terça-feira, 24 de abril de 2012

“O FEMINISMO NÃO VALORIZA A SUBORDINAÇÃO DAS MULHERES”

Lisa Simpston: O sistema todo está errado!

Uma leitora anônima deixou este comentário interessante no post sobre o manifesto das gordas. É de uma feminista (americana?) que eu não conheço, chamada Amy Winter. E, pelo que parece, foi a anônima que traduziu:
“Não importa o quanto nós gostaríamos de usar o feminismo para justificar nossas escolhas, o feminismo não pode ser interpretado como abrangendo qualquer coisa arriscada, auto-odiosa e violenta que uma mulher faz para si mesma, ou recebe dinheiro para fazer, ou paga alguém para fazer com ela. O feminismo não valoriza a subordinação das mulheres e a dor das mulheres. Não valoriza a dependência vitalícia das mulheres saudáveis do sistema médico de suplementos nutricionais ou hormônios — consequências inevitáveis da cirurgia de perda de peso ou transexualismo. O feminismo não valoriza um padrão de beleza para mulheres composto de magreza extrema, feições brancas regulares, cabelo liso, pele de aparência jovem, sem rugas ou manchas, e falta de pêlos visíveis no corpo. Feministas sabem que este padrão exclui propositadamente a maioria das mulheres e é projetado para manter-nos preocupadas com a nossa aparência e dependentes de cirurgiões e empresas de cosméticos para uma cara tranquilização. O feminismo valoriza mulheres como sujeitos de nossas próprias vidas, e não objetos para atrair e manter o olhar do outro. Ele valoriza a cooperação entre as mulheres, e não a competição e a comparação fomentada por apresentar-nos com uma imagem após a outra de mulheres que nunca vamos parecer — mulheres que, de fato, não existem, dado o uso extensivo e agora-famoso de airbrushes e retoques em fotografia de moda. As mulheres gordas têm sido muito danificadas pelo padrão de beleza sob o qual somos as mais feias das feias — mas a resposta feminista a isso não é vestir os nossos eus gordos em lingerie e posar para a revista Dimensions ou o boletim NoLose. O feminismo não valoriza ampliar as categorias de mulheres disponíveis para a exploração sexual masculina, ele valoriza o fim da exploração sexual de todas as mulheres.”
Acho pertinentes algumas dessas colocações da Winter porque, de fato, muitas feministas (eu inclusa) têm a tendência a criticar imagens sexualizadas de mulheres magras, mas de celebrar as mesmas imagens sexualizadas quando se trata de mulheres gordas. E sim, esta é uma contradição, a meu ver. Mas também acho complicado que ela fale em "o feminismo", como se só houvesse um feminismo.
Quanto ao início do que diz Winter, cai em algo que deveria ser meio óbvio, só que incrivelmente não é: que o feminismo oferece muitas escolhas, mas nem todas essas escolhas são feministas. Por exemplo, o feminismo, em vez de condenar a mulher que fica em casa cuidando dos filhos, diz que essa mulher pode escolher entre trabalhar e ficar em casa cuidando dos filhos. Só que ficar em casa cuidando dos filhos não é uma atitude feminista. Quer dizer, nem trabalhar fora é necessariamente feminista, né? Outro exemplo, porque é óbvio que estou me complicando: o feminismo diz que as mulheres não precisam usar maquiagem, e que sua aceitação não depende de ter sua cara pintada ou não. O feminismo entende que maquiagem como uma imposição é algo opressivo, certo? A mulher deve poder escolher se quer ou não se maquiar. Mas maquiar-se não é feminista. E não maquiar-se tampouco. Por isso que, na minha opinião, é totalmente inútil e contraproducente entrar em competições de “eu sou mais feminista que você”, ou “eu sou feminista, você não”. Eu nunca deixei de considerar feminista uma mulher que se diz feminista e usa maquiagem. Mas tem feminista que acha que sou menos feminista por eu ter orgulho de não usar maquiagem (e nem sei se tenho orgulho, só sei que não uso). Como se eu, ao não usar maquiagem, estivesse condenando a feminista que usasse maquiagem. Mas eu tô me lixando se alguém usa maquiagem. Só quero poder continuar criticando uma sociedade capitalista que obriga o uso da maquiagem. O problema, pra mim, é que tem muita feminista que individualiza tanto as escolhas quanto as críticas. E individualizar é algo meio burguês. Porque o feminismo é bem maior do que eu e você, darling.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

OS BRINQUEDOS EDUCATIVOS DE CADA GÊNERO

Menina ou menino? Ish, não dá pra saber!

