terça-feira, 13 de maio de 2008

CRÍTICA: HOMEM DE FERRO / Um pacifista, esse Ironman

Um leitor disse que só veria Homem de Ferro se eu gostasse tanto do filme que fosse vê-lo de novo. Aí já é sacanagem. Eu e o maridão vimos Iron antes de Speed Racer, o que foi um achado. Antes da sessão de Speed começar, o maridão me confidenciou: “Homem de Ferro está prestes a melhorar muito nas próximas duas horas”. E é verdade. Se for pra comparar super-herói, Iron dá de dez no Speed. Mas, convenhamos, qualquer coisa dá de dez no Speed.

Pra mim, Homem se beneficia demais por ter um excelente ator no papel principal. É o Robert Downey Jr. que eleva a aventura. Talvez ele seja quem se saiu melhor na pele de herói. Ele e o Christian Bale (Batman Begins) e o Christopher Reeve (Superman), lógico. O que não significa, na minha opinião, que Homem como um todo seja superior a Batman ou Homem-Aranha (1 e 2, talvez) ou Superman (o de 78, e eu adoro o segundo também, o de 80). Iron tem um ritmo que não deixa a peteca cair, mas a história é de lascar. Ou pode ser que eu que odeie super-heróis militares porque, se eu sou pacifista e sinto que exércitos não deveriam existir, não vou ficar torcendo por um super que é uma máquina mortífera de guerra.

O roteiro de Homem mostra alguma inteligência por se antecipar às críticas. Por exemplo, alguém diz que Tony Spark (o inventor e mercador da morte) foi capaz de montar um hiper sofisticado modelo bélico numa caverna, com sobras de material. Por que uma equipe imensa não conseguiria fazer o mesmo? Ou se não cheira à ironia que, pra buscar a paz, Tony tenha construído a melhor arma de destruição? Bem, ironia não é bem a palavra. Prefiro cara de pau. E nem entendo o que acontece pro Tony se desiludir com o seu negócio. Puxa, ele vê que seus brinquedinhos de guerra vão parar nas mãos dos inimigos?! O cara é um gênio e não sabia disso? E que moralismo dúbio é esse que máquinas mortíferas são maravilhosas se estiverem do lado certo (U.S.A.! U.S.A!), mas hediondas se usadas por homens mais escuros e de outra religião? (Ontem vi um excelente esquete do comediante George Carlin explicando como um grupo religioso decide aniquilar outro: “My God has a bigger dick than your God”, ou “Meu Deus tem um pênis maior que o seu Deus”. É um resumo brilhante, porque a figura divina é sempre tão patriarcal).

Uma máquina de guerra pra trazer a paz... tá, conta outra. O Homem de Ferro gosta da paz tanto quanto eu gosto de peixe (eca!). O momento emblemático do filme passa a ser quando o soldado tira uma foto com o Tony e faz o sinal da paz (que ultimamente tem sido mais usado pra fazer chifrinho). Muitos militares americanos são contra a “intervenção” (adoro essas palavras suaves) no Iraque como ela vem ocorrendo. Não que eles estejam preocupados com os iraquianos, óbvio. É que no confronto corpo a corpo ocorrem muitas baixas americanas. Sabe o que eles defendem? Que se jogue uma bomba nuclear pra liquidar com o Iraque. Bom, talvez uma dessas bombas mais sofisticadas, que mata toda a população mas deixa os poços de petróleo intactos. Ok, Homem não se passa no Iraque, e sim no Afeganistão, mas é a mesma coisa. A história em quadrinhos se passava no Vietnã. É só adaptar a trama pra guerra da vez, desde que não seja uma chatinha como a do Iraque, que é veneno de bilheteria. Mas vemos perfeitamente que os inimigos da liberdade – no caso, os afegãos - são maus. Eles é que torturam e matam. Americano não faz isso de jeito maneira! Outro dia li sobre como a direita cristã nos EUA recebeu a criação da bomba atômica (citada bastante no filme), nos anos 50. Muita gente declarou que a bomba era um presente do sábio Deus pra América. E continua acreditando nisso! A bomba nuclear russa e aquela iraniana que a direita jura que existe devem ser presentes satânicos contra a América. Como disse um leitor, às vezes tudo se resume a uma competição pra ver quem mija mais longe.

