terça-feira, 28 de maio de 2013

GUEST POST: UMA CELEBRIDADE ME FEZ LEMBRAR MEU ESTUPRO

Não sei como existe gente que menospreza a importância que pessoas famosas têm para influenciar as pessoas. 
Esses dias dei uma entrevista pra rádio, e a jornalista me perguntou o que acontecia quando uma celebridade como a Xuxa narrava seu abuso. Bom, acontece isso que a P. me contou quase um ano atrás:

Desde domingo estou com uma dor de estômago horrível. Não tem remédio que melhore. Mas eu sei que não é nada físico. Hoje, nem andar eu conseguia.
Sabe, eu estou “engolindo” meus medos, minhas angústias e minha ansiedade.
Xuxa, por quem eu fui apaixonada na infância e depois deixei pra lá, deu uma entrevista e disse que foi abusada.
E eu sei o que ela sentiu, porque eu também fui.
Poderia dizer que fui abusada por três pessoas diferentes: por um amigo dos meus pais, e por dois namorados. Só que meu lado machista ainda me faz acreditar que com os dois namorados eu “tinha o direito de ser abusada”, porque com um, enquanto eu dormia, ele passava a mão em mim e a colocava na minha vagina. Acordei assustada da primeira vez que isso aconteceu e os pensamentos eram dúbios: "eu não quero isso, mas se eu acordar ele achará que eu não estava dormindo e queria, que gostei. Mas eu não quero. Eu tenho que acordar. Eu não posso acordar. O que eu faço?"
Com o segundo namorado a situação era bem mais complicada. Ele me batia. Ele me segurou e fez sexo à força comigo, e eu engravidei. Mas ele era meu namorado e minha situação de namorada era deixá-lo aproveitar. Né? NÃO!
Só que só hoje eu percebo isso. Naquela época eu tinha vergonha, claro. Inclusive de dizer NÃO. Como assim dizer não? O que eles vão pensar de mim? Eu não era a namorada? Eu tinha que ceder. Eu tinha que deixá-los brincar comigo o quanto quisessem.
Eu já tinha aprendido que mulher não tem voz. Não mulher com a minha história de vida.
Aos 10 anos, um amigo dos meus pais me pegou à força e me beijou. No corredor do apartamento em que morávamos. De 110 m2. Uma amiga viu. E perguntou: "ele te beijou também?"
Eu não fui a primeira. Ele não era réu primário.
Mas como contar para os meus pais? Por que eu contaria? Eu sabia que ele tinha feito alguma coisa errada e tinha certeza que a culpa era minha. Sabe por quê?
Umas semanas antes, numa festa, essa amiga aí de cima me convidou para espionar o L. no banheiro, enquanto ele fazia xixi. Eu, muito criançona, topei. Ela me deu pézinho e eu subi pela janela. Ele estava lavando a mão e eu desci.
No dia em que o L. me beijou ele disse: "isso é para você aprender a nunca espionar os outros enquanto estão no banheiro".
Hoje eu digo que a atitude dele é típica, já que imagina eu contar pros meus pais que ele me beijou porque eu o vi no banheiro. Eu ia me expor! Eu era a culpada.
Depois desse incidente eu MORRIA de medo e nojo dele. Aquela língua passeando pela minha boca e a mão dele na minha vagina e passando pela minha perna era terrível demais. Eu bloqueei isso da minha mente.
Só que meus pais eram muito amigos dele e da esposa. Muito. E sempre nos víamos. Toda vez que ele ia me cumprimentar ele me pegava no colo e me dava um abraço e um beijo super melecado e babado na bochecha. Era asqueroso. Ainda mais que ele pressionava minhas costas para dar aquela apertada no pênis dele. Eu era muito nova e não sabia nada sobre sexo.
Com 12 para 13 anos ele foi além. Ele me estuprou. Posso contar que na época eu nem sabia que aquilo era sexo? Eu ainda estava tentando descobrir o que era beijar. Foi na casa dele. Foi durante um churrasco. Foi fácil. E ele me ameaçou dizendo que se eu contasse, ele mataria meus pais. Eu fiquei caladinha.
