quinta-feira, 22 de outubro de 2020

SAUDADES DO PT, NÉ, MEU FILHO?

Hoje fiquei meio arrasada após ser torturada no dentista, então pedi pro maridão me buscar e me levar pra passear num supermercado. Ele havia dito antes que eu era que nem os nossos gatinhos, que nunca saem de casa, e quando saem é só pra ir ao veterinário, coitados. 

Fazia muitos meses que eu não pisava num supermercado. Creio que não tinha ido este ano. E fiquei escandalizada com os preços. Tá tudo muito caro! Constatei que não existe mais geladeira por menos de R$ 1.800! E eu me lembro quando a geladeira custava 800. E os queijos? E os chocolates?! Compartilhei isso no Twitter e um monte de gente veio me contar como tem cortado vários produtos. Triste. Constatei que estamos com muitas saudades dos governos do PT. 

Bom, uma dessas pessoas que veio me contar dos bons tempos foi o Cleverson, que é pedagogo e mora em Carmo do Cajuru, MG. Vamos às suas impressões:

Oi Lola, tudo bem?

Antes de tudo gostaria de lhe falar que admiro muito a guerreira, mulher, professora e cidadã (outras mais qualidades) que você é... Eu estava fazendo dois bolos de bagaço de milho com queijo e canela, terminei correndo para lhe escrever.

Minha história começa assim...

Meus pais são pobres, muito honestos, religiosos e muito trabalhadores. Sou de uma cidade pequena das Minas Gerais e um pouco conservadora. Então nasci em uma família um pouco tradicional. Meu pai sempre nos falava de como devíamos ser bons uns com os outros e também falava uma frase que nunca esqueci: "No fim das contas é nós pobres que ajudamos pobres". Ele sempre votou no Lula, desde que me entendo por gente, e com meu pai aprendi que se quer alguém que defenda o direito dos trabalhadores, tem que ser um trabalhador também. 

Lembro que antes não tinha muita esperança de fazer faculdade, porque era difícil pagar e as faculdades federais ficavam longe do interior. Então meu sonho de ser professor parecia distante. Por gostar de ajudar as pessoas até pensei em ir para o seminário (a única faculdade que pobre fazia) mas eu queria ter um companheiro e sabia que podia fazer mais aqui fora. 

Então, comprando com dificuldade os livros do ensino médio (naquela época eram comprados), me formei e até ouvi de alguns professores que seria uma pena eu não ter condições, porque era inteligente. O tempo passou. Assim que tive o direito de votar, já votei e adivinha em quem? Pois é! Foi tanta alegria ver Brasília cheia de gente (igual a gente), lotada, e aquela fala pronunciada: "Um operário pela primeira vez..." Lembro-me das palavras (e depois ações) de liberdade, equidade, respeito etc. Tinha até uma bandeira do arco-íris no meio do povo, isso pra mim representava muito.

Viver num mundo onde eu poderia ser alguém! Então o país foi se desenvolvendo financeiramente. Lembro da participação do governo na Declaração de Salamanca, os estatutos criados para grupos sociais que necessitavam ter seus direitos resguardados, e por fim a "minha faculdade". Era um sonho se concretizando. Fiz semi presencial, porém quis "engolir" cada palavra, cada livro e fotografar em minha mente cada seminário. Queria ensinar crianças essa magia que é ler e escrever, que conhecimento não ocupa espaço e é libertador. 

Como foram dias felizes aqueles. Comprei meu primeiro carro: um Fusca branco. Através de uma amiga fiquei sabendo do programa Minha Casa, minha Vida e consegui me inscrever e concretizar mais uma meta. Hoje em minha casa funcionam também encontros de um grupo. Nos reunimos e juntamos roupas, cestas básicas e outras doações para pessoas carentes. Só nessa pandemia foram mais de 200 cestas e 332 sacolas de vestimentas. 

Aprendi mesmo com a vida a retribuir o pouco que foi me dado. Sabe qual a visão mais linda que tenho diante dos olhos, mais lindo que Fernando de Noronha? Geladeira cheia; a minha ou de alguém que precise. É coisa linda de se ver, porque o contrário é muito triste. Só acho que esses loucos por dinheiro e maldosos que estão na atual gestão não sabem o quanto são dolorosos a fome, o preconceito e a falta de recursos.

