sexta-feira, 27 de junho de 2014

POR QUE DESISTI DE CAÇAR

O querido José Tarcísio Costa, doutorando na França, autor de um guest post (entre outros) que faz muitas mulheres quererem ir pra Suécia, me sugeriu um post interessante publicado no Huffington Post. 
Chama-se "Why I've Given Up on Hooking Up", e foi escrito por Lester Brathwaite. Fala sobre o mundo gay, racismo, homofobia internalizada, e aquele tal do "gosto pessoal", mas acho que mulheres hétero também vão se identificar com a insegurança do autor (tenho a impressão que para mulheres lésbicas e homens hétero a dinâmica é diferente). 
Pedi pro Tarcísio traduzir, e ei-lo aqui. Obrigada, lindão! (e como a gente tá respirando Copa do Mundo, e hoje não tem jogo, incluí algumas fotos de jogadores bonitos por aqui).

Sexo nunca foi uma experiência particularmente prazerosa para mim. Ele é uma parte fundamental de "ser um homem gay", de ser um ser humano, mas a parte "divertida" sempre me escapou. Não me entendam mal, eu sempre gostei da transa em si (no fundo eu sou um romântico, apesar de tudo), mas a paquera antes e a decepção depois sempre eclipsaram a diversão. A caça é muito cansativa. O encontro é efêmero. A solidão fica e, então, tudo recomeça. O ciclo continua. Como em todos os vícios, há um ciclo.
Para mim, a arte do encontro se tornou um vício. Um vício alimentado pela minha insegurança. A insegurança ligada ao fato de ser um homem gay. A insegurança de não ser masculino o suficiente quando masculinidade é uma exigência -– exigência absoluta -– feita por outros homens gays . "Masc musc" pedem os perfis. Masculino. Musculoso. Abdominais proeminentes à vista. Rostos cobertos ou cabeças decapitadas. Essa é a cara sem rosto dos encontros no século 21.
Essa ênfase dada ao anonimato e à masculinidade gera uma homofobia interna na comunidade gay masculina. Não importa o que o sexo entre dois (ou mais) homens subtende ou impõe, nós somos ensinados desde pequenos a abraçar o que é "viril" e a evitar tudo o que pode ser percebido como a sua antítese. Feminilidade é fraqueza, é indesejával, é brochante, se é que havia uma excitação. Dos peitorais comicamente inflados de "Tom of Finland" aos torsos esculturais do Grindr, homens gays sempre valorizaram o hiper-masculino, mas essa exaltação de todas as coisas viris força aqueles entre nós que não necessariamente se enquadram nessa rígida construção de gênero a ter que escolher entre rebelar-se ou conformar-se. Eu tentei ambas e posso dizer por experiência -– é preciso ser muito homem para ser bicha.
Eu tive meu primeiro flerte com a cultura da "caça" durante o ensino médio -– pré-Grindr e pré-Manhunt, talvez mesmo pré-Craiglist -– quando XY (a antiga revista para gays adolescentes e seus admiradores) tinha uma sessão pessoal online. Naquele tempo, eu estava começando a me descobrir e a me aceitar como gay e, ocasionalmente, comprava minha XY. Eu usava, então, o computador do meu amigo, ansioso para encontrar outros como eu. Tudo era tão novo e eu, ainda assim, me lembro de ser confrontado com a atitude das pessoas na internet: "Não curto negros, asiáticos, gordos, afeminados"
O racismo existente dentro da comunidade gay, disfarçado de "preferência", como se fosse a cor do cabelo, é um problema com o qual eu tenho sofrido desde então -– e me cansei de tanto discutir -– mas que não é fundamental pro meu argumento de agora. Estar online e ter um mundo de homens na ponta dos seus dedos, com um muro de anonimato entre você e eles, nos transforma em pessoas horríveis. Há um aumento das expectativas irreais para o corpo, um encorajamento à enumeração de qualidades ideais/defeitos imperdoáveis, e isso contribui para uma desconexão ainda maior da realidade dessa minha geração já tão desconectada. 
Eu passei incontáveis horas, sozinho ou na companhia de amigos que eu grosseiramente ignorei, olhando atentamente para meu telefone, servilmente passeando pelos mesmos perfis, perdendo meu tempo e cavando buracos na minha autoestima para quê? Sexo? Talvez. Amor? Dificilmente. Validação? Provavelmente.