Tinha menstruado pela primeira vez um mês antes. Como no estupro sangrou muito, eu achei, inocentemente, que ele tinha me visto menstruada. Fiquei COM VERGONHA DE ESTAR MENSTRUADA depois que fui estuprada. Tem noção? Aos 13 anos eu comecei a beber, fumar e usar drogas. Parei com 18. E banalizei o sexo.
Até os meus 17 anos eu lembro dele me abraçando e se encostando em mim. Lembro do MEDO que eu tinha dele. Mas não tinha para quem falar, como me defender.
Um dia, sozinha em casa, ele ligou pra falar com meus pais e eu disse que eles não estavam. Ele disse: "Estou indo até ai". Eu ainda argumentei: "Mas eles não estão. Você vai esperá-los?"
Eu senti um medo enorme. Liguei pro meu namorado na época e contei o que aconteceu. Foi a primeira pessoa pra quem eu contava. Sabe o que ele me disse? "P, mas você se expõe muito! Você usa essas blusinhas com os peitos que tem. A gente colhe aquilo que planta".
De novo, me senti SUPER culpada. Claro. Eu era o problema. Sempre fui. Meus pais também diziam isso. Por que seria diferente? Fumei tanta maconha e bebi tanto aquele dia que sei lá se ele foi ou não. Se ficou tocando campainha eu não sei. Mas não tive qualquer contato com ele. E a vergonha de ter contado pro meu namorado que eu era uma biscate?
Eu me perguntava: "Mas com 12 anos quem comprava minhas roupas era a minha mãe. Eu usava roupas de criança. Eu tinha vergonha do meu corpo. Será que foi por causa da roupa mesmo?"
Não tendo respostas, acreditava que era por causa da roupa. Na verdade não. Eu acreditava que era porque fui nadar de biquíni e porque resolvi tomar banho PELADA depois da piscina. E foi nesse momento que ele se aproveitou de mim, DESTRANCANDO a porta do banheiro com uma ferramenta. Mas eu era a culpada.
Sabe o que pensei depois? Ahh, se eu sou tão vagabunda assim, e não posso dizer não, o melhor que tenho a fazer é ceder.
Cada carinha que eu beijava eu já transava, porque o medo de dizer não e não ser respeitada era grande. Melhor era dizer sim pra não sofrer!
Xuxa me fez rever a história (como faço muitas e muitas vezes, depois faço paralelo com minhas filhas) e me fez cair numa questão: DENUNCIAR OU NÃO?
Na minha santa inocência ele tinha feito isso comigo e dado o beijo naquela amiga. Mas não. Outras coisas já estouraram, ele já foi acusado e absolvido de estupro. Com a própria sobrinha. Imagino ainda mais umas três pessoas, no mínimo, que sempre estavam juntas conosco. Só que ainda sinto um pouco de culpa e vergonha de me expor. Parece que falando isso eu estou falando: "Gente, senta aqui que vou contar em público pra quem quer ouvir como foi minha primeira vez. Como aos 12 anos um cara 30 anos mais velho fez sexo e gozou em mim".
Será que conto como senti vergonha de menstruar? Dele me ver menstruada?
Será que conto como minha mãe me dizia enquanto eu não saía de frente do computador: "P, vai brincar, ficar menstruada não é o fim do mundo"?
Será que conto como minhas amigas faziam chacota de quem transava? E de como eu achava que nadar de biquíni era praticamente um convite ao sexo e só nadei de maiô COM CAMISETA até uns 14 anos -– porque depois disso eu saía transado com todo mundo mesmo?
E de como muitas vezes me sinto culpada? E me sinto aquela criancinha indefesa que ainda acha que podia ter feito alguma coisa a mais pra se defender?
E de como fiquei do lado do meu namorado (o que enfiava a mão na minha vagina enquanto eu dormia) porque minha amiga disse que ele a tinha estuprado, mas no dia seguinte ela deu risada, e eu pensava: "Cara, ela não foi estuprada, porque quando isso aconteceu comigo eu só queria morrer, e ela dá risada!"
Será que conto como me arrependo disso?
As fotos com os cartazes são do Project Unbreakable, belíssimo (e tristíssimo) projeto que mostra as palavras que estupradores disseram a suas vítimas. Eu já tinha falado dele aqui.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

"EU PENSEI EM ME MATAR DE NOVO"


A E. me mandou este email hoje mesmo. 

