segunda-feira, 17 de junho de 2019

REAÇAS QUEREM DEPORTAR O GLENN GREENWALD

Pessoas queridas, fiz o segundo vídeo pro meu novo canal no YouTube, o Fala Lola Fala. O primeiro era sobre o terrível caso Rhuan e você pode vê-lo aqui. Fiquei sem gravar uma semana porque, vocês sabem, perdi meu amado gatinho Calvin, e porque, vocês não sabem, fiquei bem resfriada. 
Os vídeos ainda estão super amadores, tenebrosos até. Eu preciso ler quando tem tantos detalhes, não consigo olhar onde fica a câmera, algumas pessoas reclamaram da iluminação, e falta a arte na capa do canal. Mas tudo vai melhorar, prometo! Muito obrigada a todas as 6 mil pessoas que já se inscreveram. Acho fantástico 6 mil inscrições numa primeira semana!
Vou colocar o texto do vídeo aqui porque escrevi o texto, então, por que não? Mas eu quero ser capaz de falar, não ler os vídeos. E também a ideia é que isso leve bem menos tempo pra fazer, já que tenho que escrever um livro pra ser publicado ano que vem (vou assinar o contrato com a editora Planeta esta semana!) e artigos pro pós-doc. 
Fiquem com o texto e inscrevam-se no meu canal, por favor.

Como todo o Brasil já sabe, desde domingo retrasado o Intercept Brasil tem feito sangrar o Sérgio Moro, ainda ministro da Justiça. O Intercept publicou algumas trocas de mensagens entre procuradores da Lava Jato como Dallagnol e o então juiz e atual ex-herói da nação Sérgio Moro. 
Nas manifestações do dia 14 de junho vi faixas escrito DesMOROnou, que depois viraram tags no Twitter. Vamos ver quanto conseguem blindar o sujeito. Parece que vai mesmo sair uma investigação no Congresso sobre este escândalo. Lógico que a direita não vê nada de errado num juiz agir como promotor de acusação do Lula, mas, em qualquer país minimamente sério, isso não é exatamente permitido. 
Qual o xis da questão? É o que diz aquele jornal comuna, o New York Times: "A prisão de Lula preparou o caminho para a eleição de Bolsonaro, um político de extrema direita q nomeou Moro como ministro da Justiça". 
Por exemplo, vejamos esta fala do ótimo vídeo do Meteoro: "O problema não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo. O problema era o diálogo em si, o conteúdo do diálogo. Ali era uma ação tentando burlar a Justiça". Essas são as palavras de Sergio Moro sobre sua decisão de divulgar telefonema grampeado entre Lula e Dilma em 2016. Creio que ele não mantém esta mesma opinião em relação ao VazaJato de 2019. 
Glenn, que é um jornalista conhecido internacionalmente e vencedor de um Pulitzer e de um Oscar, disse na Jovem Pan, também conhecida como Jovem Klan por abrigar uma enorme quantidade de reaças por metro quadrado, que apoia a Lava Jato, mas acha "uma tragédia o Moro concluir que o trabalho dele era tão importante que ele não precisava seguir regras". 
Glenn e seu marido, o deputado federal pelo Psol do RJ David Miranda, já são alvos de ameaças de morte e fake news faz séculos, mas é óbvio que tudo se intensificou quando começou a divulgação de mensagens do Intercept.
Algumas das fake news sobre o Glenn: que ele e David são terroristas e atentaram contra a segurança pública do Reino Unido. David foi interrogado durante nove horas no aeroporto de Londres em 2013, porque foi suspeito de levar documentos confidenciais divulgados por Snowden. Snowden foi um ex-funcionário da National Security Agency, a agência de segurança nacional americana, que denunciou práticas ilegais de espionagem. David Miranda foi liberado sem acusações formais, e uma corte no Reino Unido em 2016 disse que seu interrogatório "constituiu uma interferência direta à liberdade de imprensa". 
Outra fake news: Glenn é considerado traidor dos Estados Unidos e já foi deportado de lá. Não é Glenn quem sofre acusações criminais nos EUA por espionagem, mas Edward Snowden. Glenn apenas divulgou as informações, que é algo que jornalistas fazem -- publicam notícias.  
