quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

CIRURGIAS PARA OS PÉS AGUENTAREM O TRANCO DO SALTO ALTO

Muitas de vocês me enviaram nos últimos dias um link pra Galileu que, já nas primeiras linhas, me deixou espumando de revolta. 
Mas, convenhamos: a matéria é muito fraquinha. Depois do título (“Mulheres retiram o dedinho para poder usar salto sem desconforto”) e subtítulo (“Nova moda entre mulheres dos EUA é mutilar o próprio pé para usar o sapato sem aquela sensação de desconforto”) sensacionalistas, há essas informações: “São 3 os procedimentos mais procurados: retirar o dedinho, diminuir o tamanho de algum dedo ou injetar colágeno na parte da sola do pé perto dos dedos, na tentativa de deixar a sola mais acolchoada e ter um fim de dia menos dolorido”.
No entanto, a reportagem parece ter sido tirada de um site em inglês, e se você vai lá, tem um vídeo com uma reportagem. E ela não fala nada de tirar o dedo mindinho. Ela fala de cirurgias reconstrutivas de mulheres que achavam seus dedos feios (porque querem poder exibir os dedos em sandálias) ou que diminuiram parte de um dos dedos para o pé ficar menor. A própria mulher que ilustra a reportagem diminuiu (não removeu!) um dos dedos porque um de seus pés era um número maior que o outro. Fazer tudo isso em nome da vaidade é bem horrível, sem dúvida, mas é um pouco diferente do que o título sugere, não?
Procurei outras matérias com o nome stiletto surgery (cirurgia do salto agulha) e, apesar de mencionarem a remoção do dedo mindinho, nenhuma vai mais a fundo. Parece que cortar parte do osso de um dos dedos para reduzir o tamanho do pé não é incomum, mas ninguém fica com pé de quatro dedos. Até porque, pelo que sei, a gente precisa dos cinco dedos pra se equilibrar.
Longe de mim defender qualquer tipo de procedimento estético, só não gosto de matérias sensacionalistas. Sabemos que usar salto alto não tem nada de natural, e pode muito bem causar sérios problemas. A Associação Americana de Podologia Médica aponta que 87% das mulheres tem algum problema no pé por conta de sapatos incômodos. Clique nessas imagens para ver o que o salto alto pode fazer com seus pés.
Existem muitas histórias sobre as origens do salto alto. Sapatos sempre foram usados para delimitar classes sociais e como parte de rituais (pense nos sapatos pendurados no carro dos recém-casados). No Egito, açougueiros usavam salto para não pisar no sangue de animais mortos. Na Roma antiga, as prostitutas eram identificadas pelos saltos altos. Tanto as odaliscas turcas quanto as concubinas chinesas usavam salto, o que leva estudiosos a especular se o motivo era estético, ou se era pra impedir que elas escapassem dos haréns.
Atribui-se a invenção formal do salto alto a Catarina de Médici, que não era muito alta. Pra não se sentir insegura e feia no seu casamento com o futuro rei da França, ela usava salto. Isso fez sucesso entre mulheres que queriam parecer maiores. Mais tarde, Luís XIV também os usou. Salto alto para mulheres transformou-se em símbolo de aristocracia, pureza e desejo. Pois é, sapatos de salto sempre foram contraditórios: eles diminuem o pé em vários centímetros de largura para aumentá-lo em altura.
Já ouvimos falar (e acho que esse tipo de coisa passa a habitar meus piores pesadelos) de como durante séculos, no Japão e principalmente na China, as mulheres precisavam encolher e moldar seus pés. Era um processo que começava na infância, e, óbvio, doía pra caramba: usando panos, faixas e molduras ultra apertadas, os pés iam crescendo já com os ossos quebrados, e ficavam completamente deformados (as fotos são horríveis de olhar, mas, se você insiste).
Inicialmente o propósito desse procedimento não era deformar os pés. Era fazê-los ficar mais maleáveis para um tipo de dança (meio como dançarina de balé ter que dançar na ponta dos pés). Mas -– pra provar mais uma vez que padrões de beleza são culturais, não biológicos -– as pessoas acharam bonito, os homens acharam sexy, e pronto: virou uma imposição. Um sacrifício que você fazia pelo seu sexo. Um tipo de pedágio pago por ser mulher. Juntos, os pés atrofiados lembravam a flor de lótus, uma “segunda vagina”.
Previsivelmente, quanto mais as mulheres foram consideradas propriedades de seus pais e maridos, mais a prática se alastrou. O governo chinês só proibiu esse costume em 1911, mas ele continuou até 1949, quando os comunistas mandaram parar (era preciso que mulheres trabalhassem no campo). Hoje ainda existem chinesas bem velhinhas com os pés deformados daquela época. Uma delas diz: “Eu me arrependo de ter enfaixado meus pés. Não posso dançar, não posso me mexer direito. Mas naqueles tempos, se você não enfaixasse seus pés, ninguém ia se casar com você”.
Isso é tão diferente assim de deformar os pés usando salto alto? Nossa prática ocidental também começa quando a mulher é menina. Hoje já tem garotinha de dois anos calçando salto. Os efeitos são devastadores não só para o corpo, mas também para a mente, na minha opinião. As meninas aprendem que mais importante que correr, brincar, praticar esportes ou se mexer, é permanecer numa pose eterna de princesinha. Ela é condicionada a ser decorativa. Imagina se ensinassem esse tipo de ideologia a um menino?! Quando que um homem usaria sapatos ou roupas que restringem seus movimentos?
Em Como Ser Mulher, Caitlin Moran relembra, com humor, quando começou a usar salto:

