domingo, 15 de setembro de 2019

DOMINGO COM BOM HUMOR

Em apoio à exposição de charges que foi censurada pela Câmara de Vereadores de Porto Alegre (porque no Brasil de hoje não se pode mais zoar de governantes), coloco aqui três charges incríveis (sem relação com a exposição, que eu saiba).
Este cartum da sempre genial Laerte se refere a Bolso ter retuitado uma mensagem de um bolsominion que disse que o presidente Macron teria inveja dele por causa de Micheque
(que é 27 anos mais jovem que Bolso, enquanto Brigitte é 24 anos mais velha que Macron. Na sociedade machista que vivemos, em que mulheres são vistas como troféus de homens poderosos, é aconselhável que caras se casem com mulheres mais novas, mas homem se relacionar com mulher mais velha -- jamais!). Diante da repercussão internacional do comentário misógino do presidente do quinto maior país do mundo, Bolso, covarde que é, apagou o tuíte e mentiu que seu "não humilha cara. kkkkk" era uma repreensão ao seu seguidor. 
Pra piorar a situação, Paulo Guedes, o mais poderoso sinistro do governo, disse numa palestra que Brigitte "é feia mesmo". A filha de Brigitte, a advogada Tiphaine Auzière, lançou a campanha "Denuncie seu misógino". Brasileiras criaram a hashtag #DesculpaBrigitte. Recomendo a matéria "Por que todo homem se acha no direito de comentar a aparência de uma mulher?"
Este cartum dispensa contextualização (se bem que reaças não entendem nada mesmo). 

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

VIVA A RAINHA MARTA

Uma ótima notícia no meio do caos: a Assembleia Legislativa de Alagoas aprovou, e o nome do maior estádio de futebol do Estado, o Rei Pelé, passará a se chamar Rainha Marta. Uma justa homenagem a uma lenda viva que pode muito bem ser o maior nome da história do futebol mundial. Além de ser alagoana. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

ENTRE DINOSSAUROS E BEATAS

Anteontem estive em Santana do Cariri, no sul do Ceará, na fronteira com Pernambuco, para ser homenageada por defender as mulheres.
Eu e Verônica
Não fui a única. Havia também duas vereadoras e dois deputados estaduais que receberam a homenagem na Câmara dos Vereadores. A ativista Ana Verônica Barbosa Isidorio, da Frente de Mulheres do Cariri, que vive em Crato, foi uma das agraciadas e fez o melhor discurso, o mais aplaudido.
Eu palestrando na Câmara. No centro, a presidente Luciene
A iniciativa partiu da jovem vereadora Luciene Soares (PDT), a segunda mulher na história do pequeno município de 18 mil habitantes a presidir a Câmara. Ela foi me procurar na UFC para fazer o convite (mas não me encontrou porque estou afastada este ano, fazendo o pós-doutorado). 
Outro homenageado foi um padre, que discursou sobre a história de Benigna, uma jovem assassinada em 1941 que está prestes a se tornar a primeira beata cearense. A cidade quer que Benigna seja canonizada para poder atrair o turismo religioso, que é fortíssimo em Juazeiro do Norte, que fica próxima. 
Alguns discursos lembraram que Benigna, que já é louvada por muitos como a "santa da castidade" (ela foi barbaramente assassinada à beira de um rio por um rapaz também adolescente por não aceitar ser estuprada), não foi a única menina de 13 anos a morrer dessa forma. E que, assim como muitas garotas que até hoje são mortas, ela estava trabalhando (buscando água para a família). 
De todo jeito, é importante falar de feminicídio. Até porque o Ceará foi o segundo Estado que mais matou mulheres em 2018. E a região do Cariri é uma das mais violentas.