E continuam espalhando a mentira que Glenn foi jornalista da CNN. Desta vez foi o número 3, Dudu Bolso, que acusou o "ex-CNN" de vazar o caso WikiLeaks. Não que ser jornalista da CNN seja crime, mas ele nunca foi. Ele aliás humilhou um tal de Caio Coppolla ao explicar que ser entrevistado por um veículo de comunicação não faz de ninguém jornalista daquele veículo. 
Como escreveu uma bolsominion com um cartaz de "Me processe" no pescoço, "Glenn é apenas um obcecado pelo traseiro de barbudos imundos da laia de David Miranda, que compra mandato para que seu cúmplice possa denegrir o Brasil lá fora e ele possa viver no bem bom, lá fora ele é um condenado por pornografia infantil e pedofilia". 
E nem tudo é fake news de anônimo, né? O ex-assessor especial do MEC, um tal de Silvio Grimaldo, disse no seu Twitter: "A única coisa positiva na matéria do Intercept é o HIV". Sabe, como o Intercept é dirigido pelo Glenn, e como Glenn é casado com David Miranda, enfim, como eles são gays, então é óbvio que no cérebro neandertal de um bolsominion olavete, os dois têm Aids. A única certeza nesta Terra Plana é que sempre podemos confiar que um reaça não vai perder a oportunidade de ser um preconceituoso asqueroso.
Esta é minha fake news preferida relacionada ao Glenn: ele ligou 17 vezes pro Adélio Bispo no dia do atentado contra Bolsonaro. Sabe, aquela fakeada? Que o General Heleno deu chilique esses dias porque o Lula desconfia da facada? O milico quer prisão perpétua pra quem duvida do atentado que, junto com as fake news, fez Bolsonaro ganhar as eleições. Bom, se todo mundo que duvida da facada tem que ser trancafiado pro resto da vida, é melhor construir novas prisões. 
Em dezembro, quando surgiu aquele documentário mostrando que os guarda-costas do Bolso estavam lá pra proteger o Adélio, não o Bolso, eu fiz uma enquete no meu Twitter. Tá certo que praticamente todo mundo que me segue é um bando de comuna feminazi e gayzista, mas mais de 6 mil pessoas votaram e deu que 77% não acreditam que a facada aconteceu e 23% acreditam em mamadeira erótica, quero dizer, acreditam que a facada aconteceu mesmo.
Mas pô, não era o Jean Wyllys e a Manuela D'Ávila que ligaram pro Adélio dezenas de vezes no dia do atentado? Como o telefone do Adélio não ficou com a linha congestionada? O Adélio tava mais concorrido que o documentário do Roger do Ultraje no cinema, que foi visto por 101 pessoas em 20 salas. 
Aí ontem à noite apareceu um perfil no Twitter chamado Pavão Misterioso que tinha a maior pinta de ser de algum channer e inventou a transferência de dinheiro da Rússia para o Intercept. 
Pra provar como é tudo orquestrado, a tag #ShowdoPavão, criado por bolsobots, logo chegou ao primeiro lugar.
E fica sempre a dúvida: quem paga o disparo dessas fake news? Quem financia os bolsobots que jogam no Twitter hashtags como "Deporta Greenwald" ou "Moro Herói"?
Como fascistas não lidam muito bem com democracia e liberdade de imprensa, estão querendo incriminar o Glenn a qualquer custo. Querem que ele seja preso ou deportado. Já tem uma petição pela deportação dele com milhares de assinaturas (assine esta, contra a deportação). 
Glenn mora no Brasil desde 2005, é casado há 14 anos com um brasileiro, juntos adotaram duas crianças brasileiras, tem uma ONG no Brasil que trata de pessoas em situação de rua e aninais abandonados. O artigo 5o da Constituição Federal diz: "não será concedida extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião". 
Recomendo o vídeo do Dead Consense, que mostra como Glenn não pode ser deportado. Vou deixar na descrição junto com outros links. Tem uma nova lei de migração de 2017, que trata de extradição, deportação, e expulsão. Nenhum dos casos se aplica ao Glenn, mas sabe como é: vivemos num estado de exceção desde o golpe de 2016. O artigo 207 do decreto de 2017 diz que o ministro da justiça pode estabelecer regras excepcionais para deportar quem viola princípios e objetivos da Constituição. O ministro é o marreco. 
Mas não é patético que alguns meses depois do miliciano que alguns chamam de presidente autorizar a entrada de americanos no Brasil sem a necessidade de visto a tropa dele querer a deportação de um americano?