“Passei a vida inteira usando tênis ou bota, mas está muito claro que, se eu quiser vencer na vida na casa dos vinte anos, vou ter que comprar sapatos de salto alto. As revistas femininas que leio são todas inequívocas a respeito dos saltos: eles são uma parte não negociável de ser mulher, assim como a capacidade de produzir leite e o cromossomo xx. As mulheres supostamente devem gostar mais de saltos altos que de seu corpo ou pensamentos. É simplesmente impossível ter sapatos demais, diferentemente de bunda ou pensamentos revolucionários!!!!!!!!
'Ninguém mexe com uma mulher de salto' uma reportagem da Elle conclui. 'É nossa maior arma na guerra do estilo'. Essa merda parece séria.
No dia seguinte, eu saio –- determinada a tentar ser uma mulher adulta – e compro meu primeiro par de sapato de salto alto. Eu ainda não consegui entender muito bem – acabo comprando uma sandália azul de plástico com salto quadrado por 9,99 libras. Faz meus pés suarem tanto que chia um pouco quando eu caminho -– como se estivesse usando ratos como palmilhas e eles estivessem sendo esmagados lentamente, até morrer. Também causam muita dor na parte dos dedos e do calcanhar -– mas não faz mal! Estou usando salto alto! Sou uma mulher!” (pág. 150).

Ha ha. Aqui continuo este post, que já está quilométrico e certamente não será lido em época de férias.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O CORPO DE UMA MULHER NÃO É DA SUA CONTA

Uma leitora anônima deixou os links para essas belas ilustrações. O máximo de autoria que encontrei foi aqui. O tema é que o corpo de uma mulher não é da conta de ninguém, só dela. Neste primeiro quadro, as mãos acusam a mulher de ser uma vadia.
Aqui, outra mulher é acusada e ser "fácil". Como se pode ver, a preocupação toda é para controlar a sexualidade. Quando que um homem é ofendido por ter várias parceiras sexuais? Mas, pra uma mulher, basta ter um (ou mesmo nenhum). Se fez sexo, é vadia e fácil. Se não fez, vai fazer.
Impura. Pensei que tais xingamentos estivessem fora de moda. 
E se a mulher for virgem, também sobram julgamentos. Aí ela é puritana. A resposta, não importa de quem vem, deve ser a mesma: f*da-se. O que você tem com a minha vida? Por que a minha sexualidade te afronta? Toda mulher já passou por isso. O importante é não baixar a cabeça. Quem está errado é quem quer julgar e condenar, nunca quem exerce sua sexualidade livremente.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

GUEST POST: CARTA AO MEU FUTURO FILHO

Camila é jornalista, tem um blog desatualizado, e se descobriu feminista recentemente.

