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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

SAUDADES DAS RELÍQUIAS

IBM Elétrica, o auge da evolução. Nos anos 80.

Tô procurando uns papéis entre uns arquivos arqueológicos e jogando um monte de coisa fora. Dá um aperto no coração ter que por no lixo objetos que significaram muito pra gente em algum momento, mas que hoje não tem utilidade nenhuma. Por exemplo, quilos de fotos recortadas. Cartazes de filmes de vários países. Isso é da época em que eu montava capas de vídeo pros meus amigos e primeiros patrões. Eu fazia uma colagem, escrevia um resumo (tentanto deixar de lado a parte crítica o máximo possível, ainda mais quando o filme era ruim), e voilá, capinha feita. Eles guardam algumas até hoje, mas é só uma questão de tempo pra todas as fitas VHS serem substituídas pelos dvds. Joguei fora as fotinhos. Vinte anos atrás, gastei tempo e dinheiro comprando revistas, recortando-as, organizando-as em arquivinhos em ordem alfabética. E hoje tem tudo e mais um pouco na internet.
Outra relíquia que não vai continuar ocupando espaço aqui em casa: um catálogo imenso, lindão, de... tipos de letras. Eu devo ter um lado designer frustrado muito forte, porque sempre me agarrei a esse catálogo com unhas e dentes. Mas hoje tive que admitir que ele não serve pra nada hoje. Chuif.
Encontrei também um caderno jurássico com algumas anotações sobre computadores. Devem ser notas sobre um dos meus primeiros computadores. Aliás, meu não, que naqueles tempos (1990) quase ninguém tinha computador em casa. Eu usava o do escritório onde trabalhava mesmo. Em casa eu tinha - máximo do máximo - uma IBM elétrica com corretivo (e também uma Olivetti Praxis, cuja única vantagem era ser portátil). Faz uns dois anos tentei doar a máquina de escrever IBM, porque ela só ficava no caminho e era usada uma vez a cada cinco anos, se tanto. E também porque, quando acabasse a fita e o corretivo, iria encontrar esses equipamentos aonde pra substitui-los? Não, eu queria dar um bom exemplo pro maridão, que é do tipo que guarda clipe enferrujado na esperança de que, se sobrevivermos a uma hecatombe nuclear, aquilo pode ser útil. (Ele tem sérios problemas. Temos brigas homéricas toda vez que o lixo dele chega a níveis insustentáveis e eu o mando jogar coisas fora. Vê-lo selecionar o material é melancólico: ele só troca a papelada de lugar, acaricia um por um dos papeis amarelados, e põe de volta. Aí quando eu chego e digo: “O quê?! Você só vai se livrar disso?!”, ele fica na defensiva, e diz que essa é só a primeira triagem. Que ele tem que separar aquilo com mais calma. E o lixo se amontoando, até que os vizinhos chamem a vigilância sanitária).
Mas a máquina de escrever. Eu convivi com aquela máquina durante toda a minha adolescência. Era o supra-sumo das máquinas elétricas, muito melhor que as manuais, que faziam doer os dedos, porque as teclas eram duras. E essa minha tinha corretor automático, já falei? Quer dizer, não era automático. Mas era uma fitinha branca, tipo durex, que ficava perto da fita preta, e você podia escrever a letra por cima dela! Auge da evolução. Li no manual de instruções que ela corrigia até 50 caracteres por minuto! (meu orientador ainda é do tempo que escrevia tese de mestrado em máquina manual. Já pensou? Ele disse que tinha página 101, 101A, 101B...). Dois anos atrás, liguei pra lojas de móveis usados pra tentar vender a máquina. Nada. Não queriam nem de graça. Tentei doá-la a instituições de caridade, mas a recusaram também. Finalmente, a vendi por 20 reais (mas com três esferas, ou seja, três tipos de letra!) a uma colega do maridão, que nunca tinha visto um bicho daqueles e achou que seria interessante na recepção. Triste. Às vezes eu penso que esses objetos têm alma e sinto por eles, tão rejeitados.
Mas nesse caderno antigo achei umas anotações. Tá escrito: “Para imprimir, quando a impressora [matricial, claro] não está pronta. Para sair do word, B E e command. Sai no h:\word. Aí digitar capture_/queue=laser_/b=nb. E voltar ao arquivo para imprimir. Para padronizar o texto, shift 10 p/ iluminar tudo, alt j e ddm 2,20 cm 2,16”.
Outro dia, na preparação da sala pra defesa do doutorado, estranhei que meu co-orientador nos EUA não tivesse skype ou câmera de vídeo. Ele respondeu: “Tenho quase 70 anos. Sobrevivi à troca da máquina de escrever manual pela elétrica, e da elétrica pelo computador. Mais do que isso é impossível”. Eu também sou uma sobrevivente!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

