Mostrando postagens com marcador borat 2. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador borat 2. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

BORAT 2 É FEMINISTA?

Como vocês sabem, gostei bastante de Borat 2. Até falei um pouco sobre o filme aqui. Sem dar spoilers, quem rouba a comédia é a filha de Borat, Tutar, interpretada pela revelação Maria Balakova. 

O filme traz algumas reviravoltas inesperadas. Tanto que levou a esta matéria da Newsweek: "Borat 2 é um filme feminista? Esses fãs estão chocados que a resposta seja sim". Pedi ao meu querido Vinícius Simões para traduzir este artigo que me chamou a atenção. Deixo a resposta pra vocês.

Borat: Fita de Cinema Seguinte possuindo um toque feminista é uma das últimas coisas que esperaríamos de 2020.

No dia 23 de outubro, a sequência muito aguardada da sátira de Sacha Baron Cohen de 2006, Borat, foi lançada. Borat: Fita de Cinema Seguinte acompanha o protagonista Borat e sua filha, Tutar (Maria Balakova), que viajam aos Estados Unidos para oferecer Tutar como noiva ao vice-presidente Mike Pence. O mockmumentary tira sarro dos EUA e faz pegadinhas com celebridades, assim como seu predecessor. Desta vez, no entanto, o filme tem uma camada feminista – sim, pessoal, vocês leram direito.

Borat menospreza Tutar durante a maior parte do longa, indo de insistir que ela não será bonita a não ser que faça uma cirurgia plástica até perguntar à balconista de uma loja de vestidos pela seção “não significa sim”. Em determinado momento, ele chega a comprar uma jaula para ela ficar dentro.

Entretanto, até o final do filme, Borat muda de opinião. [spoilers] Ele reconhece que sua filha (a quem ele se refere como seu filho não-homem no início) é uma pessoa que pode tomar suas próprias decisões de maneira independente. Ele até lhe diz que a ama mais do que a seus filhos, e proíbe que ela volte ao Cazaquistão apenas para viver em uma jaula.

Mas mesmo quando não foca na misoginia sem noção de Borat, o filme aborda sexismo – e a sequência até mesmo inclui alguns momentos genuínos e tocantes de empoderamento.

Tutar fica chocada, por exemplo, quando Jeanise Jones, uma mulher contratada por Borat para ser sua babá, explica que mulheres podem dirigir e ler, e até administrar empresas (vale notar que Borat deixa Tutar passando o dia com uma bola e uma corrente, uma tigela de cachorro e um manual de instruções). Jones também diz a Tutar, horas antes d'ela ser encaminhada para a plástica, que ela é bonita e inteligente do jeito que é, e a encoraja a escapar do relacionamento tóxico em que está com seu pai. 

Muitos fãs ficaram positivamente surpresos ao perceberem que a sequência de Borat está sinceramente preocupada com o feminismo.

“Borat 2 talvez seja o filme feminista mais esperto da história recente”, uma usuária do Twitter escreveu. “Eu amo que as pessoas que estão assistindo estão claramente se divertindo e se perguntando ‘espera,... isso é... isso é feminista?’”

“Acho que serei xingado por dizer isso... mas Borat 2 é um filme feminista surpreendentemente bom, ou estou perdendo algo?”, outra pessoa tuitou.

“Sem spoilers, mas o novo Borat talvez seja o pequeno e vulgar filme feminista mais doce que já vi. E uma deliciosa peça de sátira”, acrescentou um terceiro.


Uma usuária apontou que a “confusão envolvendo [Rudy] Giuliani”, na qual o ex-prefeito de Nova York aparenta fazer investidas sexuais em Tutar, distrai dos momentos feministas e radicais do filme. 

Ao retornar para casa, Borat convence o premiê cazaque Nursultan Nazarbayev a reverter as leis misóginas do país. A última cena até inclui a dupla pai e filha apresentando juntos um segmento de notícias. Muito legal!

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

O SEGUNDO BORAT NUM MUNDO MUITO PIOR QUE O DE 14 ANOS ATRÁS

Esses dias eu vi Borat 2, que está sendo muito falado principalmente por duas coisas:

- A filha de Judith, uma simpática velhinha judia a quem o filme é dedicado (ela morreu pouco antes do lançamento), está processando a produção. Ela diz que a mãe não sabia do que estava participando e que, se soubesse, jamais teria topado (acho uma besteira. Judith é provavelmente a personagem mais fácil de amar no filme. É quase uma ode a ela. Mas o processo foi dispensado por um juiz).