Todo vício tem seus picos de prazer. Caras me dizendo como eu era sexy ou bonito, ou como eu tinha um belo corpo, faziam com que eu me sentisse bem comigo mesmo. Eu malhava para ser atraente para outros homens. Bom, malhar também fazia com que eu me sentisse bem comigo mesmo, mas a autoestima estava conectada à aprovação dos outros. Eu podia olhar para o espelho por horas sem fim -– posando artisticamente até encontrar a foto perfeita para meu perfil -– mas se ninguém me dissesse que eu era atraente, como eu poderia acreditar? Com meu ego tão inflado quanto os peitorais dos ciclistas e marinheiros nos desenhos icônicos de "Tom of Finland", eu me afoguei no meu próprio reflexo. E eu perpetuava o ciclo de ideais e expectativas irreais. 
A homossexualidade é por si só narcisista, e caras gays tendem a procurar outros parecidos com eles mesmos. Sendo assim, eu tentei ser como os caras que eu queria atrair. Eu posso malhar obsessivamente, eu posso tirar fotos sem camisa e sem rosto de mim mesmo e espalhá-las pela internet, eu posso fingir ser masculino, mas eu não posso ser algo que não sou. Eu não posso ser branco, eu não posso ser o ideal masculino que os outros esperam que eu seja, eu não posso viver a minha vida seguindo um rígido padrão com o qual nunca concordei.
Tudo é um jogo e eu tentei seguir as regras. Não desde o começo. Eu tentei ser eu mesmo, ou melhor, representar a mim mesmo da maneira mais fidedigna possível. Mesmo a verdade exige uma certa edição e uma certa omissão de alguns fatos. Meus perfis -– com a proliferação de aplicativos de encontros como Adam4Adam e Manhunt, eu tinha 6 perfis ativos –- mostravam meu rosto junto com fotos sem camisa, obrigatórias, e uma divertida descrição. 
Eu atraí um pouco a atenção, mas não de caras do calibre que eu imaginava que eu merecia. Minha aparência, validada pelos mesmos homens que eu rejeitava, me dava a desculpa para ser mais seletivo. Quanto mais seletivo eu me tornava, menos lúdico ficava meu perfil. Eu, então, apaguei meu rosto, adicionei mais fotos sem camisa e fotos sem roupa. Eu malhei mais; deixei minha descrição em branco para que, caso alguém não respondesse a uma mensagem minha, eu pudesse culpar somente a sua "preferência".
Mas nunca era suficiente. Alguns caras conseguem deixar de lado os sentimentos pessoais com um estudado, mas despretensioso, senso de indiferença. Eles podem se divertir de verdade e não levar essa coisa boba tão a sério. Mas eu não sou um deles. Eu levo tudo a sério demais. Eu esperava, com um frio na barriga, pela resposta de alguém, e se ela não vinha eu começava a pensar no que havia de errado comigo. Foi alguma coisa que eu disse, ou que não disse? Eu não sou musculoso o suficiente? Não sou masculino o suficiente? Sou muito negro? Não sou negro o suficiente? 
Caras com os quais eu começava uma conversa casual imediatamente se tornavam namorados potenciais. Ou nós nos encontraríamos, faríamos sexo e nunca mais nos veríamos outra vez, ou trocaríamos mensagens casuais até um, ou ambos, perderem o interesse. Algumas vezes, eu os encontrava e tinha que lidar com a rejeição pessoalmente. Se, por acaso, nós tivéssemos nos encontrado noutra ocasião menos sexualizada, provavelmente as coisas teriam acontecido de forma diferente. O fato de mostrar tudo de uma vez, entretanto, tira a surpresa e a espontaneidade do encontro.
Mas esses aplicativos e sites tinham me deixado completamente incapaz de interagir com caras de outra maneira porque eles mascaravam a minha insegurança. A minha insegurança de falar com alguém. A minha insegurança de parecer muito afeminado ou muito carente. Minha insegurança de ter que atrair alguém sem usar meu corpo. Uma coisa é ser rejeitado com base em uma foto e algumas linhas, mas ser rejeitado com base em algo mais substancial, como a personalidade, pode ser destruidor. 
Eu me destruía e me recompunha, eu comprometia meus valores e aquilo no que eu acreditava para satisfazer o desejo sexual que tanto me consumia. Eu sabia que esse desejo era nada mais que o desejo de ser menos solitário, o que explica porque eu, frequentemente, me apegava tão rápido e facilmente.