Espero que um dia tudo volte a ser como antes. Respondendo sua pergunta: "Saudade do PT?" Resposta: Sim! Desejo que o Brasil volte a sorrir! 

Abraços e continue sempre sendo essa pessoa maravilhosa. Olorum te abençoe sempre. Muito Axé!

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

FACADA MAL DADA DO C*RALHO

O título do post é o mesmo da hashtag nos primeiros lugares dos trending topics de hoje no Twitter, disputando com a robótica "parabéns presidente".

Este é o nível da revolta de grande parte do povo brasileiro com a palhaçada que é o governo Bolsonaro. Ontem o milico Pazuello (que foi interino durante vários meses da pandemia até ser empossado como ministro da Saúde) anunciou a compra de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac. Esta vacina contra a covid-19 está sendo desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac Biotech em parceria com o Instituto Butantan, de SP. 

Assim que o anúncio foi feito, seguidores do mito -- negacionistas que não acreditam no vírus, mas que acreditam que ele foi criado em laboratório na China para nos transformar numa ditadura comunista -- enviaram mensagens desesperadas ao messias, que, por sua vez, mandou recados ao sinistro: "Alerto que não compraremos vacina da China. Bem como meu governo não mantém diálogo com João Dória sobre covid-19". 

O Brasil, segundo país do mundo com o maior número de mortos (hoje ultrapassará os 155 mil), e com quase 5 milhões e 300 mil casos, tem um presidente que passou meses dizendo "e daí?" pra pandemia, se manifestando contra o uso de máscaras e do isolamento social, politizando a doença o quanto pode. O mesmo genocida que fazia propaganda da cloroquina (comprovadamente ineficaz contra a covid) agora diz que o povo brasileiro não será cobaia e que as vacinas precisam ser comprovadas cientificamente e certificadas pela Anvisa.

Entende-se, portanto, a revolta dos brasileiros, que sofrem com a pandemia, que seguem perdendo familiares e amigos (a média é de 500 mortes de covid por dia, e tem gente que vê isso como normal), que querem sobreviver e sair deste inferno o quanto antes, contra um presidente tão nefasto e imbecil. Quantas vidas a mais esta teimosia do pior líder da história ainda vai nos custar?

terça-feira, 20 de outubro de 2020

TRIUNFO DA ESQUERDA NA BOLÍVIA DERRUBA O ABANDONO GENOCIDA DO ESTADO

Enquanto a gente segue festejando a vitória avassaladora do MAS (Movimento ao Socialismo) na Bolívia já no primeiro turno, bolsonarista e demais reaças de todo o continente estão assustados. Um político de extrema-direita cujo nome nem vale a pena mencionar disse hoje: "Não se enganem, a esquerda latino-americana está se reagrupando e logo tentará tomar o Brasil!"

Pode apostar, otário! 

Nas últimas semanas antes do pleito, a presidenta interina Jeanine Añez e outro candidato, Tuto Quiroga, renunciaram a suas candidaturas para "evitar o triunfo do MAS". Não adiantou. O MAS ganhou no primeiro turno. 

E a direita em todo mundo, Brasil incluso, está inconformada com esse triunfo. Assim como Bolso e sua turba festejaram o golpe na Bolívia em novembro de 2019, até agora não disseram nenhuma palavra oficialmente sobre as eleições. Até o governo americano, que patrocinou o golpe por baixo dos panos, como de costume, parabenizou o novo presidente, Luis Arce. 

Ainda há muito a fazer na Bolívia, lógico. Até porque os povos indígenas continuam correndo perigo. Vale lembrar que o golpe contra Evo Morales foi também um golpe racista contra o primeiro presidente indígena da Bolívia, um país com ampla maioria indígena que até então fora governado pela minoria branca. 

Adriana Guzmán, referência do feminismo comunitária na Bolívia, tem etnia aymara e é integrante da organização Feministas de Abya Yala. Seleciono aqui alguns trechos da entrevista que Adriana deu ao Brasil de Fato um pouco antes das eleições. Leiam e vejam as semelhanças com o Brasil. 

Uma [das] principais funções [de quem foi escolhido para administrar o golpe] era convocar eleições, por isso se fizeram chamar como “governo transitório”, uma ficção, já que, na verdade eles são um governo interino, não um governo transitório, porque um governo transitório não faz massacres, não entra [no governo] através do motim das forças policiais, nem com as forças militares.

