quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O ÓBVIO: HOMENS DE ESQUERDA TAMBÉM SÃO MACHISTAS

Ontem estourou um escândalo envolvendo um rapaz, Murilo Cleto, que é historiador, professor universitário, e foi colunista da revista Fórum até junho. Ou seja, um cara de esquerda. Feminista. 
Eu particularmente não o conhecia, lia alguns artigos dele, o seguia no Twitter e vice-versa (ele deletou seu perfil ontem), mas sabia que ele era perseguido por reaças por ser relativamente famoso (na internet) e, bom, já falei que ele é de esquerda, certo? (reaças têm grupos organizados, quiçá remunerados, para atacar pessoas de esquerda).
Ontem Bruna, uma moça que foi noiva de Murilo até 2010, escreveu um relato forte na sua página no FB, que reproduzo aqui (clique para ampliar; Bruna fechou seu perfil após receber insultos e ameaças). 
Ela conta os anos de abuso que sofreu nas mãos de Murilo, incluindo várias proibições, violência psicológica, no mínimo duas agressões físicas e uma sexual. Ela termina assim:
Nada é mais parecido a
um machista de direita
que um de esquerda
"Foram oito anos de puro tormento, manipulação e dor. Então fiz o B.O, representei e voltei para tirar dúvidas. Mas nas últimas semanas eu tinha decidido que iria retirar a queixa, porque, afinal, eu estava em segurança, e aquilo não era mais necessário. O que eu não sabia, até hoje, era que outra menina está sofrendo todas as manipulações que sofri. E hoje eu tenho certeza de que nunca vou poder retirar a queixa. Lembro que quando contei a ele que iria a delegacia por mim e por todas as pessoas que ele ainda poderia fazer mal, ele jurou que nunca mais faria mal a ninguém. Confesso que mesmo depois de tudo, acreditei". 
Bruna fechou seu perfil após receber insultos e ameaças. 
Minha solidariedade a Bruna, a quem parabenizo pela coragem. Qualquer vítima sabe muito bem que, ao denunciar, será xingada e acusada. Mas sua decisão pode ajudar outras vítimas. Quem sabe, pode ajudar o próprio Murilo.
Pelo jeito esses foram os únicos tuítes que
troquei com Murilo (cortesia dos reaças,
que correram pra investigar)
Desde que fiquei sabendo do caso, ontem, já tinha certeza que os abutres da direita viriam pra cima com tudo. Claro, é uma oportunidade de ouro pra atacar um cara de esquerda e, ao mesmo tempo, nós feministas (pois a patrulha de "E as feminazi? Vão proteger o cara? Indignação seletiva! Onde está a Lola, se entupindo de comida?" Eu estou aqui escrevendo este post, bundão, enquanto você defeca no Twitter).  
Stalker reaça que tenta se passar por mulher me deu esse apelido carinhoso
Como se fosse alguma surpresa pra qualquer feminista de que existe muito machismo na esquerda! A gente vive denunciando isso (e a gente bem sabe como vocês, reaças, se preocupam com as mulheres). 
A enorme maioria dos caras que atacam a mim e a outras feministas são reaças. Quem me ameaça é de extrema direita. E, sinceramente, não conheço muitos homens de direita que não sejam abertamente preconceituosos. Parece que, pra ser reaça, tem que ser machista, racista, homofóbico, o pacote todo. Apontar isso, que é meio óbvio pra qualquer pessoa que passe 5 minutos com essa gente, não é "passar pano pra esquerda". Não é negar que pessoas de esquerda também podem ser preconceituosas. Todos e todas nós tivemos que nos desconstruir em algum ponto de nossas vidas. Porque somos todos sujeitos de uma sociedade machista, que nos doutrina a sermos preconceituosas. 
