quarta-feira, 26 de junho de 2013

A ENTREVISTA MAIS TENDENCIOSA QUE RESPONDI ATÉ HOJE

Eu de costas na Marcha das Vadias de Recife, no final de maio

Em abril, uma jornalista da UOL me procurou pra uma entrevista. Sua pauta, em suas palavras? "Estou fazendo uma matéria analisando se a militância atual é legítima, funciona ou se é sinônimo de modinha". 
Quer dizer, com uma introdução dessas, o melhor que eu deveria ter feito era nem responder. Mas eu disse que ela poderia mandar as perguntas por email, já pensando que responderia todas do jeito mais breve possível. 
Seguiu-se a entrevista mais tendenciosa que já dei. Acho que não foi publicada, que não saiu a matéria, por isso a publico aqui agora. 
Fico na dúvida se a jornalista acha que os protestos de agora são legítimos ou se ainda são modinha...

- Seus créditos e formação?
Tenho mestrado e doutorado em Literatura em Língua Inglesa pela Universidade Federal de Santa Catarina, e há três anos sou professora da Universidade Federal do Ceará. Sou autora de um dos maiores blogs feministas do Brasil, o www.escrevalolescreva.blogspot.com.br, com média de 300 mil visitas por mês.

- Por que decidiu fazer o blog?
Fiz o blog porque queria total liberdade para escrever o que eu quisesse. Meu blog é feminista porque eu sou feminista, mas também é um blog pessoal, onde publico de tudo, inclusive guest posts sobre os mais variados assuntos.

- Os protestos e a militância virtual têm trazido visibilidade para questões importantes. Mas, sob o ponto de vista prático, você acha que a militância e o panfletarismo nas redes sociais e nos blogs é mesmo eficaz? Por quê?
Sim, a militância é muito eficaz. O ativismo nas redes não substitui de forma alguma o ativismo do dia a dia, nas ruas, nas reuniões. São complementares. A internet proporciona uma maneira rápida e eficiente de união, de mobilização. E ativistas de grupos historicamente oprimidos agora têm voz. Enquanto, na grande mídia, apenas 8% dos artigos de opinião sejam assinados por mulheres, na internet mulheres, lésbicas, gays, negros, e transexuais podem ter voz. E é uma voz que faz barulho. 
Outro dia a Secretária Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres elogiou o feminismo da internet: “Não tem revolta como teve na Índia. Mas existe um outro tipo de mobilização no Brasil que tem funcionado, que são as redes sociais”. Concordo que tem funcionado.

- Um movimento bem articulado na internet poderia derrubar uma figura como Feliciano?
Bom, estamos tentando derrubá-lo. Há abaixo-assinados com milhares de assinaturas exigindo a destituição de Marco Feliciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, e continua havendo protestos no Congresso e nas ruas. Se não conseguirmos derrubá-lo, certamente não será por falta de tentativa.

- Você acha que hoje os jovens estão mesmo se mostrando mais interessados em política como demonstram na internet ou o ativismo virou modinha?
Acho que jovens sempre se interessaram muito por política. Concordo totalmente com uma frase do Mark Twain, que diz: "Não existe visão mais triste que um jovem pessimista". Se uma pessoa não tem o sonho de mudar o mundo na juventude, vai ter quando? Então há muitos jovens idealistas, hoje e sempre. O ativismo não é uma modinha. É uma realidade, um sonho, uma forma de luta.