"Oi Lola, te envio esse email com a sensação de pele repuxada de tanto passar sabonete no rosto pra tentar tratar a acne. Por quê? Vou contar a minha história e vc vai entender.
Tenho 15 anos. Meu problema com a autoestima é tão grande que parece ser maior que os meus problemas psicológicos (tenho tricotilomania de cílios e sobrancelha, depressão, e tive toc e anorexia e bulimia, mas claro, os transtornos alimentares foram causados por esse meu problema com o corpo). Seu blog me ajudou muito por um tempo, quando eu o descobri aos 13-14 anos, principalmente os posts sobre gordofobia e este aqui (aliás acho que foi o que mais me ajudou, pois odeio os meus seios por serem caídos e não serem arredondados). Foi com o seu blog que eu descobri o feminismo, e acho que sem ele eu já teria me suicidado, como já cheguei a ficar muito perto de fazer várias vezes.
Cheguei a pesar 96 kg aos 10 anos, com 1,63 de altura, nessa época sofri bullying no colégio, e constantemente me diziam que nenhum homem ia me querer (um psiquiatra chegou a dizer isso). Tive toc e depressão por causa do bullying, cheguei a perder meses de aula e desistir no oitavo ano, e tô até hoje tentando terminá-lo, sempre desisto. 
Tive anorexia e bulimia aos 13 e minha tricotilomania piorou muito, cheguei a ficar totalmente sem cílios e sobrancelhas várias vezes. Aos 14 eu resolvi emagrecer depois de ouvir da filha da minha tia-avó que 'eu tinha um rosto lindo, só precisava fazer uma dietinha pra ficar nos trinques'.
A pessoa que costumava ser minha melhor amiga na internet (que tambem era/é gorda) me chamou de anoréxica e traíra por isso, e de falsa por ser feminista e emagrecer, mas esqueceu que eu ainda sou uma menina de 15 anos com uma multidão de pessoas me julgando lá fora. É um erro tão grande das pessoas acusarem as vítimas de serem as culpadas! Dá pra comparar com quem critica as modelos e não a indústria da moda de impor o padrão magro.
Hoje eu tenho 67 kg em 1,74 de altura. Não me enchem como antes mas ainda deve ter muita gente que me ache gorda, inclusive na escola uma menina me chamou de monstra ao ouvir o meu peso, ela pesa 34 kg, ela também disse que meu braço era flácido e que eu precisava fazer academia, uma menina de 12 anos me dizendo isso, pra vc ver como as coisas estão. Também tive que receber perguntas sobre eu não ter todos os cílios por causa da tricotilomania como 'nossa,vv consegue dormir?'. Até na internet um ex amigo, gay, última pessoa no mundo que eu pensei que fosse fazer isso, criticou minha maquiagem, dizendo que eu tinha colocado muito pó. Ele me chamou de fraca, e eu disse que eu não era se aguentei tudo até agora.
Tudo isso é de deixar uma pessoa já com depressão pronta pra se matar. As pessoas acham que é drama porque seu problema não é televisionado, não é como ter uma deficiência ou câncer e passar naquelas propagandas, não é como ser a coitadinha, até sua mãe te ve como a errada na história, mãe que aliás critica a minha pele, dizendo que parece de velha, critica as minhas olheiras, minha acne e meus dentes "amarelos", mas ao mesmo tempo me critica quando eu gasto dinheiro com cosméticos.
Anteontem  num site que as pessoas usam pra namoro, mas que eu uso pra conhecer pessoas novas e fazer amizades (inclusivo deixo isso claro no perfil), um cara me acusou de ser fake porque eu não respondia, aí eu disse 'Não tenho tempo pra idiota mesmo, poupo as palavras', e ele me disse: 'Tá bem! Vou deixar vc fazer seus programas em paz, princesa dos dentes amerelos. Vai num salão fazer essas subrancelhas [sic] de pelo de c* e dim. kkkkkk tinha mais, acho que basta! Hahaha'. 
Foi como um tiro no peito,todas as críticas que eu recebi na minha vida voltaram pra minha cabeça, e o jeito frio que ele me respondeu me enojou tanto, e o fato de ele morar na mesma cidade que eu me fez ficar apavorada (e se eu encontrá-lo em algum lugar?). Mal sabe ele que eu quase não tenho sobrancelha, cubro com lápis e já me criticaram dizendo que era muito fina, e os meus dentes talvez seja por causa do chá verde que eu tomo religiosamente pra emagrecer, e da falta de dinheiro pra um clareamento dentário também. 
Eu pensei em me  matar de novo, aliás pensei não, quase fiz até porque depois de morta, além de não sofrer mais, eu ia ser tratada como santa feito a Amanda Todd e outras meninas que se mataram por serem julgadas, olha que legal!, e até postei que o que adianta viver se eu vou ser sempre pisada assim? Só não tomei a caixa de remédio inteira porque tive medo de sobreviver, só ir pro hospital, e por causa de um biólogo que conheci num site de relacionamentos, que me ajudou ao ponto de me mostrar os "defeitos" dele, das pessoas de um grupo inglês de depressão, e das meninas do grupo Machismo Chato no Face.
O que ele fez me lembrou aquele caso da menina que teve o braço quebrado por rejeitar um cara numa boate, mas eu preferia que ele tivesse quebrado o meu braço. Ao menos ia passar em algumas semanas e eu ia poder fazer algo contra ele, mas pra mim ninguém liga, só dizem pra ignorar como se fosse fácil, é capaz de colocarem a culpa em mim por tê-lo chamado de idiota, mas o que ele fez foi tão pior, foi falar da aparência de uma mulher, tudo que a mulher tem pra sociedade hoje é a aparência.
E chorando eu peço que vc poste isso Lola, pelo menos eu vou sentir que pra uma coisa eu sirvo, contar a minha história. Já pedi pra minha mãe marcar um dentista pra essa semana, vou passar flúor, ver se clareia um pouquinho, quero ver os outros defeitos que as pessoas vão apontar que eu tenho.
Beijos, e que o blog fique mais visível e ajude mais meninas como eu...

