O querido José Tarcísio Costa, doutorando na França, autor de um guest post (entre outros) que faz muitas mulheres quererem ir pra Suécia, me sugeriu um post interessante publicado no Huffington Post.
Chama-se "Why I've Given Up on Hooking Up", e foi escrito por Lester Brathwaite. Fala sobre o mundo gay, racismo, homofobia internalizada, e aquele tal do "gosto pessoal", mas acho que mulheres hétero também vão se identificar com a insegurança do autor (tenho a impressão que para mulheres lésbicas e homens hétero a dinâmica é diferente).
Pedi pro Tarcísio traduzir, e ei-lo aqui. Obrigada, lindão! (e como a gente tá respirando Copa do Mundo, e hoje não tem jogo, incluí algumas fotos de jogadores bonitos por aqui).
Chama-se "Why I've Given Up on Hooking Up", e foi escrito por Lester Brathwaite. Fala sobre o mundo gay, racismo, homofobia internalizada, e aquele tal do "gosto pessoal", mas acho que mulheres hétero também vão se identificar com a insegurança do autor (tenho a impressão que para mulheres lésbicas e homens hétero a dinâmica é diferente).
Pedi pro Tarcísio traduzir, e ei-lo aqui. Obrigada, lindão! (e como a gente tá respirando Copa do Mundo, e hoje não tem jogo, incluí algumas fotos de jogadores bonitos por aqui).
Sexo nunca foi uma experiência particularmente prazerosa para mim. Ele é uma parte fundamental de "ser um homem gay", de ser um ser humano, mas a parte "divertida" sempre me escapou. Não me entendam mal, eu sempre gostei da transa em si (no fundo eu sou um romântico, apesar de tudo), mas a paquera antes e a decepção depois sempre eclipsaram a diversão. A caça é muito cansativa. O encontro é efêmero. A solidão fica e, então, tudo recomeça. O ciclo continua. Como em todos os vícios, há um ciclo.
Para mim, a arte do encontro se tornou um vício. Um vício alimentado pela minha insegurança. A insegurança ligada ao fato de ser um homem gay. A insegurança de não ser masculino o suficiente quando masculinidade é uma exigência -– exigência absoluta -– feita por outros homens gays . "Masc musc" pedem os perfis. Masculino. Musculoso. Abdominais proeminentes à vista. Rostos cobertos ou cabeças decapitadas. Essa é a cara sem rosto dos encontros no século 21.
Essa ênfase dada ao anonimato e à masculinidade gera uma homofobia interna na comunidade gay masculina. Não importa o que o sexo entre dois (ou mais) homens subtende ou impõe, nós somos ensinados desde pequenos a abraçar o que é "viril" e a evitar tudo o que pode ser percebido como a sua antítese. Feminilidade é fraqueza, é indesejával, é brochante, se é que havia uma excitação. Dos peitorais comicamente inflados de "Tom of Finland" aos torsos esculturais do Grindr, homens gays sempre valorizaram o hiper-masculino, mas essa exaltação de todas as coisas viris força aqueles entre nós que não necessariamente se enquadram nessa rígida construção de gênero a ter que escolher entre rebelar-se ou conformar-se. Eu tentei ambas e posso dizer por experiência -– é preciso ser muito homem para ser bicha.
Eu tive meu primeiro flerte com a cultura da "caça" durante o ensino médio -– pré-Grindr e pré-Manhunt, talvez mesmo pré-Craiglist -– quando XY (a antiga revista para gays adolescentes e seus admiradores) tinha uma sessão pessoal online. Naquele tempo, eu estava começando a me descobrir e a me aceitar como gay e, ocasionalmente, comprava minha XY. Eu usava, então, o computador do meu amigo, ansioso para encontrar outros como eu. Tudo era tão novo e eu, ainda assim, me lembro de ser confrontado com a atitude das pessoas na internet: "Não curto negros, asiáticos, gordos, afeminados"
O racismo existente dentro da comunidade gay, disfarçado de "preferência", como se fosse a cor do cabelo, é um problema com o qual eu tenho sofrido desde então -– e me cansei de tanto discutir -– mas que não é fundamental pro meu argumento de agora. Estar online e ter um mundo de homens na ponta dos seus dedos, com um muro de anonimato entre você e eles, nos transforma em pessoas horríveis. Há um aumento das expectativas irreais para o corpo, um encorajamento à enumeração de qualidades ideais/defeitos imperdoáveis, e isso contribui para uma desconexão ainda maior da realidade dessa minha geração já tão desconectada.
Eu passei incontáveis horas, sozinho ou na companhia de amigos que eu grosseiramente ignorei, olhando atentamente para meu telefone, servilmente passeando pelos mesmos perfis, perdendo meu tempo e cavando buracos na minha autoestima para quê? Sexo? Talvez. Amor? Dificilmente. Validação? Provavelmente.
Eu passei incontáveis horas, sozinho ou na companhia de amigos que eu grosseiramente ignorei, olhando atentamente para meu telefone, servilmente passeando pelos mesmos perfis, perdendo meu tempo e cavando buracos na minha autoestima para quê? Sexo? Talvez. Amor? Dificilmente. Validação? Provavelmente.