Um bolsominion justificou pra mim a expulsão do Glenn dizendo: "Ele está atrapalhando a nossa tão difícil jornada política e põe em risco a nossa democracia". 
Cara, se o critério for quem atrapalha a nação ou traz riscos à democracia, quem não deveria estar aqui é o presidente. 
Esse papo xenofóbico e sinistro de deportação é velho conhecido meu. Eu vivo no Brasil há 48 anos, sou argentina naturalizada brasileira, mas misóginos vivem querendo me deportar também. É essa a mentalidade dos fascistas.
Todos os meus haters que sabem que sou argentina falam em me deportar há anos. Aliás, é incrível como essa gente fala do que não conhece. Falam que eu me casei com o Silvinho, vulgo maridão, pra conseguir o "Greencard brasileiro". Eu nunca estive ilegalmente no Brasil. Eu tinha carteira de estrangeiro permanente, mas quis me naturalizar para poder votar. Era a única coisa que não podia fazer sendo estrangeira. Por causa da burocracia e do custo, eu só me naturalizei em 1997. 
Eu já morava junto com o maridão, mas só nos casamos legalmente dez anos depois, em 2007, pra que ele pudesse ir comigo aos EUA no meu doutorado-sanduíche. Era casar ou ter que provar que morávamos juntos, e foi mais fácil casar. 
Mas durante as eleições do ano passado tinha vários comentários no blog todos os dias falando que eu seria expulsa do país assim que o "mito" ganhasse. Quero dizer, esses eram os comentários gentis e humanitários. Outros falavam que eu seria levada para um passeio de helicóptero como o Pinochet fazia com os terroristas chilenos. Outros diziam que eu seria executada em praça pública.
Tipo assim. Este é um comentário antes do 2o turno: “Jair Bolsonaro, guerreiro da Real na presidência. Dolores no cemitério. Feminazis no hospício. Falta pouco”. 
Outro: “Volta para a Argentina Lola, basta os nordestinos para atrasarem o Brasil”.
Ontem no Twitter um sujeito escreveu: "Se for confirmado que vc é argentina vc é que deve ser deportada porque não está ajudando em nada o nosso país. Cai fora jacaré!"
Lembra aquele slogan do Brasil durante a ditadura militar? Brasil, ame-o ou deixe-o? Reaças devem achar que ainda vivem naquele período sangrento da nossa história. 
Bom, desejo muita força pro Glenn e pro David e torço para que eles continuem fazendo o grande trabalho que vem fazendo. Mas olha, temo pela vida dos dois. Até porque eles moram no Rio, onde uma amiga pessoal deles, Marielle Franco, foi executada. 
Como disse o Glenn, Sérgio Moro é quem dá legitimidade ao governo Bolsonaro. Portanto, derrubando o marreco, talvez a gente derrube este desgoverno também. Só sei que tô gritando Diretas Já desde agora.
David denuncia ameaças de morte
UPDATE: Os pedófilos covardes do Dogolachan, que ameaçam a mim e a Jean Wyllys desde 2011, agora estão ameaçando os filhos adotivos e a mãe de David Miranda. Eu queria saber se a Polícia Federal irá prender a quadrilha, ou se ela vai poder continuar atacando à vontade os inimigos do rei. 

sexta-feira, 14 de junho de 2019

TEM GREVE GERAL HOJE: VAMOS PARAR PARA QUE O BRASIL ANDE

Como seria incrível se a gente imitasse nosso hermano mais politizado e parasse o Brasil na greve geral de hoje. Foi o que a Argentina fez no final de maio, na sua quinta e maior greve contra o governo Macri (que, como todo reaça que se preza, está afundando o país vizinho).
Os movimentos em defesa da educação nos dias 15 e 30 de maio aqui no Brasil foram enormes, os maiores protestos contra o desgoverno Bolso até agora (seis meses do Brasil na UTI respirando por aparelhos). Mas hoje, além dos estudantes e professores, sairão às ruas também inúmeras outras categorias, sindicatos, o MST. Tem que ser gigante. Tem que paralisar o Brasil e ao mesmo tempo lotar as praças de manifestantes contra o pior governo da história do país, contra a deforma da previdência, contra o presidente miliciano, e pela educação. 
Acredito que, por conta do escândalo do #VazaJato, teremos vários "Fora Moro" e "Lula Livre" também. Vamos ver. Eu estarei nas ruas de Fortaleza. Se me vir e me reconhecer, venha me dar um abraço.