As eleições foram suspensas quatro vezes entre maio e setembro. O resultado disto foi o desgaste da palavra do governo, um desgaste que se estende ao Tribunal Supremo Eleitoral, sendo esse o aspecto mais crítico destas eleições, já que ninguém acredita no Tribunal Eleitoral.

Finalmente, a eleição foi marcada para 18 de outubro, mas somente após pressões das organizações sociais em agosto, através dos bloqueios de estradas e manifestações.

Embora, nós, como organização, esperávamos que as eleições não seriam realizadas em 18 de outubro se não fossem mantidas para 6 de setembro, porque muita gente ficou frustrada depois de terem estado nas ruas durante 10 dias, em greves de fome, em bloqueios de estradas. Naquele momento, havia uma força significativa com apenas um pedido que era "Fora, Añez!". No entanto, ficou decidido que isso seria resolvido nas urnas, como se isso fosse possível. Se isso é possível é o que me pergunto, porque os governos interinos nunca entregam seu poder nas urnas.

Uma segunda dimensão é a questão da saúde. Temos vivido um golpe com uma pandemia. Então, ao invés de agir, o governo de Añez aproveitou a pandemia para manter a perseguição, a militarização e repressão, o uso desproporcional de forças policiais e militares, o controle do espaço público, a prisão daqueles que estavam tentando vender alguma coisa para sobreviver.

Nós chamamos isso de abandono genocida do Estado, já que foi uma decisão, e esta decisão causou mais de 5 mil mortes. Foi uma decisão do Estado, porque eles não habilitaram os hospitais necessários.

Sobre as organizações sociais: As organizações sociais têm recuperado a força e a auto-organização durante este ano. Embora o golpe nos tenha afetado muito, primeiro porque nos pegou debilitados, já que não estávamos esperando um golpe. Muitos de nós nunca havíamos sequer experimentado um golpe. Então, tem sido muito difícil recuperar nossas forças, nosso estado de ânimo, sair do medo da perseguição. Mas, frente a isso, nossa capacidade foi fortalecida, a possibilidade de mostrar nossa raiva contra o golpe, a luta contra a impunidade, todos esses sentimentos se uniram, a nossa força se reconstruiu e em agosto mostramos isso.

Penso que pouco a pouco as organizações de base estão se fortalecendo com um objetivo comum que é o de acabar com o golpe.

Sobre as graves violações dos direitos humanos da parte do governo interino: Acredito que sistematicamente há crimes contra a humanidade. O que aconteceu no ano passado, em novembro, o massacre de Huayllani, o massacre de Ovejuyo, dos quais ninguém fala, o massacre de Senkata, as repressões em K'ara K'ara.

Então, esses são crimes contra a humanidade, porque foi a instituição do Estado, a força do Estado que se abateu sobre civis desarmados, porque ninguém estava armado lá, não há tais confrontos como eles dizem. [...] Tem havido crimes contra a humanidade sobre a população indígena, contra as mulheres de “pollera” (mulheres dos povos originários, em referência às saias e demais vestes tradicionais que usam), violência contra crianças e adolescentes, e tudo isso está no informe da Defensoria do Povo, está no informe da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e nos informes que organizações sociais nacionais e internacionais têm feito.

Sobre o racismo do golpe: Primeiramente, acho que o golpe na Bolívia foi um golpe contra o povo e um golpe racista. Precisava ser racista, porque aqueles que fizeram um processo de transformação do Estado, das comunidades, do território, da educação, da economia, foram justamente os povos indígenas originários e camponeses.

Somos nós os que nos chamamos Aymaras, Quechuas. Então precisava ser racista, porque a mensagem é sobre nós, povos indígenas, o que significa: "Eles não podem se governar", "eles não podem se autodeterminar", "nenhum Estado Plurinacional, vamos voltar à República", "nenhuma Pachamama, vamos entregar o país nas mãos de Deus", "sua whipala (bandeira dos povos originários) não tem valor, aqui se respeita a bandeira [da Bolívia]".

Por isso, todo este discurso atenta contra a autonomia dos povos, contra a capacidade de autogoverno, não apenas na Bolívia, mas na região, porque esta é uma mensagem para os povos do mundo.

