segunda-feira, 28 de março de 2016

PORNOGRAFIA EXISTIRIA NUM MUNDO SEM ESTUPRO?

Escrevi este texto em 2009, quando estava estudando literatura canadense pra um concurso. Ficou num arquivo, nunca o publiquei, esqueci completamente dele. 
Semana passada, procurando um ponto de concurso que eu precisava rever pra uma disciplina, me deparei com o texto. Provavelmente eu devia estar lendo Andrea Dworkin na época, porque a pergunta inicial é dela. 

Pornografia existiria num mundo sem estupro?
A primeira experiência sexual que um garoto tem geralmente é com a pornografia. Pense: adolescentes e pré-adolescentes sabem quase nada sobre sexo. Ou os pais não ensinam, ou as escolas ensinam mal, mas o fato é que as buscas que chegam do Google (em que dia pode-se transar sem engravidar etc) mostram essa ignorância (e isso é a elite que tem acesso à internet!). 
Vivemos numa sociedade sexualizada, com imagens de mulheres semi-nuas a todo momento, mas ao mesmo tempo sexo permanece um tabu. O sexo que vemos está relacionado sempre a comércio, nunca à intimidade. Intimidade não vende. Ok, agora imagine um garoto de 13 anos, cheio de hormônios, querendo descobrir o que é sexo. E seu único contato é com a pornografia. O que ele aprende? 
E sabemos que eles acreditam piamente no que vêem. Se não, não se preocupariam tanto por seu pênis não ser do tamanho do do astro pornô. Mas o que ele aprende sobre mulheres? Que elas estão sempre dispostas. Não só a ter um parceiro, mas três ou quatro ao mesmo tempo. Que elas gostam inclusive de violência. Que elas adoram transar com tudo que aparece pela frente -- cabo de vassoura, outras mulheres, animais, tudo. 
Há estatísticas que mostram que, quando há zoofilia num filme pornô, ela geralmente ocorre com mulheres não-brancas. Por quê? Porque machismo está ligado a racismo, homofobia e outros preconceitos, pois machismo envolve achar que o ser mais importante numa sociedade é o homem branco, hétero, sem deficiências físicas. 
A gente não aprende apenas a ser machista. A gente aprende outras toneladas de mentiras também. Por exemplo, os mitos sobre os negros -- que homens negros são animais selvagens, muito sexuais, que têm pênis gigante, e agressivos, prontos para estuprar. Que mulheres negras querem sexo o tempo todo e seduzem os pobres homens brancos, tão indefesos. Esses mitos vêm da época da escravidão, e eram usados pra justificar o estupro sistemático que os senhores da senzala submetiam às negras. Isso faz parte de um discurso de dominação. Se vemos os negros como inferiores, como animais, é mais fácil maltratá-los. Nossa consciência dorme tranquila. A gente sabe como trata os animais mesmo.
Mas é ridículo achar que esse discurso morreu com a abolição da escravidão. A mídia continua perpetuando esses mitos. Tipo: qual notícia merece mais destaque, uma em que um grupo de jovens brancos atacam uma negra, ou uma em que um grupo de jovens negros atacam uma branca? Em 1989, houve um caso de grande repercussão nos EUA. Uma mulher branca foi estuprada por uma gangue de adolescentes negros no Central Park. Notícia em todos os jornais [um documentário foi feito sobre o caso em 2012, The Central Park Five; os rapazes condenados foram inocentados, após anos na cadeia). Dois dias depois, uma mulher negra foi estuprada por uma gangue branca, que ainda a jogou do sétimo andar. Ninguém ficou sabendo. Não é importante. Não interessa ao sistema divulgar isso.
Não quer dizer que homens negros não estuprem. Estupram sim. Se existe algo universal, é o estupro. Em todas as culturas em que o homem é dominante, em todas as classes sociais, em todas as raças, homens estupram mulheres, porque faz parte da cultura masculina. Em compensação, estupro é raríssimo em sociedades igualitárias, em que o homem não é considerado superior à mulher.
Outro mito é que, quando há abuso sexual de menores, isso é obra de homossexuais. Grande mentira. A enorme maioria dos abusos sexuais cometidos contra crianças, tanto meninas quanto meninos, é cometida por homens héteros. Mas a mídia vive nos dizendo que os gays querem “recrutar” crianças, que gays são pedófilos, que gays são perigosos. Quando se estupra crianças, usa-se o mesmo princípio do estupro de mulheres: são seres inferiores, sub-humanos, merecem ser dominados.
Há gente que estuda estupro. Gente que entrevista estupradores na cadeia e sobreviventes. E o que mais chama a atenção é a diferença de discurso. Os estupradores não acham que estupraram. Não acham que fizeram algo de errado. Lembre-se que quase 90% dos casos de estupro [em universidades americanas, nos casos de abuso infantil, e também na Índia] acontece por meio de conhecidos (pais, irmãos, padrastos, namorados, maridos, paqueras, amigos, chefes). Não são tantos os que ocorrem na rua. Se 42% das mulheres já sofreram algum tipo de abuso sexual, o que isso significa? 
Que não é apenas uma minoria. Que você mesmo conhece mulheres que sofreram abuso sexual, e que você muito provavelmente conhece homens que cometeram abuso sexual. 
Mas os homens tendem a pensar que não é com eles. Aqui existe outra diferença gritante. Pras mulheres, a ameaça de estupro rege nossas vidas. Deixamos de sair à noite. Calculamos como, quando e com quem iremos voltar pra casa. Evitamos andar por tal rua. Pensamos se podemos usar tal roupa. Toda hora. E vemos um homem na rua, à noite, como uma ameaça. Qualquer homem. 
Não temos como saber quem é um estuprador e quem não é. Não vem uma plaquinha escrito. Então suspeitamos de todos, vivemos paranoicas, porque não queremos ser estupradas. Mas os homens imaginam que um estuprador seja um monstro desconhecido, não um deles. Se um homem fica sabendo de um amigo acusado de estupro, automaticamente assume que a mulher está mentindo. Que aí tem truta. Que ela que quis, e agora o acusa injustamente. 
Constantemente realizam-se pesquisas com universitários homens nos EUA. As perguntas quase sempre são as mesmas. Uma top é “Você estupraria uma mulher se não fosse punido?”. Entre 15 e 27% respondem sim. Mas isso não é tudo. Quando se reformula um pouco a pergunta, veja o que temos: “Você forçaria uma mulher a ter sexo contra a vontade dela se não fosse punido?”. Aí 60% dizem sim! Os homens ignoram que “forçar alguém a ter sexo contra a vontade” e “estupro” são exatamente a mesma coisa!
Homens não gostam nem de ouvir falar de estupro. Uma das minhas lembranças dos anos 80 é de quando Acusados foi lançado, em 88. Apesar de não ser um grande filme, ele fez relativo sucesso, Jodie Foster ganhou seu primeiro Oscar, e ele colocou vários homens no banco dos réus. O que eu mais me lembro, porém, nem é tanto do filme em si, mas de quando a Kelly McGillis (que faz a advogada da vítima) declarou ela mesma ter sido estuprada. 
Eu lembro da hostilidade que sua declaração recebeu por parte dos jornalistas e críticos (todos homens). Eles a odiaram por falar de estupro, a chamaram de oportunista, de querer divulgar um filme em cima de uma coisa pessoal, íntima, e que deveria permanecer íntima. A julgar pela reação dos homens quando ouvem a palavra estupro (indignação que alguém esteja falando disso em público, desconfiança), não resta dúvida: os estupradores são todos marcianos. Eles vêm à Terra apenas para estuprar “nossas mulheres”. 