Todo mundo, todo partido de esquerda, todo coletivo e movimento, sabe que existe machismo (felizmente, este machismo está cada vez mais sendo combatido na esquerda, enquanto prolifera orgulhosamente na direita). Mas é sempre um choque quando surge o nome de alguém que era um de nós, que a gente admirava. 
Eu não generalizo. Não uso os termos pejorativos "esquerdomacho" ou "feministo", porque defendo que os homens façam parte de movimentos feministas. Porque acredito que, para mudar o mundo, não dá pra mudar apenas metade da população. Enfim, eu acredito em homens feministas. Mas sempre há muitas decepções, porque uma coisa é a teoria, é o que sabemos, e outra é a prática, é o que vivemos. E sempre existem contradições. 
A própria Betty Friedan, ícone feminista, autora do revolucionário A Mística Feminina, revelou que apanhava do marido, e aguentou anos de abuso até se divorciar. A diferença é que uma mulher feminista que tolera o machismo na sua vida pessoal costuma ser vítima de violência, de manipulação, de submissão, enquanto que o homem feminista que tolera o machismo na sua vida pessoal costuma ser o agressor. 
Enquanto os misóginos gritavam "E as feminazis?!", eu falava com a Bruna. Ela me disse num email hoje: 
"Só gostaria de reforçar a importância de não estar sozinha para enfrentar tudo isso. E além disso, o quão importante é não vincular essa reflexão com discurso de ódio. Eu sei que o Murilo não teve uma vida fácil no meio familiar, sei que ele tem milhões de questões para resolver, então a necessidade de conseguir ajuda para ambos os lados também é fundamental. Não sei se [minha amiga] comentou, mas o Murilo melhorou muito depois que conheceu o seu blog. Sim, ele ainda tem muito a melhorar, mas questões como relacionamento abusivo e agressões ele começou a entender lendo o que você escrevia. Ele me contou isso este ano. E depois de 2013, quando ele  conheceu seu blog, eu não tive mais conhecimento de agressões dele. Mas ficou a violência psicológica, infelizmente. De qualquer forma sou muito grata a você".
Pois é, eu acredito que pessoas possam mudar. Um dos passatempos (remunerados?) de reaças é coletar tuítes antigos de pessoas que hoje combatem preconceitos. Só que, como reaça não crê em mudança, pra ele um tuíte preconceituoso de anos atrás é prova inconteste de que a pessoa continua preconceituosa. Entre ontem e hoje eles se deliciaram com tuítes antigos do próprio Murilo, mas de lá pra cá ele mudou. 
Tuíte de 2012
Só que, pelo jeito, bastante do seu comportamento abusivo ainda não mudou. Se a palavra da vítima vale alguma coisa pra quem pede execução em praça pública e pena de morte pro Murilo, não é isso que Bruna quer. Ela denunciou para que não haja novas vítimas. Para que Murilo seja responsabilizado pelos seus atos. E para que ele possa mudar de fato. Sem perseguição, sem justiçamento, sem linchamento. Sem violência.
Update em 20/2/17: Removi a parte em que a amiga de Bruna fala sobre Murilo, que Murilo considerou calunioso.
A justiça rejeitou as acusações e determinou o arquivamento do processo. 