Imagina que na Bolívia 63% da população é indígena e tem força para discutir uma Assembleia Constituinte e promovem um golpe [contra nós]. Então, é um golpe contra os Maias na Guatemala, os Tsotsiles, Tzeltales no México, enfim, é um golpe contra todos os povos do mundo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

VIVA O POVO BOLIVIANO!

Ontem a Bolívia foi às urnas depois de quase um ano de um golpe de Estado (patrocinado pelos EUA, como todos os golpes na América Latina) e devolveu a democracia e a esquerda ao poder. 

Pouca gente imaginava que Luis Arce, o candidato do Movimento para o Socialismo (MAS), ganharia já no primeiro turno, como as pesquisas de boca de urna indicam (lá as urnas não são eletrônicas, portanto, leva dias até sair o resultado oficial). Mas foi o que aconteceu. Parece que Arce deve ficar com 53% dos votos, a mesma porcentagem de Evo Morales ao ser eleito pela primeira vez, em 2005. E o MAS também ganhou a maioria nas duas câmaras da Assembleia Legislativa. A direita chegou dividida às urnas, entre o ex-presidente Carlos Mesa e Camacho, um Bolsonaro local. 

É, sem dúvida, uma vitória acachapante. Pra Bolívia e pra esquerda de todo o mundo, principalmente da América Latina. Pouco tempo atrás, a direita ganhou o poder (muitas vezes através de fraudes, como no caso do Brasil) em todo o nosso continente sul-americano. Ano passado a esquerda voltou à Argentina. E agora volta ao nosso vizinho-irmão, ao país com quem dividimos a maior fronteira terrestre. 

Nos 14 anos em que esteve democraticamente no poder, o líder indígena Evo Morales e seu partido socialista nacionalizaram o petróleo e o gás natural, diminuíram a pobreza e as desigualdades sociais, e fizeram a Bolívia virar o país que mais cresceu na América Latina (cerca de 5% ao ano em média na última década), o que ficou conhecido como o milagre boliviano. Assim que a direita retornou, fez o que sempre faz, em qualquer lugar -- destruiu tudo. Agora cabe à esquerda reconstruir, consertar o estrago, e voltar a fazer da Bolívia uma nação menos pobre e mais justa.

O neoliberalismo 2.0, de acordo com o vice de Evo Morales (que está morando na Argentina), Garcia Linera, diz que, ao contrário do neoliberalismo dos anos 80 e 90, que "continham uma promessa de desenvolvimento possível", este "é vazio e vem como uma resposta. Surge com a ideia de que é preciso acabar com os esquerdistas que teriam roubado muito dinheiro etc. Só que você não constrói um horizonte apenas com um desejo de vingança". É verdade. E por isso também tenho a esperança de que este pesadelo da direita no continente vai desaparecer.

Bolso, capacho dos EUA que é, comemorou o golpe na Bolívia no ano passado. O que ele vai dizer agora?

Agora está nos trending topics a tag #ChoraElonMusk. O bilionário (algo que sequer deveria existir) depende do lítio da Bolívia para seus projetos. Em junho, ele escreveu no Twitter "Vamos dar golpe em quem quisermos! Lide com isso!", reconhecendo sua participação no golpe que derrubou Evo. Depois ele viu que pegou mal um super rico tratar um país como seu quintal particular e apagou o tuíte. Mas obviamente seu interesse pelo lítio continua intacto.

Outra notícia maravilhosa é sobre Maria Patricia Arce Guzmán que, como prefeita de Vinto e militante do MAS, ano passado foi covardemente atacada por fascistas. Eles incendiaram a prefeitura local, cortaram o cabelo de Maria, a pintaram de vermelho, e a obrigaram a andar descalça por vários quarteirões, enquanto era xingada, cuspida e humilhada. Ontem Maria foi eleita senadora. A Bolívia toda se pintou de vermelho. Aliás, de sete cores -- as cores da bandeira Wiphala.

Uma alegria enorme nesses tempos sombrios de pandemia e do vírus da extrema direita! Viva a Bolívia!

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

A PRESSÃO CONTRA ROBINHO E A COMPARAÇÃO COM UM ESTUPRO DE 33 ANOS ATRÁS

Até agora, eu não estava acompanhando direito a história do jogador de futebol Robinho, que foi condenado em novembro de 2017 por participar, junto com outros quatro amigos, de um estupro coletivo contra uma mulher de 23 anos de origem albanesa, numa boate em Milão, em 2013.