- Esse ativismo virtual tem mesmo conteúdo, base, fundamento? Você não acha meio paradoxal que muitos jovens defendam os direitos dos índios (adicionando, inclusive, o Guarani Kaiowá ao nome) na internet enquanto fazem faculdade e se sustentam com o apoio financeiro dos pais? Outro exemplo: neofeministas que mal começaram a vida (não tiveram filhos, não precisaram deixá-los sob os cuidados de alguém para trabalhar, não tiveram grandes perdas nem ganho, sem repertório) defendendo os direitos das mulheres.
Pra mim e pra quem luta para mudar o mundo, é óbvio que o ativismo virtual tem conteúdo, base e fundamento. Mas há pessoas conservadoras que consideram qualquer tipo de ativismo inútil, coisa de quem não tem o que fazer. O pior é que essas pessoas conservadoras que não desejam mexer uma palha para mudar o mundo não o fazem porque acham que o mundo está ótimo. Pelo contrário, não o fazem -- nem toleram que pessoas idealistas o façam -- porque pensam que o mundo está perdido mesmo. 
Não acho paradoxal que jovens defendam os direitos dos índios e cursem faculdade, ou que feministas jovens sem grande experiência de vida defendam os direitos das mulheres. Ninguém precisa ser índio ou largar a vida que leva e ir morar com os índios para defender os direitos dos índios. A mesma coisa com feminismo. Não existe uma cartilha para ser feminista. Basta ter um mínimo de idealismo e o desejo por direitos iguais.

- Você acha que há uma banalização dos protestos, de forma geral? Quais suas sugestões?
Não acho que haja uma banalização dos protestos, de jeito nenhum. Talvez haja uma proliferação de protestos, e isso é excelente. Quer dizer que há mais pessoas lutando por causas que consideram importantes. Mais gente acreditando que um outro mundo é possível.

terça-feira, 25 de junho de 2013

GUEST POST: EI, VC QUE ACORDOU, NÃO HOSTILIZE QUEM NUNCA DORMIU

Publico um texto da Jullyane, leitora assídua do blog, e feminista, marxista, socialista, militante do Movimento Mulheres em Luta e do PSTU.