Murilo se manifestou sobre o caso. E ele também recebeu ameaças de morte dos mascus sanctos.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

AS ÚNICAS MULHERES COM QUE REAÇAS SE PREOCUPAM SÃO AS FEMINISTAS

Aconteceu em Três Corações, sul de Minas, no sábado. 
Pelo que entendi ao ler algumas notícias e ver o vídeo chocante, um casal composto por Luiz Felipe Neder Silva e uma delegada de polícia estavam discutindo dentro do carro, num clube. O homem a agrediu, e várias pessoas passaram a filmar e acalmar a situação. A delegada então jogou a chave do carro (para impedir que o marido dirigisse bêbado) para uma segurança do clube, Edvania Nayara. 
Felipe foi tirar satisfações com Edvania e gritou, como pode ser ouvido no vídeo: "Ela é minha esposa. Tô com vergonha do que ela tá fazendo. Por que você tá me tratando assim? Eu quero levar ela embora, eu tô com vergonha". 
O cara faz um escândalo em público, bate na esposa, está bêbado, e ele acha que a mulher é que está fazendo com que ele passe vergonha! E repare no "Por que você tá me tratando assim?", como se ele fosse a vítima, não o agressor. Comportamento típico (eu, que graças à deusa nunca sofri violência física, conheço bem o roteiro de misóginos que me atacam na internet. É exatamente assim). 
Pode-se ver no vídeo que Edvânia, bastante calma diante de um homem enfurecido gritando, apoia um de seus braços sobre o carro e pede que ele "abaixe a bola". Ele responde: "Abaixa a bola você!" Ele toca nela, que exige que ele tire a mão dela. Felipe, então, lhe dá um soco no rosto, que a derruba. Ele ainda dá um pontapé na cara da segurança caída, que se levanta e quer ir pra cima dele, mas é contida pelas pessoas. Ela diz: "Você vai pagar na cadeia!" 
Felipe continua gritando e ameaçando. Ele tenta tirar algo do seu bolso. Segundo testemunhas, era um canivete. Um rapaz (isso não está no vídeo) que tenta controlá-lo leva um soco de Felipe e perde dois ou quatro dentes (depende da fonte). Felipe foi preso. Evidentemente, não era a primeira vez que batia na esposa. 
Edvânia prestou queixa, fez exame de corpo de delito, e relatou: "Na delegacia, a irmã dele me contou que ele agride a mulher constantemente. Comigo, não vai ficar barato. Foi a primeira e última vez que sofri esse tipo de agressão". 
Nas redes sociais, por incrível que pareça, tem um bocado de gente criticando não o agressor, mas a vítima. Como assim, ela continua casada com ele? Como que pode, ela é delegada de polícia! Pois é, bem-vindos à praga da violência doméstica, que não escolhe vítimas. Mulheres de todas as classes sociais e profissões são agredidas pelos companheiros. Por mais que você conheça o roteiro, você não fica impune. Em todas as vezes que atacou sua esposa, Felipe deve ter pedido desculpas, prometido que nunca mais faria aquilo. E provavelmente em todas as vezes a delegada acreditou, certa de que poderia reabilitá-lo.  
Eu só fiquei sabendo desse caso horrível (que me lembrou outro caso, também registrado em vídeo, em que um homem deu uma cotovelada na cara de uma moça; Anderson Lúcio de Oliveira foi condenado a cinco anos de prisão em regime semi-aberto) agora de madrugada. Uma leitora me enviou o vídeo pelo Twitter praticamente ao mesmo tempo que recebi um tuíte de um tal de Patrício (@Stepenwolf__), que, ao conversar com um perfil reaça chamado @Justiceiro_Sujo, disse que eu e um pedaço de m*rda eram a mesma coisa, e perguntou: "Cadê o câncer que não pega nessa escrota imunda?"
Nunca falei com esse homem honrado, esse cidadão de bem que se acha no direito de agredir uma total desconhecida que nunca lhe dirigiu a palavra. Agora ele trancou a conta no Twitter e deletou aquele tuíte, mas antes ele havia posto lá uma foto sua, já que aparentemente trabalha no Pronto Socorro de Porto Alegre. Como assim, um rapaz que trabalha num hospital e deseja câncer pra uma mulher que ele sequer conhece mas já odeia pacas?
Maicon Angelo Patrício (que já me falaram que é médico ortopedista) estava respondendo a um tuíte de um "justiceiro" que, como o próprio avatar diz (infelizmente, ao contrário de Patrício, a enorme maioria dos reaças que atacam mulheres não possuem rosto nem nome, e são todos muito valentes por trás de um avatar), tem como missão na vida perseguir perfis esquerdistas. Se alguém reclama de um tuíte racista, machista, homofóbico, é função deste e de outros reaças atacar a pessoa em massa -- ahn, não quem falou algo preconceituoso, mas quem quem denunciou quem falou algo preconceituoso --, procurando tuítes antigos que mostrem que essa pessoa também é preconceituosa (e não se engane: isso não é uma ação individual. Eles agem em grupos. São ações organizadas). 