Ele e o amigo Ricardo Falco foram condenados em primeira instância a nove anos pela justiça italiana e a um pagamento de indenização de 60 mil euros. O processo está em andamento (apenas depois de passar pelas três instâncias alguém é visto como culpado, e é aí que acontece o início do cumprimento da pena), mas só os trechos da sentença divulgados hoje pelo jornalista Lucas Ferraz já dizem muito sobre o caráter, ou a falta de caráter, de Robinho, que não viu nada de errado em "transar", ou "tentar transar", com uma mulher completamente bêbada, sem condições sequer de ficar em pé. Uma pessoa bêbada não tem como consentir. 

Os trechos adquiridos através de grampos que constam na sentença (em segredo de justiça) foram fundamentais para a condenação, pois serviram como prova de que Robinho e os demais sabiam como a vítima estava. Por exemplo, num dos trechos o jogador declara: "Olha, os caras estão na merda... Ainda bem que existe Deus, porque eu nem toquei aquela garota. Vi [nome de amigo], e os outros foderam ela, eles vão ter problemas, não eu... Lembro que os caras que pegaram ela foram [nomes de dois amigos]. [...] Eram cinco em cima dela".

Em outro momento, ao ser avisado por um músico sobre a investigação policial, Robinho responde: "Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu". O amigo músico então pergunta: "Mas você também transou com a mulher?"

Robinho: Não, eu tentei.

Amigo: Eu te vi quando colocava o pênis dentro da boca dela.

Robinho: Isso não significa transar.

Um dos advogados de Robinho afirma que insistirá que a relação foi consensual e que não há prova de que os envolvidos no crime induziram a mulher a beber ou tomar droga para em seguida se aproveitar sexualmente dela. "Fazer sexo com uma pessoa bêbada ou drogada não fere a lei. Não estou dizendo que ele é uma pessoa perfeita. Ele mesmo reconheceu ter tido uma conduta pouco séria, mas crime não cometeu".

Dois meses depois do Santos fazer uma campanha condenando a violência contra a mulher, em agosto deste ano, o clube contratou Robinho, que já havia atuado lá. Um dos dirigentes do Santos alegou: "Robinho não está condenado com trânsito em julgado. Quem somos nós para atirar pedra no Robinho? Atire a primeira pedra quem nunca pecou e será que ele pecou? Vamos esperar o desfecho do processo".

Ao perder a Orthopride, um dos patrocinadores, o Santos disse que garante a presunção da inocência ao jogador. E se queixou dos "cancelamentos", da "cultura dos tribunais da internet". Outra advogada de Robinho já havia reclamado da "lacração".

Como diz Ricardo Fulgoni, que já contou sua terrível história aqui de como conseguiu justiça para o feminicida de sua irmã, "É possível conciliar a pressão sobre o Santos no caso Robinho com a defesa da presunção de inocência. Os efeitos penais, só após o trânsito em julgado. No entanto, as provas legitimamente publicizadas  -- não o processo, mas as provas - geram desde logo seus efeitos morais e sociais. Por isso o processo tem de ser, em regra, público. Para que não se retarde os efeitos dos fatos. Os efeitos não penais (sociais, morais, etc), portanto, não advém do processo, mas dos fatos contados pelas provas nele produzidas. Presume-se o réu inocente até o trânsito. Mas os fatos não dependem do trânsito para, ressalvados os efeitos penais, serem considerados verdade".

Casagrande falou hoje: "Eu tô assustado com a sociedade brasileira. O Brasil solta traficante. O vice-líder é preso com dinheiro na cueca. A Carol Solberg, por se manifestar politicamente, a CBV faz censura. E o Santos contrata um jogador condenado por estupro". Já Robinho jurou estar "tranquilão" depois do vazamento da sentença. Para ele, a Globo só quer ganhar ibope ao dar "muita ênfase para coisa negativa".

Um perfil que vende camisas desenterrou esta história de 1987 que eu nunca tinha ouvido falar, mas que é extremamente pertinente ao caso atual. Leia, revolte-se, e não pare de questionar: "Mudamos?" Eu volto no final. 

