Muitas de vocês me enviaram nos últimos dias um link pra Galileu que, já nas primeiras linhas, me deixou espumando de revolta.
Mas, convenhamos: a matéria é muito fraquinha. Depois do título (“Mulheres retiram o dedinho para poder usar salto sem desconforto”) e subtítulo (“Nova moda entre mulheres dos EUA é mutilar o próprio pé para usar o sapato sem aquela sensação de desconforto”) sensacionalistas, há essas informações: “São 3 os procedimentos mais procurados: retirar o dedinho, diminuir o tamanho de algum dedo ou injetar colágeno na parte da sola do pé perto dos dedos, na tentativa de deixar a sola mais acolchoada e ter um fim de dia menos dolorido”.
No entanto, a reportagem parece ter sido tirada de um site em inglês, e se você vai lá, tem um vídeo com uma reportagem. E ela não fala nada de tirar o dedo mindinho. Ela fala de cirurgias reconstrutivas de mulheres que achavam seus dedos feios (porque querem poder exibir os dedos em sandálias) ou que diminuiram parte de um dos dedos para o pé ficar menor. A própria mulher que ilustra a reportagem diminuiu (não removeu!) um dos dedos porque um de seus pés era um número maior que o outro. Fazer tudo isso em nome da vaidade é bem horrível, sem dúvida, mas é um pouco diferente do que o título sugere, não?
Procurei outras matérias com o nome stiletto surgery (cirurgia do salto agulha) e, apesar de mencionarem a remoção do dedo mindinho, nenhuma vai mais a fundo. Parece que cortar parte do osso de um dos dedos para reduzir o tamanho do pé não é incomum, mas ninguém fica com pé de quatro dedos. Até porque, pelo que sei, a gente precisa dos cinco dedos pra se equilibrar.
Longe de mim defender qualquer tipo de procedimento estético, só não gosto de matérias sensacionalistas. Sabemos que usar salto alto não tem nada de natural, e pode muito bem causar sérios problemas. A Associação Americana de Podologia Médica aponta que 87% das mulheres tem algum problema no pé por conta de sapatos incômodos. Clique nessas imagens para ver o que o salto alto pode fazer com seus pés.
Existem muitas histórias sobre as origens do salto alto. Sapatos sempre foram usados para delimitar classes sociais e como parte de rituais (pense nos sapatos pendurados no carro dos recém-casados). No Egito, açougueiros usavam salto para não pisar no sangue de animais mortos. Na Roma antiga, as prostitutas eram identificadas pelos saltos altos. Tanto as odaliscas turcas quanto as concubinas chinesas usavam salto, o que leva estudiosos a especular se o motivo era estético, ou se era pra impedir que elas escapassem dos haréns.
Atribui-se a invenção formal do salto alto a Catarina de Médici, que não era muito alta. Pra não se sentir insegura e feia no seu casamento com o futuro rei da França, ela usava salto. Isso fez sucesso entre mulheres que queriam parecer maiores. Mais tarde, Luís XIV também os usou. Salto alto para mulheres transformou-se em símbolo de aristocracia, pureza e desejo. Pois é, sapatos de salto sempre foram contraditórios: eles diminuem o pé em vários centímetros de largura para aumentá-lo em altura.
Já ouvimos falar (e acho que esse tipo de coisa passa a habitar meus piores pesadelos) de como durante séculos, no Japão e principalmente na China, as mulheres precisavam encolher e moldar seus pés. Era um processo que começava na infância, e, óbvio, doía pra caramba: usando panos, faixas e molduras ultra apertadas, os pés iam crescendo já com os ossos quebrados, e ficavam completamente deformados (as fotos são horríveis de olhar, mas, se você insiste).
Inicialmente o propósito desse procedimento não era deformar os pés. Era fazê-los ficar mais maleáveis para um tipo de dança (meio como dançarina de balé ter que dançar na ponta dos pés). Mas -– pra provar mais uma vez que padrões de beleza são culturais, não biológicos -– as pessoas acharam bonito, os homens acharam sexy, e pronto: virou uma imposição. Um sacrifício que você fazia pelo seu sexo. Um tipo de pedágio pago por ser mulher. Juntos, os pés atrofiados lembravam a flor de lótus, uma “segunda vagina”.
Previsivelmente, quanto mais as mulheres foram consideradas propriedades de seus pais e maridos, mais a prática se alastrou. O governo chinês só proibiu esse costume em 1911, mas ele continuou até 1949, quando os comunistas mandaram parar (era preciso que mulheres trabalhassem no campo). Hoje ainda existem chinesas bem velhinhas com os pés deformados daquela época. Uma delas diz: “Eu me arrependo de ter enfaixado meus pés. Não posso dançar, não posso me mexer direito. Mas naqueles tempos, se você não enfaixasse seus pés, ninguém ia se casar com você”.
Isso é tão diferente assim de deformar os pés usando salto alto? Nossa prática ocidental também começa quando a mulher é menina. Hoje já tem garotinha de dois anos calçando salto. Os efeitos são devastadores não só para o corpo, mas também para a mente, na minha opinião. As meninas aprendem que mais importante que correr, brincar, praticar esportes ou se mexer, é permanecer numa pose eterna de princesinha. Ela é condicionada a ser decorativa. Imagina se ensinassem esse tipo de ideologia a um menino?! Quando que um homem usaria sapatos ou roupas que restringem seus movimentos?
Em Como Ser Mulher, Caitlin Moran relembra, com humor, quando começou a usar salto:
Em Como Ser Mulher, Caitlin Moran relembra, com humor, quando começou a usar salto:
“Passei a vida inteira usando tênis ou bota, mas está muito claro que, se eu quiser vencer na vida na casa dos vinte anos, vou ter que comprar sapatos de salto alto. As revistas femininas que leio são todas inequívocas a respeito dos saltos: eles são uma parte não negociável de ser mulher, assim como a capacidade de produzir leite e o cromossomo xx. As mulheres supostamente devem gostar mais de saltos altos que de seu corpo ou pensamentos. É simplesmente impossível ter sapatos demais, diferentemente de bunda ou pensamentos revolucionários!!!!!!!!
'Ninguém mexe com uma mulher de salto' uma reportagem da Elle conclui. 'É nossa maior arma na guerra do estilo'. Essa merda parece séria.
'Ninguém mexe com uma mulher de salto' uma reportagem da Elle conclui. 'É nossa maior arma na guerra do estilo'. Essa merda parece séria.
No dia seguinte, eu saio –- determinada a tentar ser uma mulher adulta – e compro meu primeiro par de sapato de salto alto. Eu ainda não consegui entender muito bem – acabo comprando uma sandália azul de plástico com salto quadrado por 9,99 libras. Faz meus pés suarem tanto que chia um pouco quando eu caminho -– como se estivesse usando ratos como palmilhas e eles estivessem sendo esmagados lentamente, até morrer. Também causam muita dor na parte dos dedos e do calcanhar -– mas não faz mal! Estou usando salto alto! Sou uma mulher!” (pág. 150).
Ha ha. Aqui continuo este post, que já está quilométrico e certamente não será lido em época de férias.








































