quarta-feira, 18 de maio de 2022

UM BANCO DE ESQUERDA PARA PROGRESSISTAS

Fui convidada para escrever alguns tuítes e posts sobre o LeftBank, e – novidade nos meus 14 anos de blogueira feminista! --, ser reconhecida por isso. Mas eu não aceitaria se não acreditasse no produto. Pesquisei, li alguns artigos publicados na mídia, e vou compartilhar com vocês o que descobri.
O LeftBank é um banco digital, uma fintech (startup de serviços financeiros) regularizada no Banco Central. Essa ideia das fintechs apareceu no governo Dilma para oferecer a quem não tem conta em banco mais opções. E existe muita gente sem conta em banco, cerca de 45 milhões de brasileiros. Isso os deixa à margem da sociedade em muitos sentidos.
Já a ideia do LeftBank surgiu em 2018, e se concretizou em 2020, entre dois amigos de esquerda. Espantados com a onda fascista, eles lembraram dos bancos que patrocinam a extrema-direita. E pensaram em criar um banco de esquerda, um banco que sirva aos interesses dos trabalhadores, não dos patrões.
O sistema bancário no Brasil (e no mundo) é altamente concentrado. Cinco instituições (três privadas, duas estatais) dominam 90% do mercado. Ainda assim, ou talvez justamente por causa disso, um em cada três brasileiros acima de 16 anos não têm acesso a serviços financeiros, e 60% dos inadimplentes não têm acesso ao crédito. E fica pior: 59% dos "desbancarizados" são mulheres, 69% são negros.
Pesquisas mostram que muitos brasileiros se consideram de esquerda, ou se identificam com ela. Então por que não ter um banco pra gente, com taxas bem menores e serviços melhores, e em que 20% do lucro vá para a promoção de ações sociais inclusivas? Este ano, o recém criado Instituto LeftBank está apoiando a casa Laudelina de Campos Mello, pioneira na luta pelos direitos das trabalhadoras domésticas.
Quase dois anos depois da sua criação, o LeftBank já tem mais de 5 mil correntistas e pode operar 90% dos serviços e produtos bancários (falta principalmente a operação de crédito). O banco oferece consórcio, proteção e assistência para veículos, e existe também a LeftFone, uma operadora de telefonia móvel, que promete ter um atendimento rápido no seu call center, e não exige fidelização, nem cobra multas se o cliente sair do plano. Pode-se abrir uma conta sem taxas e sem burocracia (com saques disponíveis na Rede 24h), pagar boletos, criar um pix, e pedir um cartão sem anuidade.
O diretor do LeftBank é o ex-deputado federal Marco Maia (PT-RS), que explica que, obviamente, ninguém preenche um formulário político ao se filiar ao LeftBank (ou a qualquer outro banco). Portanto, ninguém é discriminado ou proibido de entrar. Mas é um banco que se posiciona ao defender direitos humanos, ciência, direitos sociais e trabalhistas.
E isso já faz muita diferença.
Como Maia pergunta, “Por que temos de financiar um Bradesco, um Itaú, um Santander, uma Vivo etc, se podemos construir nossas próprias alternativas?" Concordo com ele.
Convido vocês a conhecerem mais sobre o LeftBank.

terça-feira, 17 de maio de 2022

FATO: LULA TEM CHANCES DE GANHAR NO PRIMEIRO TURNO

Agora parte da terceira via está chamando dizer que Lula tem chances reais de ganhar no primeiro turno de "terrorismo eleitoral".

Semana passada Gregorio Duvivier fez um GregNews muito bom falando de Ciro Gomes. Nada realmente que a gente não soubesse, exceto (pelo menos no meu caso) seu envolvimento com o Beach Park. Ciro foi governador do Ceará entre 1991 e 94 e, durante o período, "beneficiou" o parque aquático em Aquiraz, CE, asfaltando uma estrada de acesso e fazendo propaganda pro parque privado com dinheiro público, da Secretaria de Turismo do Estado. Até aí, outros governadores fizeram e fazem o mesmo. Mas o estranho foi que Ciro, ao voltar de Harvard, em 97, foi trabalhar no Beach Park. Esta matéria da época mostra parte das irregularidades envolvidas. 

Duvivier diz que votou em Ciro em 2018, mas que agora votará em Lula já no primeiro turno, e recomenda que os outros façam o mesmo. Ele dá a entender que se decepcionou com Ciro quando ele foi pra Paris, um dia depois do primeiro turno, e pergunta algo que, até agora, não vi ninguém perguntar: quando Ciro comprou a passagem pra Paris? Na véspera (ele já sabia que iria perder)? Com antecedência? Ou no dia? É uma dúvida pertinente.