- A impressionante cena envolvendo o ex-prefeito de Nova York e atual advogado pessoal de Trump, o republicano Rudy Giuliani (voltarei a falar nisso).

Pra ser franca, eu nem saberia da estreia de Borat 2 (direto na Amazon Prime Video) se não fosse por esses dois contratempos, digamos. Mas assim que soube corri pra ver. 

Eu me lembro pouco do primeiro Borat, que é de 2006, anos-luz atrás (leia minha crônica aqui). Sei que ri bastante, mas também reclamei do seu humor de mentalidade "frat-boy" (até o termo tá datado. Refere-se aos rapazes que fazem parte de fraternidades nas universidades dos EUA e que não são conhecidos pela sua inteligência). 

Olha como o mundo mudou nesses 14 anos de diferença entre os dois Borats. Se em 2006 alguns dos piores tipos que tínhamos eram os frat boys, hoje temos neonazis negacionistas milicianos com quem o presidente fala diretamente. Se em 2006 tínhamos Bush Jr, provavelmente o líder mais ignorante e medíocre a já governar os EUA, em 2020 temos Donald Trump, um completo psicopata capitalista selvagem que quase faz Ronald Reagan parecer um carinha equilibrado (eu disse quase). E melhor nem mencionar o Brasil. Em 2006 tínhamos esperança e o Brasil crescendo e saindo do mapa da fome com Lula. Hoje temos a terra arrasada de Bolsonaro. Não preciso dizer mais nada. 

Com o crescimento da direita, e com a pior crise sanitária dos últimos cem anos, o planeta piorou muito de lá pra cá. E isso tem influência no humor. Como afirma o criador de Borat, o humorista britânico (e judeu) Sasha Baron Cohen numa excelente palestra que deu na Liga Anti-Difamação no ano passado, as teorias da conspiração, antes relegadas a nichos estúpidos, hoje viraram mainstream. As piadas para zombar dos otários funcionavam porque a maior parte do público entendia, por exemplo, que a Terra não é plana. Hoje vão rir de quê? Das suas próprias crenças?

Cohen inventa uma punição pro seu famoso personagem Borat, que por ter humilhado o Cazaquistão no filme anterior, é condenado a trabalho forçado num gulag pelo resto da vida. Mas ele agora tem uma chance de sair dessa: basta entregar o Ministro da Cultura Johnny, o Macaco (não dá pra rir: melhor que o nosso Mario Frias) para Trump. Só que Borat não pode chegar perto do laranjão, pois no primeiro filme ele (Borat, não o trumposo) defecou na frente de um hotel Trump Tower. Então ele opta por tentar dar o macaquinho ao vice-presidente Mike Pence.

Quem brilha no filme é a atriz búlgara Maria Bakalova, que na vida real tem 24 anos. Escolhida entre 600 atrizes para o papel de Tutar, a filha de 15 anos de Borat, Bakalova tem um timing cômico fantástico e muita energia. Anote aí: talvez ela ganhe melhor atriz coadjuvante no próximo Oscar. Sem dúvida o filme fez dela uma estrela.

Minha cena favorita na produção é com ela. É uma em que, depois de comprar um cupcake com um mini-bebê de plástico em cima, e acidentalmente engolir o bebê, ela e o pai vão ao Crisis Pregnancy Center (um centro evangélico para convencer mulheres a não abortarem; veja um trecho da cena aqui). Há mais de 3 mil centros desse tipo nos EUA. Eles geralmente ficam próximos a clínicas onde uma mulher ou menina pode realizar um aborto legalmente, e enganam as pacientes, fingindo que irão resolver o problema da gravidez indesejada, quando na realidade farão de tudo para assustar a pessoa a não abortar. Esses centros, obviamente, não são atendidos por médicos, mas por pastores. 

E é isso que acontece em Borat 2: Borat diz, "Eu me sinto mal porque eu pus o bebê dentro dela" (ao tentar ajudar a filha a tirar o mini-bebê da boca, ele o empurrou pra dentro da garganta), e o pastor, acreditando tratar-se de um bebê de verdade, responde "Não se sinta mal", encerrando com um "Deus é quem cria a vida e ele não comete acidentes". 

Outra cena bizarra (e hilária pelo nível do absurdo) é uma em que Borat, disfarçado, leva a filha para um baile de debutantes. No meio de uma "dança típica" do Cazaquistão (só que não: a nação, uma ex-república soviética de 18 milhões de habitantes, existe de verdade, é o nono maior país do mundo em tamanho, e obviamente não ficou nada feliz ao ser alvo de calúnias e piadas xenofóbicas já no primeiro Borat), a jovem Tutar levanta o vestido, revelando uma calcinha cheia de sangue menstrual. As expressões nos rostos dos convidados são impagáveis. 