SESSÃO NOSTALGIA: MEU PRIMEIRO EMPREGO

Ao tentar me lembrar do primeiro filme que vi na vida – e falhar miseravelmente -, veio uma nostalgia que não tem nada a ver com o tema. Me lembrei do meu primeiro emprego com carteira assinada (antes disso, tinha apenas dado aulas particulares de inglês e, pasme, algebra básica), aos 19 anos. Tal qual o Tarantino, trabalhei numa locadora de vídeo. Isso foi em 1986, imagina. O mercado de vídeo engatinhava, havia pouquíssimas fitas seladas, a imensa maioria piratas, e nem era tanta gente que tinha um aparelho de videocassete. Eu vi um anúncio no jornal e consegui a vaga na então Montevídeo, que ficava na Consolação (vivi em SP entre 77 e 93). Era uma locadora de vídeo que também vendia montes de acessórios pras locadoras. Acho que o slogan era “o supermercado para o seu vídeo”, ou para a sua locadora, não sei. Eu tinha dois chefes que eu adorava e são meus amigos até hoje, o Paulo e o Elísio. Lembro que uma vez levei bronca por ser honesta demais com os clientes. Se alguém perguntava “Esse filme é bom?”, eu tinha que responder que, na minha opinião, não era, mas quem apreciava tal tipo podia gostar. Só que às vezes eu já condenava um filme mesmo sem o cliente perguntar, e isso lógico que é errado (fiquei irada quando, décadas mais tarde, um atendente em Joinville me viu pegando o hiper-clássico Um Bonde Chamado Desejo e disse: “Ugh! Você vai pegar isso? Um cliente viu e não gostou”).

Havia uma confeitaria perto da locadora, onde eu comprava um bombom de café quase todo dia. Meu amado pai às vezes ia me buscar no trabalho, e a gente ia comer frango lá perto ou ia ao cinema, no Bijou. Pouco depois passei a emendar o trabalho na locadora com umas aulas particulares de inglês para um engenheiro que morava num prédio da Praça Roosevelt (ao lado da Montevídeo). Ele era um amor e foi meu primeiro amigo abertamente gay (meus pais tinham alguns amigos gays, mas eram amigos deles, não meus).

Não trabalhei na locadora muito tempo. Foram apenas alguns meses, e nem sei por que saí. Sei que eu levava dois ou três filmes por dia pra casa e estava ficando alienada. Só queria saber de cinema. Mas, depois de sair, mantive contato com meus ex-patrões. Eu andava de moto com o Paulo e às vezes a gente pegava um cinema à tarde. Continuo achando um luxo supremo ir ao cinema à tarde, no meio da semana. Pra mim essa sempre foi uma grande sensação de liberdade.

Já o Elísio era meu amigo noturno. Ele é uma das pessoas mais divertidas que conheço, e sempre foi um tanto louquinho. Seu programa era me levar pra passear pelo centro da cidade. A gente andava, andava, ria, conversava, e eu nunca tive um pingo de medo, apesar dos lugares escabrosos. Era um tour de SP by night. Fui observando que ninguém mexia com a gente porque ele tinha pinta de perigoso.

Segui trabalhando um pouquinho pra eles também. Eles mudaram a locadora pro Copan e, como havia muitos filmes sem capa, eu passei a elaborar algumas. Recortava fotos, colava, escrevia uma recomendação. Faz pouco tempo, o Elísio me disse que gosta de crer que essa minha experiência com capas de vídeo influenciou a minha “carreira” de crítica de cinema. Nunca tinha pensado nisso, mas faz sentido.

O Elísio vendeu a parte dele da locadora há anos, mas o Paulo mantém a locadora no Copan. Ele mal tem fitas de vídeo hoje, apenas dvds, embora guarde algumas das minhas capas. Quase toda vez que vou a SP procuro vê-los.

E nem sei por que estou falando disso. Acho que foi só por ter lembrado, e bateu saudade.