Publico o texto do deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP).

O governo Bolsonaro tem produzido crises recorrentes e instabilidades institucionais, gerando um ambiente desfavorável para investimentos privados que ajudem a retomada da economia. A agenda ultraliberal de Paulo Guedes e equipe não produziu até o momento nenhuma iniciativa para minimizar o dramático desemprego, que segundo o IBGE atinge mais de 13 milhões de pessoas e é o maior problema do país.
A Reforma da Previdência é o novo "toque de mágica" dos economistas da banca financeira, gente muito bem remunerada para dar vernizes de ciência a velhos ilusionismos. O discurso é simplório e baseado em duas mentiras muito repetidas: 1) ou faz a reforma já ou o Brasil quebra e 2) basta fazer a reforma para chover investimentos e adeus crise. É mais um conto da carochinha dos mesmos criadores de “a reforma trabalhista vai gerar empregos”, lembram?
O Brasil não vai quebrar por causa da Previdência, que até poucos anos atrás era superavitária. O país precisa sair do atoleiro econômico e voltar a crescer, pois com mais gente trabalhando, mais se recolhe para a Previdência. Foi essa a “mágica” feita até 5 anos atrás. Mas vamos admitir que em tempos de vacas magras é preciso cobrir o déficit. Nesse caso, ajudaria bastante a fechar as contas se o governo fosse atrás dos devedores do INSS, coisa de R$ 450 bilhões, segundo a CPI que tratou do assunto no Senado. Mas aí seria preciso cobrar da própria banca financeira, gente poderosa com quem Bolsonaro e Paulo Guedes não querem mexer.
Também não é verdade que a Reforma da Previdência, por si só, vá gerar investimentos e trazer crescimento. Com uma das taxas de juros mais altas do mundo, o mais provável é que a dinheirama vá ser aplicada na esfera financeira, enriquecendo mais quem já é milionário. Contudo, ao tirar o dinheiro da aposentadoria de milhões de pessoas, o impacto na economia de pequenas e médias cidades será desastroso, gerando um ciclo econômico vicioso.
A verdade é que as elites nacionais e internacionais precisam manter seus fabulosos ganhos e, para isso, precisam esfolar ainda mais os trabalhadores e os mais pobres. No neoliberalismo radical que essa turma defende, não há espaço para direitos sociais, trabalhistas e previdenciários. Eles querem revogar as conquistas civilizatórias de seguridade social consagradas na Constituição. O aumento da miséria, da fome, das doenças e das mortes não é problema para a turma da banca.
Mas se existem ataques sem precedentes aos direitos, há também uma reação cada vez mais ampla da sociedade. As manifestações em defesa da educação, que tomaram conta do país nos dias 15 e 30 de maio, produziram um dado novo na conjuntura política, mostrando que a consciência democrática começa ser revolvida para colocar freio às pautas obscurantistas da extrema direita.
Os atos da educação, que conquistaram vitórias no Congresso com a recomposição de parte das verbas para universidades e bolsas de estudo, também deram novo fôlego à greve geral convocada pelas centrais sindicais em defesa da aposentadoria. Aqui está a chave para sair das cordas e elevar a resistência: luta em torno de bandeiras concretas e amplas, que unam setores diversificados e isolem os inimigos do povo.
Será histórica a greve geral em defesa da aposentadoria e da educação, mas também da democracia, dos direitos e garantias constitucionais. Trabalhadores e estudantes irmanados fazendo a soma de todas as lutas justas e, como diz o samba, “parando para movimentar” o Brasil.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

MORREU CALVIN, O GATINHO DA NOSSA VIDA

Ontem à noite morreu o Calvin. Ele estava dormindo, cercado por gente que o ama, e simplesmente parou de respirar. 
Última foto do Calvin, no domingo
Mas seus últimos dias não foram bons. Sua barriga inchou de repente. E bastante muco começou a sair do focinho. Nós o levamos ao veterinário no sábado. Passamos a dar-lhe um diurético. Ele estava comendo, dormindo, tomando água. Mas ontem desde cedo vimos que ele andava muito abatido, se mexendo pouco.