Por exemplo, eu troquei mensagens pelo telefone por uma hora com um cara que eu tinha encontrado no Adam4Adam. Depois disso, eu lhe enviei algumas mensagens que ele não respondeu logo em seguida. Isso me fez enviar-lhe uma longa mensagem no site pedindo desculpas por tê-lo assustado. Eu não sou uma pessoa de usar muito o telefone e eu quase nunca converso por horas com alguém. Entretanto, o objeto da minha "estranha afeição" não tinha ideia do que eu estava falando. Ele simplesmente estava ocupado e tinha a intenção de responder minhas mensagens, mas imediatamente várias dúvidas já tinham inundado a minha cabeça.
Eu me encontrei duas vezes com outro cara que eu achei no aplicativo Jack'd. Na segunda vez, ele veio pra minha casa e dormimos abraçados a noite toda. A manhã do dia seguinte foi perfeita. Ele estava em meus braços, o sol entrava pelas janelas do meu apartamento e iluminava nossos corpos nus e entrelaçados. Eu gravei esse momento na minha cabeça porque eu sabia que ele não duraria e que provavelmente eu não teria a mesma sensação outra vez tão cedo. Eu não tive notícias dele por um tempo depois desse dia perfeito. 
Eu enviei um SMS, no final, assumindo que ele tinha perdido o interesse. Ele respondeu dizendo simplesmente que estava ocupado e eu acrescentei –- talvez com a intenção de distanciá-lo de mim antes que eu fosse, inevitavelmente, machucado -– que eu era um pouco maluco e que eu meio que gostava dele. Nunca mais tive notícias.
Até que ontem eu não aguentei mais. Um cara que frequenta a minha academia me enviou uma mensagem no Scruff, outro aplicativo do meu arsenal para sexo casual. A gente tinha se visto na academia antes e, obviamente, tínhamos nos "secado", mas como é frequentemente o caso, foi mais fácil conversar pelos nossos perfis virtuais. Ninguém gosta de ser rejeitado e esse "amortecedor" adicional faz com que a rejeição seja menos dolorosa. Ou que pelo menos o pareça. Quando eu o vi na academia outra vez, ele me ignorou. E foi então que eu quase botei a academia abaixo. Eu fiquei tão bravo, com tanta raiva... mas por quê? Por que eu deixei isso me afetar outra vez? Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Eu já tinha estado dos dois lados dessa equação. O ignorado e o que ignora. Mas aquilo foi a gota d'água.
Eu tinha, finalmente, me cansado de viver no meio de todas essas dúvidas e inseguranças sobre o que algum cara com algumas fotos e algumas frases (ou somente um torso sem cabeça e nada mais) poderia pensar de mim -– se é que ele pensaria algo sobre mim. Eu quero ter mais respeito por mim mesmo. Parar de enviar fotos sem roupa para estranhos na esperança de que eles gostem de mim baseando-se não no que eu sou, mas na minha aparência. Parar de achar que meu valor se resume ao meu corpo e a sua habilidade de atrair. Eu quero ter relações longe da minha tela. Então eu desisti.
Eu apaguei todos os meus perfis de sexo.
Em alguns vícios você tem que parar de forma abrupta. Isso não quer dizer que não voltarei. Eu já os tinha apagado em outras ocasiões, e depois rastejado de volta, prometendo a mim mesmo que as coisas seriam diferentes, mas caindo na mesma armadilha todas as vezes. O ciclo de autodepreciação e autocomprometimento. Então, estou desistindo agora, indefinidamente. É melhor que eu dedique um tempo a mim mesmo para trabalhar minhas inseguranças do que escondê-las ou ampliá-las digitalmente, ou tentar expurgá-las fazendo sexo com o homem mais gostoso que eu puder encontrar. Se eles gostarem de mim, eu poderia gostar de mim também. Oh, vida. Eu nem curto sadomasô, mas jogar o jogo do encontro casual "NSA" foi a coisa mais masoquista que eu poderia ter feito a mim mesmo.