No meu caso, fico chocada que até agora não encontraram nada contra mim 
(e tenho certeza que não foi por falta de busca; mas estou acostumada: eles precisam criar sites e tuítes e cartazes falsos no meu nome pra tentarem me incriminar). Olha o tuíte do Rambinho dos Teclados: "Lola e Cynara não deram uma linha pro homem que bateu numa mulher em praça pública. Indignação seletiva é coisa de esquerdista mesmo". Essa pérola foi retuitada mais de cem vezes, espalhando várias mentiras. Pra começar, Cynara tuitou sobre o caso assim que soube, ainda no domingo. Depois, indignação seletiva por quê?
Se você não se indigna publicamente, quer dizer que não se indignou? E se você não ficou sabendo? (é possível, não sou central de notícias). E se você ficou sabendo mas estava fazendo alguma outra coisa e não teve tempo ou vontade de largar tudo e escrever sobre aquilo? E se você ficou sabendo e escreveu sobre aquilo mas o idiota nem lê o seu blog ou twitter e só está interessado em te acusar mesmo?
Isso acontece com feministas e demais ativistas todo santo dia. Qualquer notícia que reaças julgam importante, principalmente aquelas ligadas à violência de gênero, deve receber "textão" (que reaças tanto condenam e não leem) de no mínimo cinco feministas que eles conhecem (o que é difícil, pois eles geralmente só conhecem duas ou três) para que não venha a acusação "Por que as feminazi não estão falando nisso? Indignação seletiva!" 
Recentemente veio um reacinha cobrar de mim e da Cynara solidariedade para uma jornalista de direita que foi ameaçada pela mesma trupe que me ameaça (e que ameaçou Cynara também, uma semana antes de atacar a Joice). 
Eu só mandei o link do meu post pra ele -- e o infeliz teve a decência de pedir desculpas (fato inédito). Semana passada foi o caso de vítimas na Síria pedindo permissão para se suicidar antes de serem estupradas. Todos os reaças patrulhando: "Disso as feminazis não falam!" (eles gostam muito de notícias de misoginia no Oriente Médio porque lá, segundo eles, o feminismo tem razão de ser -- duvido que os machistas de lá não ataquem as feministas de lá da mesma forma que os machistas daqui nos atacam). Eu não falei porque parecia boato, o que de fato se comprovou. E porque geralmente adoto a política de não escrever sobre o óbvio. Escrever um texto só pra manifestar minha revolta, sem poder acrescentar mais nada, bom, isso eu faço em 140 caracteres no Twitter).
Mas por que a gente não falaria no caso da segurança agredida no clube? Vi alguns comentários reaças dizendo que nosso "silêncio" se deve à mulher ser segurança. A gente odeia seguranças ou policiais, entende? Não é que a gente combata violência policial; pra reaças, ativistas dos direitos humanos odeiam a polícia.  
Por que a gente esconderia esse caso em particular? Edvânia, a segurança em questão, é uma heroína. Foi ela quem defendeu a esposa de Felipe. Foi ela que foi covardemente atingida pelo agressor. Foi ela que imediatamente se levantou e partiu pra cima dele, sem medo. Foi ela que o denunciou. Foi ela que disse que nunca tinha passado por isso antes e garantiu que não vai acontecer novamente. 
Por outro lado, tenho a impressão que o caso estaria recebendo menos destaque por parte dos reaças se eles soubessem o que sabemos agora: que Felipe é um deles. Nas redes sociais, Felipe é um coxinha genérico que participou das manifestações pelo golpe. que xingava Dilma, que dispara preconceitos. E, nas horas vagas, ele vai prum clube, fica bêbado, arma escândalo, e espanca duas mulheres. 
(Não que homens de esquerda estejam isentos da misoginia. Não estão. Também fazem tudo isso, e também os denunciamos quando fazem. Mas eles não parecem ter tanto orgulho da sua misoginia quanto têm os reaças. Eu, pelo menos, não costumo ser ameaçada por gente de esquerda). 
A gente passa a vida denunciando machismo e violência contra as mulheres. Meu bloguinho tá indo pro nono ano de vida. E recebo inúmeras ameaças e mensagens de ódio como a do Patrício justamente por denunciar machismo. E nenhum reaça fala qualquer coisa das ameaças de morte e estupro que recebo (mentira, falam sim: dizem que elas não existem, que eu que crio e invento os milhares -- literalmente -- de prints com ameaças que venho colecionando há no mínimo seis anos). Cadê a indignação deles com as ameaças? Cadê a preocupação deles com as mulheres? Afinal, eles parecem sempre estar querendo salvar as mulheres das feministas. 
Mais uma vez, fica provado que reaças não se preocupam com as mulheres. Eles só não perdem oportunidades de atacar feministas. Eles são agentes do machismo. Eles não combatem o machismo (quem faz isso somos nós). Eles combatem quem combate o machismo. E eu sempre pergunto: de que lado você está?