Em 1987, uma multidão de gremistas e colorados lotou o saguão do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, pra recepcionar com entusiasmo uma pequena comitiva de quatro reservas do Grêmio que estavam voltando da Suíça. O motivo mostra como o Brasil tem orgulho do seu machismo.

O Grêmio era pela terceira vez consecutiva campeão gaúcho. Próximo passo: cruzar o Atlântico em excursão para a Philips Cup, na cidade de Berna, Suíça. De cara, o Grêmio venceu o Benfica, de Portugal, impressionando pelo segundo ano seguido a garota Sandra, de 13 anos.

Como no ano anterior, Sandra decidiu visitar a delegação do Grêmio  que estava hospedada no Hotel Metropole. Acabou batendo de forma aleatória no quarto 204. Foi atendida. Lutando contra a barreira do idioma, tentou comunicar que gostaria de ganhar uma camiseta como souvenir. Do outro lado da porta estavam os reservas do Grêmio Eduardo Hamester e Fernando Castoldi, que convidaram os visitantes a entrar, tentaram manter uma comunicação por grunhidos e gestos sem sucesso. A situação chamou a atenção de Henrique Etges e Alexi Stival, conhecido como Cuca. Ao verem a movimentação no quarto, entraram. Fecha-se a porta.

Sandra foi estuprada dentro do quarto no que os jogadores consideraram uma orgia. Jogaram-se sobre ela, imobilizaram. Dois homens a violaram, enquanto outros dois a acariciavam e seguravam.

Após 30 minutos de terror, Sandra foi à polícia e a equipe, aos treinos. Henrique e Eduardo foram presos na noite de quinta-feira. No dia seguinte, toda a delegação do Grêmio foi convocada pra reconhecimento dos demais envolvidos através de um espelho falso.

E assim estavam presos na Suíça, sob a acusação de estupro, os reservas gremistas Henrique, Eduardo, Cuca e Fernando, cada um em uma cela distinta e incomunicáveis – exceto por advogados – até o fim do inquérito, conforme a legislação do país.

Comitivas, advogados, Itamaraty, Embaixada, até João Havelange, à época chefão da FIFA foram tentativas de intervir sem sucesso pra livrar os rapazes entre 21 e 24 anos. O chefe da delegação insistia em dizer que foi um mal entendido pela barreira da língua que causou a situação.

A legislação da Suíça proibia relação sexual com menores de 16 anos. Crime sério. A denúncia de estupro, então, dispensa qualquer tipo de comentário em relação à gravidade.

O fato ganha destaque no noticiário internacional, respeitando a identidade da vítima. No Brasil, com especial destaque nos jornais gaúchos, foi dada abertura a palpites, comentários e achismos diversos, porém quase unânimes na defesa dos jogadores.

Presos, os jogadores estavam incomunicáveis até o término do processo, o que poderia durar até 30 dias. Não tinha como obter informações ou qualquer tipo de privilégio na Suíça, pois o sigilo judiciário lá é quase hermético.

Um embaixador da Suíça teve acesso às acusações e de fato, disse que eram gravíssimas. Entretanto, a menina, que até então tinha 13 anos, passa a ter “14 anos incompletos” que logo, por comodismo de discurso, viraram 14 anos. Para os jogadores, a idade era outra: 18. Parecia 18.

Foi dito que Sandra entrou no quarto dos rapazes e começou a tirar a roupa, se oferecendo. Quem afirmou foi o China, titular do time que já conhecia a menina da excursão do ano anterior. Ela estava tentando tirar a blusa que usava na hora para trocar por uma camisa do Grêmio.

A família também era entrevistada, afirmando que os jogadores seriam incapazes de fazer isso. Muito se falou sobre a índole impecável dos quatro. Aliás, se isso aconteceu mesmo, a culpa é da menina, que não deveria se meter no meio de quatro marmanjos assim.

Quase ninguém acreditava que eles tivessem estuprado a garota. Afinal, era uma “mocetona”, conforme expressão da época. A teoria difundida que ela havia se oferecido para orgia, pois no dia seguinte estava com uma camisa do Grêmio vendo um jogo. 

Diziam também ela já tinha transado antes e com o namorado, que estava com ciúme do que aconteceu no quarto 204 e foi enganado com a história do estupro. Na imprensa brasileira, informavam que jovens europeias têm vida sexual ativa muito cedo, inclusive tomam pílula desde novas. 