Minha resposta: Por favor, querida E., esqueça o suicídio. Esta não é uma opção, ok? Imagina só vc se matar por causa de um babaca num site de relacionamento, um sujeito que você nem sabia que existia pouco tempo atrás, e que daqui a algumas semanas vc nem vai se lembrar que existiu. E não, você nunca vai vê-lo de novo, e, se por um hiper acaso da natureza vocês se encontrarem, pode ter certeza que ele não terá coragem de falar ao vivo as besteiras que ele fala por trás de uma tela de computador.
Entendo que ele, apesar de ser insignificante, foi um trigger, alguém que engatilhou algumas memórias incômodas. E entendo que, nessa idade que vc tem, a aceitação é importantíssima. Somos condicionadas desde cedo pra agradar, queremos ser aceitas, queremos fazer parte de um grupo, não queremos ser diferentes, ao mesmo tempo que queremos ter um estilo próprio, porque quem quer ser manada, né? Então é contraditório mesmo. 
Mas eu juro que daqui a pouco passa, ou pelo menos melhora. A gente vai amadurecendo e aprende que o "movement you need is on your shoulders" (o movimento que vc precisa está nos seus ombros), como diz Hey Jude, que é meio dar de ombros, sabe? Alguém não te acha atraente? Dane-se. Alguém não gosta das suas sobrancelhas? E você com isso? Alguém diz que você tem dentes amarelos? Diz pra ele que ele anda vendo comercial demais de pasta de dente na TV. Alguém te acha muito gorda, muito magra, muito alta? Explica que você perdeu a inscrição pro último concurso de miss e agora vai trilhar novos caminhos.
Mas vc está com depressão e com sérios problemas em aceitar seu corpo. Releia o seu email e veja a lista de críticas que vc coleciona sobre o que as pessoas dizem da sua aparência, e o que vc gostaria que acontecesse com seu corpo (vc diz que preferia ter o braço quebrado, vc diz que odeia seus seios -- sinal de que meu blog não te ajudou tanto assim). Espero que vc esteja tendo um acompanhamento psiquiátrico. Sinceramente, ele é muito mais importante que o tratamento dentário. Porque vc mesma diz que vai ver os outros defeitos que as pessoas vão te apontar. Vc sabe que elas nunca deixarão de apontar defeitos, não sabe? 
No momento que vc deixar de se preocupar com o que as pessoas acham ou deixam de achar de você, sua vida vai melhorar. Vai tirar um peso enorme dos seus ombros. Vc não precisa da aprovação dessas pessoas. Que tal se cercar de pessoas que vc gosta, e que gostam de vc, e ignorar as outras?
E, se vc pensa que se suicidar fará vc virar santa, pense de novo
Amanda Todd não foi canonizada não. As mesmas pessoas que xingam as outras xingaram Amanda após sua morte. Disseram bem feito, disseram que ela foi fraca por ter se matado, disseram que era uma vadia a menos no mundo. Entenda uma coisa: essas pessoas, esses bullies, esses trolls, não são pessoas felizes. São pessoas com muito rancor e muito tempo ocioso, que precisam preencher o vazio delas atacando qualquer outra pessoa. Por que vc se importa com a opinião dessa gente? É gente que não merece nem um aperto de mão, e vc cogita tirar sua vida -- a única que você tem -- pra satisfazer esses mentecaptos?
Não deixe que sua opinião sobre você mesma seja baseada na opinião de gente que te detesta, ou que sequer te conhece, tem de vc. Vc deixaria de ver um filme porque um troll disse que tal filme era uma porcaria? Não, né? Mas aí vc fala em se matar porque um ridículo não gostou da sua sobrancelha e do seu sorriso? 
Concentre-se nos problemas psicológicos que vc precisa resolver com urgência, não no que diz quem só quer te magoar. E pior: consegue.

