terça-feira, 21 de setembro de 2021

BOLSO COMETE EXTERMÍNIO, DIZ À CPI ASSOCIAÇÃO DE JURISTAS QUE JÁ O DENUNCIOU A HAIA POR CRIMES CONTRA A HUMANIDADE

Ontem a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (criada em maio de 2018, hoje conta com quase 2 mil associados, entre juízes, desembargadores, advogados, defensores públicos, professores, servidores do sistema de justiça, promotores, procuradores estaduais e municipais, e estudantes de direito) entregou à CPI da Covid um documento tipificando o crime de extermínio cometido por Jair Bolsonaro.

Em 2 de abril do ano passado, a ABJD já havia entrado com representação ao Tribunal Penal Internacional contra Bolso por crimes contra a humanidade. Mesmo com a pandemia ainda no início, já era possível ver que o pior presidente descumpria todas as normas sanitárias preventivas, como as de isolamento e quarentena. Além disso, era contra se submeter a exames médicos. A ABJD tomou essa medida drástica de apelar ao Tribunal Internacional depois que o procurador-geral da República arquivou sem análise dezenas de representações. Dessa forma, o STF não podia abrir inquéritos para investigar as ações.

De abril de 2020 pra cá, Bolso não parou um instante sequer de cometer novos crimes contra a humanidade, sendo o principal responsável pela morte de quase 600 mil brasileiros. É por isso que não se deve pensar duas vezes antes de chamá-lo de genocida. Se assassinar com o seu descaso e seu negacionismo mais de meio milhão de pessoas não é genocídio, é o quê?

No dia 11 de agosto de 2020, a ABJD protocolou oficialmente no Tribunal um novo endosso, já que Bolso fazia de tudo (faz ainda, nunca mudou, tanto que no seu discurso na ONU hoje de manhã defendeu o "tratamento precoce") para estimular o contágio e a proliferação do vírus. 

Se antes achávamos que ele agia assim por incompetência e mediocridade, aos poucos foi ficando claro que era um projeto. Tudo foi intencional, culminando com a espera para comprar vacinas que garantissem propinas. Bolso, seu governo, seus sinistros da saúde, apostaram na "imunidade de rebanho". Só isso já configura crime de extermínio, segundo a ABJD (um dos tipos penais de crimes contra a humanidade capitulado no art. 7o, 1, "b", do Estatuto de Roma). 

Agora a ABJD vai aguardar o relatório final da CPI da Pandemia para se manifestar mais uma vez diante do Tribunal Penal Internacional. Pode não ser já, pode ser apenas quando o genocida não estiver mais no poder, mas um dia ele será condenado por crimes contra a humanidade. Como diz a ABJD, "Talvez não seja possível saber quantas exatamente das quase 600 mil mortes de brasileiros poderiam ter sido evitadas se, sob a liderança de Bolsonaro, o governo não tivesse executado um projeto de propagação do vírus. Mas é razoável afirmar que muitas pessoas teriam hoje suas mães, pais, irmãos e filhos vivos caso não houvesse um projeto institucional do governo brasileiro para a disseminação da covid-19". 
Hoje no metrô de Nova York: mentiroso, péssimo, fracassado

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

UMA OU DUAS NOTAS SOBRE KILL ALL NORMIES

Faz pouco tempo acabei de ler Kill All Normies: Online Culture Wars from 4chan and Tumblr to Trump and the Alt-Right, (algo como "Mate todos os normais: guerras culturais online do 4chan e Tumblr a Trump e a Alt-Right"), um livro de 2017 escrito pela irlandesa Angela Nagle. 

Gostei mais ou menos. A autora parece ser fascinada por uma figura grotesca, Milos Yiannopoulos (que acabou sendo cancelado pela própria direita e hoje está meio no ostracismo, ainda bem), e isso me irritou um pouco.

Porém, Nagle aponta algo bem interessante em Kill All Normies: que o clichê de filmes sobre a escola americana (American high school) sempre mostrou que os piores machistas eram os que naquele universo altamente hierarquizado seriam os jocks, os atletas do ensino médio, descritos como cheios de músculos e sem cérebro. No entanto, com a internet, agora que podemos ver a vida interna das pessoas, uma das revelações surpreendentes é que o nerd que se considera um cara legal é muito mais cheio de ódio, racista, misógino e invejoso da felicidade alheia que o estereótipo de atleta.