Entre as pessoas presentes no público estava Dona Socorro, 76 anos, que há dois meses e meio viu sua filha ser assassinada pelo ex-parceiro em Santana. No depoimento, Dona Socorro, que agora cuida sozinha dos oito netos, disse: "Eu não sabia que uma pessoa tinha tanto sangue".  
Numa reforma recente do museu, este dinossauro (não eu, o outro atrás de mim) foi tirado do museu e colocado na praça
Eu com Mirelle
Além do turismo religioso, Santana do Cariri é conhecida pela paleontologia, pois a região tem uma das maiores concentrações de fósseis do planeta. Tive o privilégio de poder visitar o Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri (URCA) e de contar com as ótimas informações da guia Mirelle. Mirelle está no nono ano do ensino médio e é uma das dez bolsistas que atuam no museu, que foi fundado em 1985. O símbolo do museu é uma libélula, bicho que não parece ter mudado nada de 110 milhões de anos pra cá. 
Fiquei particularmente fascinada pelo Santanaraptor Placidus, espécie que leva este nome por causa do fundador do museu, Plácido Cidade Nuvens (nunca inventaram um nome melhor para um paleontólogo!). O fóssil, único no mundo, foi encontrado em Santana em 1996.  
Visitei também o Pontal de Santa Cruz, onde almoçamos muito bem. Lá do alto dá pra ver o Parque Nacional do Araripe, considerado o primeiro geo-sítio da América Latina. 
No meio da correria que é esta minha vida, foi muito bom conhecer a gente boa de Santana, além de ter as minhas ações reconhecidas.
No Pontal com Cristina, minha doce anfitriã, e Lindalva, vereadora de Tabuleiro do Norte no seu sexto mandato, que ano que vem quer ser prefeita