Agora, só depende de mim tentar criar conexões reais com o mundo real. Através de todo esse processo eu me dei conta da coisa mais importante -– todos esses aplicativos e sites não são reais. Eu sempre tentei ver os torsos sem cabeça como pessoas reais, mas eles são apenas versões daquilo que alguém gostaria de ser. Essa é a razão pela qual o fato de conhecer alguém online e pessoalmente resulta em experiências completamente diferentes e frustrantes: você não pode ter uma relação –- fechada ou aberta -– com alguém que não existe.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

NÃO ME AJUDA, LUCIANO!

Ontem de manhã a Giovana me mandou uma mensagem com um post no Facebook do apresentador de TV e representante-mór dos coxinhas Luciano Huck (sério: a primeira vez que ouvi falar no termo, perguntei: "o que é um coxinha?", e a maioria me respondeu: "Pense no Luciano Huck").
O post diz: "Carioca? Solteira? Louca para encontrar um príncipe encantando entre os 'gringos' que estão invadindo o Rio de Janeiro durante a Copa? Chegou a sua hora: mande fotos e porque você quer um gringo 'sob medida' para namoradaparagringo". Ou melhor, dizia. Porque, depois da repercussão negativa, Luciano (vou chamá-lo pelo primeiro nome para ele não tirar minha concentração no verdadeiro Hulk do momento) deletou o post. 
Eu nem soube o que pensar. Certo, estava (estou) completamente sem tempo (duas da madrugada agora e eu deveria estar dormindo), mas a primeira coisa que pensei foi: que droga, ainda tem um monte de menina que sonha com o príncipe encantado, e o capitalismo incentiva isso. 
Mas o buraco é mais embaixo, e foi ótimo ver a ex-ministra Maria do Rosário, da Secretaria de Direitos Humanos (hoje a ministra da pasta é Ideli Salvatti), tuitar pontos muito importantes (clique para ampliar, e leia de cima pra baixo):
Foi só aí que entendi que a proposta indecente de Luciano reforça o mito de que brasileiras querem um gringo para melhorar de vida. Bem diferente do que tratei aqui na segunda, que falava da indignação de alguns brasileiros machistas por estrangeiros estarem transando com brasileiras. Eu disse justamente que, para a maior parte das mulheres, não havia interesse financeiro ao beijar um gringo. 
Mas a ideia de "príncipe encantado" vai além. Ninguém fala em "porteiro encantado" ou em "pedreiro encantado". A realeza no nome está ligada à hierarquia, à posse, à fortuna. E, no contexto de homem rico/mulher pobre, está ligado à exploração sexual. Luciano, assim, é alçado à condição de cafetão.
Muito bacana a hashtag que foi lançada ontem no Twitter: #NãoMeAjudaLuciano , que dialoga diretamente com o oportunismo do apresentador (que já havia ficado evidente quando ele passou a vender camisetas com a equivocadíssima campanha Somos Todos Macacos, lembra? -- como se Luciano alguma vez na vida tenha sido xingado de macaco).
Na realidade, depois vi que o apresentador já havia usado isso de "brasileira procura príncipe encantado" antes. Dois anos atrás, pra ser mais específica, uma espectadora de 32 anos pediu a ele que encontrasse um sueco que estivesse dentro desse perfil. O perfil era vago -- só precisava ser sueco e solteiro, mais nada (você pode ver o programa de 14 minutos aqui).
Aquilo era meio diferente, porque era o desejo de uma só espectadora. Agora o próprio nome do quadro, ou pelo menos do email, é "namorada para gringo". Isso num programa que é muito assistido por crianças e adolescentes. Isso apesar dos esforços de combater a exploração sexual infantil. 
Imagina o quanto de criança e adolescente vê essa campanha e cresce com a ideia de que o príncipe encantado existe, é gringo, e está "sob medida" pra você, ao seu alcance -- é só a menina, por exemplo, topar viajar pra trabalhar como modelo. Alvo fácil para a rede de tráfico humano e escravidão sexual.
Quem precisa da sua ajuda, Luciano?

quarta-feira, 25 de junho de 2014

GUEST POST BOMBA: GURU MASCU PEDE DESCULPAS

Quando comecei a acompanhar fóruns e blogs mascus, um dos que me chamou a atenção foi o Questionando o Feminino. 
Seu autor, The Truth, redigia posts intermináveis e repetitivos, com todas aquelas bobagens mascus que a gente conhece. Rapidamente, The Truth virou um dos grandes nomes do masculinismo brasileiro, referência para muitos. Em 2012, ele sumiu. 