Para ela, a alt-right (a direita alternativa), sem qualquer restrição cristã moral devido ao seu anti-moralismo nietzschiano (embora carregue a maior parte dos preconceitos da extrema direita tradicional), tornou-se mais transgressora e subversiva que a esquerda. Odeia tudo que seja mainstream ou conformista. 

De acordo com a autora, meio século depois dos Rolling Stones, depois de Siouxsie Sioux e Joy Division terem flertado com a estética fascista, depois de Clube da Luta, é a hora de por pra dormir os valores da contracultura e criar algo novo. Será?


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

TÃO BOM RECEBER ELOGIOS DE VEZ EM QUANDO

Primeiro eu recebi este tuíte da Bianca:

Eu acompanho o blog da Lola desde os meus 13 anos. Há mais de 10 anos! Eu não sabia muito sobre feminismo, política, questões sociais. E posso dizer que 80% do que sei hoje, foi pela iniciativa dela. Sou muito grata pelo conhecimento que ela me proporcionou.

Eu dei RT e passei a segui-la, e aí ela me mandou esta DM, que publico com sua permissão: 

Que gratificante você "perto". Sempre quis te contar isso um dia. Uma amiga minha do ginásio, de 12 anos, filha de pernambucanos, me apresentou seu blog. Na época, por mais que ela tivesse apenas 12 anos, ela era extremamente empoderada e assumiu ser lésbica pra sua família. Claro, foi muito difícil. E ela me apresentou seu blog. Eu tenho 24 anos e não perdi um post seu sequer. Apresentei para os meus pais, que também são esquerdistas. Meu pai, o único cara hétero que eu admiro, admirou muito seu trabalho! Sempre que posso, eu apresento seu trabalho para outras pessoas. A maioria mulheres, mas tem homens que se interessam também. Eu estou MUITO emocionada por você ter lido no meu tweet que acompanho seu trabalho há mais de 10 anos. E eu era uma criança. Mas o que eu quero te dizer é OBRIGADA.

Agradeci muito (é bom receber elogios e carinhos). E perguntei se poderia publicar seu comentário, e, em caso afirmativo, com seu nome. Ela respondeu: 

Meu nome é Bianca Vizza, pode publicar com o meu nome sim, Lola. Não sei se você já recebeu algo assim, de uma quase adolescente que lia seu blog há tantos anos... é um orgulho imenso pra mim, e me ajudou muito no meu processo de saber quem realmente sou, de respeitar as pessoas, raças, admirar culturas, ajudar o próximo... hoje eu já não sei se as coisas funcionariam como funcionavam há 11 anos, porque naquele tempo não existia tanta tecnologia e status. 
Hoje os adolescentes querem aparecer mais que os outros, ser melhores do que os outros. Ser popular no facebook, instagram (não tenho facebook). Eles esquecem de acompanhar as questões sociais do país e do mundo. Eu vim muito de baixo. Quase passei fome, meus pais me tiveram por um acidente e ainda assim fizeram de tudo por mim pra que eu me tornasse quem sou hoje. Mas o que quero dizer é que quem dera que as garotas de 12, 13 anos tivessem essa oportunidade de conhecer o seu trabalho e absorver o conhecimento que você transmite. Desde que acompanho seu blog, eu mudei muito minhas concepções e tenho orgulho de quem me tornei. Pode publicar o que quiser, Lola. Com meu nome sim. Somos mulheres, temos que estar juntas, não nos ocultar, não nos calar.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

COMO MATRIX FOI APROPRIADO PELOS REAÇAS


Chris Gonzatti, do Diversidade Nerd (farei uma live com ele no final do mês), escreveu esta thread no seu Twitter que eu agora transformo em guest post: 

Como Matrix foi apropriado pela extrema-direita?

A apropriação da narrativa iniciou em fóruns no Reddit e 4Chan instituídos em torno do Gamergate, um movimento que surgiu em  2014 e gerou ataques misóginos contra mulheres que trabalhavam e consumiam games.

Depois dos ataques do Gamergate, os integrantes desses grupos começaram a buscar novos alvos. A narrativa de que homens estavam sendo oprimidos por mulheres, pelo feminismo e por LGBTs se tornou recorrente nesses territórios, assim como a expressão "escolher a pílula vermelha".

