessoas se reúnem, conversam, namoram, realizam atividades lúdicas, mas em que todo este componente social não passa de uma isca para o verdadeiro objetivo de arrastar todo mundo para dentro de uma franquia qualquer e fazê-las consumir. As marcas pagam renda ao Facebook pelo direito a um espaço no todo-poderoso centro comercial mundial do Mark Zuckerberg.
E como um centro comercial, não é um espaço pensado para o livre debate político. Por trás da fachada brilhante estão os longos corredores de cimento que vão dar às salas de vigilância onde os seguranças podem seguir todos os nossos movimentos através de mil olhos no teto; onde os marqueteiros tomam nota de cada olhar, cada passo, cada compra; onde departamentos de contabilidade fazem as contas de quantos centavos vale cada um dos nossos reais.
Claro, como em qualquer centro comercial, os visitantes podem-se reunir tranquilamente para discutir as vantagens e desvantagens da ditadura do proletariado nos confortáveis sofás do Starbucks local. Mas experimentem começar a ser demasiado barulhentos, a distribuir panfletos, a organizar, e cedo aparecerão 4 seguranças e 2 polícias para perguntar qual é a ideia e por favor para dar no pé que o capital tem mais que fazer que aturar vocês.
O ambiente ideal desejado pelo Facebook é um de agressiva normalidade e centrismo, onde nem os consumidores se sentem importunados, nem os anunciantes precisam se preocupar com a possibilidade dos seus conteúdos aparecerem ao lado de cadáveres na Síria e Palestina.
A forma como o Facebook constrói esse ambiente, para além do já mencionado imposto para chegar à audiência, assenta também em mecanismos de censura opaca.
Mecanismos de censura
O primeiro destes é a pseudo-democracia da denúncia, usando a lógica de que se um suficiente número de pessoas sentirem que algo é ofensivo, provavelmente é. Os possíveis abusos de tal lógica são fáceis de prever, e é frequente tanto a extrema esquerda como a direita verem regularmente as suas páginas derrubadas como parte de guerras de denúncias mútuas.
Este cartum do Latuff derrubou várias
páginas de esquerda só por ter uma
suástica
Mas que 10 ou 10.000 racistas denunciem e derrubem uma página pelos direitos negros ou que 10 ou 10.000 machistas façam o mesmo a uma página feminista não torna o processo mais ou menos democrático, até porque a palavra final sobre algo ser removido ou não é dos censores do Facebook. O processo de denúncia apenas dá justificativa ao Facebook para se livrar de tudo aquilo que possa assustar consumidores e anunciantes. E sempre que uma página é derrubada de forma permanente, é preciso reconstruir quase do zero, garantindo que nunca se sai do gueto da pequena audiência.
Ao mesmo tempo, não é preciso grande ciência para adivinhar que, mesmo que reuníssemos 1 milhão de usuários para denunciar a Raytheon por fabricar armas usadas para matar civis inocentes, bem podíamos esperar sentados para que a sua página fosse derrubada.
Apesar da Guilhotina só por uma vez ter sofrido este tipo de censura, quando publicamos as fotografias dos violadores da Queima das Fitas em 2017, conhecemos também a experiência de uma página maior -– que não será nomeada devido a ter sido vendida e subsequentemente transformada num saco de lixo –- que era recorrentemente derrubada, especialmente quando publicava sobre a Turquia, país com um setor de trolls particularmente desenvolvido.
Um aparte sinistro: depois de um desses ataques, todos os administradores e ex-administradores da página tiveram suas contas bloqueados com a justificativa que tinham nomes de usuários incomuns e possivelmente falsos (o que não era de todo o caso), exigindo o envio ao Facebook de documentos de identificação oficial para que as contas fossem destrancadas.
Após a censura da denúncia, surge a censura dos vagos padrões de comunidade do Facebook, que são pau para toda a obra e dão uma cobertura moral à censura, visto que os conteúdos são sempre eliminados com o pretexto de proteger os usuários de algum tipo de trauma, tal como o gerado pela visualização de mamilos femininos. Obviamente que há conteúdos genuinamente censuráveis publicados por cérebros doentes, mas a expressão destas regras na política à esquerda é o impedimento de trazer à luz do dia a tradução no mundo real de conceitos como o racismo, imperialismo e machismo.
Filmaram a polícia matar um negro indefeso? Filmaram crianças destroçadas por bombas no Oriente Médio? Filmaram mulheres sendo apedrejadas na Arábia Saudita? Lamentamos mas publicar tal violência viola os padrões de comunidade, banidos todos. Mas só se forem um pequeno jornalista, ativista ou uma testemunha do momento. Se forem o New York Times, o Washington Post, a CNN ou a BBC, nenhuma atrocidade, por mais gráfica que seja, está fora do cardápio se ajudar a dar cobertura para lançar novas intervenções militares.