E pra mijar longe só sendo homem, certo? Fui assitir Homem pronta pra implicar com o machismo da trama, mas não fiquei tão revoltada. Tudo bem, a Gwyneth Paltrow (sério que sua personagem se chama Pepper, Pimentão ou Pimenta?) infere que uma das parceiras sexuais do Tony é lixo. E ele não se recorda de ter dormido com outra. E seu ídolo parece ser o criador da Playboy, Hugh Heffner (feito pelo Stan Lee), que surge numa pontinha, apoiado em várias coelhinhas pra não cair. Mas o Tony só é bon vivant no comecinho da história. Depois vira um monge ou um padre, sabe, um bicho muito casto (quer dizer, eu não botaria a mão no fogo pelos padres americanos). Após sua experiência na caverna, em que ele nota que não tem família, ele passa a olhar a Pimentona de um jeito diferente, e nunca mais sai com mulher alguma. Sério, ele muda completamente de comportamento após seu trauma cavernístico. Pô, a gente podia mandar o Bush e o dono da Playboy (juntos) pra uma caverna afegã pra eles terem uma epifania lá também! Viu? Quem disse que o Afeganistão não serve pra nada?

O primeiro Homem de Ferro que o Tony cria é a cara e carcaça do Robocop. O segundo, muito mais modernoso, lembra o esqueleto do Exterminador do Futuro (do primeiro, quando empregam modelos mais atrasados tecnologicamente). E o terceiro me remeteu ao Vingador do Futuro. Quando o vilão abre sua armadura ferruda e ele tá lá dentro, não parece o mártir de Vingador, aquele bem pequenininho no corpão que o hospeda? E eu entendo que o Tony seja visto como gênio por criar aquilo, mas, depois de criado, qualquer um pode entrar naquela armadura e virar super-herói, né? Até eu. Opa, talvez este seja o fascínio? Inclusive o vilão pode virar super-vilão. As únicas risadas que o filme gera vêm por conta das dificuldades que Tony enfrenta pra se adaptar à armadura (é jogado longe, não consegue aterrisar). Mas pro vilão basta se vestir pra conseguir manejar tudo. Já o maridão não entendeu por que eles constroem essas geringonças milionárias, se é pra sair dando chutão nas coisas? De acordo com ele, o segundo dava chute e ainda pulava em cima da vítima. Eu não reparei.

Mas gostei dos efeitos especiais. Pelo menos do computador virtual e da cesta de lixo verde pro Tony jogar fora o que não gosta. Claro que não acredito na inteligência dos programas nem a pau. Lá não tem um só aviso de “este programa realizou uma operação ilegal e será fechado”. Eu não confiaria num super computador pra me colocar dentro de um ferro velho. Pô, o blogger fica mudando o tamanho e a letra de todos os meus posts, por mais que eu mande parar. Depois do filme, enquanto eu ainda estava com o computador na cabeça, fui ao banheiro. A torneira, que devia ser acionada esfregando as mãos embaixo, não funcionou. O trocinho com sabonete tampouco. A máquina pra papel, com sensor automático, idem. Aí eu pensei na alta tecnologia do filme e comecei a rir. Acho que vai demorar um pouco pra América poder substituir todo seu exército por meia dúzia de Homens de Ferro pra controlar o mundo. Até então, terá que seguir torrando um trilhão de dólares no Iraque.


P.S.: Conseguiram deixar o Jeff Bridges feio! Não só careca, mas com barba. O maridão até achou que o Cecil Thiré havia conquistado seu primeiro papel hollywoodiano. Pensando bem, o único careca que não é vilão é o professor Xavier do X-Men. Tô esquecendo alguém?

P.S.2: O melhor amigo do herói é um militar, interpretado pelo Terrence Howard (bastante desperdiçado, aliás). Parece que na sequência seu personagem vai vestir uma armadura e virar o War Machine (Máquina de Guerra). Outro herói em busca da paz, suponho.

P.S.3: Aguente os dez minutos de créditos que no final tem a chave da sequência. Sem dúvida, este Homem de Ferro é o início de uma franquia muito lucrativa.

Tony pro seu amigo militar: “Não se preocupe, que no próximo filme você também será um super-herói da paz”.

19 comentários:

nita disse...

realmente não se dá para confiar nas máquinas. se meu computador já faz o favor de travar quando eu mais preciso, imagina uma máquina da qual você dependa? me dá medo só de pensar

Liris Tribuzzi disse...