terça-feira, 10 de setembro de 2019

FRIENDS FAZ 25 ANOS DE VIDA: UMA SÉRIE QUE NÃO ENVELHECEU BEM

Este mês Friends, considerada por muitos a melhor série de todos os tempos, completa 25 anos de vida.
Antes de mais nada, devo dizer que eu sou uma das fãs desta série que teve dez temporadas, entre 1994 e 2004. Ainda a vejo inteira a cada 3 ou 5 anos, e ainda rio muito todas as vezes. Isso não quer dizer que eu não enxergue problemas. 
O show tinha pouquíssimos personagens que não fossem brancos e héteros (quase nada de diversidade para uma Nova York dos anos 90), há bastante transfobia no que se refere ao "pai" de Chandler (uma mulher trans), Joey tem um comportamento bem misógino na maior parte das vezes, e ninguém gostou que Rachel desista de uma carreira promissora em Paris para ficar com Ross. Mas, pra mim, o pior problema da série sempre foi sua gordofobia escancarada. Monica foi uma garota gorda, e Friends não permite que ela se esqueça disso. Há um incontável número de piadas feitas pro público rir de mulheres gordas. 
Li este artigo que Scaachi Koul escreveu pra BuzzFeeeNews e pedi pro querido Vinicius traduzi-lo. Há muita coisa que eu discorde no texto, mas achei que ele seria um bom ponto de partida pra gerar uma discussão sobre a série. 
Friends feitos de Lego
Estou começando a me dar conta de que, em anos de internet, sou muito velha. Mas em vez de me sentir irrelevante por conta da minha ignorância sobre memes atuais ou do fato de que, cada vez mais, todos os meus tweets são sobre como eu odeio viagens aéreas, me sinto compelida a compartilhar minha sabedoria adquirida com muito esforço. Quanto mais me distancio de minha juventude, mais quero alertar a geração mais jovem, essa Geração Z com seus colares de conchas, xuxinhas de cabelo e Vans, que o que ela gosta é na verdade um lixo absoluto. 
Nunca soube que repetiria as frases que meu irmão da Geração X costumava dizer para mim -– “Quando você for mais velha, irá compreender que estou certo” –- no entanto aqui estou, dizendo à minha sobrinha que não, não assistirei Friends com ela. Friends, minha querida, é terrível.
Marca de café
Este setembro marca o aniversário de 25 anos da estreia de Friends, e como a maioria dos aniversários significativos da cultura pop, desencadeou uma onda de nostalgia coletiva. Eventos temporários, exibições públicas e produtos estão se materializando para os fãs mais radicais, afinal, qualquer um usaria uma pulseira com uma cantada gravada nele. Pessoas estão debatendo qual série é melhor, Friends ou Seinfeld (sem querer dar spoiler no meu próprio texto, mas é Seinfeld e isso deveria ser óbvio). 
Biólogos marinhos que provavelmente passaram anos na universidade e gastaram centenas de milhares de dólares em educação estão por aí nos informando que, na verdade, lagostas não formam pares para a vida, ao contrário do que Phoebe, uma personagem ficcional em um seriado de televisão ruim, cujo traço inteiro de personalidade é ser instável, disse em algum momento no final dos anos 90. 
Nós também ficamos sabendo recentemente que o macaco-ator que interpretou o animal de estimação de Ross (um enredo real de uma série sobre pessoas vivendo em Nova York, onde metade dos senhorios sequer permitirá que você tenha um cão bem-comportado) segue em atividade -– o que, imagino, é bom para o macaco. O conteúdo nunca acaba e, no entanto, de alguma forma, as pessoas parecem nunca perder o apetite por mais. Recentemente foi divulgado que Robert De Niro está processando uma ex-funcionária por, em parte, assistir 55 episódios de Friends em quatro dias.
Não quero soar dramática, mas se eu ler mais uma manchete que diga “Poderíamos ESTAR mais animados?” sobre alguma notícia relacionada a Friends, me jogarei dentro do vulcão ativo mais próximo.
Ninguém, sobretudo eu, deveria julgar o gosto de outras pessoas para programas de televisão. 
Atualmente, meu programa favorito são clipes no YouTube de uma série britânica chamada Just Tattoo of Us, em que “amigos” ou “parceiros” desenham tatuagens profundamente humilhantes que serão aplicadas permanentemente nos corpos um do outro sem aprovação prévia envolvendo o desenho ou o local da tatuagem. Eu e meus gostos somos lixo e não mereço nada além de uma morte dolorosa. 
Mas enquanto alguém que viveu durante a primeira leva do reino cultural de Friends, que estava consciente por pelo menos uma metade, e que participou disso em tempo real, eu estaria sendo negligente se não lembrasse a todos vocês da verdade: Friends, um programa sobre pessoas brancas sendo magras e possuindo os mamilos mais aparentes das Américas -– e um programa que eu, em certo momento, assisti e aproveitei –- é um lixo absoluto. 
Friends estreou em 1994, quando eu tinha três anos de idade. O final foi uma década depois. Muito de meus anos formativos foram gastos assistindo Friends. Minhas colegas de classe e eu encenávamos a série na escola. Eu queria ser uma Rachel, mas me contentava com uma Monica, embora eu dissesse às outras pessoas que era uma Phoebe, quando na verdade era um Ross. 
Meu irmão, que estava na minha frente no percurso de saber que o programa era “inassistível”, costumava brigar comigo quando eu insistia em assistir reprises que eu já havia visto na semana anterior. (Espero que ele nunca leia isso; eu jamais superaria.) Em 2004, quando meus pais me proibiram de ver televisão (após eu ter sido esperta o suficiente para passar um trote em um professor e burra o suficiente para deixar meu número na caixa postal), escrevi uma carta implorando para eles me deixarem assistir o episódio final. Rachel desceu do avião!!! Eu estava feliz, mas também eu era uma virgem e não compreendia que Rachel certamente poderia achar outro pau em algum lugar de Paris.   
Há uma discussão online recorrente sobre a estranha divergência entre a nostalgia de Friends e a realidade da baixa qualidade da série. Mas ainda assim, esmagadoramente, o público parece estar Ok em fingir que Friends tinha algo de bom. Provavelmente contribuindo para essa conclusão errônea é quão fácil é acessar o catálogo de episódios, que está prontamente disponível em serviços de streaming que adolescentes adoram maratonar em massa. 
Parece estranho que o seriado que a geração mais suscetível ao marketing esteja, por algum motivo, assistindo, é também o seriado menos relevante ainda disponível no mercado (e é aqui que eu livremente admito que o BuzzFeed tem oferecido um fluxo constante de Friends para jovens impressionáveis, o que pode ter algo a ver com tudo isso).
Muitos programas envelhecem mal, mas ainda são convenientes de rever de vez em quando. Mas diferentemente de outros programas semelhantes que inspiram maratonas nostálgicas –- Seinfeld, The Office, 30 Rock, Parks and Recreation ou Cheers -– Friends não possui a vantagem de ser de fato bom. Steve Carell está certo: The Office nunca deveria ser refilmado, porque é um seriado sobre um chefe abusivo que assedia moralmente seus empregados, que desenvolvem uma espécie de Síndrome de Estocolmo para continuar a trabalhar em uma empresa de papel (adolescentes se lembram de papel?). Mas é, ainda assim, muito engraçada e cheia de compaixão e redenção.
Frasier ainda é uma série agradável sobre os únicos dois homens vivos que ainda bebem xerez. Tudo em Família nos mostrou como alguém que você ama também pode ser um babaca racista (que presságio, Cristo), e Seinfeld mudou para sempre como uma comédia de meia-hora seria. 
Mesmo hoje, eu preferiria assistir o mesmo episódio de Will e Grace em que a mãe de Grace aparece do que sequer dar uma chance a Chernobyl. Maratonar séries que são confortáveis e familiares é tranquilizante, como ligar para sua mãe quando você está chateada, ou fumar um cigarro de cravo no estacionamento da sua escola -– o que, é claro, eu nunca fiz, e se meu irmão mais velho estiver lendo isso, não conte para a mamãe, seu dedo-duro de merda.
Mas amar Friends em 2019 requer um nível de ginástica mental que deveria forçar a série a permanecer num ponto esquecido do passado. Liste qualquer um de seus episódios “favoritos” e provavelmente haverá algo grotesco enterrado no enredo. O pai de Chandler é desnecessária e inexplicavelmente drag queen, interpretada pela atriz cis Kathleen Turner, e é a fonte de várias piadas transfóbicas
Quando adolescente, Monica era gorda e é isso, essa é a piada, aqui, veja-a dançar em uma fat suit (disfarce para parecer gorda). A ex-esposa de Ross é lésbica e não é engraçado que seu filho tenha duas mamães? Salvo alguns personagens não-brancos que surgem de vez em quando, a série era tão branca que Phoebe, como única loira, poderia ser considerada uma minoria. 
Múltiplos artistas que fizeram participações especiais em Friends revelaram, duas décadas e meia depois, experiências não muito especiais no set. E, claro, há o infame processo de 2004 que Amaani Lyle, uma assistente dos roteiristas, moveu contra o programa por ter sido forçada a ouvi-los contando piadas sobre Joey estuprando Rachel, e a assisti-los imitando masturbação e caçoando da “fala negra do gueto” (o juiz decidiu que o comportamento dos roteiristas era necessário para um ambiente criativo, lançando bases problemáticas para que uma defesa de "necessidade criativa" fosse implantada em outro lugar).
Além de tornar mais difícil processar por assédio em ambiente de trabalho, qual legado cultural Friends nos deixou, exatamente? Um penteado? Justin Theroux?? Matthew Perry chocado no The Graham Norton Show quando a septuagenária atriz Miriam Margolyes falou sobre “ficar com a calcinha molhada”?? (Esse último é muito bom, na real.) 
Pelo menos agora temos o gostosão Jughead. Mal posso esperar pelos bebês de 2020 no futuro tentarem argumentar que Riverdale é na verdade uma obra-prima.
Mas, é claro, nada disso importa. Pelas regras da internet, não sou nada além de uma mulher velha, uma millennial perdendo importância com a idade. São as garotas VSCO e estrelas do TikTok que herdarão a Terra –- suas tolices, suas falhas, seus sucessos. E elas também irão crescer um dia e perceber a verdade sobre Friends, que era apenas uma série sobre lindas pessoas magras usando suéteres, com uma máquina gigante de marketing de uma emissora por trás.
Esse será o rito de passagem delas, e a boa notícia é que elas provavelmente se acertarão com o desapontamento de retornar a algo que elas amavam; o seriado que elas gostavam aos catorze anos, embora tenha terminado antes de elas nascerem, não é de fato tão bom. Minha vingança terá que esperar. Eu poderia ESTAR mais animada para o momento em que ela finalmente vier?