É óbvio que Ciro perdeu muitos votos ao decidir ir pra Paris num dos momentos mais críticos da nossa história. Coisa de covarde mesmo, de irresponsável, de quem não se preocupa com o Brasil. Assim como Duvivier, não creio que Haddad ganharia se Ciro tivesse ficado e se empenhado na campanha contra Bolso (como Brizola fez em 89 com Lula). E também não creio que Ciro venceria Bolso se, por um milagre, o parisiense chegasse ao segundo turno. Mas ele ter fugido sepultou para sempre suas chances. E a prova é que, se em duas disputas ele teve 12%, hoje pena para alcançar 8%. E o cabra é tão arrogante que diz não se arrepender ter ido pra Paris. Diz até que iria de novo (talvez vá, em outubro). 

Tem muita gente pedindo pra Ciro desistir. Pessoalmente, não espero nada dele. Nenhum gesto de grandeza, nenhuma humildade (lógico que, mesmo que ele não desista, o eleitor pode desistir dele, votando útil já no primeiro turno). Há grandes chances de Ciro não ser candidato, mas essa decisão não partirá dele, e sim do PDT, que vislumbrava que ele teria 15% a essa altura do campeonato (ainda mais com o maior nome da terceira via, Sérgio Moro, fora da corrida). Ter um candidato majoritário fraco prejudica as candidaturas de pedetistas e seus (poucos) aliados a deputado estadual, federal e senador, até governador. Esvazia palanques e comícios. Portanto, não é nada impossível que, dentro de algumas semanas, o PDT tire a candidatura Ciro da tomada e apoie Lula. 

Se isso acontecer, qual será o discurso de Ciro? Sairá esperneando e xingando o PDT e procurará um oitavo partido para concorrer em 2026 (ele disse que esta seria sua última disputa, mas ninguém acredita)? Ou vai mentir fingindo estar abdicando do seu projeto, num vale-tudo para derrotar o mal maior, o fascismo que Bolso representa? A segunda opção seria mais inteligente. Até porque em 2026 todos os outros candidatos terão mais chances sem um ícone como Lula presente. 

Pra terminar este post, deixo uma mensagem de esperança pra gente que acredita que o Brasil pode sair do buraco. São observações de Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi, e evidentemente um grande especialista em pesquisas eleitorais. Coimbra lembra que, desde maio de 2021 (um ano já!), quando Lula voltou ao jogo, vem liderando as pesquisas. Sua vantagem diante de Bolso nunca foi menor que 15 pontos. Para Coimbra, Lula não é o favorito por liderar as pesquisas. É o favorito porque a maior parte da população o escolheu, em detrimento de dezenas de outros nomes que foram apresentados.

Coimbra explica que, desde 1989, vence o candidato que estava na frente das pesquisas seis meses antes do pleito. 

Em maio de 89, Collor tinha 38%, segundo o Ibope.
Em 94, Coimbra diz que "a vantagem [de FHC, então ministro da Fazenda de Itamar] só era percebida nos bastidores, por quem acompanhava a ligação siamesa entre sua campanha e o lançamento do Plano Real". De fato, o Plano Real mudou tudo, e FHC foi eleito no primeiro turno.

Em maio de 98, FHC tinha 34%, segundo o Datafolha.
Em maio de 2002, Lula tinha 31% (Datafolha).
Em maio de 2006, Lula tinha 40% (Datafolha).
Em abril de 2010, quando os entrevistados do Vox Populi eram informados que Dilma era a candidata de Lula, ela tinha 42%.
Em abril de 2014, Dilma tinha 38% (Datafolha).

A única exceção foi em 2018. Quem estava disparado na frente foi proibido de concorrer.
Para Coimbra, Lula "não é apenas favorito, é o maior favorito que já tivemos". E tem boas chances de, pela primeira vez, ganhar no primeiro turno. É só isso que eu te peço, Brasil!

segunda-feira, 16 de maio de 2022

UMA CADERNETA DA GESTANTE CONTRA AS MULHERES

Valéria Fernandes, do ótimo Shoujo Café, escreveu um texto sobre a mais recente maldade deste governo misógino contra as mulheres.
Quando estava grávida de Júlia e nos primeiros anos dela comigo, minha filha completa 9 anos em outubro, escrevi várias vezes sobre parto humanizado e violência obstétrica. Não me desinteressei do tema, mas confesso que me afastei um pouco dessa militância. Muito bem, sigo a professora e médica Dra. Melania Amorim e vi uma postagem dela falando contra episiotomia, ou ponto do marido, e manobra Kristeller. 

