Outro dia vi em dvd um filme que sempre ouvi ser reverenciado como um clássico. Eu tava com
um pé atrás pra pegar Isto é Spinal Tap, de 1984, porque é sobre uma banda de heavy metal, pô, e eu odeio esses ruídos que são chamados de música. Mas não é que o filme é excelente? É na realidade um documentário de mentirinha sobre um grupo de rock falso. Ou melhor, sobre a turnê americana de uma banda inglesa em franca decadência. A banda nem existe de verdade. Ela foi criada pro filme, que é tão divertido que só pode ser classificado de comédia.
Há piadas hilárias, como aquela em que o documentarista (na realidade, o diretor do filme, Ro
b Reiner) entrevista os líderes da banda sobre os primeiros integrantes. Eles falam do primeiro baterista, uma pessoa fantástica, incrível. “E o que aconteceu com ele?” “Ahn, morreu. É um desses casos que a Scotland Yard acha melhor nem investigar. Envolve jardinagem”. E o segundo bateirista? Ah, uma criatura linda, maravilhosa. “E o que aconteceu com ele?” “Ahn, morreu também. Em circunstâncias muito misteriosas. Ele se afogou em vômito”. Outro cabeludo emenda: “É, só que foi no vômito de outra pessoa”. Depois veremos mais uns três bateristas explodirem no palco, de combustão espontânea.
A banda bola uma capa horrível pro álbum, que inclui uma mulher seminua, de quatro, com uma coleira, e um homem segurando a coleira. O empresário diz que algumas pessoas consideraram a capa sexist (machista). O dono da banda replica: “E o que que tem a capa ser sexy?”. Quer dizer que isso de confundir sexy com sexist é antigo? Pensei que não fosse.
Em geral o clima é terno, bastante nostálgico. Por mais que o documentário satirize grupos dos quais eu qu
ero distância, como Kiss eJudas Priest, às vezes eu só conseguia lembrar dos Beatles. É que meus conhecimentos musicais são limitadíssimos. Spinal Tap tem a sua Yoko, namorada do solista, que faz o guitarrista morrer de ciúmes. E ela passa a manejar a banda.
Há também piadas físicas graciosas, como a dos três sujeitos da banda saindo cada um
de casulo. Sai o líder, todo entusiasmado, sai o guitarrista, deprê, e quando o baixista vai sair, não consegue. O casulo não abre. O resto do número tem gente serrando o casulo e o baixista socando o negócio. Finalmente os dois outros entram nos seus casulos, que se fecham. Nesse exato momento o casulo do baixista se abre, e ele sai. Puxa, essa cena engraçadíssima ficou hedionda na minha narração. O melhor que você pode fazer é assistir ao filme inteiro no YouTube, dividido em nove partes.
Vendo esse clássico é que notei que uma das grandes ausências da minha enquete pra melhor diretor americano vi
vo (a que ganhou o Woody Allen) foi o Rob Reiner. Como pude me esquecer dele? Olha só que belo currículo: além de Isto é Spinal Tap, ele dirigiu Harry e Sally, Feitos um Para o Outro (89), e Louca Obsessão (90). Já são praticamente três grandes filmes. Mas ele também fez Conta Comigo (86), A Princesa Prometida (87), e Questão de Honra (92), todos acima da média. E tem quem elogie até Meu Querido Presidente (95), que não vi, porque odeio filmes com presidentes americanos (que são quase sempre heróis). Por que me olvidei do Bob? Porque os dois últimos filmes dele foram Dizem por Aí (que não vi, mas dizem por aí que é horrível) e Antes de Partir (meio medíocre). É uma tristeza essa derrapada de Harry e Sally (quiçá a melhor co
média romântica já realizada?) pra Antes de Partir. Rob, que é filho de Carl Reiner (que dirigiu montes de comédias com o Steve Martin, como as ótimas Um Espírito Baixou em Mim e Cliente Morto não Paga), explica que seu trabalho despencou no final dos anos 90 porque ele se envolveu no apoio a políticos liberais, como o Al Gore, e isso lhe tomou tempo demais. Tomara que Rob consiga reerguer sua carreira, já que talento ele tem. Isto é Spinal Tap é uma das provas irrefutáveis.