Até hoje ele é lembrado. Esses prints são de um fórum mascu do final de maio:
Só quero provar que não se trata de um mascu qualquer, mas de um guru mascu. Tanto que mascus estavam tentando fazer um blog com os posts antigos dele.
Pois bem. Semana passada uma feminista que conheço faz tempo me enviou um email surpreendente, com um texto em anexo. Ela fez faculdade e foi amiga do The Truth há alguns anos.
O que segue abaixo é o relato de The Truth, ex-mascu. Só cortei algumas frases (dava quatro páginas no Word!) e corrigi pontuação e português, como faço com todos os guest posts. 
Sei quem é The Truth, sei seu nome real, e sei que este relato é dele. Não vou divulgar nada disso, porque não é relevante. Mas... o choro é livre, mascus. Vejam o que um guru acha do movimento de vocês.

Desabafo de um ex-masculinista e agora feminista
Antes de tudo, gostaria de dizer que o objetivo desse texto não é acusar ninguém, pelo contrário, aqui eu quero apenas fazer o que é certo e mostrar meu processo de mudança e amadurecimento. 
Tudo começou com uma decepção amorosa. Eu amava uma menina e queria me casar com ela. Mas eu pensava que bastava ser legal e ter boas intenções. Durante um tempo, essa mesma menina parecia estar interessada em mim e isso alimentou as minhas esperanças de ter um relacionamento longo. 
Porém, ela subitamente desistiu de mim e nunca disse o motivo exato, apenas que não gostava mais de mim. Antes disso, ela começou a namorar outro rapaz e eu não aceitei ser desprezado. Pedi perdão pelos meus erros e falei que faria tudo o que ela precisasse, mas nada disso foi suficiente. 
Então começou o processo de luto. Eu fiquei deprimido e a partir do ano de 2009, comecei a utilizar os fóruns da internet para desabafar sobre o meu amor frustrado e tentar procurar respostas para o que tinha dado errado. Inicialmente eu só entrava em comunidades que tinham temática romântica. Depois de uma época, comecei a ler posts masculinistas na internet e isso reativou em mim valores conservadores da minha educação evangélica. 
A entrada no masculinismo
Preciso do masculinismo pq sou 
tão ruim em ser apreciado que
 tive que criar um campo de força
 de perseguição inexistente 
para justificar meu fracasso
Eu tinha encontrado a resposta para o que procurava. O masculinismo dizia que os homens eram injustiçados por um suposto instinto inato das mulheres, instinto que privilegiava uma minoria de homens. Comecei a escrever um blog a partir desse pressuposto e busquei apoio em algumas teorias da sedução.  
O nome do blog, talvez alguns se lembrem, era “Questionando o Feminino”. Na época eu achava tudo aquilo super normal. Porém, eu tinha entrado sem perceber no terreno dos preconceitos e das naturalizações. Como um monte de homens igualmente frustrados como eu aprovavam e achavam muito inteligentes as minhas ideias, comecei a ter um vínculo de dependência com o blog.
Eu queria parar de escrever, mas não conseguia. Cada elogio virava combustível para eu continuar escrevendo mais e mais. Eu percebia que estava mudando e não tinha orgulho do que estava me tornando, mas mesmo assim, eu não conseguia ficar uma semana sem escrever. Precisava dos elogios dos comentários, era uma dependência. Eu sabia que muitas coisas escritas por mim eram mais para agradar do que para avaliar corretamente o tema.
O blog era uma mistura de teorias conservadoras acerca dos relacionamentos, ideias religiosas e teorias da sedução. É claro que essa mistura iria gerar naturalizações perigosas. As críticas ao feminismo estavam cada vez mais emocionais e carentes de argumentos. 
Fim do blog e depressão
No final de 2011, o blog tinha quase 200 postagens. Nessa mesma época surgiram grupos extremistas na internet. Estes grupos pregavam ideias perigosas que passavam um extremismo profundo em relação aos ideais masculinistas. Enquanto alguns blogs masculinistas desistiram de continuar, eu infelizmente insisti. Mas só fiz isso por causa da dependência psicológica gerada pelos elogios dos comentários. O fato de ser elogiado não significava que eu estava bem. Pelo contrário, sabia que estava me perdendo e o surgimento dos extremistas mostrava que aquela era a melhor hora de parar.