Calvin vendendo livro
Calvin era como se fosse um filho pra gente. Tinha 18,5 anos, o que, segundo o vet, representa uns 100 anos em idade humana. E agora foi praticamente a única vez que ele ficou doente durante a vida toda. Sempre foi um gato muito saudável. A única das 7 ou 9 vidas (aqui no Brasil gato tem 7 vidas; em países ricos, tem 9) que ele perdeu foi quando foi mordido por um outro gato, infeccionou, e ele ficou com boa parte do corpo sem pelo. Nem isso foi tão grave
Nossa maravilhosa Blanche
Eu lembro quando ele entrou na nossa vida. Era final do ano 2000 e vivíamos em Joinville. Tínhamos uma gata preta jovem, a Blanche, e um cachorro minúsculo, o Hamlet. Nosso veterinário, o Marcos, nos telefonou. Disse que uma pessoa queria deixar um gatinho com ele, mas que ele só iria aceitar se tivesse alguém que adotasse o felino. Topamos, mas eu e Silvio íamos sair pra viajar durante uns quinze dias. Perguntei pro Marcos se não poderíamos pegar o Calvin assim que voltássemos da viagem. Ele disse não. Então Silvio foi pegar o Calvin, e viajamos uns 2 ou 3 dias depois, angustiados porque a Blanche não estava aceitando o novo gatinho muito bem. Quando voltamos, eles já estavam assim:
Foram grandes amigos. Blanche o tratava como se fosse uma mãe. Calvin era destemido e muito pequeno, só um par de orelhas. 
E no começo nem era Calvin. Primeiro lhe demos o nome de Boris, mas minha mãe não gostou (Boris era apelido do meu amado pai, Bernardo). A verdade é que Calvin não parecia muito com um Boris, então aceitamos mudar de nome. Por algum mistério, ele lembrava mais o Calvin que o tigre Haroldo. Optamos por Calvin. Lógico que eu tinha vários apelidos pra ele: Cal, Calvinho, Calzone, Zero Cal, Calvin Klein. Ele era muito inteligente e entendia tudo.
Calvin em 2000, quando ainda
era um par de orelhas ambulantes
Quando ele ficava em cima do meu peito fazendo rum rum, eu cantava musiquinhas pra ele. Uma era ao ritmo daquele jingle famoso do McDonald's: "Dois gatinhos, selvagens, lindos, fofos, especiais, bons caçadores de hamsters e gerbelins... São os gatinhos! Gatinhos! Gatinhos". Outra seguindo um jingle de algum supermercado: "É super, é super, é super fofinho... Tem sempre um gato bom, aqui, no meu caminho". Outra era "Gato, como te amo! Non é possibleeee". 
Ele adorava as canções. Aumentava o rum rum e olhava fixo nos meus olhos.
Cãozinho Hamlet, Calvin,
meu braço
Uma manhã eu estava na cama e ele estava quase dormindo, deitado em cima do meu peito, quando entrou um passarinho no quarto. Sem tomar qualquer tipo de impulso, Calvin deu um salto gigantesco pra cima assim que o passarinho passou por cima da gente, no teto. Cal aterrissou com tudo no meu queixo. O passarinho conseguiu fugir. Eu fiquei levemente ferida.
Muitos passarinhos não tiveram a mesma sorte. Silvinho salvou a vida de vários, tirando-os de dentro da boca do Calvin. Calvin não era rancoroso e perdoava fácil a nossa intromissão. Mas o que ele gostava mesmo era lagartixa. Devorava a lagartixa inteira, não sobrava nada, nem a cauda. Causou um mini-genocídio lagartixal em Joinville, porque caçava e comia várias por semana.
Lembro de uma noite em que eu estava em pé na cozinha, falando por telefone, não sei com quem, quando vejo entrar pela porta o Calvin com pupilas muito dilatadas, carregando alguma coisa na boca. Ele veio correndo e descarregou o que tinha na boca em cima dos meus pés. Era um camundongo, que assim que foi solto, começou a correr. E Calvin a correr atrás dele. E eu gritando e subindo num banquinho.
Não parece uma vida tão intensa,
mas era
Cal teve uma vida muito intensa em Joinville. Ele ignorava ser castrado e saía todas as noites. Saía um pouco, ia sabe-se lá onde, e voltava, querendo entrar pela janela. Ficava o tempo suficiente para brincar, receber carinho, comer, e saía de novo. Várias vezes por noite, todas as noites. Em algumas ocasiões ele ficava no nosso jardim e caçava algum sapo, mas era mais comum ele ir pra casa do vizinho (os gatos da vizinhança viam aquela casa como zona neutra e tinham várias assembleias por lá) ou andar pra longe, em lugares perigosos com muitos carros. Mais de uma vez passamos de carro por um gato amarelo a três quarteirões de casa e nos perguntávamos: "Aquele é o Calvin? Não pode ser o Calvin!" Claro que era. Não sei como ele sobreviveu tantos anos em Joinville. 