domingo, 26 de maio de 2013

VADIAS MARCHANDO POR TODO O PAÍS

Pessoas incríveis vadiam em Recife

Neste final de semana teve Marcha das Vadias em várias cidades. E todas as fotos que eu vi são lindas, cheias de gente animada com cartazes criativos. Está sendo um grande sucesso, e ainda há várias outras marchas marcadas pra acontecer.
A marcha de São Carlos deu um show 
Pra começar, eu tive a impressão que o tom da imprensa pra cobrir as marchas mudou.
Não é mais aquele "desocupadxs atrapalham o trânsito". Por exemplo, o Diário Catarinense deu um subtítulo positivo pra noticiar a Marcha de Floripa, que reuniu cerca de 500 pessoas: "O protesto contou com o apoio das pessoas que passavam no Centro de Florianópolis".
Marcha toma conta de Floripa
O jornal O Tempo, de Belo Horizonte, também deu uma manchete favorável à marcha: "Com humor e simpatia, mulheres manifestam contra a violência".
Montão de gente na marcha de BH
O G1 disse que a Marcha em SP reuniu 1,5 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar, e que "atraiu a atenção de curiosos e despertou simpatia em quem passava pela região da Avenida Paulista." 
(G1:) "A designer Fabiana Caruso parabenizou o movimento, que, para ela, deveria acontecer com maior frequência. 'É importante trazer o assunto para a rua. É um absurdo alguém achar que a mulher provoca o estupro', disse. Ela ainda destaca outras questões. 'O aborto também precisa ser discutido, como está acontecendo', completou."
Não apareceu quase ninguém pra marcha de SP
Claro que é preferível não ler os comentários dos leitores desses jornais, mas essa dinâmica de "leitores inacreditavelmente reaças que a gente nem conhece na vida real, graças aos céus" é constante em todas as notícias dos grandes portais sobre qualquer assunto. 
Aliás, li num blog reaça (não vou dar link) um texto contra as marchas. Começa dizendo "Definição de vadia: toda aquela mulher que não faz um mínimo de esforço para cuidar do marido e dos filhos, toda aquela que despreza o estudo e a educação." E continua: "Representante do sexo feminino que no seu ativismo perdeu a noção do carinho com os filhos e do companheirismo com o marido".
É quase divertido ler essas barbaridades, porque qualquer pessoa que já pisou em qualquer Marcha das Vadias se encanta com a presença de crianças. Elas vêm nas costas de mamães e papais, elas se pintam, elas adoram. Alguma dúvida de que esses meninos da marcha de São Carlos não crescerão machistas?
É como me falou a Quézia (acho; sou péssima pra nomes), uma das vadias maravilhosas que conheci em Recife ontem. 
Separada, trabalhadora, mãe de uma menina, ela contou: "A gente educa com amor, com igualdade, sem puritanismo, sem violência. Não é minha culpa se depois com 17 anos ela entrar numa Igreja Universal e se desviar completamente do caminho". 
Por falar nisso -- este post não está exatamente linear --, vejam quem a Marcha das Vadias de Floripa decidiu "homenagear". Adorei!
Vou colocar algumas fotos que me foram enviadas e que encontrei por aí e alguns poucos depoimentos. Peço para que vocês deixem mais nos comentários.
Bruna e outras magníficas arrasando em Recife 
Em Floripa
Márcia, de SP: "Foi minha primeira marcha. Eu adorei, achei as pessoas receptivas, saíam nas janelas pra acenar pra gente, teve quem colou cartaz de apoio na sacada do apartamento com dizer: 'a buceta é dela, pô', e  teve até corinthiano sacudindo a bandeira na janela pra gente; nessa cultura de futebol machista,  achei um grande apoio. As mulheres estavam incríveis, com muita atitude e personalidade, os cartazes muito criativos. Acredito que conseguimos mostrar a seriedade da marcha, que não se tratava de uma  brincadeira, que aquele movimento tinha um conteúdo muito sério e forte."