Não sei se vocês sabem, mas quero ter filhos. Dois. Um deles, pelo menos, menino.
E, vide os muitos acontecimentos machistas e homofóbicos vistos nos últimos 2012 anos, achei que era quase imperativo eu fazer uma listinha de coisas que falarei ao meu garoto:
1. Se você vir fotos de você bebê usando macacões rosa, ou roupas com flores: não estranhe. Não farei você aprender que uma cor é ligada a nenhum gênero. Se você ficar lindo de roxo, usará roxo. Se ficar lindo de azul, usará azul. Se ficar mais lindo ainda de cor de burro quando foge à tarde, será essa a cor de sua roupa.
2. Por favor, compartilhe os seus brinquedos. Com todos, sempre! É divertido brincar em conjunto.
3. Brinque com meninas.
4. Tenho certeza que adorará o seu quarto cheio de brinquedos. Carrinhos, bola, panelinhas, vassourinhas e mini-cozinhas.
5. Quando for para a escolhinha, tenha “amiguinhas” e não “namoradinhas”. Meninas e meninos podem ser amigos sem nenhum interesse por trás, e é bom que perceba isso desde pequeno.
6. Se a mamãe seguir pelo caminho que vai pro trabalho, é capaz que ela muitas vezes tenha que viajar ou passar algumas horas a mais na redação. Não se sinta desprestigiado ou não-amado. Entenda, a mamãe quis muito ser o que é, desde que era do seu tamanho. Ela ama o que faz um pouco menos do que te ama, mas ama, de qualquer forma.
7. Nunca, em hipótese alguma, tire sarro ou humilhe alguém porque essa pessoa é diferente de você. São todos iguais a você, filho. Trate as pessoas, de todas as idades, gêneros, credo e cor de pele de maneira educada e respeitosa. Sem esperar nada em troca.
8. Nunca seja conivente com humilhações alheias. Ficar em silêncio é tão ruim quanto, de fato, humilhar.
9.  Se você se interessar por futebol, legal. Se gostar de basquete, legal. Se for ballet, legal. Se tiver vontade de tocar tuba, legal. Se quiser fazer teatro, legal.  Nada disso lhe tornará menos menino.
10. Se alguém te chamar de “gay” ou “mulherzinha”, responda: “muito obrigado”.  Nenhum desses nomes é xingamento, não para você, pelo menos. Não entre no preconceito dos outros.
11. Tente duvidar da maioria. Nem sempre aquilo que é bom é feito por todos.
12. Respeite as leis. Nem sempre elas farão um benefício direto para você. As leis existem para um bem comum. Se, depois de você seguir as leis, perceber que algumas não dão certo: fale. Tente mudá-las, não as burle.
13. Nunca trate uma mulher, garota ou menina como objeto. Nem como rainha. Elas são iguais a você.
14. Dentro disso de objeto, não sinta a necessidade de “comprar” alguém. Se for pagar a conta para uma garota com que sair (olha como estou me adiantando!), faça por gentileza, e não porque você quer alguma coisa a mais com ela.
15. Não deixe as suas cuecas aparecendo para fora da roupa. É feio e extremamente deseducado. Se você não pode ver a calcinha de uma menina, mesmo quando ela senta de saia, é bom que ela não seja obrigada a ver as suas roupas de baixo. (No ensejo, não olhe a calcinha das meninas, ou o sutiã, elas não são objetos)
16.  Adolescência é complicada, compre Playboys/G Magazines e veja filmes pornô, se sentir vontade. Mas coloque na sua cabeça que nada disso é real.
17. Se quiser ter o cabelo comprido, tenha. Caso puxar o meu, ficarei feliz em te dar dicas sobre os melhores shampoos e condicionadores.
18. Se nascer branco, não tema os negros ou suspeite deles. Se nascer negro, não odeie os brancos, mais ódio não é algo que o mundo precise.
19. Quer gostar de metal? Goste! De funk? Goste. De axé? Goste. Desde que não escute nada disso tão alto que incomode as pessoas do seu lado. Ninguém é obrigado a gostar e apreciar aquilo que você gosta.
20. Use sempre camisinha. Sempre.
21. Se nascer hétero e acontecer um “acidente” com a sua namorada, nunca, em hipótese alguma, NUNCA, pergunte: “Você tem certeza que é meu?”. É ofensivo e repulsivo. Ela está falando com você, é lógico que o filho é seu.
22. Se nascer homo e quiser adotar, farei de tudo para ajudar. Mas não peça para eu cuidar sempre de seu filho, a responsabilidade é completamente sua.
23. Caso seu pai faleça, ou ele desaparecer da face da terra, ou eu não tiver um companheiro, por favor, não sinta a necessidade de ser o “homem da casa”. Na verdade, não use a expressão “homem da casa” em hipótese alguma.
24. Nunca “compre” uma mulher. Nem seja conivente com isso. É degradante.
25. Não se sinta “menos homem” se, por ventura, você chorar, quiser mostrar seus sentimentos, cuidar de sua aparência ou achar que seus pensamentos são complicados.
26. Gostar de meninos não te fará menos homem. Continuará sendo o meu garoto!
27. Ficar com muitas meninas não te fará mais homem! Acredite.
28.  Se uma menina estiver se “insinuando” para você, rolar aquele clima e ela falar não, respeite-a. Não é sempre não.
29. Nunca, em hipótese alguma, diga coisas indecorosas para uma mulher que não conhece. Principalmente se ela estiver andando na rua.
30. Evite brigar. Se acontecer algum desentendimento, e, acredite, eles vão acontecer bastante, não se valha da sua força, além da do argumento.
31.  Nunca, em hipótese alguma, nunca, nunca, se aproveite de ninguém que está em um estado pior que o seu.
32. Aprenda a lavar, passar e cozinhar. Não precisará pagar ninguém para fazer isso, muito menos pedir que sua parceira faça por você.
Sou nova, ainda vai demorar um pouco para eu ter filhos. Então, se tiver um menino, siga um pouco dessa lista. Ensine essas coisas pro seu filho. Talvez a sociedade se torne mais igualitária daqui a um tempo.
Leia também o guest post Pai de menina.