Este processo de deslegitimação de tudo quanto não são interesses do capital só acelera à medida que toda a estupidez à volta das fake news -– conjurada por Trump mas empoderada pela cúpula do Partido Democrata americano para justificar a derrota patética de Hillary Clinton –- descambou num processo de russofobia no Ocidente que está a servir de pretexto para impor um maior controle da informação. A Google tomou a iniciativa com a delistagem (remoção do motor de busca) ou deranking (dar menos prioridade no motor de busca, atirando os resultados para o fundo de uma longa lista) de uma série de sites independentes, especialmente aqueles com posturas anti-imperialistas e céticos das narrativas oficiais que apontam o dedo a Putin sempre que alguém entorna café em Washington.
Agora será o Facebook a estabelecer o seu próprio sistema de censura mais descarada, já tendo anunciado uma parceria com o Conselho Atlântico para decidir o que são notícias verdadeiras ou falsas.
O Conselho Atlântico, lembrem-se, é um think tank financiado por conhecidos campeões da paz, democracia e liberdade tais como: 
Emirados Árabes, Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi, Airbus, Carnegie Corporation, Chevron, Ministério do Negócios Estrangeiros do Reino Unido, NATO, Grupo Blackstone, Google, HSBC, Lockheed Martin, Raytheon, Rockefeller, Departamento de Estado dos EUA, ExxonMobil, JPMorgan Chase, Corporação Petrolífera Turca, Pfizer, Bank of America, Boeing, BP, Deloitte, Banco de Investimento Americano, Northrop Grumman, Shell, Statoil, quatro dos cinco ramos das Forças Armadas americanas (força aérea, exército, fuzileiros e marinha), Walmart e os Ministério da Defesa da Noruega, Suécia, Japão, Letônia e Lituânia. Uma pequena seleção dentre muitos, muitos outros grandes nomes do humanismo e progresso civilizacional.
Não que coisas peculiares dentro do âmbito dos interesses do imperialismo não tivessem já acontecido. Na Guilhotina denunciamos o desaparecimento pela calada da nossa publicação sobre os Capacetes Brancos, que só descobrimos por acaso quando a tentamos encontrar para deixar como referência noutra publicação. Nunca recebemos qualquer notificação de que o conteúdo havia sido removido no ano e quatro meses que passaram desde a sua publicação original. Fica a suspeita de que o motivo porque as ferramentas de pesquisa cronológica do Facebook foram ficando piores com o passar do tempo se deve à plataforma estar a pensar fazer edições ao passado. Esta publicação dos Capacetes Brancos foi reposta pouco tempo depois da primeira descoberta do seu desaparecimento, mas entretanto voltou a sumir.
Ou aquela vez em que o Facebook insistia que “houve um erro” quando tentávamos publicar sobre a invasão turca de Afrin que estava acontecendo no momento, mas permitia a publicação de tudo o resto. Experimentamos publicar as imagens da ofensiva turca com um texto diferente que não mencionava a Turquia, Erdogan, curdos, Afrin, etc e eis que o “erro” sumiu. 
Foi também por volta dessa época que muitas páginas ligadas à causa curda foram purgadas desta rede social. O momento midiático dos curdos como heróis e heroínas que combatem o ISIS havia passado, e era agora a hora do realpolitik e de dar espaço a um dos principais membros da NATO para poder levar a cabo uma limpezazinha étnica.
Enfim, não era esperado que uma plataforma da dimensão do Facebook conseguisse para sempre evitar jogar um papel mais ativo no campo da política, tendo em conta que o capital não pode permitir a poderes propagandísticos de tal dimensão andarem por aí à solta.
E o que significa tudo isto para nós?
A realidade é que é o Facebook não é abandonável, pelo menos por agora. Há infelizmente demasiada gente enfiada “lá dentro” para ser possível simplesmente virar as costas à plataforma. Mas é certamente verdade que a falsa promessa que um dia fez, de chegar a novas audiências, está praticamente morta e enterrada. Neste momento, investir no Facebook como plataforma é um erro. O Facebook, para quem não paga o imposto Zuckerberg, não passa de um sistema de lembretes para uma audiência que já nos conhece, e mesmo essa nos vê cada vez menos. Lembrete: publicamos um artigo novo. Lembrete: vai haver um evento assim ou assado. Lembrete: saiu o novo jornal Mapa.
E só vai ficar pior daqui pra frente. É portanto imperativo que todos os coletivos políticos que queiram ter voz a longo prazo criem as suas próprias plataformas online o mais brevemente possível, invistam em múltiplas redes sociais e pensem em novas formas de chegar a audiências no mundo real, enquanto continuamos a utilizar o Facebook de forma utilitária. Porque um dia desses alguém vai apertar a tecla que diz que somos todos fake news e será o fim da macacada no centro comercial do Mark.