Para provar que era uma “mocetona” o fotógrafo Paulo Dias do Zero Hora fez de tudo pra tirar uma foto da menina, apesar do sigilo da sua identidade. Conseguiu pegar ela na saída da escola com a mãe. Quase apanhou de uns suíços no ato pela falta de respeito de fotografar uma menor. Tentou vender a foto pra imprensa europeia, mas não conseguiu. Em compensação, a foto foi destaque no jornal O Globo e Jornal do Brasil. O repórter que o acompanhava conta, aos risos, que também chantageou um repórter pra obter o nome completo da Sandra.

Depois de 28 dias presos, os jogadores foram liberados. Pagaram fiança e uma indenização à garota. Depois foram condenados, mas nunca cumpriram a pena. Os rapazes podem circular por aí livremente, como estão até hoje. Basta não pisarem na Suíça.

Após saírem da prisão, os rapazes admitiram sua culpa. Eles estavam muito envergonhados. Saíram da Suíça com medo da recepção, de como seriam julgados após 28 dias incomunicáveis. O horário do voo pra Porto Alegre foi escolhido a dedo para evitar a imprensa.

De fato, mal sabiam o que esperava os “Doces Devassos”, apelido que a imprensa esportiva gaúcha deu para os rapazes: um grupo de 500 pessoas entre imprensa e torcedores colorados e gremistas ocupava o Salgado Filho. No topo, as bandeiras do Inter e do Grêmio unidas.

O clima no desembarque era de festa. Envergonhados e pedindo desculpa, os jogadores do Grêmio demoraram para entender o que os gritos ensurdecedores de “PUTA, PUTA, PUTA!” e seu real significado. Eles eram heróis. Vítimas solitárias. Machos.

Depois, a retomada. Fizeram ensaio de foto, entrevista de heróis sobreviventes. Vítimas. Só voltaram a ser notícia quando saiu a condenação na Suíça. Seguiram jogando no Grêmio, já que a diretoria recebeu milhares de cartas pedindo pra que os garotos não fossem punidos. Só precisaram pagar as custas dos advogados, processo e indenização mensalmente para o Grêmio.

Hoje, Cuca é treinador de um dos maiores times do país, o Santos, e teve passagem em diversos clubes no Brasil e no exterior.

Sandra teve depressão e tentou suicídio aos 15 anos.

Eu, Lola, uma eterna otimista, acho que sim, mudamos nesses 33 anos. E pra melhor, ou pra menos pior, apesar de Bolsonaro. 

Certo, ainda temos exposição e condenação pública de meninas, como vimos no caso recente da garota de 10 anos que foi estuprada pelo tio e conseguiu abortar. Ainda se culpam as vítimas, e muito. Um assassino como o goleiro Bruno ainda é idolatrado por alguns. Cuca, um dos quatro do Grêmio, hoje é treinador do Santos (imagino as conversas fraternais que ele tenha com Robinho). Já o elogiou como "exemplo de jogador". 

Mas duvido que hoje, de cada 20 entrevistados na rua por uma emissora de TV, apenas um consideraria Robinho culpado, como ocorreu com os quatro jogadores do Grêmio na época. Por conta do ECA (Estatuto da Criança e Adolescente, que este ano completou três décadas), seria crime a imprensa publicar foto de uma vítima de estupro de 13 anos.
 
Hoje, em vez de um repórter fazer qualquer coisa para revelar a identidade de uma menina, um jornalista vai atrás da sentença em segredo de justiça. Também seria impensável a mídia chamar o jogador do Santos de "doce devasso". Ele ainda pode ser recebido com glórias e honras no aeroporto (aeroportos onde multidões se reuniam pra chamar quem idolatra torturador de "mito"), mas certamente haverá patrocinadores que cortam as verbas. 

Hoje fazemos muito barulho. Fazemos ativismo. Não aceitamos machismo, racismo, LGBTfobia. É o que alguns que são contra essas mudanças culturais chamam pejorativamente de lacração, cultura do cancelamento, tribunais da internet. Se não fosse a gente e a nossa pressão, haveria apenas quem consagrasse Robinho, quem o tratasse como herói por participar de um estupro coletivo. Como fazia a galera pré-internet de 1987. Estamos melhor hoje. E não vamos parar.

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