“O Gigante acordou”, dizem em coro, mas eu o vejo sonâmbulo, tonto, sem direção e pisoteando todos aqueles que não estavam dormindo. Sexta era para ser um dia muito feliz, de mudanças pelas quais eu luto há bastante tempo, mas terminei o dia com o sentimento que fizeram uma festa na minha casa, eu ajudei a limpar, organizei, gastei meu tempo, dinheiro, disposição, e me mandaram para a cozinha na hora de cantar os parabéns.
Construo a CSP Conlutas, a Fasubra, o SINTUFPI, o Movimento Mulheres em Luta e o PSTU; me organizo politica e sindicalmente por entender que somente juntos os trabalhadorxs e a juventude conseguem unificar suas pautas e ter foco para encaminhar suas demandas. Além de ser um direito garantido pela dita democracia, no instrumento chamado Constituição Federal.
Muitas pessoas foram torturadas e deram suas vidas para que eu desfrutasse desse direito e eu não abro mão dele, não tenho que pedir permissão a ninguém para exercê-lo, mas parece que muita gente faltou a essa aula de história. O sentimento anti-partidário, que evoca o fascismo e o nacionalismo, está ganhando proporções inimagináveis. 
Sexta-feira, acredito que pela primeira vez na história da cidade de Parnaíba (Piauí), houve uma manifestação que reuniu cerca de três mil pessoas. Um feito para ser celebrado, diriam alguns. Não discordo do fato, mas tenho as minhas ressalvas. Que maravilha que as pessoas estão gostando das ruas! Que terrível que estejam expulsando àqueles que já estavam lá!
Não pude carregar a bandeira do meu partido porque temi pela minha integridade física, e a dos meus (poucos) camaradas. Fomos ameaçados por diversas pessoas que fizeram intervenções no carro de som: “Não admitimos partidos!”, “Quem quiser vestir camisa de partido, que o faça na sua casa”, “Queimem e rasguem as bandeiras de partidos”. 
Já viajei –- várias vezes -– mais de 30 horas num ônibus (isso sem contar a volta) para marchar em Brasília, para acampar na Esplanada dos Ministérios; acordei de madrugada para tomar o Ministério do Planejamento, estive nas manifestações #contraoaumento em Teresina (primeiras manifestações populares na capital do estado do Piauí contra o aumento das tarifas de ônibus), estive nas greves das universidades federais, participei de atos, plenárias, congressos, encontros políticos diversos (sindicais, de mulheres, negrxs, LGBTs), sempre com o coração feliz, certa de estar lutando pelos direitos dos trabalhadorxs, da juventude, dos oprimidos, pelo ideal de um mundo melhor, pensando não em mim, mas em todos, coletivamente.
Sexta eu fui subjugada, agredida moralmente e marginalizada. Incrivelmente, não pelo governo, que me explora e oprime cotidianamente, mas pelos meus próprios pares, àqueles por quem eu luto diuturnamente, ainda que eles nem saibam disso. Não desisti, mas confesso que chorei em diversos trechos do percurso, tentando juntar os cacos de dignidade que me sobraram. 
Não me surpreendi com a despolitização geral do movimento, afinal, pra quê uma manifestação precisa de organização, né? Todo mundo reivindica o que quer, desde o seu PS4 até cerveja mais barata, passando, inclusive, por “sambar na cara de Satanás”, como diria um cartaz da “Irmã Zuleide”. Tentei, mas não consegui entender que uma travesti estivesse se manifestando contra a homofobia com um cartaz homofóbico (que dizia “O SUS não tá curando nem virose quanto mais viadagem"). Protesto vazio contra tudo e contra todos.
Em Teresina não foi diferente. Tivemos camaradas agredidos fisicamente e o tempo inteiro fomos vaiados, xingados e achincalhados. Entoavam “vem pra rua”, mas o convite era apenas se você se enquadrasse no “padrão Globo de qualidade” para manifestantes -- vestidos de branco, protestando pacificamente, pedindo permissão para as “autoridades” e propagando o apartidarismo em massa. 
Gritavam “sem violência” e nos agrediam de todas as formas. Protestavam contra a repressão e tentavam nos enquadrar aos moldes do que cada um tinha adicionado como item importante na sua “Cartilha do Manifestante”. Diziam “todos os partidos são corruptos, quando chegam ao poder, fazem sempre a mesma coisa” e nunca leram, sequer conhecem os programas dos partidos, muito menos do meu, que não almeja o governo, mas destituí-lo por meio de uma revolução socialista e que só participa das eleições porque é um meio de conseguir espaço para mobilizar mais pessoas, além de apresentar-se como uma alternativa ao trabalhador, para que as suas demandas sejam pautadas.
Enquanto isso, boa parte dos manifestantes tirava fotos para compartilhar no Instagram e Facebook, cumprindo o seu papel social de mudar o Brasil. Manifestar tá na moda, é legal, te faz revolucionário, pra quem quiser se sentir mais integrado ao movimento, tem até camiseta vendida a preço de banana que diz que “Filho teu não foge à luta”. Se tivesse cordão de isolamento, poderia bem ser uma micareta, mas como em Teresina tem o maior corso do mundo (oba!), talvez seja só uma prévia carnavalesca.
Pelas notícias que vi, não foi muito diferente de outras capitais, considerando-se as devidas proporções. Não foram apenas as bandeiras de partidos que sofreram, mas também as de movimentos feministas, de negros, LGBTs, centrais sindicais etc. Afinal, isso não é democracia? A maioria “vence”. 
Não se surpreendam se em breve impedirem mulheres, negros e gays de se manifestarem, afinal, são minorias, não representam o movimento, são oportunistas que se utilizam de uma manifestação do povo para aparecer, tê-los participando significa que são eles que estão liderando. Não importa que eles tenham direito à organização e livre manifestação, o protesto não é deles e eles podem muito bem ir incomodar em outro lugar. Silenciosamente, de preferência.
Protesto em Parnaíba, segunda cidade mais populosa do Piauí, a 336 km de Teresina

segunda-feira, 24 de junho de 2013

GUEST POST: NUNCA SENTI A EMOÇÃO DESSES DIAS DE PROTESTO

A professora, leitora antiga aqui do blog, Aline Abreu enviou este relato sobre os protestos em Campinas, SP, na semana passada.