Blanche e Cal sempre dormiam juntinhos em Joinville: yin e yang
Calvin com Isabel
Em fevereiro de 2010 nos mudamos pra Fortaleza. Calvin ainda estava na metade da vida e em plena forma. Ele sentiu a mudança. Não tinha mais como sair de casa ou confraternizar com outra gata que não fosse a Blanche (que morreu em 2013, aos 14 anos) e, depois, a Isabel (que morreu muito jovem, em 2016, aos 3,5 anos, de Aids felina) e, por último, a Sofia (que está viva, jovem e bem). O jardim enorme foi substituído por um quintalzinho com quase nenhum passarinho ou lagartixa. Não era a mesma vida.
Eu continuei cantando as mesmas musiquinhas pra ele. 
Sempre um companheiro
Eu usava um longo corredor pra brincar com ele. Colocamos um pedaço de veneziana numa parede. Ele gostava de se esconder atrás dela. Eu jogava bolinhas e ele saía correndo pra pegá-las. Era um goleiro excepcional. Quando voltei da China em 2015 trouxe um monte de bolinhas novas, de várias cores. Não podiam ser muito grandes nem duras e tinham que quicar. Às vezes eu ficava de um lado do corredor e Silvinho do outro, e ambos jogávamos bolinha pro Calvin. Depois de brincar, eu recolhia as bolinhas e as deixava no parapeito de uma janela interna, que dava pro corredor. De madrugada o Calvin ia e derrubava todas as bolinhas, uma por uma.
Quase toda madrugada o Calvin ficava locão. Corria, pulava, e fazia sons selvagens e guturais. Esses dias eu reparei que já fazia algumas semanas que ele não ficava mais locão.
Usando fralda em abril 2019
Ele teve uma vida muito ativa e cheia de saúde até o final do ano passado, por aí. Ou seja, até completar 18 anos, ou um pouquinho antes. Aí passou a ter incontinência urinária, tadinho. Ele, que literalmente não tomava banho havia 17 anos (demos um ou outro banho nele quando ele era jovem, até que ele deixou claríssimo que, por mais bonzinho que fosse, não iria tolerar aquela desfeita), passou a tomar um banho por semana. Mesmo assim, cheirava muito mal. Virou o "smelly cat". 
Como nunca tínhamos tido um bichinho que viveu tanto, não sabíamos o que fazer. Tentamos dar banho a seco. Colocávamos toalhas nas camas. Mas era ruim, pra ele, pra nós, pros colchões. Uns dois ou três meses atrás, passamos a por fralda nele. Funcionou. Ele ficava sequinho e mais bem humorado. Mas não quis mais dormir na cama com a gente.  
Quase até o fim, ele gostava de ficar do lado de fora do box enquanto eu tomava banho. Assim que eu terminava e abria a porta do box, ele entrava e lambia o chão. Adorava beber água com shampoo, condicionador e sabonete. Ontem minha mãe relatou que ele fazia isso com ela também.
Minha mãe chorou muito quando eu desci pra contar que o Calvin tinha morrido. Ela conversava com ele, falava como era ruim estar velho. E ele entendia tudo. 
Ela também sabe que nunca teremos outro gatinho como o Cal. Ele era muito companheiro, de muito boa índole, um gatuno todo especial, sem maldade (talvez as lagartixas contem uma versão diferente). 
Minha foto preferida: Isabel olha pra um Calvin que é quase uma miragem. Que os dois se reencontrem no céu dos gatos!
Estou triste, mas sei que ele viveu uma vida longa e feliz e que tudo chega ao fim. Eu imaginava que ele iria viver mais, talvez até os 20, mas não sou eu que decido. Sei que ele não sofreu e morreu em casa, dormindo, do lado de quem ele cuidou a vida toda, obviamente a melhor forma de morrer. 
Ainda vai doer bastante -- ver todos os pedaços da casa em que ele andava e perceber sua ausência. Mas torço para que exista um céu pros gatos.
Nunca nos esqueceremos de você, Calvin (outubro 2000 - junho 2019).