Eu passei batida e segui em frente, mas me deparei hoje com a matéria do Intercept sobre o lançamento da polêmica Caderneta da Gestante, como uma das ações comemorativas do Dia das Mães. Trata-se, ao que parece, de um show de horrores, mas que contempla plenamente ou interesses do grupo de médicos cesaristas, que odeiam as doulas, e adeptos de práticas duvidosas que configuram violência obstétrica, termo que eles querem banir, e que apoiaram fervorosamente a eleição do atual presidente. Cito parte da matéria do Intercept de autoria de Bruna de Lara: 

"O MINISTÉRIO DA SAÚDE, na figura do secretário de Atenção à Saúde Primária Raphael Câmara, anunciou na última semana o lançamento da sexta edição da Caderneta da Gestante. Serão distribuídos mais de três milhões de exemplares pelo SUS, todos com o preocupante estímulo a uma prática violenta e ultrapassada: a episiotomia, corte feito na vagina durante o parto para facilitar o trabalho do médico. Em 2018, a Organização Mundial da Saúde reconheceu que não há qualquer evidência científica que apoie a realização da episiotomia.  

"O documento ainda promove uma diretriz duvidosa ao ressaltar a amamentação exclusiva como método para prevenir uma nova gravidez nos primeiros seis meses após o parto, apesar de complementar que esta proteção não é plena. Raphael Câmara, vale mencionar, é um fervoroso defensor da promoção da abstinência sexual como contracepção para jovens, opondo-se ao ensino do uso de contraceptivos.  

"Pior: no evento que lançou a caderneta, Câmara defendeu abertamente não só a episiotomia – considerada uma 'mutilação genital' por Marsden Wagner, ex-diretor da área de Saúde da Mulher e da Criança da OMS – mas também a realização da manobra de Kristeller. Ela consiste em fortes empurrões e apertos na barriga da gestante feitos com as mãos, braços ou cotovelos durante o parto – isso quando o profissional de saúde não sobe na barriga da mulher. No mesmo documento de 2018, a OMS os destacou como uma fonte de 'grande preocupação' pelo potencial de 'dano à mãe ou ao bebê'." 

Eu estou realmente alterada por ter lido o que li.  A guerra contra as mulheres neste país não é somente contra as que não querem gerar, as que não querem parir e desejam interromper uma gravidez, mas contra todas sem distinção. O que o documento lançado por este governo defende é a legitimação da violência obstétrica mais grosseira e da desinformação, como no caso da amamentação exclusiva como meio eficaz de contracepção. Este post, portanto, tem o objetivo de informar, mas, também, de externar a minha indignação, meu horror, meu nojo.

E se você acredita que a sua episiotomia foi necessária como conforto já que seu/sua obstetra é tão bonzinho, trata-se de uma forma de consolo para a sua dor e, talvez, ele ou ela nem soubesse realmente do mal que estava lhe causando. Agora, tenha certeza de que seu bebê não foi salvo por um corte cujo intuito é apressar o parto e supostamente não alargar você e desagradar o seu marido, ou parceiro. Por favor, me poupe do seu comentário, ele será apagado. 

A violência contra as mulheres é algo que se perpetua, porque somos levadas a acreditar que é normal, ou que merecemos, ou que não pode ser diferente. Ser feminista é se preocupar com as mulheres e respeitar suas opções, gerar, u não gerar uma vida, não apoiar que sejam enganadas para não pensar sua condição de opressão. Se você quiser ver os posts que a Melania fez no Facebook, é só clicar: este é o primeiro. O segundo. O terceiro. O quarto. E o quinto.

sexta-feira, 13 de maio de 2022

EX-SINISTRO CRIA IRMÃO GÊMEO PARA BOULOS

Na quarta à noite, o deputado federal (MDB-RS) Osmar Terra, ex-sinistro do governo Bolso, que por muito pouco, com seu negacionismo a toda prova (apesar de ser médico!), não foi nomeado sinistro da Saúde, lançou uma fake news das mais exóticas (veja acima).