"Escolher a pílula vermelha" seria se tornar ciente da opressão que homens enfrentam na sociedade, da destruição de valores da masculinidade, do racismo reverso, da doutrinação da esquerda nas escolas e de como o Estado é o vilão.

Ou seja, só delírio e falácia.

A pílula vermelha aparece em Matrix quando Morpheus dá a Neo a escolha de tomar a pílula azul e retornar, sem nenhuma memória, para o “mundo simulacro”, ou tomar a pílula vermelha e manter todo o conhecimento e memórias adquiridas até ali, sendo parte da resistência.

No Brasil o ex-ministro da Educação do governo de Jair Bolsonaro, Abraham Weintraub, publicou no Twitter a cena da escolha da pílula do filme Matrix fazendo alusão à importância de escolher apoiar o presidente, recebendo um xingamento de uma das criadoras da obra.

Seja no governo ou nesses fóruns, parece existir uma apropriação da obra que distorce as intenções das criadoras (possivelmente desconhecidas para muitas pessoas que integram esses grupos), duas mulheres transexuais.

Essa leitura de Matrix como signo da extrema-direita é sintoma também da:

1) Estrutura em rede de movimentos odiosos transnacionalmente;

2) A ambuiguidade de produções da cultura pop;

3) A urgência da leitura crítica da mídia nos sistemas de alfabetização.

Que Matrix 4 possa elucidar com potência que o sistema do qual Neo acorda é a matriz hegemônica: branca, cis, hétero, masculina e capitalista.

Algumas referências:

CAGLIONI, Cesar. Como o filme 'Matrix' se tornou símbolo na extrema direita. Nexo, 2020.

STERN, Alexandra Minna. Proud boys and the white ethnostate: How the alt-right is warping the American imagination. Beacon Press, 2019.

Se gostou do conteúdo, compartilhe para fazer com que ele chegue em mais pessoas. 

Estou no final do doutorado e pesquiso cultura pop há alguns anos. Tenho usado as plataformas digitais para popularizar o conhecimento científico, leituras queer da mídia -- com humor e diversão também.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

POR QUE O GOLPE DE BOLSO NAUFRAGOU

O historiador Fernando Horta fez no Twitter uma ótima análise do fiasco do golpe de Bolso. Não sei se a análise dele mudou depois do recuo covarde do Capetão, mas vale a leitura: 

Bolsonaro tentou o golpe, e ele não aconteceu. O que teria dado errado? O que efetivamente aconteceu para que os planos golpistas fossem frustrados? Seria apenas um erro de cálculo de Bolsonaro? Seria o fato de o Brasil ter "instituições fortes"?

É completo consenso que o que ocorreu no dia 7 de setembro foi uma tentativa de golpe. Por isso, todos os jornais e todos os partidos falam que "bolsonaro acabou". Sabem todos que a tentativa falha não faz com que Bolsonaro pare de tentar. E esse é todo o problema de Arthur Lyra 

Para entender o que aconteceu precisamos olhar para o dia 6 de setembro e não para o dia 7. Em especial para o final do dia. O que sabemos até agora já nos permite algumas interessantes explicações. 

Desde o início da semana, os hotéis de Brasília foram sendo tomados. Especialmente os hotéis de menores preços. Isso indicava o deslocamento antecipado de um bom número de pessoas com alguma capacidade financeira ou que estavam sendo financiados. 

No dia 6, quase todos os hotéis mais baratos de Brasília estavam lotados. Esse movimento não passou despercebido pelo STF e todo o aparato de inteligência por ele montado (já que a PF e a ABIN são tributárias de Bolsonaro). 

A partir das 12 horas do dia 6 a PM do Distrito Federal iniciou os planos de isolamento da região central da cidade (a esplanada dos ministérios) como parte do plano de segurança que é SEMPRE imposto em caso de manifestações. 

Da forma como foi planejada, Brasília fecha a entrada do povo nos locais de poder de forma muito fácil e efetiva. Apesar de planejada por um comunista, essa é uma característica urbana de Brasília muito útil aos poderes constituídos. Basta que a PM coloque barreiras no lugar. 

