Escrevi este texto em 2009, quando estava estudando literatura canadense pra um concurso. Ficou num arquivo, nunca o publiquei, esqueci completamente dele.
Semana passada, procurando um ponto de concurso que eu precisava rever pra uma disciplina, me deparei com o texto. Provavelmente eu devia estar lendo Andrea Dworkin na época, porque a pergunta inicial é dela.
A primeira experiência sexual que um garoto tem geralmente é com a pornografia. Pense: adolescentes e pré-adolescentes sabem quase nada sobre sexo. Ou os pais não ensinam, ou as escolas ensinam mal, mas o fato é que as buscas que chegam do Google (em que dia pode-se transar sem engravidar etc) mostram essa ignorância (e isso é a elite que tem acesso à internet!).
Vivemos numa sociedade sexualizada, com imagens de mulheres semi-nuas a todo momento, mas ao mesmo tempo sexo permanece um tabu. O sexo que vemos está relacionado sempre a comércio, nunca à intimidade. Intimidade não vende. Ok, agora imagine um garoto de 13 anos, cheio de hormônios, querendo descobrir o que é sexo. E seu único contato é com a pornografia. O que ele aprende?
E sabemos que eles acreditam piamente no que vêem. Se não, não se preocupariam tanto por seu pênis não ser do tamanho do do astro pornô. Mas o que ele aprende sobre mulheres? Que elas estão sempre dispostas. Não só a ter um parceiro, mas três ou quatro ao mesmo tempo. Que elas gostam inclusive de violência. Que elas adoram transar com tudo que aparece pela frente -- cabo de vassoura, outras mulheres, animais, tudo.
Vivemos numa sociedade sexualizada, com imagens de mulheres semi-nuas a todo momento, mas ao mesmo tempo sexo permanece um tabu. O sexo que vemos está relacionado sempre a comércio, nunca à intimidade. Intimidade não vende. Ok, agora imagine um garoto de 13 anos, cheio de hormônios, querendo descobrir o que é sexo. E seu único contato é com a pornografia. O que ele aprende?
E sabemos que eles acreditam piamente no que vêem. Se não, não se preocupariam tanto por seu pênis não ser do tamanho do do astro pornô. Mas o que ele aprende sobre mulheres? Que elas estão sempre dispostas. Não só a ter um parceiro, mas três ou quatro ao mesmo tempo. Que elas gostam inclusive de violência. Que elas adoram transar com tudo que aparece pela frente -- cabo de vassoura, outras mulheres, animais, tudo.
Há estatísticas que mostram que, quando há zoofilia num filme pornô, ela geralmente ocorre com mulheres não-brancas. Por quê? Porque machismo está ligado a racismo, homofobia e outros preconceitos, pois machismo envolve achar que o ser mais importante numa sociedade é o homem branco, hétero, sem deficiências físicas.
A gente não aprende apenas a ser machista. A gente aprende outras toneladas de mentiras também. Por exemplo, os mitos sobre os negros -- que homens negros são animais selvagens, muito sexuais, que têm pênis gigante, e agressivos, prontos para estuprar. Que mulheres negras querem sexo o tempo todo e seduzem os pobres homens brancos, tão indefesos. Esses mitos vêm da época da escravidão, e eram usados pra justificar o estupro sistemático que os senhores da senzala submetiam às negras. Isso faz parte de um discurso de dominação. Se vemos os negros como inferiores, como animais, é mais fácil maltratá-los. Nossa consciência dorme tranquila. A gente sabe como trata os animais mesmo.
Mas é ridículo achar que esse discurso morreu com a abolição da escravidão. A mídia continua perpetuando esses mitos. Tipo: qual notícia merece mais destaque, uma em que um grupo de jovens brancos atacam uma negra, ou uma em que um grupo de jovens negros atacam uma branca? Em 1989, houve um caso de grande repercussão nos EUA. Uma mulher branca foi estuprada por uma gangue de adolescentes negros no Central Park. Notícia em todos os jornais [um documentário foi feito sobre o caso em 2012, The Central Park Five; os rapazes condenados foram inocentados, após anos na cadeia). Dois dias depois, uma mulher negra foi estuprada por uma gangue branca, que ainda a jogou do sétimo andar. Ninguém ficou sabendo. Não é importante. Não interessa ao sistema divulgar isso.
Não quer dizer que homens negros não estuprem. Estupram sim. Se existe algo universal, é o estupro. Em todas as culturas em que o homem é dominante, em todas as classes sociais, em todas as raças, homens estupram mulheres, porque faz parte da cultura masculina. Em compensação, estupro é raríssimo em sociedades igualitárias, em que o homem não é considerado superior à mulher.