"não parece o mártir de Vingador, aquele bem pequenininho no corpão que o hospeda?" Eu me lembrei mais do etezinho de MIB, sabe aquele que vive dentro da cabeça de um vozinho e só aparece na hora da autópsia? Então, também não é parecido?

Pablo Pamplona disse...

Claaaaro, super pacifista o Iron Man! Os EUA são ótimos no quesito técnica e produção de filmes, não é à toa que o cinema deles sobrevive sozinho. Mas será que não tem um cidadão nessa santa terra que entenda os dois lados da moeda? Eu certamente estou um pouco mal informado ou esquecido, mas não lembro de um filme que mostre que seus "heróis" também estão errados. Só torço para que os filmes do Wolverine e do Magneto mostrem suas verdadeiras faces (e não aquele rostinho limpo do Logan na trilogia X-Men). Esses filmes sim, têm um belo potencial anárquico.

ps.:
Efficiency and progress are ours once more
Now that we have the neutron bomb
It's nice and quick and clean and gets things done
Away with excess enemy
With no less value to property
No sense in war but perfect sense at home

(Dead Kennedys - Kill The Poor)

lola aronovich disse...

Eh ridiculo, Nita. Nao confio em computador mesmo! E toda vez que falam babando de como as casas no futuro terao tudo computadorizado, eu tremo. Lembro do HAL de 2001. Viu 2001?

Li, parece mesmo! Esqueci de MIB (um filme muito divertido, alias).

Pablo, eu mal e mal conheco UM lado da moeda em relacao ao Wolverine... Vc certamente sabe mais do potencial anarquico do filme do que eu. Nao tem jeito nao, Pablo. Americano ta muito acostumado com essas historinhas do bem contra o mal. O mal eh qualquer um que ousa ir contra os interesses do grande imperio. Por que um super-imperio desses precisa tanto de super-herois, eu nao sei.
Obrigada pela letra da musica. Entao o Dead Kennedys falou em 3 linhas tudo que eu falei em 5 paragrafos? Tsc tsc tsc pra mim. Continue comentando, Pablo!

Claudemir disse...

Eu tive certeza que teria uma sequencia naquela parte onde o Terrence passa pela armadura que está na garagem do Tony e diz: "Você fica para próxima". Hollywood achou mais uma franquia lucrativa...

Andie disse...

haha, tambem achei a primeira armadura a cara do Robocop..e verdade que a ideologio por tras do filme eh meio falha, e nao tem como evitar os EUA como herois do mundo -- todas essas historias de super-heroi sao a mesma coisa.
Ah, a ponta do playboy velhinho nao eh feita pello Heff, mas pelo Stan Lee! :)

Pablo Pamplona disse...

Lola, não conheço muita coisa também, mas podemos resumí-lo como um assassino imortal e imoral, com mais de 100 anos, que viveu várias das guerras e injustiças do século, foi explorado cientificamente pelo governo americano e não faz idéia de quem é na verdade. É muita psicologia numa pessoa só, pode sair um filme maravilhoso... ou ridículo.

A questão das casas do futuro é uma comédia! Sempre tem alguma coisa no Fantástico e a fins, e eu torcendo pra continuar só atrás das telas! Não vi 2001, mas isso me lembra muito a metáfora do Grande Irmão, 1984 (que não li, mas sei o básico). Se esse tal futuro chegar mesmo, estamos declaradamente ferrados.

Quanto aos DKs, cada um diz do seu jeito... achei seu post excelente e até compartilhei nas recomendações do meu blog :)

Voltarei sim, beijo ;)

Renata disse...

Essa história de usar uma super-arma pra trazer paz ao planeta me lembrou do que o Imperador e o Darth Vader falavam sobre a Estrela da Morte, que finalmente iria trazer paz à galáxia.... claro que no meio tempo eles teriam que destruir um planeta ou outro... ok, sou geek... assumo... mas não vou assistir Homem de Ferro não... e olha que eu gosto de super-heróis... mas daí a ir ver uma adaptação de um quadrinho que não era bom nem pra começo de história...
Já Speed Racer vou assistir só por causa dos Wachowsky... mas sem grandes expectativas...
Um abraço,
Renata.

Rodrigo disse...

Gostei da crítica, amanhã se os ônibus ainda estiverem em greve na minha cidade vou ver o filme..

lola aronovich disse...

Tem toda razão, Clau. Mas pra sacar que na sequência o militar vai ter um papel maior, só conhecendo a história em quadrinhos. Ou vc sacou mesmo sem conhecer?