Eu terminei o blog porque descobri que minha identidade tinha sido descoberta. Anônimos postavam fatos da minha vida pessoal nos comentários, que só não eram reproduzidos porque eram moderados. Em choque e sem saber quem tinha feito isso, eu resolvi parar. Mas minha dependência psicológica dos elogios era grande demais. Pensei em continuar com o outro apelido e outro título. Mas algo mais forte aconteceu. Começaram a me associar aos extremistas e eu entendi que essa associação partia do mesmo anônimo que sabia a minha identidade. 
Aconteceram diversas situações na minha vida pessoal. Situações de rejeição eram constantes. Como eu não sabia me defender disso, comecei a adoecer. Ao invés de ser firme e negar tudo o que eu escrevi, apenas me conformei em parar de escrever, porque estava aprisionado pelo orgulho às ideias do blog e não queria desagradar os leitores. Meu orgulho excessivo foi a minha ruína. 
O dia 15 de janeiro de 2012 foi o meu último post, desde então comecei a adoecer. Fiz vários tratamentos psicológicos e psiquiátricos, entrei em depressão profunda, não consegui emprego em lugar algum. Nada na minha vida avançou. Pelo contrário, a culpa só foi aumentando e dela surgiram somatizações que nunca me deixaram. Hoje sofro de transtorno de pânico e ansiedade generalizada e tudo foi gerado pela culpa, estresse e medo de ser exposto como extremista. De uma pessoa que só queria respostas para uma frustração amorosa, eu me tornei uma pessoa depressiva e amargurada pela culpa. 
Amadurecimento e abandono definitivo das ideias masculinistas
Demorei para amadurecer. Eu não quero conviver com a culpa pelo resto da vida e precisava dar uma resposta definitiva. Hoje estou maduro o suficiente para reconhecer meus erros e pedir perdão a todas as mulheres e a todas as feministas que se sentiram magoadas e entristecidas por tudo que escrevi de 2010 até janeiro de 2012. Perdoem-me, eu nunca fui insensível ao sofrimento das mulheres, eu apenas estava confuso e precisava de orientação. 
Eu sei que errei e quero me redimir. Nunca mais escreverei qualquer coisa parecida com a do blog. Nunca mais escreverei naturalizações e generalizações sobre as mulheres. Eu fui educado de maneira rígida dentro de um lar evangélico e fui criado para casar antes de fazer sexo. Tudo isso repercutiu na minha forma de escrever, mas em momento algum eu tive interesse em prejudicar qualquer mulher. Perdoem-me, estou realmente mudado.
Refutando as ideias masculinistas do blog
Aqui eu quero refutar algumas das principais ideias dos blogs masculinistas. Como elas estão centralizadas em poucas concepções, isto não é difícil de fazer:
1. O machismo é cultural, não natural. 
Os preconceitos machistas são culturais. Nós somos educados desde pequenos para pensar de forma machista. Se esta educação mudar, nós mudaremos também. Existem milênios de repressão sexual sobre as mulheres. Portanto não podemos cobrar tanto das mulheres acerca de algo que elas foram privadas durante tanto tempo, devemos entender primeiro o contexto histórico de tudo isso.   
2. Não existe a mulher, existem mulheres.
Não podemos colocar todas as mulheres dentro de uma só classe. Cada mulher pensa de uma forma. É um erro dizer que não existe mulher exceção e que todas são iguais. É o contrário, as mulheres possuem suas características, suas peculiaridades, e escolhem diferentemente a partir disso. O preconceito machista junto com frustrações pessoais e valores cultivados pela educação, religião e convívio social criam a ideia ilusória de que as mulheres possuem um padrão só. 
Se você analisar bem, sempre achará muitas mulheres que fogem ao padrão e que aceitam homens bem limitados e sensíveis. O problema é que o preconceito machista minimiza esse fato. O fato de algumas mulheres não quererem nada com alguns homens não faz delas pessoas que possuem um padrão único. Elas estão apenas exercendo uma liberdade de escolha. É claro que existem pessoas e pessoas. O mundo não é 100% bonito, mas não podemos criar generalizações a partir de alguns exemplos. 
3. O passado sexual da mulher é uma bobagem.
Esqueça seus preconceitos sobre o passado das mulheres. Isto é realmente uma bobagem. A coisa que eu mais lamento na vida é julgar as mulheres por causa do seu passado sexual. Penso em quanta coisa perdi por causa disso. A vida é curta e não vale a pena ficar lamentando o passado sexual das mulheres ou de qualquer pessoa. Isto não interfere em nada nos relacionamentos. 