sábado, 26 de março de 2016

UMA BOA MULHER

A Mirela me enviou este lindo poema que ela escreveu. Ela tem um blog. 
uma boa mulher aprende desde cedo a sentar com as pernas fechadas
uma boa mulher escuta primeiro a palavra mulher
para depois escutar a palavra menina
uma boa mulher se prepara
sempre para os outros
para ser bonita
limpa
uma boa mulher aprende desde cedo a se portar como uma boa mulher
aprende que precisa ser feminina e ter a boca bem limpa
não falar nome feio e não se misturar com meninos
uma boa mulher gosta de ouvir que é bonita
tira boas notas e é elogiada
pela professora
pela família
uma boa mulher tem o boletim bonito mas ganha menos que os meninos
mesmo trabalhando melhor e mais, como as outras meninas
uma boa mulher precisa casar para ser reconhecida
para ser vista como uma mulher feliz e boa
para seu marido, filhos, filhas
mas sorte é que antes de ser
boa, as mulheres são
sozinhas
e
andam por aí escolhendo
as más companhias:
aquelas que
dizem
não:
não somos boas meninas.

sexta-feira, 25 de março de 2016

GUEST POST: MINHA LUTA VEM DA MINHA DOR

Renascendo das cinzas

Recebi este relato sofrido da R. 