Putz, Andie, obrigada pela correção! Juro que pensei que era o Heff, porque falam o nome dele, e ele topa aparecer em todo canto mesmo. Mas olha que propaganda incrível essa dos EUA se vendendo como heróis do mundo. Entendo que TODA a produção cultural americana queira vender essa imagem pros americanos, e entendo que os americanos acreditem. Mas imagino que o resto do mundo não compre muito essa idéia...

lola aronovich disse...

Eu vi a recomendação do post no seu blog, Pablo. Muito obrigada!
Sobre essas casas do futuro, vc que é jovem talvez viva pra ver isso. Eu acho que eu morro antes. E o que vc ta esperando pra ver 2001? É um filme muito importante mesmo. E pra mim continua atual. 1984, o livro (o filme é difícil de encontrar e não é tão bom), é um pouco pesado às vezes, bem deprê mesmo, mas vale muito a pena ler. Vc é estudante de jornalismo, né? Não dá pra fugir de 1984 e Admirável Mundo Novo.

Rê, totalmente geek MESMO. Até os planetas entram como colateral damage? Olha, acho que vc deveria ver Iron Man. Eu não fiquei muito entusiasmada, é verdade, mas muita gente ficou. Vá e tire a prova. E sobre Speed Racer... Vá bem descansada!

Rodrigo, onde vc mora que os ônibus da sua cidade estão em greve?

Pablo Pamplona disse...

Lola, confesso que não sei o que to esperando. Aliás, esses não são os únicos clássicos essenciais na minha fila de pendências.

Fiz Publicidade & Propaganda, mas minha ênfase (pessoal, não acadêmica) é cinema e vídeo. Eu sei, a coisa piorou pro meu lado, agora absolutamente não dá pra fugir.

E não profetiza tal absurdo, por favoooor. Se essas casas aparecerem no meio do meu caminho, espero que eu já tenha um sítio velho e isolado.

Greg disse...

Não sou muito fã de HQ que viram filmes... aliás, nem das HQ em si com excessão de X-MEN [eu acho!]
Mas, apesar de parecer contraditório, sempre acabo assistindo ao filme e não será diferente com Iron Man!
Espero conseguir ir ao cinema ainda essa semana, isso se os ingressos que ganhei em uma promoção chegarem. No meu caso, é um bom incentivo, não?!

Igor Garcia disse...

Pelo que li então o Homem de Ferro é um cara mulherengo, "pimenta" no dos outros e refresco, rico, inventor, aventureiro e muito piroca das idéias! Interpretado por Robert Downey Jr, mulherengo, rico, aventureiro, alcóolatra, muito piroca das idéias e um curriculo recheado de prisões!
Ah não, prefiro Senhor das Armas! Esse é o heróis, ele é que vende a armadura usada para os supervilões! ;-)

Bjs n'alma!

lola aronovich disse...

Ah, nao da pra comparar. Prefiro Senhor das Armas mil vezes, Igor! Mas o proposito dos dois filmes eh totalmente diferente, nem da pra comparar direito...

Rodrigo disse...

Vitória/ES

olha, assisti ao filme.. achei ele no mesmo nível de homem aranha, super homem o retorno e batman (o retorno).. Achei legalzinho, não precisa forçar muito a mente pra assistir, basta ler.. Tem mulheres gostosas, carros bacanas, o lado bom e o lado mal.. tudo bem explicadinho.. incrívelmente exagerado em algumas partes.. assistível e como sempre, várias deixas para um segundo filme, vamos esperar os EUA entrar em guerra com outro país, talvez surja uma sequência daí..

lola aronovich disse...

Oi, Rodrigo! Vai ter sequência pro Iron Man de qualquer jeito. Nem precisa bombardear o Irã pra isso... Os EUA têm uma coleção tão vasta de guerras que é só escolher uma. E de repente pode ser o Iraque mesmo. Já que o exército americano não tá conseguindo dar conta sozinho, vem o Iron Man ganhar a guerra pros EUA... em nome da paz e da liberdade! Apareça mais, Rodrigo!

Strange Dog disse...

Já que ninguém disse, o Riddock (Pitch Black e The Chronicles of Riddick) era careca e não era vilão (anti-herói mas não vilão)...

lola aronovich disse...

Obrigada, Strange Dog. Mas a imensa maioria dos carecas só têm papel como vilão, né?