domingo, 23 de dezembro de 2012

VÉSPERA DA VÉSPERA DE NATAL E EU TRABALHANDO

Onde estive em julho e onde estarei na quarta 
(clique para ampliar e ver Lolinha de braços abertos)

Oi, gente! Eu tô trabalhando um montão no blog, e tenho cinco entrevistas pra responder. E ainda preciso escrever dois artigos pra serem publicados antes de eu voltar às aulas, dia 3 de janeiro. E papers pra corrigir! Cadê minhas curtas férias?
Depois eu falo mais do reveillon, faço retrospectiva pessoal de 2012 (faço? Talvez. Foi um bom ano, mas todos os anos são bons) e tal. Se você é leitorx antigx, sabe que praticamente todo natal passamos em casa. Minha mãe faz uma torta de frango caprichada pra ceia, e um super bolo de chocolate (clique pra ver a receita). E geralmente assim é o nosso natal. Eu, maridão, minha mãe, torta de frango, bolo de chocolate, gatinhos. 
E é bem legal, não posso reclamar. Já passei da fase de ficar deprimida no natal. Natal é época de comer à vontade e sem culpa! Só esse já seria um bom motivo pra gostar da festa.
Quarta, dia 26, eu e maridón vamos viajar rapidinho. É que, por causa da greve nas federais este ano, em 2013 não teremos férias juntos. Chuif. Qualquer plano de viajar pra mais longe (a gente queria visitar Buenos Aires, ver uns amigos em SP, uns outros na Bahia) escafedeu-se. Maridón, como professor de escola particular, continuará tendo as férias dele, em janeiro e julho. E eu, em março e agosto. Triste.
Aliás, pelo jeito passarei março viajando. Não tem nada fechado 100%, mas já recebi e aceitei convites para participar de mesas redondas e palestras na UFC, em Sobral, CE, na Federal de Santa Maria, RS, na UFMA, em São Luís, e no Direito da USP, em Ribeirão Preto, SP. Ah, e talvez na UFSC, mas isso só em junho. Assim que eu tiver mais informações eu falo pra vocês. 
E vocês também podem me convidar pra ir até a sua universidade, que eu vou. Se bem que semestre que vem (que começa em abril) não será fácil. Terei cinco turmas! Cinco! Mas a gente vê o que pode fazer, os dias que incomodam menos minhas aulas aqui...
Então, entre os dias 26 e 27 de dezembro estaremos em Fortim, cidade linda e baratinha perto de Canoa Quebrada. De lá iremos direto pra Mossoró, que é quase fronteira entre CE e RN. 
Vamos ficar dois dias num super hotel com 14 piscinas, nove delas com águas termais, e cinco com água fria. Tenho amigas que dizem que não iriam pra lá nem se lhe pagassem, mas eu adoro águas termais. Só fui (com o maridão) uma vez pruma cidade com águas termais. 
Era Santo Amaro da Imperatriz, próximo a Floripa. Mas fiquei decepcionada. Pra mim água termal tem que brotar do solo, ou ter uma piscininha pra gente entrar. E lá em Santo Amaro você pagava pra ficar numa banheira! Individual, ainda por cima. 
Mas tô trabalhando pra deixar posts prontos pra serem publicados durante esses dias. Os blogs, e a internet em geral, ficam às moscas nos períodos de férias, eu sei. Mas deem uma passadinha aqui de vez em quando, que vai ter post novo todo dia. E comentem! Nâo deixem esse espaço pros trolls. Porque troll não tira férias.
E vocês? Como vai ser de natal? Tudo de bom! Se eu não falar mais feliz natal, aí vai: Feliz natal!
Eu em Fortim em julho 