Osmar não gostou do resultado da pesquisa Quaest/Genial, que dava 46% das intenções de voto pra Lula e 29% pro seu chefe. Então ele pegou uma foto de Manu e Boulos e escreveu: “Para quem não conhece, este é Felipe Nunes, o Diretor da Quaest, Que fez pesquisa eleitoral para Presidente, publicada hoje 11/05/22. Ela dá ampla vantagem a Lula… É possível acreditar na isenção?”

Todo mundo que leu o tuíte ficou mais confuso do que quando se depara com alguma mensagem do Carluxo. Como assim, o Boulos é o Felipe?! E eu pensava que Guilherme Boulos fosse super famoso!
Um reaça tentou avisar Osmar: "Esse é o Boulos! Esse Felipe está no fundo da foto ministro?" (bolsonarentos devem achar pontuação coisa de comuna). Osmar respondeu: "Não. É parecido, mas é o Felipe, segundo publicação da rês [Quem é rês? Tem a ver com gado?] Compare com essa outra foto", e aí colocou uma foto de um cara que talvez seja o Felipe, se alguém que já tenha visto o desconhecido Felipe puder confirmar.

E continuamos não entendendo nada! Se eles são parecidos, eles são o mesmo cara?! E quem é aquela moça ao lado do irmão gêmeo do Boulos, a diretora do Vox Populi?
Boulos, que conta com uma assessoria incrível no Twitter, mandou um recadinho pro deputado: "Prezado Osmar Terra Plana, não me chamo Felipe nem sou diretor de Instituto de Pesquisa. Melhore!"

Ainda assim, a fake news permaneceu no ar durante mais de 24 anos. E se eles fazem isso com gente famosa, imagina o que não fazem com desconhecidos? O bolsonarismo só sobrevive à base de mentiras.
Só hoje o sinistro decidiu se desculpar. Quer dizer, do jeito que reaças se desculpam -- atacando os outros, sem reconhecer que fez algo de errado, e insistindo na mentira: "Acabei de descobrir pelas redes esquerdistas que o Boulos não é o Felipe Nunes, e até não sei a quem pedir desculpa, embora possam parecer farinha do mesmo saco. Apaguei o post antes que alguém desmaie de histeria!"

Já disse e repito: ser reaça é nunca ter que pedir desculpas.

Mas olha, desde que sinistros parabenizaram Bolso pela capa falsa na revista Time a gente não via um bolsominion passar tanta vergonha em público.
(Mentira! A gente vê todo dia).

quarta-feira, 11 de maio de 2022

POR QUE A CÂMARA DE CURITIBA QUER CASSAR O VEREADOR NEGRO RENATO FREITAS?

Renato Freitas (PT) é um dos poucos vereadores negros na história da Câmara de Vereadores de Curitiba. E está pra ser cassado. Ontem, o Conselho de Ética da Câmara aprovou sua cassação por quebra de decoro.
No dia 5 de fevereiro o Coletivo Núcleo Periférico promoveu um ato antiracista. Ativistas se reuniram no Largo da Ordem, em Curitiba, em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário de São Benedito, para protestar contra o bárbaro assassinato de dois negros, Durval Teófilo Filho e o congolês Moïse Kabagambe. Durante o ato, eles entraram na igreja.
Um detalhe: essa igreja foi construída por escravos para os negros, tanto que é conhecida como Igreja do Pretos. Fica próxima ao pelourinho, onde os negros eram açoitados em Curitiba. Como pergunta a designer Suiane Cardoso, "A direita afirmar que manifestantes negros entrando em uma igreja é uma invasão é o que?"
A extrema-direita pegou o caso e o divulgou, com todas as mentiras que são sua principal característica, para todo o Brasil. O Gazeta do Povo, um dos jornais mais retrógrados do país, fez um carnaval em cima disso. Renato pediu desculpas, disse que era cristão e que não quis ofender a fé da ninguém. Em nota, disse também: "Nos surpreende perceber que exaltar o amor e a valorização da vida em uma igreja causa mais indignação que o assassinato brutal de dois seres humanos negros no Brasil".
Na época, a Arquidiocese de Curitiba registrou boletim de ocorrência contra Renato. Mas agora a própria Arquidiocese diz não ver motivo para a cassação de mandato.
Ontem houve um ato em frente à Câmara de Curitiba em defesa do Renato. Uma hashtag, #RenatoFica, circula há dias. Ainda assim, haverá escapatória para o vereador? Por que não? Reproduzo o ótimo artigo do jornalista Rogerio Garlindo, do Plural.