domingo, 18 de dezembro de 2016

ÚLTIMOS DEZ EXEMPLARES DE UM ÓTIMO LIVRO

- E aí, vai encarar?, pergunta Sofia

Pessoas queridas, nunca pensei que iria dizer isso, mas... 
Últimos livros do Golpe 16 pra vender! Bom, pelo menos da minha parte. É certeza que a Fórum deve ter mais exemplares, pois lançou uma segunda edição. 
Mas comigo foi assim: fiquei muito orgulhosa de participar do projeto. O jornalista e blogueiro Renato Rovai, editor da Forum, me ligou em meados do ano para me convidar para escrever um artigo para um livro que trataria do momento político do Brasil sob vários enfoques. Eu decidi falar sobre o machismo no tratamento a Dilma, e de como a entrada de Temer deu gás a muitos misóginos (e isso foi antes da vitória de Trump nos EUA!), que se sentiram ainda mais animados a perseguir e ameaçar mulheres, principalmente feministas. 
O livro teve lançamento em várias cidades. Aqui em Fortaleza, eu organizei o lançamento, convidei duas colegas fantásticas, a Alba Pinho de Carvalho, da Ciências Sociais da UFC, e a Irenísia Oliveira, da Literatura. E consegui que o sindicato (Adufc) patrocinasse a vinda do Renato pra cá, pra que tivéssemos um excelente debate. Foi no final de setembro. Não veio muita gente, mas sei que quem veio, adorou e aprendeu bastante. 
Eu tinha pedido para que a editora me enviasse cem exemplares. A editora fez um acordo com todos os blogueiros autores do livro: a pessoa podia pedir exemplares em consignação, e ficava com metade do valor de capa (que é R$ 35). Infelizmente, só consegui vender 13 míseros livros no lançamento. Eu até cogitei devolver uns setenta exemplares, porque pensei: nunca vou conseguir vender tudo isso. Porém, pouco a pouco, deu certo. 
Por isso anuncio que estou agora com os últimos dez exemplares pra vender! Compre logo! Qual a vantagem de comprar comigo? O preço é o mesmo (R$ 43 pra receber o livro pelo correio). Mas assim você colabora um pouquinho com o blog e recebe uma dedicatória carinhosa escrita por mim. 
Para tanto, basta depositar R$ 43 (R$ 81 se quiser dois exemplares) em uma das minhas duas contas (em nome de Dolores): Banco do Brasil, agência 3653-6, conta 32853-7, ou Santander, agência 3508, conta 010772760 (minhas contas na Suíça, prefiro não revelar, mas pode me pedir o CPF, se precisar dele pro depósito). Aí você precisa me mandar um email (lolaescreva@gmail.com) com alguns dados sobre você, pra que eu possa me inspirar e escrever uma dedicatória um pouco mais pessoal. E o endereço (com CEP) pra onde vc quer que eu envie o livro. Pode ser de presente pra alguém (mas já aviso: não vai chegar até o Natal; com sorte, até o reveillon). 
Como realmente faltam poucos exemplares, só dez, e não vou pedir mais pra editora, recomendo que você me envie um email antes de comprar o livro, só pra me perguntar se ainda tenho algum.