Todo vício tem seus picos de prazer. Caras me dizendo como eu era sexy ou bonito, ou como eu tinha um belo corpo, faziam com que eu me sentisse bem comigo mesmo. Eu malhava para ser atraente para outros homens. Bom, malhar também fazia com que eu me sentisse bem comigo mesmo, mas a autoestima estava conectada à aprovação dos outros. Eu podia olhar para o espelho por horas sem fim -– posando artisticamente até encontrar a foto perfeita para meu perfil -– mas se ninguém me dissesse que eu era atraente, como eu poderia acreditar? Com meu ego tão inflado quanto os peitorais dos ciclistas e marinheiros nos desenhos icônicos de "Tom of Finland", eu me afoguei no meu próprio reflexo. E eu perpetuava o ciclo de ideais e expectativas irreais.
A homossexualidade é por si só narcisista, e caras gays tendem a procurar outros parecidos com eles mesmos. Sendo assim, eu tentei ser como os caras que eu queria atrair. Eu posso malhar obsessivamente, eu posso tirar fotos sem camisa e sem rosto de mim mesmo e espalhá-las pela internet, eu posso fingir ser masculino, mas eu não posso ser algo que não sou. Eu não posso ser branco, eu não posso ser o ideal masculino que os outros esperam que eu seja, eu não posso viver a minha vida seguindo um rígido padrão com o qual nunca concordei.
Tudo é um jogo e eu tentei seguir as regras. Não desde o começo. Eu tentei ser eu mesmo, ou melhor, representar a mim mesmo da maneira mais fidedigna possível. Mesmo a verdade exige uma certa edição e uma certa omissão de alguns fatos. Meus perfis -– com a proliferação de aplicativos de encontros como Adam4Adam e Manhunt, eu tinha 6 perfis ativos –- mostravam meu rosto junto com fotos sem camisa, obrigatórias, e uma divertida descrição. Eu atraí um pouco a atenção, mas não de caras do calibre que eu imaginava que eu merecia. Minha aparência, validada pelos mesmos homens que eu rejeitava, me dava a desculpa para ser mais seletivo. Quanto mais seletivo eu me tornava, menos lúdico ficava meu perfil. Eu, então, apaguei meu rosto, adicionei mais fotos sem camisa e fotos sem roupa. Eu malhei mais; deixei minha descrição em branco para que, caso alguém não respondesse a uma mensagem minha, eu pudesse culpar somente a sua "preferência".
Mas nunca era suficiente. Alguns caras conseguem deixar de lado os sentimentos pessoais com um estudado, mas despretensioso, senso de indiferença. Eles podem se divertir de verdade e não levar essa coisa boba tão a sério. Mas eu não sou um deles. Eu levo tudo a sério demais. Eu esperava, com um frio na barriga, pela resposta de alguém, e se ela não vinha eu começava a pensar no que havia de errado comigo. Foi alguma coisa que eu disse, ou que não disse? Eu não sou musculoso o suficiente? Não sou masculino o suficiente? Sou muito negro? Não sou negro o suficiente?
Caras com os quais eu começava uma conversa casual imediatamente se tornavam namorados potenciais. Ou nós nos encontraríamos, faríamos sexo e nunca mais nos veríamos outra vez, ou trocaríamos mensagens casuais até um, ou ambos, perderem o interesse. Algumas vezes, eu os encontrava e tinha que lidar com a rejeição pessoalmente. Se, por acaso, nós tivéssemos nos encontrado noutra ocasião menos sexualizada, provavelmente as coisas teriam acontecido de forma diferente. O fato de mostrar tudo de uma vez, entretanto, tira a surpresa e a espontaneidade do encontro.
Caras com os quais eu começava uma conversa casual imediatamente se tornavam namorados potenciais. Ou nós nos encontraríamos, faríamos sexo e nunca mais nos veríamos outra vez, ou trocaríamos mensagens casuais até um, ou ambos, perderem o interesse. Algumas vezes, eu os encontrava e tinha que lidar com a rejeição pessoalmente. Se, por acaso, nós tivéssemos nos encontrado noutra ocasião menos sexualizada, provavelmente as coisas teriam acontecido de forma diferente. O fato de mostrar tudo de uma vez, entretanto, tira a surpresa e a espontaneidade do encontro.
Mas esses aplicativos e sites tinham me deixado completamente incapaz de interagir com caras de outra maneira porque eles mascaravam a minha insegurança. A minha insegurança de falar com alguém. A minha insegurança de parecer muito afeminado ou muito carente. Minha insegurança de ter que atrair alguém sem usar meu corpo. Uma coisa é ser rejeitado com base em uma foto e algumas linhas, mas ser rejeitado com base em algo mais substancial, como a personalidade, pode ser destruidor. Eu me destruía e me recompunha, eu comprometia meus valores e aquilo no que eu acreditava para satisfazer o desejo sexual que tanto me consumia. Eu sabia que esse desejo era nada mais que o desejo de ser menos solitário, o que explica porque eu, frequentemente, me apegava tão rápido e facilmente.