Por que a Câmara de Curitiba vai cassar Renato Freitas? Punir um colega vai contra tudo que os vereadores da cidade acreditam – e no entanto, ficou claro que dessa vez não há escapatória. Derrotado no Conselho de Ética, Renato provavelmente sofrerá um resultado ainda mais humilhante em plenário. Perderá não só o mandato como os direitos políticos. Não exercerá mais o cargo para o qual foi eleito, nem poderá disputar as eleições de outubro.
Mas por quê? A Câmara de Curitiba é conhecida por seu corporativismo: teve todas as oportunidades para cassar mandatos, e sempre recuou. Um presidente que mandou por 15 anos a Câmara com mão de ferro foi pego em um escândalo milionário – não foi cassado. Vereadoras foram pegas fazendo rachadinha em seus gabinetes – não foram cassadas. Um vereador cometeu assédio sexual – não foi cassado. Outro cometeu racismo explícito – e escapou.

Por que Renato Freitas não escapará? Por que pela primeira vez a Câmara decide que é preciso punir como máximo rigor um de seus pares. Uma vereadora que roubou o erário perdeu apenas o direito de falar ao microfone por uns dias. Renato Freitas será cassado, expulso da Câmara, expelido da vida política de Curitiba – será enxotado como um cão indesejado que entrasse pela porta da Câmara. Por quê?
Há motivos para isso, e não são difíceis de se perceber. Renato Freitas é vereador, e aí acaba toda a semelhança entre ele e seus pares julgados anteriormente. Em todo o resto ele é uma exceção. E ser fora do padrão é seu crime.
O primeiro erro de Renato Freitas foi nascer preto. O segundo foi nascer pobre. O terceiro foi nascer na periferia.
Claro, há outros vereadores negros (poucos). Há quem tenha nascido pobre, e sempre há os representantes da periferia. Mas Renato Freitas é diferente dele também. Porque há outros crimes que o levam a ser alvo dessa cassação.
Ao contrário de outros vereadores negros, ele é um dos dois únicos que fez da raça a causa de seu mandato – a outra é Carol Dartora, e não seria de se espantar se ela for a próxima.
Ao contrário de outros vereadores pobres, Renato Freitas fez da defesa dos pobres um motivo de seu mandato. Não usou seus eleitores para trocá-los por emendas, por cargos e privilégios, e sim realmente tentou mudar suas vidas.
Ao contrário de outros vereadores periféricos, Renato Freitas continuou estando à margem: fez questão de manter seu cabelo afro, para horror da Câmara; e para horror da Câmara, veste camiseta, anda de skate, fala como quem é.
Esse é o quarto crime de Renato – não ter mudado depois da eleição, nem ter decidido que a política era algo que deveria mudar sua vida. Muito pelo contrário, ter tomado a decisão de ser quem é e de usar a política para mudar a vida de seus eleitores.
O quinto crime de Renato Freitas foi achar que não era preciso baixar a cabeça. Que chegando à Câmara seria possível ser encarado como um igual. Isso jamais acontecerá. No mandato, foi chamado de moleque, destratado, detido, preso, arrastado, levado à força pela Guarda Municipal, que subiu em seu corpo negro e algemado, como numa pintura do século 18.
O sexto crime de Renato foi acreditar que a Câmara era um lugar para se fazer política, para lutar por causas, e não para se dobrar ao prefeito, aos empresários, aos donos da cidade.
O sétimo foi sua convicção de que uma cidade pode mudar rapidamente, que é possível convencer as pessoas de que é possível viver sem se sujeitar a regras econômicas injustas, que é dever de um político se rebelar contra o que vê de errado.
O crime de número oito foi ter orgulho. O de número nove foi não ter medo.
Mas o décimo crime, o realmente imperdoável, foi o de revelar com sua coragem o quanto são pusilânimes os vereadores em sua maioria. Aqueles que se elegem em nome da ambição pessoal; que se realizam ao ganhar loas e cargos; que vivem para si e para navegar em privilégios; e que jamais pensaram em mudar nada com seus mandatos. Pelo contrário: pois na maioria os vereadores de Curitiba, como a maior parte dos políticos, existe para garantir que tudo permaneça exatamente como está.
Existem para garantir que os pobres continuem pobres.
Que o prefeito possa governar para os privilegiados sem que haja uma revolta.
Existem para garantir que a educação seja frágil e “sem partido”.
Para ter certeza de que a ganância dos empresários do lixo, do transporte, da saúde seja saciada e passe impune.
Ocupam seus mandatos para ser parte de uma máquina que garante a divisão da cidade em mandantes e mandados. Nos que podem tudo e nos que nada podem.
Revelar essa monstruosidade, revelar a cumplicidade da Câmara com tudo isso, é imperdoável. Lutar contra o racismo quando a maioria dos vereadores é racista; cobrar justiça quando a maior parte da Câmara é injusta; exigir que as coisas mudem quando tudo o que os vereadores querem é que tudo permaneça no seu lugar, principalmente o que está errado; eis o crime imperdoável.
Renato Freitas será expulso da vida pública. Mas surgirão outros Renatos. Porque não é possível que isso permaneça para sempre. É preciso acreditar que as injustiças não perduram indefinidamente, ou perderemos a vontade de ser cidadãos.
A Câmara de Curitiba nos ensinou mais uma vez a eterna lição: não existe mudança que venha fácil. Mas os eleitores jovens, negros, pobres, periféricos de Curitiba ainda vão prevalecer. E nesse momento, os atuais vereadores vão ser vistos pelo que são – artífices voluntários de uma cidade sempre mais injusta e excludente.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