Outro dia, no post sobre uma professora americana que tomou a iniciativa louvável de trabalhar gênero já com as crianças da primeira série, um leitor, o André, perguntou: “Quais seriam os benefícios que meu filho teria por brincar de boneca?”. Bom, falar de benefícios já tem um caráter muito utilitarista. Não sei quais seriam os benefícios que seu filho teria brincando de carrinho, por exemplo. Desconheço até que ponto as crianças “se beneficiam” de brincar de alguma coisa, a menos que você considere diversão um benefício (eu considero), e aí brincar de boneca e de carrinho dá na mesma — ambas podem ser divertidas. Mas o fato é que todo brinquedo é pedagógico, didático, educativo, no sentido que a criança aprende com ele (não só com ele, lógico) o seu papel no mundo, e aprende o que se espera dela e como deve se comportar. Convenhamos: não é nem um pouco de coincidência que as meninas sejam incentivadas a brincar de casinha, trocar fralda de bebê, e fazer comidinha. Na vida real, é o que se espera delas também — que elas se restrinjam ao ambiente doméstico. Isso tudo é visto como “coisa de menina” (e de mulher). E depois tem gente que fala que a situação tá mudando, porque tem marido “que ajuda” em casa!
Concordo mais com uma mãe britânica que, junto com a irmã, lançou a campanha Pinkstinks (rosa fede). Ela teve a ideia depois de ver suas duas filhas numa loja de brinquedos considerarem que animais de fazenda seriam “coisa de menino”. Para essa mãe, “estamos regredindo”. Acho que sim. Infelizmente, estamos mesmo. Na minha infância e adolescência as lojas não eram tão divididas por gênero. Rosa não era a cor oficial das garotas. Eu podia ter um caderno de escola “neutro”. Podia usar sandália sem salto. Não existia isso de meninas de 5, 8 anos se maquiarem antes de ir pra escola. Chapinha pra criança? Nem pensar. Cirurgia pra adolescentes com menos de 18 anos eram raríssimas. Hoje a idade média de cirurgias plásticas no Brasil é de 15 anos. Então sim, tá pior (e aqui noto um descompasso gigante entre o que muitas acadêmicas feministas — por quem tenho o maior respeito — pesquisam e escrevem sobre eliminação dos gêneros e o que se vê na vida real).
Nunca as crianças estiveram tão generizadas. Talvez isso se deva ao capitalismo estar cada vez mais voraz. Portanto, talvez compense do ponto de vista mercadológico lançar uma versão de Palavras Cruzadas ou Banco Imobiliário ou salgadinhos só para meninas. Talvez seja porque hoje consegue-se saber o sexo do bebê muito antes do nascimento. Então o bebê já é tratrado como menino ou menina ainda dentro do ventre. Quando nascer, a menina já encontrará o quarto decorado de rosa e estará pronta pra assumir seu lugar de “princesinha do papai”. O menino encontrará o quarto azul com motes esportivos e bélicos, e será preparado para protagonizar uma vida de aventuras — longe do ambiente doméstico, que isso é coisa de menina.
Uma americana fez um exercício formidável que eu gostaria que fosse feito aqui (alguém se habilita? Já tem estudo acadêmico?). Ela analisou uns trinta comerciais de TV que tentam vender brinquedos para meninos de 6 a 8 anos, e outros trinta para meninas da mesma idade, e anotou o vocabulário usado para comercializar cada produto. A lista original pode ser vista aqui. Como usei e continuo usando esses gráficos em algumas palestras, decidi traduzir as palavras. Deu mais ou menos isso para os brinquedos de meninas:Praticamente tudo relacionado à moda, estilo, aparência física, e maternidade. A palavra amor é a que a mais aparece nos comerciais, mas é só ver quem lhe faz companhia pra gente supor a que tipo de amor os publicitários se referem. Amor por consumir, né?
Este é o gráfico das palavras que mais aparecem nos comerciais pra meninos:O vocábulo mais repetido é batalha. Tem também poder, heróis, ação, derrotar, transformar, destruir etc. Amor e bebês não existem para garotos.
O Feminist Frequency também fez um vídeo em que analisa alguns desses comerciais. Concluiu que, pros meninos, estimula-se a competitividade e a agressividade, mas também a construção de coisas (nem que seja para destruí-las em seguida). Pras meninas, tudo gira em torno de prendas domésticas e da sua função decorativa. Aí a gente se pergunta por que há muito mais engenheiros que engenheiras, ou por que apenas 3% dos programadores de videogame são mulheres. Sério que com toda essa lavagem cerebral desde cedo ainda tem gente que acredita em “gosto pessoal” como fator determinante pras escolhas que fazemos na vida?
Não vou entrar na questão de que, num mundo mais humano, a propaganda para menores de 12 anos seria proibida (como é na Suécia). Ponto. Este é um assunto complexo que merece um post só pra isso, mas eu não canso de me admirar ao ver pessoas defendendo a total falta de regulamentação pro capitalismo, porque — dizem — quem deve tomar as rédeas da situação e domar as crianças são os pais. Nem pensar em tornar a vida dos pais um tiquinho mais fácil? Por que fazer os pais competirem com indústrias poderosas que, só nos EUA, gastam 17 bilhões de dólares em estudos de como influenciar as crianças?
Mas, voltando ao questionamento do André sobre os benefícios do filho brincar com boneca, eu queria devolver a pergunta. Você vê algo de errado num mundo que relaciona todos os brinquedos pra meninos com poder, força bruta e guerra? Esses brinquedos, e toda a cultura de “menino não chora” em que seu filho está inserido, não guiam o modo como ele tentará resolver conflitos? E digamos que você dê o azar de ter uma filha. O que esses brinquedos ensinariam a ela? Por que brincar de boneca seria benéfico pras meninas, e não pros meninos? Que tipo de benefício têm as meninas aprendendo que é sua missão no mundo cuidar da casa? E meninos não namoram, se casam e têm filhos quando crescem?
Naquele mesmo post, um comentarista anônimo já veio com uma enorme certeza: “Se dar boneca pros meninos brincarem não é incitar o homossexualismo, então me digam o que é!”. Uau! Santa ignorância, Batman! O leitor confunde sexo biológico com orientação sexual. Bom, assim como meninas não se tornam lésbicas por brincarem de carrinho ou de espada, meninos não viram gays por, ugh!, tocarem numa boneca. E, como a gente vive num mundo em que as “incitações” à heterossexualidade são contínuas e gritantes, você não deve se preocupar. Fecho com Guacira Louro quando ela questiona: “Se a identidade heterossexual fosse, efetivamente, natural [...], por que haveria a necessidade de tanto empenho para garanti-la?” De fato, o medo que temos em combater a homofobia nas escolas (porque isso geraria toda uma multidão de gays e lésbicas!) é um sinal inequívoco da fragilidade da nossa heterossexualidade. Como é fraca a nossa identidade sexual se um menino brincar de boneca o “incitará” a ser gay!
A certeza homofóbica do leitor anônimo não tem muita salvação, mas a dúvida (vou acreditar que genuína) do André a respeito dos benefícios que seu filho teria por brincar de boneca pode ser ampliada: que benefícios teria o nosso mundo se as crianças pudessem crescer para ser tudo aquilo que quiserem ser, sem estar limitadas às amarras de seu gênero?