Por volta das 18 horas, numa ação claramente planejada aos moldes militares, bolsonaristas resolveram "testar a água". Um grupo de cerca de 600 pessoas passou a retirar as barreiras e os isolamentos e abrir espaço para os grandes caminhões que já estavam na cidade. 

Esse "destacamento avançado" com missão de reconhecimento foi abrindo espaço SEM A OPOSIÇÃO DA PM DO DF. A PM do DF é talvez uma das mais bolsonaristas do país. Aqui, sete em cada dez homens votaram em Bolsonaro. As PM aplaudiam literalmente os manifestantes contra Dilma ... 

Ibaneis, o governador, além também de bolsonarista, está envolvido até o talo com as maracutaias da saúde juntamente com a Precisa e Ricardo Barros. Ocorre que o governador convenientemente NÃO ESTAVA NO DF. 

Estava tudo arrumado para uma "pequena" indisciplina da PM de Brasília que seria o aviso para que o movimento incendiasse no país inteiro. Tudo passaria como uma azarada "falta de ordenamento" porque o governador não estava no seu lugar. Brasília, pela manhã, daria o tom do golpe 

Caso as mobilizações prometidas em número chegassem a Brasília, Bolsonaro faria da Paulista apenas seu palco de completo sucesso. O presidente contava com pelo menos um milhão de pessoas em Brasília e, com isso, a pressão sobre as outras polícias dos Estados seria insustentável.

Para entender o que deu errado precisamos voltar à noite e madrugada do dia 6. Percebendo a fúria com que os bolsonaristas progrediam destruindo as barreiras na esplanada e a complacência inicial da PM, vários atores políticos (como o deputado Paulo Pimenta e o jornalista Ricardo Noblat) passaram a ligar incessantemente para o governador Ibaneis, e usar suas redes para denunciar o estopim do golpe. Essa "gritaria" inicial chegou ao presidente do Supremo que, com a Corte em uníssono, entrou em contato direito com a PM do DF exigindo providências. 

A resposta da PM, pelo que apurei, foi puramente protocolar. O STF não é a autoridade imediata a que a PM precise dar satisfação. No fim, a constituição fala que as PM's estão subordinadas ao exército e aí veio o segundo golpe de mestre do STF. 

Fux ligou direto para os comandantes militares, ainda durante a madrugada, avisando que caso as PM's seguissem o comportamento leniente, ele (Fux) chamaria a GLO (Garantia da Lei e da Ordem) e convocaria as Forças Armadas para deter os manifestantes. É preciso compreender este ato para entender o dia 7. 

O que o STF fez foi adiantar uma tomada de decisão do exército brasileiro. As Forças Armadas esperavam PRIMEIRO a mobilização popular prometida, para ENTÃO apoiarem o levante. Estavam naquela madrugada, portanto, aguardando. O STF, contudo, exige uma posição imediata do exército. 

Do ponto de vista do STF a ação era simples. Negasse o exército a ordem de Fux e o golpe estava consumado. Não haveria necessidade da pantomina do 7 de setembro. Por outro lado, ao adiantar a tomada de decisão o STF elevava exponencialmente o custo desta ação para os militares. 

Na prática, tivessem os militares desobedecido Fux e no dia 7 as manifestações "flopassem" e os comandantes militares seriam processados por insubordinação e sairiam culpados de sedição. O preço era alto demais. A exigência da decisão ainda no dia 6 quebrava o plano bolsonarista.

No meio deste imbroglio todo duas figuras trabalhavam. Por um lado Alexandre de Moraes de posse das informações de inteligência mapeava o financiamento dos movimentos. Bloqueando as contas certas e as chave-pix, asfixiava os financiadores de Bolsonaro. 

Muitas "caravanas" de locais perto de Brasília não puderam sair por conta do dinheiro. O resultado foi o pífio número de apoiadores para que Bolsonaro fizesse o que estava planejado. Como era possível ver em Brasília, tinha muito mais "carro do que gente" segundo Rodrigo Pilha.

O outro ator que em silêncio agia era o vice-governador do DF, atuando diretamente com as PM's. Na falta de Ibaneis a desculpa das PM's para a inação não seria mais possível. O comportamento dual do governo (ora apoiando Bolsonaro, ora obedecendo o STF) já é em si golpista... 