Boa noite Lola, vi um relato de relacionamento abusivo no seu blog e resolvi contar a minha história. Gostaria muito que publicasse no seu blog para que outras meninas fiquem atentas, embora seja muito doloroso tocar no assunto. Estou começando a falar depois de 6 anos de militância feminista.
Lola, tenho 23 anos e me identifico como feminista desde os 17, quando entrei no curso de Ciências Sociais em uma universidade federal, uma das melhores do país. Passei entre os 5 primeiros.
Não entendia por que o feminismo me fascinava tanto. Eu passava horas na biblioteca na prateleira de estudos de gênero. Descobri em terapia que a militância se deu porque eu vi meu pai bater na minha mãe. Eu via meu pai fazer piadas machistas, via meu pai fazer violência psicológica com todas nós (eu, minha mãe e irmã).
Meu pai se separou da minha mãe e a ameaçou inúmeras vezes. Ela é assistente social e já ganhou prêmios. O delegado registrou o boletim de ocorrência da minha mãe e disse pra ela se mudar da cidade, porque eles não poderiam fazer nada. Meu pai ficou com a casa e o carro, não me deu pensão e ainda acabou com a formatura da minha irmã.
Hoje o salário da minha mãe subiu de R$ 2.500 pra R$ 7.000. Após beber muito por semanas, meu pai teve um AVC. Faz um tempo, ele matou um adolescente de 13 anos na rodovia e até hoje não foi preso e nem tiraram a CNH dele. Ele estava muito, muito bêbado.
Ele já me bateu. Tenta fazer com que eu, minha mãe e minha irmã falem mal umas das outras para espalhar boatos na cidade que nascemos e nos fazer brigar. Por exemplo, ele inventou que minha mãe tinha um amante. Ele é que teve um monte de amantes, e uma delas tinha a idade da minha irmã mais velha.
Fui abusada sexualmente por um tio-avô no Natal, quando eu tinha 3 ou 4 anos, e algumas vezes em casa (meus pais trabalhavam e eu ficava sozinha). Este tio-avô foi acusado de estupro de outras crianças e nunca foi preso.
Se não bastasse um pai agressor e abuso sexual na infância, fui estuprada por um "amigo" da faculdade, que colocou Boa Noite Cinderela no meu copo durante uma balada.
Tive depressão desde que fui abusada com 4 anos, desde então nunca mais fui a mesma. Na adolescência fui gótica, me cortava, ficava no escuro embaixo da cama. Eu tinha um blog com mais muitas visualizações, poesias sobre suicídio e cortes pelo corpo, e as pessoas achavam tudo lindo e rebelde.
O ápice da munha depressão veio no último semestre na faculdade: tive um surto psicótico e tive que trancar o curso. Eu tinha bolsa de mestrado pra ir pra Portugal estudar na melhor universidade de Antropologia do mundo. Tudo foi por água abaixo.
Passei por muitas tentativas de suicídio, meus amigos sumiram e minha mãe gastava metade do salário no meu tratamento.
Eu não aprendi a dizer não pra homem. Ainda transo sem vontade, e sinto que às vezes faço qualquer coisa pra ter atenção masculina.
Sou muito inteligente e por este motivo homens mais velhos (inclusive professores da faculdade) dizem que sou "madura demais pra idade". Ouço isto desde criança.
Minha mãe também foi estuprada quando criança por diversos homens, pois trabalhava fora desde os 7 anos. Infelizmente ela não conseguiu me proteger de todos esses abusos, mas ela é especialista em violência sexual e pelo menos no seu trabalho ela é muito eficiente e já ajudou inúmeras garotas.
Enfim Lola, é isto, ainda estou juntando meus cacos que homens quebraram no decorrer de meus 23 anos, mas continuo firme e forte com o coletivo feminista que fundei na minha universidade. Sou feminista para evitar que mais meninas sofram e para dar apoio a todas as manas que não têm voz!