Outro mito é que, quando há abuso sexual de menores, isso é obra de homossexuais. Grande mentira. A enorme maioria dos abusos sexuais cometidos contra crianças, tanto meninas quanto meninos, é cometida por homens héteros. Mas a mídia vive nos dizendo que os gays querem “recrutar” crianças, que gays são pedófilos, que gays são perigosos. Quando se estupra crianças, usa-se o mesmo princípio do estupro de mulheres: são seres inferiores, sub-humanos, merecem ser dominados.
Há gente que estuda estupro. Gente que entrevista estupradores na cadeia e sobreviventes. E o que mais chama a atenção é a diferença de discurso. Os estupradores não acham que estupraram. Não acham que fizeram algo de errado. Lembre-se que quase 90% dos casos de estupro [em universidades americanas, nos casos de abuso infantil, e também na Índia] acontece por meio de conhecidos (pais, irmãos, padrastos, namorados, maridos, paqueras, amigos, chefes). Não são tantos os que ocorrem na rua. Se 42% das mulheres já sofreram algum tipo de abuso sexual, o que isso significa?
Que não é apenas uma minoria. Que você mesmo conhece mulheres que sofreram abuso sexual, e que você muito provavelmente conhece homens que cometeram abuso sexual.
Mas os homens tendem a pensar que não é com eles. Aqui existe outra diferença gritante. Pras mulheres, a ameaça de estupro rege nossas vidas. Deixamos de sair à noite. Calculamos como, quando e com quem iremos voltar pra casa. Evitamos andar por tal rua. Pensamos se podemos usar tal roupa. Toda hora. E vemos um homem na rua, à noite, como uma ameaça. Qualquer homem.
Não temos como saber quem é um estuprador e quem não é. Não vem uma plaquinha escrito. Então suspeitamos de todos, vivemos paranoicas, porque não queremos ser estupradas. Mas os homens imaginam que um estuprador seja um monstro desconhecido, não um deles. Se um homem fica sabendo de um amigo acusado de estupro, automaticamente assume que a mulher está mentindo. Que aí tem truta. Que ela que quis, e agora o acusa injustamente.
Não temos como saber quem é um estuprador e quem não é. Não vem uma plaquinha escrito. Então suspeitamos de todos, vivemos paranoicas, porque não queremos ser estupradas. Mas os homens imaginam que um estuprador seja um monstro desconhecido, não um deles. Se um homem fica sabendo de um amigo acusado de estupro, automaticamente assume que a mulher está mentindo. Que aí tem truta. Que ela que quis, e agora o acusa injustamente.
Constantemente realizam-se pesquisas com universitários homens nos EUA. As perguntas quase sempre são as mesmas. Uma top é “Você estupraria uma mulher se não fosse punido?”. Entre 15 e 27% respondem sim. Mas isso não é tudo. Quando se reformula um pouco a pergunta, veja o que temos: “Você forçaria uma mulher a ter sexo contra a vontade dela se não fosse punido?”. Aí 60% dizem sim! Os homens ignoram que “forçar alguém a ter sexo contra a vontade” e “estupro” são exatamente a mesma coisa!
Homens não gostam nem de ouvir falar de estupro. Uma das minhas lembranças dos anos 80 é de quando Acusados foi lançado, em 88. Apesar de não ser um grande filme, ele fez relativo sucesso, Jodie Foster ganhou seu primeiro Oscar, e ele colocou vários homens no banco dos réus. O que eu mais me lembro, porém, nem é tanto do filme em si, mas de quando a Kelly McGillis (que faz a advogada da vítima) declarou ela mesma ter sido estuprada.
Eu lembro da hostilidade que sua declaração recebeu por parte dos jornalistas e críticos (todos homens). Eles a odiaram por falar de estupro, a chamaram de oportunista, de querer divulgar um filme em cima de uma coisa pessoal, íntima, e que deveria permanecer íntima. A julgar pela reação dos homens quando ouvem a palavra estupro (indignação que alguém esteja falando disso em público, desconfiança), não resta dúvida: os estupradores são todos marcianos. Eles vêm à Terra apenas para estuprar “nossas mulheres”.
Eu lembro da hostilidade que sua declaração recebeu por parte dos jornalistas e críticos (todos homens). Eles a odiaram por falar de estupro, a chamaram de oportunista, de querer divulgar um filme em cima de uma coisa pessoal, íntima, e que deveria permanecer íntima. A julgar pela reação dos homens quando ouvem a palavra estupro (indignação que alguém esteja falando disso em público, desconfiança), não resta dúvida: os estupradores são todos marcianos. Eles vêm à Terra apenas para estuprar “nossas mulheres”.

















