Vou começar pelo clima tenso que começou na quarta-feira no comércio: eu trabalho no centro da cidade, em uma escola que fica na praça onde foi o ponto de concentração. Saímos mais cedo na quarta, entramos às 8 da manhã na quinta para poder telefonar para todos os alunos e cancelar as aulas da tarde. E assim foi feito. Quando foi mais ou menos 13h30min veio a ordem: desmontem tudo, todos os computadores, monitores, notebooks, cadeiras ou qualquer coisa que possa ser usada para quebrar ou que possa ser roubado e guardem nos andares superiores. 
Às 15 h aproximadamente fomos dispensados. Como não consegui falar com meu marido para ele ir me buscar, resolvi ir andando para casa, cerca de 8 km, e ir tentando ligar para ele no caminho. Queria chegar cedo em casa para voltar para a manifestação.
No meio do caminho eu comecei a sentir muito calor, pois estava sol alto e eu estava de blusa de lã. Por baixo estava com um top de ginástica e resolvi tirar a blusa. Nisso as gracinhas começaram: carros passavam e buzinavam, homens lançavam cantadas e gracinhas, e o cúmulo: um cara parou a caminhonete bem do meu lado e deu um tapa na minha bunda!
Nisso, eu já tinha conseguido falar com meu marido e ele estava indo me buscar e me encontraria no caminho. Continuei andando, rápido, tentando ignorar as gracinhas. Meu marido me encontrou, fomos para casa, me troquei, coloquei jeans, blusa, pegamos água, chá verde, pano embebido em vinagre, balas de menta e voltamos para o centro.
O Largo do Rosário estava cheio. Tirei algumas fotos [todas usadas neste post são da autoria da Aline] e fiz alguns vídeos. Começamos a andar, perto das 17:30 (antes da hora marcada). Tinha tanta gente que não cabia na praça e comecei a ficar fascinada com a quantidade de gente, que encheu a Avenida Glicério, lotou a Moraes Sales, tomou conta da Anchieta e chegou na prefeitura. Cheguei perto, pertinho das escadarias, estava perto de tudo. Além dessas ruas citadas tinha mais umas três avenidas lotadas. A mídia estimou 30 mil pessoas, ouvi falar em 40 mil e até 50 mil...
No meio do caminho, ainda na Moraes Sales, um adolescente com não mais de 15 anos subiu num ponto de ônibus e o pessoal começou a pedir pra descer, e ele fez pose arrogante e fez sinal de não. A passeata parou, começaram a entoar: "Vacilão, vacilão", e ele desceu.
Continuamos seguindo. Eu estava emocionada. Me dava vontade de chorar.
Os moradores dos prédios jogaram confete e a galera entoou: vem pra rua, vem pra rua.
O povo ria, cantava, gritava: Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor.
Começamos a cantar o Hino Nacional e no meio uma molecada começava o hino de novo, ou entoava o canto, atrapalhando o restante do pessoal e confundindo as coisas. Fiquei sabendo depois que os meninos diziam: "Olha lá, tão cantando o hino, vamos atrapalhar".
Mas tudo parecia bem. Tinha pouca polícia, todo mundo de bem, a policia até sorria às vezes.
Na frente da prefeitura começaram um gritos de "que coincidência, sem polícia, sem violência", o que não era verdade, porque tinha sim policia e até então nada de violência (umas duas horas depois do início). Um grupinho começou a cantar: "Ei polícia, vai tomar no c*, ei Dilma, vai se f****". Mas logos os gritos pararam, quando quase ninguém quis continuar.
Foi aí que a coisa começou a ficar tensa. Dentro do pátio da prefeitura, um grupo mascarado começou a soltar rojões e fogos de artifício, em local coberto e algumas vezes na direção da policia e dos manifestantes. Eu estava ali, bem na frente, e comentei: esses aí faltaram nas aulas de física e de química. Eu achava que estavam fazendo aquilo por ignorância, e não por maldade. Alguns começaram a subir nos pontos de ônibus e depredar, e aí veio à primeira bomba de efeito moral. 
Eu mal senti os efeitos, mas as pessoas saíram correndo. Achei que seria pisoteada, porque não consigo pular grades. Esperei, passei vinagre na cara, bebi água. Veio mais uma bomba, saímos andando. Demos água e vinagre para uma menina que chorava desesperada com os efeitos da bomba, meu marido lacrimejava.
Resolvemos ir embora quando vimos um grupo com paus e pedras. 
Fomos em direção à academia, ali pertinho do centro; íamos esperar um pouco e ir para casa. A polícia passou por lá e orientou que o comércio fosse fechado, porque vândalos iam naquela direção e já haviam destruído um Banco Itaú, um Banco do Brasil e uma loja de vestidos de noivas. Assim que a academia fechou, fomos embora e paramos para encontrar uns amigos na Praça Carlos Gomes, perto da prefeitura. Uma banda tocava, em clima de carnaval. Ficamos um pouco e fomos embora.
Caminhando vimos mais pessoas com paus e pedras.
Na sexta, vimos os estragos. Fiquei bem chateada. 
O pessoal tentou organizar uma nova passeata na sexta. O grupo neste dia estava desconexo, pequeno (cerca de 3 mil pessoas). Um grupo foi pra prefeitura, pronto pra vandalizar, e um grupo pacífico foi para a norte-sul. Passamos para ver, mas não paramos. Tirei fotos da polícia fazendo batida no pessoal, ver se tinham rojões, bombas caseiras, vinagre etc.
Rodamos bastante. Chegamos em casa e passei a acompanhar pela internet e por amigos que tinham ido.
O grupo não sabia o que pedir. Tinha gente pedindo a volta da "tomada de 2 pinos". Muita gente pedindo a saída do Feliciano, gente pedindo fora Dilma, contra corrupção. Tinha gente pedindo voz aos idosos, pela saúde, e pela educação. Entendi como uma passeata de descontentamento e não de reivindicações.
Hoje haverá mais uma passeata, com concentração no Largo do Rosário, às 17 h, saindo de lá às 18. Um grupo está reunindo tópicos e parece que será mais bem organizada. Estamos conversando no Facebook.
Espero que dê certo. Tinha gente de partidos de esquerda na quinta. 
Estou falando para o pessoal que esses partidos já lutavam essa batalha antes, que eles têm todo o direito de participar. 
Eu já havia participado de movimentos e passeatas antes, mas nunca senti o que senti nos últimos dias!