Por exemplo, eu troquei mensagens pelo telefone por uma hora com um cara que eu tinha encontrado no Adam4Adam. Depois disso, eu lhe enviei algumas mensagens que ele não respondeu logo em seguida. Isso me fez enviar-lhe uma longa mensagem no site pedindo desculpas por tê-lo assustado. Eu não sou uma pessoa de usar muito o telefone e eu quase nunca converso por horas com alguém. Entretanto, o objeto da minha "estranha afeição" não tinha ideia do que eu estava falando. Ele simplesmente estava ocupado e tinha a intenção de responder minhas mensagens, mas imediatamente várias dúvidas já tinham inundado a minha cabeça.
Eu me encontrei duas vezes com outro cara que eu achei no aplicativo Jack'd. Na segunda vez, ele veio pra minha casa e dormimos abraçados a noite toda. A manhã do dia seguinte foi perfeita. Ele estava em meus braços, o sol entrava pelas janelas do meu apartamento e iluminava nossos corpos nus e entrelaçados. Eu gravei esse momento na minha cabeça porque eu sabia que ele não duraria e que provavelmente eu não teria a mesma sensação outra vez tão cedo. Eu não tive notícias dele por um tempo depois desse dia perfeito.
Eu enviei um SMS, no final, assumindo que ele tinha perdido o interesse. Ele respondeu dizendo simplesmente que estava ocupado e eu acrescentei –- talvez com a intenção de distanciá-lo de mim antes que eu fosse, inevitavelmente, machucado -– que eu era um pouco maluco e que eu meio que gostava dele. Nunca mais tive notícias.
Eu enviei um SMS, no final, assumindo que ele tinha perdido o interesse. Ele respondeu dizendo simplesmente que estava ocupado e eu acrescentei –- talvez com a intenção de distanciá-lo de mim antes que eu fosse, inevitavelmente, machucado -– que eu era um pouco maluco e que eu meio que gostava dele. Nunca mais tive notícias.
Até que ontem eu não aguentei mais. Um cara que frequenta a minha academia me enviou uma mensagem no Scruff, outro aplicativo do meu arsenal para sexo casual. A gente tinha se visto na academia antes e, obviamente, tínhamos nos "secado", mas como é frequentemente o caso, foi mais fácil conversar pelos nossos perfis virtuais. Ninguém gosta de ser rejeitado e esse "amortecedor" adicional faz com que a rejeição seja menos dolorosa. Ou que pelo menos o pareça. Quando eu o vi na academia outra vez, ele me ignorou. E foi então que eu quase botei a academia abaixo. Eu fiquei tão bravo, com tanta raiva... mas por quê? Por que eu deixei isso me afetar outra vez? Não foi a primeira vez que isso aconteceu. Eu já tinha estado dos dois lados dessa equação. O ignorado e o que ignora. Mas aquilo foi a gota d'água.
Eu tinha, finalmente, me cansado de viver no meio de todas essas dúvidas e inseguranças sobre o que algum cara com algumas fotos e algumas frases (ou somente um torso sem cabeça e nada mais) poderia pensar de mim -– se é que ele pensaria algo sobre mim. Eu quero ter mais respeito por mim mesmo. Parar de enviar fotos sem roupa para estranhos na esperança de que eles gostem de mim baseando-se não no que eu sou, mas na minha aparência. Parar de achar que meu valor se resume ao meu corpo e a sua habilidade de atrair. Eu quero ter relações longe da minha tela. Então eu desisti.
Eu apaguei todos os meus perfis de sexo.
Em alguns vícios você tem que parar de forma abrupta. Isso não quer dizer que não voltarei. Eu já os tinha apagado em outras ocasiões, e depois rastejado de volta, prometendo a mim mesmo que as coisas seriam diferentes, mas caindo na mesma armadilha todas as vezes. O ciclo de autodepreciação e autocomprometimento. Então, estou desistindo agora, indefinidamente. É melhor que eu dedique um tempo a mim mesmo para trabalhar minhas inseguranças do que escondê-las ou ampliá-las digitalmente, ou tentar expurgá-las fazendo sexo com o homem mais gostoso que eu puder encontrar. Se eles gostarem de mim, eu poderia gostar de mim também. Oh, vida. Eu nem curto sadomasô, mas jogar o jogo do encontro casual "NSA" foi a coisa mais masoquista que eu poderia ter feito a mim mesmo.
Agora, só depende de mim tentar criar conexões reais com o mundo real. Através de todo esse processo eu me dei conta da coisa mais importante -– todos esses aplicativos e sites não são reais. Eu sempre tentei ver os torsos sem cabeça como pessoas reais, mas eles são apenas versões daquilo que alguém gostaria de ser. Essa é a razão pela qual o fato de conhecer alguém online e pessoalmente resulta em experiências completamente diferentes e frustrantes: você não pode ter uma relação –- fechada ou aberta -– com alguém que não existe.































