SERIA MARAVILHOSO SE LULA GANHASSE JÁ NO PRIMEIRO TURNO

Pelas pesquisas atuais (que são um retrato do momento, e que pode mudar), Lula está a menos de 2% para ganhar as eleições de outubro já no primeiro turno. Em outras palavras: ele tem mais de 48% dos votos válidos, enquanto seus adversários, somados, contam com 52%.
Em todas as eleições que disputou, e nas duas que venceu, Lula nunca ganhou no primeiro turno. Nem sua sucessora, Dilma. Sempre foi no segundo turno.
Mas agora é diferente. Depois de ser governado pelo pior presidente de sua história (que, pela primeira vez desde o Plano Real, deixará o salário mínimo valendo menos que quando entrou), o Brasil precisa urgentemente se reconstruir. Precisa deixar o fascismo pra trás e combater o rastro de destruição e miséria que Bolsonaro deixa como legado.
O fascista vem deixando claro, desde que assumiu, que não vai sair do poder. Todo mês promete um golpe, e as instituições não fazem nada em relação a essas ameaças contra a democracia. As Forças Armadas, covardes e aparelhadas com picanha e Viagra, se calam. Lula ganhar no primeiro turno poderia ser uma pá de cal nessas ambições golpistas.
Aí eu vejo uma influencer de esquerda dizendo que a hora é de um voto radical de protesto contra Lula e Bolso no primeiro turno... Como é possível tamanha alienação? A hora é se livrar do fascismo o quanto antes, garantindo a vitória de Lula já no primeiro turno.
Reproduzo o artigo que o jornalista Alex Solnik publicou no Brasil247.

Assim como, quase três meses depois do início, ainda se discute, no Brasil, se o culpado pela guerra é a Rússia ou a Ucrânia, continua rolando a discussão se vai ou não vai ter golpe.
Está ficando tão normal ouvir e falar de golpe que, se acontecer, ninguém vai estranhar.
Há os que têm certeza que vai ter. Como o ombudsman da Folha de S. Paulo.
E outros, que já teve e só eles perceberam.
Mas ninguém diz o óbvio: golpe de estado é o maior crime contra um país.
Quem ameaça com golpe está se auto-incriminando. Quem tentar dar golpe tem que ter certeza que vai dar certo, porque se der errado, é cadeia. Uma longa temporada na cadeia. Seja para civis, seja para militares.
Como nós, os civis, não temos tanques para enfrentar um golpe de estado, e denunciar, por si só, não vai resolver nada, só temos uma coisa a fazer: eleger Lula no primeiro turno.
Somente uma vitória por larga margem, e no primeiro turno, vai impedir qualquer discurso de fraude. Somente uma vitória no primeiro turno vai impedir o clima de salve-se quem puder que será instaurado pelo atual ocupante do Planalto e seus truculentos seguidores.
Por isso é urgente colocar na rua a campanha “Lula Já!”, convocando todos os que não são bolsonaristas -- Doria, Simone Tebet, Ciro Gomes -- a aderir ao único candidato que, segundo todas as pesquisas, ganha de Bolsonaro no primeiro turno.
E cuja eleição não deixará dúvidas de que daqui a quatro anos teremos novas eleições diretas. E então Doria, Simone, Ciro poderão tentar de novo.
Essa é a vacina contra o golpe.