sábado, 22 de dezembro de 2012

GUEST POST: ASSÉDIO NO METRÔ DE SP

A Joanne me enviou este relato. Quando perguntei se poderia publicá-lo como guest post, ela respondeu: "Claro que sim! Por mais que isso tenha me machucado na época, hoje sei que minha vida mudou ali... Que fui buscar meus direitos e nunca mais abaixei a cabeça. Quero que outras se inspirem, se motivem..."

Tinha 19 anos quando isso aconteceu. Moro em Campinas mas estava de férias do trabalho e fui para São Paulo com meus pais, tio e tia. O passeio todo ocorreu muito bem, como sempre.
Voltando para o estacionamento onde deixamos o carro, pegamos o metrô na Barra Funda, para descer na Sé, fazendo baldeação. Foi na saída para a Sé que fui abusada. Senti uma mão apalpando meus genitais por trás, de forma rápida e agressiva enquanto eu descia do vagão naquele empurra-empurra. Prontamente me virei e vi o nojento inescrupuloso que o fazia, que me deu um sorriso.
Comecei a gritar com ele "QUAL É O SEU PROBLEMA?" e desferi muitos palavrões. Meu pai, notando a situação e o fato de eu já estar em lágrimas, foi pra cima do homem, que saiu correndo. Meu pai foi atrás. Mesmo mancando de uma perna, tirou forças não sei de onde e deu um soco na nuca do acusado, deixando-o desmaiado em plena Sé.
Eu assisti a tudo sendo amparada pela minha mãe e tios, aos prantos, com todos me olhando. Me senti suja, humilhada, corrompida. Como se não restasse um pingo de inocência ou humanidade no mundo.
Logo surgiram vários guardas que se misturam na multidão. Eles prenderam o acusado e o levaram até a delegacia do metrô. Eu fui para a mesma delegacia, mas em um vagão, sendo interrogada por um guarda solícito e educado. Mas a educação parou por aí.
Na delegacia do metrô, fiquei sentada ao lado de um homem acusado de tirar fotos por baixo da saia de mulheres e de duas mulheres acusadas de roubar idosas nas estações. Sim, eu, vítima, fiquei no meio de acusados. A delegada só apareceu dizendo que estava muito ocupada e que teríamos que esperar.
O acusado do abuso [a partir da mudança da lei em 2009, isso passa a valer como estupro] chegou, e o colocaram sentado de frente pra mim. Ele disse que era gerente, que não fez isso, que iria ser liberado logo.
Depois, quando meus tios testemunharam a meu favor, o acusado mudou o discurso. Disse que eu empinei meu bumbum e que eu estava provocante, que eu mereci.
Pedi que, por favor, tirassem o acusado dali. Meu pedido foi ouvido e novamente a delegada apareceu dizendo que eu teria que esperar muito e que deveria desistir de dar queixa.
Resultado, passei 9 HORAS sentada na delegacia, com meus tios e pais esperando.
Tive que ouvir indiscriminadamente do acusado que eu estava pedindo, e tive que ouvir que ele ia processar meu pai por agressão, depois de ter abusado de mim e tentado fugir.
No fim, voltei pra casa com a queixa registrada, com o acusado preso apenas por uma noite. Até quando meninas, garotas, mulheres e senhoras vão passar por isso? E por que uma vítima, que passou por um trauma, precisa ser tratada de forma tão insensível?