quinta-feira, 24 de março de 2016

GUEST POST: MAIS UM QUE ASSEDIA MULHERES HÁ ANOS ACHANDO QUE VAI SE SAFAR

A J. me enviou o email abaixo, cheio de prints, e eu respondi: 
"Posso deixar o primeiro nome dele, Bruno, mas não as imagens ou o perfil. Tomem cuidado com isso. O que mais tem é esses caras que são expostos por nós nos processando. Tá acontecendo direto. Porque a gente denuncia pra polícia e nada acontece, aí a gente se cansa e expõe nas redes sociais, e os caras dizem que não temos provas e nos processam. Lembra do Alexandre Frota processando a Sâmia em SP porque ela criticou a 'piada' que ele fez no programa do Rafinha Bastos? Lembra do Prof. Pinto? Ele está processando uma cambada de gente. E, acredite, tem um mascu que fez 25 vídeos me difamando que está me processando por danos morais. 
"Portanto, minha dica é: exponha o cara, pode deixar o primeiro nome dele (Bruno é um nome comum), mas não coloque imagens em que o rosto dele apareça, nem links pros perfis dele. Recife é uma cidade em que todos se conhecem, e muita gente vai saber quem ele é sem que vcs precisem dizer".

Clique nas imagens para
ampliá-las
Queria pedir tua atenção pra um caso que aconteceu no Recife, onde e eu e mais de 30 meninas fomos assediadas pelo mesmo homem. Só descobrimos que isso acontecia quando eu resolvi compartilhar os prints de assédio que ele praticou comigo pela direct do instagram. Vou explicar melhor.
Era domingo, dia 6 de março, quando recebi uma mensagem de um estranho (o dito cujo) no instagram. Ele me perguntava se eu fazia programa. Mesmo eu dizendo que não, ele continuava insistindo e me oferecendo valores para fazer sexo com ele. Isso tudo porque ele viu minhas fotos sensuais artísticas no instagram de um fotógrafo. 
Logo depois, eu resolvi postar no facebook os prints das minhas conversas com ele. O caso logo repercutiu e teve 240 compartilhamentos, a maioria de pessoas da minha cidade dizendo que conhecia o cara e, principalmente, relatos de mulheres dizendo que foram assediadas por ele também, que ele mandava foto nu sem permissão pra elas, que insistia em transar, que oferecia valores, chamava de "puta", "gostosa"...
Várias meninas me procuraram pra desabafar e me agradecer por ter feito o post. Elas disseram que, se não fosse isso, iriam achar que era um caso isolado, que eram as únicas assediadas por ele e que por isso "era só mais um" (assim como eu achei de início).

Entre os relatos, existe de tudo. 
Ele perseguiu inúmeras meninas, mandava mensagem dizendo onde elas estavam (e elas realmente estavam lá!), ficava com o carro parado estacionado na frente do prédio de uma moça só pra assustá-la. Uma delas me disse que saiu duas vezes com ele e percebeu que ele era louco e resolveu não sair mais. Aí ele começou a persegui-la, mandando mensagens desequilibradas, xingando, fazendo jogo psicológico, chegando a ameaçar de morte. Essa menina me disse que tem medida protetiva na justiça contra ele, e que mesmo assim ele descumpriu e foi procurá-la. Enfim... São muitos relatos.
Fui à delegacia com duas das meninas que foram assediadas pra abrir o boletim de ocorrência. 
O que eu ouvi foi "nada de mais isso que ele fez com você". Mostrei os prints dele mandando foto nu pras meninas e também ouvi "essas provas estão muito rasas". Olha, Lola... Eu não conheço a lei o suficiente pra opinar, mas eu sei que o caso merece uma atenção maior. Fomos tratadas como se isso fosse apenas uma frescurinha de mulher.

Com isso, o único meio que eu encontro de fazê-lo pagar de certa forma (porque ele deveria mesmo era ser preso) é através da exposição, para que ele seja visto e tenha medo, o mesmo medo que ele tanto prega em nós.