Cena de Lovelace: equipe gravando Garganta Profunda
Eu não gosto de pornografia, nunca gostei, e nunca vi um filme pornô inteiro. O que eu fui mais longe foi Garganta Profunda, até hoje o pornô mais bem sucedido de todos os tempos, em termos de bilheteria.
Ouvi falar de Garganta toda a minha vida (nasci em 67, o filme foi lançado em 72). Ainda criança, eu sabia que os adultos estavam indo ver um filme pornô, e que esse era um grande evento. As pessoas se sentiam cool por ver um filme pornô.
Lembre-se que isso foi antes da invenção do videotape, e muito, muito antes do dvd e da internet, que mudaram a indústria do "entretenimento para adultos" para sempre. Nos anos 70, só salas específicas (e não muito limpas), frequentadas apenas por homens, passavam filmes pornôs. Portanto, era uma sensação que um filme pornô atraísse o público mainstream.
Quando tentei ver o filme, anos depois, em videocassete (não tenho certeza), achei Garganta tão bobinho que não consegui ir adiante. Claro, havia sexo explícito, mas também tinha diálogos risíveis e atuações medíocres (o que parece ser comum na indústria pornô).
A história em si é incrível: uma moça frustrada descobre porque não é capaz de ter prazer sexual -- é porque seu clitóris fica na garganta. Então, pra que ela se satisfaça, só fazendo muito sexo oral. Quando ela tem orgasmo, fogos de artifício tomam conta da tela.
A história em si é incrível: uma moça frustrada descobre porque não é capaz de ter prazer sexual -- é porque seu clitóris fica na garganta. Então, pra que ela se satisfaça, só fazendo muito sexo oral. Quando ela tem orgasmo, fogos de artifício tomam conta da tela.
Apesar dessas tosquices todas, Garganta virou referência cultural (tipo: os jornalistas que investigaram o caso Watergate chamavam seu principal informante de "Garganta Profunda"). E sua estrela, Linda Lovelace, rapidamente foi alçada à condição de ícone.
Em 2008, enquanto morava em Detroit, vi um documentário sobre ela e o filme. Agora, vi outro, muito bom, chamado The Real Linda Lovelace (interirinho aqui), e muito triste. E só estou falando nisso agora porque Lovelace está nos cinemas (veja o trailer). E, infelizmente, não é grande coisa, embora Amanda Seyfried, que faz Linda, esteja ótima (deve ser sua melhor atuação até hoje).
Em 2008, enquanto morava em Detroit, vi um documentário sobre ela e o filme. Agora, vi outro, muito bom, chamado The Real Linda Lovelace (interirinho aqui), e muito triste. E só estou falando nisso agora porque Lovelace está nos cinemas (veja o trailer). E, infelizmente, não é grande coisa, embora Amanda Seyfried, que faz Linda, esteja ótima (deve ser sua melhor atuação até hoje).
A vida de Linda foi uma tragédia. Com 19 anos, ela engravidou sem querer e teve o bebê, que sua mãe repressora entregou para adoção (em Lovelace, a mãe é interpretada por Sharon Stone, que eu nem reconheci). Pouco depois, Linda sobreviveu a um terrível acidente de carro (sequer mencionado em Lovelace). Foi aí, enquanto se recuperava do acidente, que a deixou com um fígado em frangalhos, costelas e mandíbula quebradas, que ela conheceu Chuck Traynor, seis anos mais velho que ela.
Chuck merece um capítulo à parte.
Em Lovelace, quem o interpreta é o sempre formidável Peter Sarsgaard (Plano de Voo, Educação), e mesmo que ele seja um personagem detestável, não é nada perto do Chuck de verdade. O documentário Real Linda o entrevista longamente, e, desculpe, não resta dúvida que ele tenha sido um ser humano desprezível. Deve ter sido a última entrevista que ele deu, pois morreu logo depois, três meses após a morte de Linda.
Chuck nega várias acusações de Linda, mas deixa bastante claro que batia nela. Ele fala isso com orgulho, além de dizer que Linda era muito burra (e olha que ela tinha acabado de morrer). O mais incrível é que, após ser largado por Linda, Chuck "descobriu" Marilyn Chambers, que viria a estrelar Atrás da Porta Verde. Ficaram juntos dez anos.
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| Chuck no doc The Real Linda |
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| Chuck e Marilyn Chambers |
Chuck e Linda mais ou menos concordam com a versão que ele hipnotizava Linda, e que foi ele quem ensinou a ela a técnica de sexo oral que a consagrou, que consiste em suprimir o gag reflex (reflexo faríngeo que provoca ânsia de vômito) e colocar o pênis garganta adentro.
Parece ser a mesma técnica dos engolidores de espada. Todxs nós (alguns mais, outros menos) temos algo na garganta que nos impede de engasgar com objetos não mastigados que entrem no esôfago, como um pênis ou uma espada (é também o que as pessoas bulímicas acionam para poder vomitar). Controlar esse reflexo involuntário não deve ser nada fácil.