Em Recife
Segue a Márcia: "Curti pra caramba a presença masculina. Eles estavam arrasando desfilando com suas saias, umas ousadas, outras discretas, mas com muita atitude. Ano que vem voltaremos ás ruas, com certeza!"
Manifestante da marcha de Porto Alegre
Carla, 18 anos: "Eu fui na marcha das vadias aqui de São Paulo e voltei leve, me sentindo realizada, feliz. É impressionante a força que nós mulheres temos quando estamos juntas. A impressão que eu tive, Lola, é que durante um dia no ano, eu posso tirar a blusa no meio de uma praça pública sem sofrer nenhuma represália, coisa que os homens fazem casualmente o tempo inteiro."
Belo Horizonte, 25/5/13
Carla: "Durante um dia no ano, eu posso andar tranquilamente na rua, sem medo de assédio ou estupro, porque eu estou na companhia de milhares de outras mulheres, que apesar de muitas serem desconhecidas pra mim, são ao mesmo tempo minhas companheiras de luta, que me defenderiam em caso de violência, assim como eu as defenderia. Durante um dia no ano eu posso expressar toda a minha revolta contra o assédio de rua que me persegue desde os 13 anos, contra a imagem hiper sexualizada e submissa da mulher na mídia, contra a repressão ao meu corpo e à minha sexualidade. Resumindo, durante um dia no ano eu fui LIVRE."
Carla: "Por fim, queria dizer que senti na marcha um movimento feminista pulsando, mais vivo do que nunca, mais forte do que nunca e muito atual. Fico muito feliz de poder fazer parte disso. Espero que daqui a 30 anos as mulheres tenham mais direitos do que nós temos hoje e que eu possa olhar pra trás e saber que isso foi fruto do nosso esforço! Assim como as feministas da segunda onda fazem hoje!"
Que diferença com o discurso de algumas das primeiras marchas, em 2011! Naqueles tempos, várias organizadoras das marchas, inclusive das primeiras, de Toronto, não quiseram se assumir feministas. Ficou um vibe absurdo de "Me chame de vadia, não me chame de feminista!". Como se a palavra feminista precisasse de ressignificação! 30% das mulheres no Brasil se assumem feministas, amigas! 
Como que um movimento só com pautas feministas podia não se assumir feminista? Certamente isso mudou, e já desde a segunda marcha, no ano passado. As feministas tomaram as marchas das vadias. Quem quiser marchar de lingerie e dizer "não sou feminista, sou feminina", bom, sei lá, tem gosto pra tudo. Boa sorte pra conseguir juntar mil pessoas dispostas a lutar pela sua "causa".
Tenho quase certeza que nesta foto estão a Sara, comentarista frequente deste blog (e um amor de pessoa, me levou pra almoçar em SP), e uma de suas filhas, engenheira top de linha que, só pra dar um exemplo, já ganhou carro e motos num programa que testa conhecimento na TV. 
Este ano, tive a honra de participar da Marcha das Vadias de Recife. Fui convidada pra ir lá debater na sexta, e foi muito, muito bacana. Adorei todo mundo. Auditório lotado, e a galera querendo participar, ficando lá até praticamente sermos expulsas porque já tinha dado o horário. 
Manifestante em BH: mulher e negra
Fiquei fascinada em ver como essa meninada é inteligente e espirituosa. Senti falta de não levar um caderninho pra anotar todas as pérolas que elas falam. São super divertidas e seguras de si. Pô, gente, vcs têm que comentar por aqui! É chato citar nomes porque vou esquecer dezenas, mas estou pensando em vcs, Ju Dolores, Marcela, Cecilia, Larissa, Wedja, Patricia, Paula, Titi, e a já citada Quézia.
Uma das minhas principais guias foi a queridíssima Bruna, professora universitária de História. Foi com ela que tratei pra ir a Recife. E ela me tratou exemplarmente, me mimou, sabem?
Manifestantes de BH confeccionam cartazes