Muito obrigada a todas e todos que compraram! É um livro importante, e fico feliz de estar nele. Vamos ver se ano que vem eu lanço um livrinho só meu (atrasado em no mínimo dois anos... Pra isso, preciso parar de jogar gamão com o computador, meu vício das últimas duas semanas. Você acha que vale a pena fazer um post sobre gamão?). 

sábado, 17 de dezembro de 2016

PARABÉNS, LAERTE, POR GANHAR PROCESSO CONTRA O ÓDIO

Gente, que notícia maravilhosa! 
A fantástica e inigualável cartunista Laerte (de quem sou fã desde a minha adolescência, e olha que isso faz tempo) ganhou uma ação contra Reinaldo Azevedo, Veja e Jovem Pan. 
Eu lembro bem do caso, só não sabia que Laerte tinha processado o abjeto tio Rei (que recentemente caiu em desgraça entre alguns reaças porque ele continua defendendo o PSDB acima de todas as coisas e é contra "intervenção militar" -- eufemismo pra golpe dos milicos, cada vez mais defendido na cara dura por vários coxinhas). 
Ano passado, Laerte fez o que é sua profissão: desenhou um cartum. Nesse cartum, criticava os manifestantes que saíam à rua para tirar selfie com PMs (porque pra acabar com a corrupção é que não era), que, como as estatísticas provam, é a polícia que mais mata no mundo. O cartum referia-se a uma chacina que tinha acontecido na época, cometida por PMs. Enfim, esse cartum enfureceu o "rottweiler" tio Rei, que escreveu um texto cheio de transfobia, chamando Laerte de "baranga moral", "farsante", e por aí vai (como, aliás, é de seu feitio. Ele aprendeu com seu ex-guru Olavo de Carvalho, que prega que não adianta debater ideias com adversários de esquerda, é preciso atacá-los pelo lado pessoal). 
Na ocasião, Laerte, linda e poderosa como é, não se deixou abater. Em vez disso, comentou ironicamente: "Esse cara me dá um tesão desgraçado. Não sei o que é — tá, ele não é um ogro —; se é o olhar decidido, o nariz, os lábios, não sei! Nessas noites de frio que vem fazendo eu fico debaixo das cobertas e, como diria o Henfil, peco demais".
Agora saiu a sentença do processo: indenização de R$ 100 mil reais que tio Rei e os veículos que o abrigam (que são responsáveis pelas asneiras lá publicadas) devem pagar a Laerte. 
Isso me dá esperança de que eu também serei bem sucedida na reconvenção que movo contra um mascu que está me processando. 
Um dos meus cartuns favoritos de
Laerte: o consolo do prisioneiro
Eu parei de contar quantos vídeos o energúmeno fez me caluniando quando ele chegou aos trinta, sem exagero. Se ele só me chamasse de baranga, talvez eu nem entrasse com reconvenção. Mas ele me chama também de mentirosa, canalha, mal-amada, mal-comida, psicopata, vagabunda, bruxa de Salem, brancofóbica (existe isso?), e "a grande porca da mãe terra desta seita satânica" (não sei se ele está falando do feminismo ou do Brasil). 
Além disso, ele me acusa de vários crimes, como de ser uma nazista (ha ha, eu que sou nazista, não o sujeito que se orgulha de ser ariano e busca uma esposa ariana para ter filhos arianos! Lembre-se: eles sempre te acusam do que eles são) que foi se esconder na Argentina (ele errou por algumas décadas), de ter comprado meu "diploma" de mestrado e doutorado, de corrupção (desviar verbas pra comprar livros pra biblioteca para comprar mansões e carros importados -- esse entende de verbas pra biblioteca!), até de matar seu pai (alguém que nunca vi e nem sei o nome). 
Chama meu marido de estelionatário e pedófilo e afirma que casei com ele pra conseguir cidadania brasileira (vivo no Brasil desde 1971, sempre legalmente). E diz que recebo milhares de reais do governo petista pra fazer o blog, que não sei falar inglês (isso ele deduziu porque eu nunca fiz um vídeo falando inglês), que cobro favores sexuais de meus alunos, e mais um monte de coisas absolutamente absurdas (e risíveis, em vários casos. Minha preferida é sobre as contas que eu e o maridão temos na Suíça, recheadas de grana roubada da biblioteca).
Esse cara completamente lunático, que foi condenado a 6,5 anos de prisão em 2012 por um site de ódio que defendia racismo, misoginia e homofobia, ameaçava pessoas e prometia um atentado na UnB, está me processando (aceito doações para pagar as despesas; por exemplo, minha advogada terá que ir pra São José do Pinhais para a primeira audiência, em fevereiro. A gente nem sabe se irá acontecer, porque até agora nenhuma testemunha foi contactada. Além disso, o mascu nem sequer está no Brasil). 
Ontem revelei no Twitter que uma das minhas quatro testemunhas é o deputado federal Jean Wyllys. Fiz essa revelação pra mostrar que Jean está envolvido nas nossas causas, pois ontem aconteceu um tuitaço em defesa de Jean, um dos melhores parlamentares do Brasil, defensor incansável dos direitos humanos, e que corre o risco de ser suspenso pela Câmara. Jean aceitou ser minha testemunha porque, junto comigo, ele foi um dos principais alvos das ameaças de morte veiculadas através do site de ódio. 
Eu, Jean Wyllys, e guerreiras da
Frente pela Legalização do Aborto
Tenho bastante convicção de que ganharei o processo, mas provavelmente não verei um centavo da indenização (que não está determinada; ele, o mascu, exige R$ 41 mil de indenização da minha parte, já que eu o acusei de exatamente as mesmas coisas pelas quais ele foi julgado e condenado). Isso porque mascus em geral não têm nada em seu nome. Logo, não têm como serem cobrados (assim fica fácil, né?). 
Mas vou me ater no momento a comemorar a vitória da incrível cartunista contra o ódio. Porque o que Laerte e tantas outras ativistas temos que ouvir todo dia não é opinião, não é crítica, não é piada -- é ódio mesmo, sem tirar nem por. E o ódio, no caso de Laerte, não é apenas contra ela, mas contra todas as trans.
Da página do FB de Paulo Iotti, um dos advogados de Laerte:

Vitória! Ano passado, o colunista de revista Veja (argh) Reinaldo Azevedo (ARGH!) publicou coluna atacando moralmente a querida Laerte Coutinho. Isso porque ela publicou uma charge ironizando aqueles(as) que apoiaram o golpe (que chamavam de "impeachment") na qual pessoas com camisas da CBF abraçavam policiais e, ao fundo, havia sangue deixado por chacina recente em outra cidade, atribuída pela mídia à PM. Tudo estaria em conformidade com a liberdade de expressão e crítica (que, afinal, permite o reacionarismo e a defesa de ideias tolas, apenas vedando discursos de ódio e afins) SE ele não tivesse apelado a verdadeiras ofensas e ataques morais à Laerte. Chamou-a de "baranga moral" (sic), "fraude de gênero" (sic) e outros impropérios mais.
Em razão disso, Laerte processou Azevedo, Veja e Rádio Jovem Pan (esta por ele ter dito os mesmos impropérios ofensivos nela, pois empregadores são responsáveis por atos de seus empregados e funcionários em gera, daí a Veja também). Representada por mim e pelas queridas Márcia Rocha e Ana Carolina Borges, que coescrevemos a ação em seis mãos.
Fomos acusados pelas defesas de "descontextualizar" a fala (!). Eu queria entender em que "contexto" expressões como "baranga moral" (sic) e afins não teriam o intuito de ridicularizar e humilhar moralmente a pessoa. E FELIZMENTE O JUIZ DO CASO TEVE O MESMO ENTENDIMENTO, julgando totalmente procedente a ação, para condenar Veja, Azevedo e Rádio Jovem Pan em danos morais, no valor de CEM MIL REAIS, exatamente o valor pleiteado na Inicial! Que Laerte doará ao movimento Mães pela Diversidade, como mencionado na petição inicial.
Transcrevo os seguintes trechos da Petição Inicial, que citam todas as ofensas usadas para que possam entender o ponto aqui explicado. [Veja na página do FB].
Ou seja, fica claro que Reinaldo Azevedo teve inequívoca intenção de ofender a Laerte Coutinho em falas verdadeiramente injuriosas da honra dela, razão pela qual perfeita a condenação por danos morais.
É isso! Os réus ainda podem recorrer, mas foi uma importante vitória contra a transfobia praticada contra Laerte. Sentença disponibilizada no primeiro comentário, já que o processo não corre em segredo de justiça.
#ContraTransfobiaNossaLutaéTodoDia