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| Cena de Garganta Profunda |
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| Linda e Chuck na vida real |
Muita gente não acredita nessas acusações, já que é tão comum não acreditar na vítima, e já que Linda não parece estar sendo obrigada a nada durante Garganta. E também porque ela escreveu duas autobiografias contando como adorava sexo e como gostou de fazer o filme (em Lovelace, Chuck surge ditando um desses livros). Quando, em 1980, Linda decidiu lançar um terceiro livro, Ordeal (Provação), para desta vez narrar sua verdadeira história, um monte de editoras a recusaram.
Finalmente, uma editora topou publicar, com uma condição -- que Linda passasse num detector de mentiras. Ela respondeu a um teste de onze horas, e passou. Assim, tornou-se uma ativista contra a indústria pornô e a violência doméstica. Começou a dar palestras (cobrava US$ 1,500 por palestra), e se aliou a feministas como Andrea Dworkin e Gloria Steinem. Linda dizia: "Quando você vê Garganta Profunda, vc está me vendo ser estuprada".
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| Cena ligeira em Lovelace |
Lovelace não está interessado nisso, pois só conta a vida de Linda até 1980. A produção chegou a contatar Demi Moore para interpretar Gloria Steinem, e depois ficou com Sarah Jessica Parker pro papel. Só que todas as suas cenas (que não deviam ser muitas) foram cortadas. É uma pena, porque dessa forma Lovelace se fixa quase que exclusivamente no relacionamento entre Linda e Chuck.
E a vida de Linda foi mais trágica ainda. Ela se casou outras duas vezes e teve dois filhos, mas sempre enfrentou problemas de saúde. Em 87, precisou fazer uma mastectomia dupla para retirar os seios, contaminados pelo silicone que Chuck a forçou a colocar antes de Garganta. Durante a preparação para a mastectomia, os médicos perceberam que seu fígado não dava mais, consequência da transfusão de sangue após o acidente de carro de 69.
Ela teve que se submeter a um transplante de fígado. Um só remédio para a não-rejeição do novo órgão custava 2,500 dólares por mês, que Linda não tinha como pagar. Afinal, tudo que Linda havia recebido pela super bilheteria de Garganta foi US$ 1,250 -- que foi direto pro bolso de Chuck.
Ela teve que se submeter a um transplante de fígado. Um só remédio para a não-rejeição do novo órgão custava 2,500 dólares por mês, que Linda não tinha como pagar. Afinal, tudo que Linda havia recebido pela super bilheteria de Garganta foi US$ 1,250 -- que foi direto pro bolso de Chuck.
Sem ter como pagar as contas, sem conseguir emprego por causa de sua fama/infâmia, Linda tentou ganhar um pouco de dinheiro vendendo produtos referentes à Garganta, como uma camiseta escrito "I made Linda Lovelace gag" (eu fiz LL engasgar). Juno Temple, que interpreta a melhor amiga de Linda em Lovelace, apareceu a uma premiere do filme vestindo essa camiseta -- o que, convenhamos, não soa muito respeitoso.
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| Linda Lovelace em 1976 |
O documentário Real Linda vale mais que Lovelace, o filme. Talvez porque acredite mais em Linda, apesar de dar (muita) voz a Chuck. Não que Lovelace desacredite Linda. É só que deixa coisa demais de fora. Ainda assim, o formato é interessante. Na primeira parte, o filme apresenta quase uma gata-borralheira do pornô. Tudo é descoberta e entusiasmo (pelo menos até a prisão de Chuck), e o maior problema de Linda parece ser sua mãe dominadora.
Na segunda parte, várias cenas são retomadas, mostrando a "história verdadeira". Por exemplo, na primeira parte, vemos que num cômodo estão vários dos realizadores de Garganta, e eles ouvem o barulho vindo do quarto ao lado, onde estariam Linda e Chuck. Na segunda parte, nós vemos o que causa esse barulho -- é Chuck batendo em Linda. Isso condiz com o que a atriz narra em duas de suas biografias: de que todo mundo em Garganta sabia que ela era abusada pelo marido, e ninguém fazia nada.
Outro exemplo: numa cena, vemos Hugh Hefner (interpretado por alguém bem mais bonito do que ele, James Franco) sendo gentil com Linda na famosa mansão dele. Quando a cena é retomada, ele exige sexo oral de Linda. E por aí vai. É toda uma série de abusos, sem dúvida, mas bem suavizados, se comparados à vida real. (Há um outro filme, Inferno, sendo feito sobre Linda. Este será com Lindsay Lohan).
Creio que o maior valor de Lovelace esteja em mostrar um pouco os anos 70. Não deixa de ser um filme de época, assim como o (muito bom) Behind the Candelabra, que deu o Emmy pro Michael Douglas por sua fabulosa interpretação de Liberace. Será que Amanda Seyfried será lembrada nas indicações pro Oscar? Torço que sim.
Creio que o maior valor de Lovelace esteja em mostrar um pouco os anos 70. Não deixa de ser um filme de época, assim como o (muito bom) Behind the Candelabra, que deu o Emmy pro Michael Douglas por sua fabulosa interpretação de Liberace. Será que Amanda Seyfried será lembrada nas indicações pro Oscar? Torço que sim.
Adam Brody (também irreconhecível) e Amanda Seyfried em Lovelace

