Ela me explicou que todos os protestos em Recife param neste ponto, em frente a um cinema, porque conseguem parar uns três cruzamentos. Paramos aqui, deixamos os cartazes por um tempo, nos sentamos. Muito bonito (e devo dizer que a polícia foi ótima, nos deu respaldo, destacou motos e cavalos pra nos acompanhar).

E que os protestos costumam terminar na Praça da Independência, porque era lá que, em outros tempos, eram leiloados os escravos. 

Bruna (abaixo) fez muito sucesso com sua roupa. 
Porto Alegre iluminada
Porque é aquele negócio: ser estuprada não tem nada a ver com sua aparência, não tem a ver com sua roupa, e tem muito menos a ver com sexo que com dominação e poder. Uma mulher nua não é estuprada numa praia de nudismo, certo? Tem muita índia que anda nua e nem por isso é estuprada pelos índios da aldeia. E o oposto: mulher que veste burka também é estuprada. Por isso, risque a pergunta "O que ela estava vestindo?" do seu repertório.

Outra roupa que chamou muita atenção foi esta de uma burka transparente. Amei!
Eu fui chamada pra falar um tiquinho antes da marcha sair. Deve ter sido a primeira vez que eu falei com alto-falante, uma sensação esquisita. Como o tempo estava nublado e quase todo mundo achava que ia chover (e continuaríamos marchando mesmo se chovesse, mas a água arruinaria os cartazes e os belos corpos pintados), eu disse que, se não chovesse, seria a prova de que deus é uma grande vadia. E que, se chovesse, provaria que deus não existe. Observação: não choveu. Nadinha. A Grande Vadia nos adora.
Marcha de Fortaleza na sexta
Desta vez não errei nem um grito de guerra. Teve uma ou outra manifestante que gritou "Seu Batista" olhando pra mim, porque eu tinha contado o meu vexame na palestra de sexta. Os gritos que eu não conhecia foram esses:
Manifestante na marcha de Porto Alegre faz pergunta relevante