domingo, 22 de abril de 2012

DE CIMA PRA BAIXO

Pessoas queridas, discorram sobre o assunto do momento: a capa da Veja, que muitos vêm chamando de eugenista por ela supor que o suprassumo da civilização é o homem alto... que, evidentemente, está bem longe de ser o protótipo do brasileiro.
E claro que a Veja, revista campeã em vender dietas fajutas, não podia apenas opor um homem alto a um homem baixo. Não, o homem baixo tem também que ser gordo!
Já vi várias pesquisas (não conseguirei citar nenhuma agora) que mostra que os altos recebem salários maiores que as outras pessoas. E que os salários dos gordos são sempre piores. Mas isso, pra mim, é uma das provas de que a gordofobia existe, e é bem fortinha. Acho incrível como o mesmo pessoal que adora zombar de gordos nega veementemente que qualquer coisa parecida com gordofobia exista...
Gostaria de ficar aqui e papear com vocês, mas daqui a pouquinho pego avião pra Salvador. De lá vou de ônibus pra Jacobina, que fica a uns 330 km da capital. Pensei que seria mais próximo. Vou sair daqui de Fortaleza às 14 horas e só chegar em Jacobina perto da meia noite! Amanhã e quarta darei um minicurso e uma palestra na Universidade do Estado da Bahia (UNEB). E as duas coisas serão em inglês! Pena que o tempo será corridíssimo. Duvido que sobre alguma horinha pra conhecer cachoeiras e quetais...
Terça bem no final da noite estarei de volta, pronta pra dar um monte de aulas na quarta, já de manhã. Tem posts programados pra todos os dias. Espero que vocês gostem do de amanhã. Abraços e até breve!

sábado, 21 de abril de 2012

GUEST POST: O BLOG ME AJUDOU A MUDAR

O Ramon, um leitor que chegou a comentar bastante por aqui, e depois parou, me mandou um email que me deixou muito feliz. Já faz um tempinho. Pedi permissão para publicá-lo, e ei-lo. Ah, no post que escrevi respondendo uma pergunta do Ramon, eu não estava sendo sarcástica em nenhum momento! Incrível como a gente não tem controle sobre como as pessoas vão interpretar o que dizemos... Muito obrigada pelo retorno, Ramon.