PROTESTAR OU NÃO? A MANIFESTAÇÃO DOS BRASILEIROS EM PARIS

Creio que uma das maiores perguntas acerca dos protestos é se, agora que boa parte das pautas foi desvirtuada, pessoas mais conscientes, de esquerda, devem ou não continuar participando. Esta foi, afinal, a dúvida do Movimento Passe Livre, que voltou atrás e disse que não pretende deixar os protestos.
Protesto em Roma, Itália
Sair das ruas equivale a deixar o espaço aberto pra manifestantes conservadores. Mas seguir participando pode significar estar numa manifestação que tem pouco a ver contigo, ao lado de reaças que gritam genericamente contra corrupção e aplaudem a cura gay e o Estatuto do Nascituro. Foi por conta disso que a Marcha das Vadias de Brasília decidiu fazer um protesto separado, com suas próprias reivindicações.
Protesto em Auckland, Nova Zelândia
A impressão que os protestos foram "cooptados", de que houve uma guinada à direita -- pelo menos em algumas cidades, não todas -- é tanta que fez os organizadores da manifestação de Paris, marcada para o último sábado, cancelarem o protesto. Fernanda explica:

"Fui uma das organizadoras do protesto que houve em Paris. Na verdade, nós anulamos a manifestação que havíamos organizado no dia 14, sexta, para o dia 22, sábado, porque nessa semana de intervalo muita coisa aconteceu e o panorama geral dos protestos mudou. Em Paris deve-se pedir autorização formal e assinar documentos na prefeitura para ter responsáveis pela manifestação. 
Fomos muito criticados pelas pessoas que queriam participar dessa reunião política (que se tornou um evento patriótico e festivo) e que se inscreveram no nosso grupo sem ter olhado sequer que tínhamos uma pauta a defender. O que eles queriam era se reunir em Paris e levar sua insatisfação para as ruas. Nos chamaram de tudo o que era possível quando anunciamos que havíamos anulado o protesto.
Mesmo havendo anulado, fomos para a Place de la Nation, onde era o local da manifestação, para avisar que o ato estava na ilegalidade, e entregamos nosso texto explicando o porquê das coisas. A polícia foi muito gentil e preferiu não dissuadir os grupos, pediu para que fizéssemos isso. Sete pessoas não podem controlar 900, assim decidimos deixar correr a manifestação teoricamente anulada e ficamos a todo momento ao lado dos policiais para poder ajudá-los. Conversamos com as pessoas sobre a incongruência de estarem lá naquele momento, pois a situação no Brasil era tão indeterminada que aquele ato não tinha sentido para nós".