"Até o papa / renunciou / Feliciano, sua hora já chegou!"
"A nossa luta / é todo dia / contra o machismo, racismo e homofobia"
"Se é violência / contra a mulher / a gente mete a colher"
Manifestantes na marcha de SP
Adorei também inúmeros cartazes, entre eles um que dizia (e que vi em fotos de outras marchas) "Quer peito e coxa? Compre um frango". Talvez os veganxs não gostem, não sei.
Vadias de BH posam com cartazes
Eu achei a marcha cheia pra caramba. Na maior parte das vezes, quando olhava pra trás, não via o fim da marcha. Só quando fui ficando bem pra atrás (gostaria de dizer que foi por causa do pessoal pedir pra tirar foto comigo, mas acho que foi a idade mesmo) é que olhei e vi cavalos com policiais em cima. 
Bela demonstração teatral na marcha de São Carlos
Mas eu me senti muito amada. Um montão de meninas veio dizer que é feminista graças ao meu bloguinho, que só estava lá na marcha por minha causa, e isso me deixava emocionada. Uma me deu um chocolate (infelizmente perdido, porque eu estava sem bolsa). Além do mais, ouvir uns rapazes lindões dizerem "Eu te amo, Lolinha" também não me deixou muito cabisbaixa.
Homens de saia na marcha em Porto Alegre, neste domingo
O que algumas fofas me enviaram.
Ingrid: "Primeiramente gostaria de dizer que foi um imenso prazer te conhecer e assistir sua palestra, vc é uma simpatia de pessoa. :D Sobre a macha, foi a minha primeira vez e eu simplesmente amei." 
Fortaleza
(Ingrid:) É sempre muito bom poder encontrar pessoas que pensam da mesma forma que vc e, ainda que não tenham o mesmo pensamento, respeitam e lutam por um mundo mais justo. Eu abri os olhos pra causa feminista há pouco tempo e seu blog me ajudou muito a não ter essa posição conformista perante a sociedade. Participar da marcha e do debate foi como a abertura de uma porta pra um lugar que eu apenas ignorava. Muito obrigada e venha mais vezes ao Recife." 
Lindo homem feminista em Recife
Virgínia: "Pela primeira vez, eu estava lá. 
Porque chega um ponto que é preciso não apenas mexer palavras, mas o corpo também. É preciso socializar. Se luto pelo que acho correto para mim, se levo a ideia do feminismo para a sala de aula e para a família, chega inevitavelmente o momento em que você sente a vontade de sair desses espaços fechados (que muitas vezes nem temos a liberdade de gritar, não é?) e cair no mundo. Procurar pessoas que compartilhem de seus ideias de liberdade e trocar experiências. Gritei tudo que estava preso na garganta, fiz uma nova amizade, conheci pessoas lindas. Tirei até foto com a Lola, olha só! Fui tudo muito lindo".
Meninas de Recife em bela foto da Nathalia Verony

Thisbe: "Sou estudante de Serviço Social, e temas como direitos da mulher, direitos reprodutivos e relações de gênero têm me interessado muito. Eu nunca tinha participado de nenhum tipo de protesto, e participar da marcha me instigou realmente a entrar nessa luta diária contra o machismo e qualquer outra forma de opressão sofrida pelas mulheres, que em algumas vezes aparece, pelo menos pra mim, de forma sutil, disfarçada em algum tipo de piadinha sem graça." 
Concentração na praça em Recife
(Thisbe:) Tanto a marcha quanto os debates, as palestras a respeito desse tema, abrem meus olhos cada vez mais para perceber e evitar coisas desse tipo. Comecei a ler seu blog recentemente, por recomendação de uma amiga e sinceramente, ameei! Principalmente quando você fala sobre os mascus (adorei o apelido). Espero que nas próximas marchas você esteja por aqui".
Epa! O que o pirata Jack Sparrow tava fazendo na marcha de Recife?

E por falar em mascus, alguns deles disseram -- controle-se pra não rir muito alto -- que as marchas provaram que o feminismo está em franco declínio (porque não teve 15 milhões de pessoas, que é a população de SP), e que se eles, mascus, fizessem uma marcha, aí sim a gente veria o que é mobilização. Ahauahauahauahaua.
Marcha em SP prova o declínio do feminismo, juram mascus 

A marcha dos intrépidos avatares de super-heróis com óculos rayban aviator e pochete!
(aliás, algumas leitoras já me prometeram uma ilustração de como seria essa marcha, e até agora, nada). De vez em quando eles fazem "encontros de guerreiros de um real" em barzinhos. Teve um que bombou: reuniu cinco guerreiros! Quase deu pra lotar uma mesa! Marchem, mascus, marchem!
Os mentecaptos tentaram nos ameaçar durante semanas a fio. 
3a Marcha das Vadias em Fortaleza. Foi na sexta!
Mas, felizmente, não aconteceu nada de ruim. Pelo contrário: a recepção do público foi espetacular. Muitas manifestações positivas vindas de pessoas nos ônibus, nas calçadas, nas janelas dos prédios. A gente olhava, sorria, e cantava: "Vem / vem / vem pra luta vem / contra o machismo / vem!". 
Um beijo libertador na marcha em Belo Horizonte