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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

PARA SEMPRE ALICE E BIRDMAN, MEUS PREFERIDOS ATÉ AGORA

Até agora, dos filmes que vi que concorrem a algum Oscar, os que mais gostei foram Para Sempre Alice e Birdman. 
O primeiro é baseado no livro homônimo de Lisa Genova (veja o trailer) sobre o diagnóstico de Alzheimer para uma mulher jovem, de 50 anos, interpretada brilhantemente por Julianne Moore. Eu li o livro cinco anos atrás e até escrevi sobre ele. É o tipo de história terrível que você pensa: será que eu, que esqueço um monte de coisas, tenho Alzheimer? E se tiver, o que fazer da vida? Vale a pena viver assim? (minha opinião é que não, não vale). 
O livro tem mais detalhes, lógico (como a chocante informação que um asilo para portadores da doença cobra 285 dólares por dia!), mas várias anedotas assustadoras permanecem no filme. Por exemplo, a protagonista urina nas calças porque não consegue se lembrar a tempo onde está o banheiro da sua própria casa. Ou ela assiste à uma peça da filha, que é atriz, e confunde a pessoa com a personagem. Ou ela sai pra se exercitar e, no meio da corrida, esquece onde está e onde mora.
Alice (Julianne Moore) se perde
O filme é sensível, com um bom ritmo que prende o interesse. E achei menos sentimental que o livro (pelo menos eu não chorei até me acabar, o que aconteceu com o livro). Todo mundo está bem, inclusive Kristen Stewart como a caçula, e Alec Baldwin como o marido. 
É um papel difícil o dele, porque a tendência é que a gente fique contra um personagem que não apoie a parceira cem por cento, mas olha, eu o compreendo. Não sei se eu deixaria de viver a minha vida porque a pessoa que eu amo está com uma doença incurável e irreversível. (E é por isso que, se fosse comigo, se eu tivesse Alzheimer precoce, eu me mataria. Mas quem disse que é fácil?).
É inacreditável que uma das atrizes americanas mais talentosas e audazes das últimas duas décadas ainda não tenha um Oscar pra decorar a lareira (eu pensava que ela tivesse pelo menos um de coadjuvante, mas nadinha). Dessa indicação agora (sua quinta) ela não passa! É a favorita para levar o prêmio. Minha torcida é toda dela.
E lá vai: minha torcida pra corrida de melhor ator é pelo Michael Keaton, que tem o papel de sua vida em Birdman (veja trailer). 
É provável que Eddie Redmayne como Stephen Hawking em A Teoria de Tudo seja o favorito pro prêmio, mas Eddie tem metade da idade de Michael, e seu papel, embora Eddie esteja fantástico, é o que a gente chama de isca de Oscar. Parece que você já larga com vantagem se interpretar um personagem com uma doença horrível, mas consegue superar as dificuldades (daí também a vantagem pra Julianne, se bem que a parte de superação da sua personagem acaba numa palestra).
Michael não tem um papel de destaque há mais de duas décadas. Seu retorno é tão formidável quanto o do John Travolta em Pulp Fiction (quer dizer: John era vinte anos mais novo que Michael é hoje, e não tinha ficado tanto tempo longe dos holofotes, mas também resta ver se Birdman terá o mesmo impacto cultural que a obra-prima de Tarantino). 
Seu papel em Birdman parece ter sido escrito pra ele (uma celebridade de Hollywood que não faz sucesso desde que fez um superherói, em 1992, mesma data em que Michael fez seu segundo Batman). Mas o diretor e roteirista Alejando González Iñarritu (o grande diretor de Amores Perros, 21 Gramas e Babel) jura que não escreveu pensando nele, apenas que, ao terminar o roteiro, viu que sua única opção era Michael.
Lesley (Naomi Watts) chora no camarim após tentativa de estupro 
A história em si pode não ser muito diferente do que estamos acostumadxs a ver -- homem branco de meia idade em crise --, e nem o humor maldoso contra Hollywood, nem a homenagem ao teatro são tão incomuns. 
O que chama a atenção, no entanto, é a forma. Birdman é filmado aparentemente sem cortes, como se fosse um longo plano-sequência de uma hora e quarenta minutos (quando acontece o primeiro corte aparente). Claro que há cortes, porque sem chance filmar uma só tomada tão longa, com tantos detalhes (ok, Arca Russa já tinha feito isso), mas eles estão disfarçados. Este estilo de câmera na mão, sem edição, impõe um ritmo frenético, e que imita o teatro. Mas eu demorei uns bons dez minutos até notar. 
Birdman é divertido em alguns pontos e muito deprê e mórbido em outros. Eu me lembrei de Cisne Negro. O homem-pássaro que às vezes fala com o protagonista e se materializa pra ele é assustador, e mais assustador ainda é que ele também é interpretado por Michael Keaton (parece outro ator). Há mil e um aspectos pra serem discutidos sobre a história, mas não dá pra falar, se não estraga tudo. (Leia a excelente crítica que o Luis me enviou ontem. Eu respondi a ele, e vou colocar minha resposta nos comentários. Mas tem vários spoilers, tanto a crítica quanto a resposta).

Alguns pontos perturbadores são: os "poderes" do personagem existem ou são fantasias dele? (minha opinião: fantasias). É tudo um sonho? Desde quando? Quais personagens são reais? Todos? (porque a ex-mulher dele não parece ser real pra mim). 
E o que acontece no final? Uma dica para uma das interpretações é: fique de olho nas águas-vivas. Estranho? Mas surgem águas-vivas numa praia num quadro nos créditos iniciais (quase não dá pra ver), num discurso importante do protagonista, e no final.
O elenco inteiro brilha (nunca vi Emma Stone tão bem), mas Birdman é todo do Michael. E do diretor de fotografia, Emmanuel Lubezki (que já havia mostrado sua habilidade com planos-sequência em Filhos da Esperança). E a cena em que Michael corre de cueca em Times Square já é clássica!
Queria ter tempo pra escrever sobre os outros indicados que vi, mas tá difícil...
P.S.: A entrega do Oscar é no próximo domingo! Participe do meu tradicional bolão do Oscar. Você pode participar do bolão pago, no grátis, ou (o mais recomendável) nos dois. Mas não deixe de participar, please! É só fazer seus chutes até sexta.