Protesto em Tel Aviv, Israel
Também é sintomático que, mesmo com o protesto cancelado, quase mil pessoas tenham aparecido para protestar (veja vídeo)! Ou seja, a vontade de se manifestar é enorme. 
A imprensa cobriu este impasse, como pode ser lido neste artigo da Folha, da RFI, e da Terra.
O texto que publico a seguir é a justificativa dos organizadores de Paris para cancelar a manifestação. Segundo Fernanda, "Estamos contentes por não termos participado dessa manifestação e por termos feito esse gesto político importante de anulá-la".

Os acontecimentos do Brasil começaram com teor bastante claro há 3 semanas, com reivindicações pautadas pelo Movimento do Passe Livre exigindo revogação do aumento das passagens dos transportes coletivos. Multidões tomaram as ruas em torno dessa pauta com uma força sem precedentes nos últimos 20 anos. Nesse contexto, houve uma criminalização do movimento por parte da grande imprensa que legitimou a ação desproporcional da polícia. Naquele momento, nós organizadores, enquanto estudantes brasileiros residentes em Paris, resolvemos convocar um ato, previsto para sábado dia 22, em solidariedade para com aquele movimento, para com suas reivindicações e contra a violência da polícia. 
Na última semana, a natureza dos acontecimentos, entretanto, mudou. Tomando embalo na força popular mobilizada então, a grande imprensa e a direita brasileira passaram a apoiar as manifestações, visando diluir seu conteúdo e assim impor a elas sua pauta conservadora. Desde então, passamos a ver o aumento de discursos reacionários e a proliferação de posturas fascistas tomando as ruas das cidades. Nessa mesma esteira, um anti-partidarismo difuso e raivoso passou a incitar a violência levando alguns grupos autoritários a se sentirem confortáveis em agredir membros de organizações da esquerda que sempre construíram as grandes manifestações no Brasil. 
Sabemos que grande parte das pessoas nas ruas não compactuam com esse comportamento, mas, lamentavelmente, houve consentimento desinformado por certa parte delas. Tal situação coloca em risco o direito à livre manifestação e livre organização política conquistados com luta histórica encabeçada pela esquerda que quinta-feira, dia 20, foi espancada nas ruas. 
Certa mídia se aproveita desses acontecimentos, pintando-os como uma batalha pela desestabilização do governo. É sem dúvida essa a posição da direita. Nós também, mas por motivos completamente diversos, temos críticas a fazer às esferas federal, estaduais e municipais do governo, inclusive no que toca o modo pelo qual conduziram a negociação com o Passe Livre. Nós nos indignamos com a maneira tecnocrata de lidar com as reivindicações populares, e lamentamos o governo federal ter abandonado o diálogo com os movimento de base dos quais seu partido nasceu. Porém temos clareza que em momento nenhum pretendeu-se –- nós não pretendemos -– fazer dos protestos uma marcha pela deposição de governantes democraticamente eleitos, por mais críticos que sejamos a eles.
É preciso comemorar, sem dúvida, a conquista que o Passe Livre obteve nas ruas, assim como o fato de que as mobilizações tenham feito valer sua vontade perante as esferas representativas do poder. As manifestações conseguiram colocar em debate o que significa um estado efetivamente democrático, assim como sensibilizar parte da população de que é a participação política direta que traz conquistas. 
O que acontece hoje em nosso país é algo muito importante cujo sentido, porém, permanece indeterminado. A organização deste ato não compactua com o rumo que a grande imprensa e a direita têm tentado impor às mobilizações nas ruas em curso no país. Seguiremos mobilizados pela transformação social no Brasil e em defesa das pautas históricas dos movimentos sociais.