Como sempre num mockumentary (falso documentário) como este, a gente fica pensando no quanto é real, e quanto é encenado. Li que, para esta cena do baile, figurantes foram contratados (receberam cem dólares cada um) para participar de uma história "coming of age" (de transição para a vida adulta). 

Mas outras figuras são bem reais, como o cirurgião plástico que cobra 21 mil dólares para colocar silicone nos seios de uma menina de 15 anos (Borat quer saber se não pode colocar batatas de boa qualidade), os lunáticos integrantes do QAnom (é engraçado vê-los condenando a "teoria da conspiração" sobre mulheres cazaques), os supremacistas brancos no protesto, o encontro das mulheres republicanas etc. 

Uma das poucas personagens queridas, a babá negra de Tutar, é uma avó e babá na vida real, Jeanise Jones. Falaram pra ela que ela estaria num documentário em que uma jovem garota está sendo preparada para se casar com um homem muito mais velho. Jeanise recebeu apenas US$ 3,600 pela sua participação, mas depois seu pastor organizou uma vaquinha e arrecadou 50 mil dólares em três dias. Tenho certeza que não vai faltar emprego pra ela, porque ela é maravilhosa. 

O que nos leva à já clássica cena com Rudy Giuliani. Tutar finge ser uma repórter que vai entrevistá-lo numa salinha de um quarto de hotel. O ultraconservador se comporta de forma patética, embasbacado com a graça da menina, até que os dois vão para o quarto, Giuliani se deita na cama e põe uma mão pra dentro da sua calça, depois de tocar nas costas da garota. Nesse momento, Borat, disfarçado de mulher, entra no quarto gritando "Ela é muito velha pra você" e se oferece pra transar com Rudy em vez dela. Em seguida, pai e filha saem correndo do hotel. 

A cena, que foi filmada em julho, sem que Giuliani soubesse que estava num filme, mas crendo que iria ser entrevistado por uma jornalista-mirim de 15 anos, é chocante. Quer dizer que é assim que homens brancos velhinhos agem quando estão sozinhos com adolescentes?! O reaça explicou que estava só ajeitando sua camisa pra dentro da calça, mas não é o que parece mesmo. 

Cohen declarou que as pessoas devem ver o filme e decidir por si próprias sobre o que ocorre na cena: "Eu diria que se o advogado do presidente acha que o que ele fez é um comportamento adequado, só o céu sabe o que ele faz com jornalistas mulheres em quartos de hotel. Vejam o filme. É o que é. Ele fez o que fez. Pra gente está bastante claro". O ator e produtor, que estava escondido no quarto durante a filmagem da cena, preocupou-se com a segurança da atriz. Foi avisado quando o político se deitou na cama, e aí invadiu a cena. 

Giuliani, que tem 76 anos, contou na ocasião -- sem citar a presença de uma garota -- que um homem vestido com lingerie entrou no seu quarto de hotel e ele chamou a polícia. "Só depois percebi que devia ser o Sacha Baron Cohen. Pensei em todas as pessoas que ele já enganou e me senti bem porque ele não me pegou". Esses reaças, além de tarados, não parecem ser muito perspicazes. 

Trump comentou diante da controvérsia: "Faz anos, [Sacha Cohen] tentou me enganar. É um cara falso, um impostor. Não o acho engraçado. Pra mim ele é um pulha". Cohen agradeceu a publicidade gratuita e respondeu: "Donald, eu admito, eu também não te acho engraçado. Ainda assim o mundo inteiro ri de você. Estou sempre procurando gente pra interpretar palhaços racistas, e você vai precisar de um emprego depois de 20 de janeiro. Vamos conversar!"

Na cara não, Cohen! Nem precisava de mais esta humilhação pública pro trumpista. Uma cena no filme já diz muito. Tutar pergunta se ela não pode se oferecer para algum outro amigo do Trump além do Mike Pence. Ela mostra uns quatro ex-assessores, perguntando: "E este?" Pra todos, incluindo o guru da extrema-direita Steve Bannon, Borat diz: "Ele está preso". 

Oxalá este também seja o destino de Trump em 2021 e de seu cãozinho de estimação, Bozo. 
Veja meu vídeo sobre o filme no Fala Lola Fala. E, por favor, inscreva-se no canal.