domingo, 8 de setembro de 2019

EXEMPLOS DE RESISTÊNCIA NA BIENAL CENSURADA

Como sabemos, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, mandou recolher livros com temática LGBT como "impróprios para menores". 
Incrivelmente, um desembargador do Tribunal da Justiça deu aval a esta medida inconstitucional. 
O youtuber Felipe Neto tomou uma atitude louvável: comprou 14 mil exemplares de livros com esta temática e conseguiu distribui-los gratuitamente antes que a censura imperasse. Os livros foram entregues num saco preto com o aviso "Este livro é impróprio -- para pessoas atrasadas, retrógradas e preconceituosas". 
A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu para que o Supremo proíba apreensão de livros na Bienal. 2019 e uma procuradora precisa pedir para o Supremo (que pode recusar o pedido!) proibir censura de livros!
Ontem houve uma marcha dentro da bienal de pessoas com os livros doados nas mãos gritando "Abaixo a censura". 
Desta marcha participou Pedro, 8 anos, que disse "É só um beijo!". Ele levou um cartaz exigindo que o prefeito cuide de coisas mais importantes, como a escola onde estuda, que está sem merenda. Pra quem acha que crianças não pensam por si próprias, a iniciativa partiu totalmente dele. 
Ontem também Mauro, filho de Maurício de Sousa publicou uma foto beijando seu namorado, com a legenda: "Eu e o Rafa, sem censura e com a classificação etária livre, porque beijo não é impróprio e pode estar em qualquer HQ. Qualquer uma". 
Bem-vindos ao Brasil de Bolsonaro. E da resistência a ele, que é gigantesca e só aumenta.