Confesso que sinto um certo nervosismo ao lhe mandar um e-mail pela primeira vez! Também não estou seguro se você irá lê-lo ou não, imagino que você deva receber dezenas de mensagens todos os dias e você certamente deve ter mais a fazer da vida. Ainda assim, sinto-me na obrigação de agradecê-la pelo post sobre ofensas dirigidas a mulheres, especialmente por você ter compreendido a essência da ideia (fiquei com medo de você me considerar um discípulo do Bolsonaro). Alguns amigos e amigas leram o post e lhe acharam desrespeitosa demais, mas confesso que gosto mais quando você põe seu sarcasmo ácido em ação (mesmo que seja comigo). Gostei especialmente dos comentários, rio só de lembrar deles!
Peço desculpas por lhe agradecer só agora, infelizmente o timing do post não foi bom para mim pois estava na quinzena de provas e eu costumo me desligar da rede durante esse período para me concentrar. Mas o que importa é que eu li e voltei a ler o blog em dia.
É interessante como as pessoas mudam, quando estão dispostas a mudar. Há um ano, eu provavelmente estaria ameaçando lhe processar agora mesmo e também já teria denunciado seu blog ao Blogspot por violação das regras de conduta. Ainda me lembro da repulsa que sentia quando comecei a ler seu blog. "Como esta p*** v**** p****** tem coragem de me chamar de MISÓGINO? Logo eu, que me esforço TANTO para ser liberal e respeitar os direitos humanos?" Lia suas palavras como se tivessem sido escritas pelo Ali Kamel ou pelo Diogo Mainardi.
Com o passar do tempo, seus argumentos foram me vencendo pouco a pouco. Você deve muito às suas leitoras, aliás! Confesso que nunca vi tower defenders (gíria da internet para os comentaristas que defendem o blogueiro) tão leais e tão decididas quanto as suas! Hahahahahaha!
Aprendi muito com elas e com você também. Acredito que a ficha tenha caído nos posts sobre os privilégios da "maioria" branca, heterossexual e do sexo masculino. É interessante porque eu sou "branco" -- se é que eu tenho o direito de me chamar deste jeito num país tão miscigenado como o Brasil, mas é como eu me vejo e, principalmente, como sou visto pelos outros -- e homem. Eu sempre achei que fosse parte da "minoria", mas não, não sou. Não recebo os olhares de desprezo ou piedade dos professores geralmente dirigidos aos alunos cotistas (afinal, se um negro está na faculdade, só pode ter sido por cota!) e, olha só que interessante!, se eu tirar 10 numa prova, foi porque eu me esforcei, e não porque dei mole para o professor. É tão fácil apontar os defeitos dos outros quando se é vítima de um abuso, mas o praticante do preconceito dificilmente se apercebe disso. Para falar a verdade, se não fosse pelo seu "bloguinho", jamais teria sido capaz de mudar.
Não passei a frequentar seu blog com a melhor das intenções, mas aqui estou eu, agradecendo-lhe e, por que não, reforçando o pedido para que você nunca pare de escrever: as pessoas mudam! Elas só precisam de alguns (milhares de) empurrões!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

DEUS, FIQUE LONGE DOS MEUS SAPATOS

Saia da minha calcinha, pede manifestante ateia

Uns dias atrás ateus americanos se reuniram em Washington DC. Até aí, normal — o número de pessoas que assumem não crer em deus vem crescendo mesmo. O que chamou a atenção foram os cartazes muito fofos que alguns deles trouxeram. Seleciono aqui os meus favoritos.“Acredito em vida antes da morte”. Simples e direto. Eu também acredito.Não sei quem este cartaz ofende mais: quem tem pênis ou quem tem religião. Mas concordo totalmente: “Religião é como um pênis... Tudo bem ter um. Tudo bem até se orgulhar de ter um. Mas não é legal mostrá-lo em público, jogá-lo na minha cara, ou querer mandar porque você tem um. Ou me marginalizar porque eu não tenho um.”
Este é meu preferido: "Deus odeia fatos". Em português perde um tanto da graça. A referência é a um dos cartazes mais famosos de uma igreja homofóbica, “God hates fags” (Deus odeia bichonas). Trocando fags por facts fica perfeito, porque também faz alusão ao fato de que religiões não são exatamente guiadas pela lógica.
Esta fala não tem nada a ver com a manifestação em Washington, mas eu a vi outro dia e amei e a traduzi. Ela está creditada a um tal de Matt Shultz, vocalista de uma banda de rock alternativo. Isso se só houver um cara com esse nome. Enfim: “Você pode acreditar num deus. Você pode acreditar num unicórnio morando no seu sapato, que eu não me importo. Mas no dia em que você começa a me dizer como devo calçar meus sapatos para que eu não incomode os unicórnios, aí eu tenho um problema com você. No dia em que você começa a envolver os unicórnios nas decisões feitas neste país, eu tenho um grande problema com você”.