O machismo cria uma competição que torna insuportáveis os relacionamentos. Pare de competir com os outros, esqueça os ex dela, isto tudo é herança da cultura machista que diz que você deve superar sempre os homens em tudo. Quando você parar de competir com os outros e começar a aproveitar os relacionamentos, todos esses medos e preconceitos irão passar. Os homens mais felizes que conheço não ligam para o passado das mulheres que estão com eles, porque eles vivem a vida na sua plenitude, sem preconceitos que limitam nossa existência e nos tornam amargurados à toa.
Não pense duas vezes em namorar ou casar com uma mulher se ela te ama de verdade, independente do passado sexual dela. Muitos homens sofrem de culpa porque abandonaram as mulheres que eles amam por causa de preconceitos bobos e depois percebem, quando vêem a mulher da vida deles casada com outro, que eles perderam o amor da vida deles. Você vai precisar perder quantos amores até perceber que isso é uma bobagem? Você não é perfeito, por que quer uma mulher perfeita? Não arruíne a sua vida por causa disso! 
Não julgue as mulheres, isto vai te limitar muito. Entre num relacionamento com vontade, ame de verdade, porque depois quem vai lamentar é você. Se eu pudesse, eu voltaria no tempo e jamais perderia as chances que eu perdi. O que eu ganhei com isso? Nada, absolutamente nada.
4. O feminismo é bom.
A culpa do seu sofrimento não tem relação alguma com o feminismo. Portanto não culpe as mulheres ou o feminismo por causa das suas decepções amorosas e frustrações pessoais. Em algum momento nós erramos, ou simplesmente as coisas não eram para acontecer. Não adianta ficar procurando culpados a vida inteira. Isto é fugir da responsabilidade. Eu demorei demais para amadurecer em diversas áreas da minha vida porque ficava procurando culpados. Eu culpava as mulheres e o feminismo pelas minhas decepções amorosas, quando a responsabilidade era minha mesma.
"A verdade vai te libertar, mas antes
vai te deixar furiosa". Frase de um dos
ícones feministas que às vezes é
plagiada por mascus
Não faça como eu, não espere uma catástrofe acontecer para amadurecer. É difícil para um homem entender o que é feminismo. Eu penso que feminismo veio para dar liberdade plena às mulheres. Os homens não devem ficar ressentidos com isso, pelo contrário, precisam amadurecer e pensar que mulheres mais maduras sabem o que querem e estão mais prontas para viver um relacionamento. 
5. Fuja dos blogs masculinistas e afins.
Esses blogs não vão te ajudar em nada. Num primeiro momento, eles parecem te dar a solução, mas você vai perceber com o tempo que eles te dão apenas preconceitos, que vão limitar a tua vida e você sem perceber vai se tornar cada vez mais preconceituoso. Dificilmente um masculinista tem coragem de assumir suas ideias em público. Eu posso falar isso porque sempre tive vergonha do ser um masculinista, porque sabia que aquilo era mais emocional do que concreto.
Não adianta você pensar que será equilibrado e que vai criticar levemente o que não concorda. Eu também pensava assim, porém é uma questão de tempo até você se perder. Mais cedo ou mais tarde, você estará repleto de generalizações. Estude, trabalhe,  porque a vida é feita de esforços. Não pense que ficar parado e exigir sua justiça vai trazer o amor da sua vida. A maioria dos homens que reclamam das mulheres possuem dificuldades e isto exige deles um esforço que eles não querem fazer. 
Além das bobagens que escrevi sobre as mulheres, escrevi um monte de teorias políticas fictícias e fantasiosas sobre os fatos do mundo político atual. O masculinismo não te leva apenas a distorcer questões sobre as mulheres, você acaba entrando num terreno de conspiração. Eu também inventei muitas teorias políticas equivocadas e ilusórias fundamentadas em reciclagens de blogs masculinistas e blogs políticos estrangeiros. Estas teorias são falsas, são apenas uma colcha de retalhos sem pé nem cabeça de vários textos espalhados pela web. 
Olha o que masculinismo vai fazer com você! Vai te fazer ver coisas que não estão na realidade e pensar que tudo o que percebe está certo. Ou seja, é inevitável que tudo isso produzirá distorções nas formas de encarar o mundo, a vida, as mulheres e os relacionamentos.