Mas o vice governador compreendeu que recairia sobre ele toda a culpa de uma malfadada sedição que ocorresse nas PM's de Brasília. Novamente, o STF aumentava o custo da tomada de decisão e o vice precisou garantir as PM's na linha. 

Com a recomposição das linhas hierárquicas do exército -- a partir da cobrança do STF na madrugada do dia 6 -- e com a lealdade das PM's (ainda que a contragosto) garantidas, a margem de sucesso do golpe de Bolsonaro era pequena. 

No final do dia 6, percebendo seus planos diminuírem a possibilidade de se realizar, os filhos do presidente foram até os manifestantes que faziam a "frente" para o movimento na tentativa de insuflar o apoio necessário para a sedição no dia seguinte e também para impactar a PM.

Não funcionou. Tirando os apoiadores do fascismo de Bolsonaro, os outros agentes são o que chamamos de "atores racionais" e fazem um cálculo de custo e benefício das suas ações. Precisam, contudo, de informações completas e corretas para esse cálculo. E isso eles não tiveram. 

A tensa madrugada do dia 6 de setembro, que virou com fogos de artifício o tempo todo, determinou o fracasso do golpe do dia 7. O STF subiu o custo das ações políticas dos outros agentes e diminuiu o acesso destes agentes às informações que precisavam para a tomada de decisão. 

As ações não foram coordenadas entre os atores políticos que saíram denunciando a posição claudicante da PM no dia 6 e o STF que colocou "a faca nos peitos" dos comandantes militares, mas, de alguma forma, elas foram complementares. O golpe naufragou. 

Não podemos, contudo, achar que ele não foi dado. Que Bolsonaro não cometeu crime porque "o resultado não foi alcançado", como é o argumento dos defensores do governo na CPI. Se deixarem Bolsonaro solto, ele tem mais um 7 de setembro para tentar. E mais um ano para planejar. 

Aqui, meu balanço sobre o 7 de setembro de 2021.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

A IMAGEM DA DERROTA: BOLSONARO ARREGOU

Grande dia! Mas não começou assim. Fui dormir ontem receosa com uma parte "autônoma" (financiada pelo agro é pop) dos caminhoneiros fechando rodovias. Parecia que o golpe iria sair de um jeito ou de outro. Tinha gente até comemorando que Bolso havia decretado Estado de Sítio. Era fake.

Bolso divulgou um áudio pedindo o fim dos bloqueios. Os caminhoneiros golpistas não quiseram acreditar. Um deles escreveu no Whats: "Torcendo para que seja fake". Outro falou que tratava-se de uma mensagem cifrada. Muitos preferiram crer que era o (grande) comediante Marcelo Adnet imitando o presidente. O próprio Adnet aproveitou pra gravar um áudio com a voz de Bolso... mandando os caminhoneiros dançar "Macarena" sem parar, até que "aquele um" (o ministro Xandão) caísse (e a gente caiu na risada). 

A jornada de um dos líderes, Zé Trovão (eu jurava que era cantor sertanejo), foi exemplar. Como tantos outros bolsominions que foram jogados aos leões por Bolso, Zé foi entregue de bandeja à Polícia Federal. Ele já estava foragido no México, e foi o Itamaraty que avisou. 
De madrugada, Zé fazia vídeos implorando: "O senhor está nos convocando desde o começo do ano, presidente! O senhor é a nossa última salvação! Estamos do lado do senhor!" À tarde, o barbudo já tinha mudado de discurso. Agora implorava para que seus colegas removessem qualquer faixa de apoio a Bolso, já que "Nossa luta é contra o Alexandre de Moraes, é contra a corrupção, a bandidagem. Não estamos de maneira nenhuma defendendo o presidente, nem contra nem a favor". 

(Desculpa, Chico!)

Mas o pior ainda estava por vir. Hoje à tarde Bolso divulgou uma carta aberta recuando legal. Dois dias depois de chamar o ministro do STF Alexandre de Moraes de "canalha", exigir seu impeachment e gastar milhões de reais do nosso dinheiro levando o gado para Brasília e SP pra pedir o fechamento do Supremo Tribunal Federal, Bolso afirmou que "suas palavras decorrem do calor do momento". 

Mas calma que ainda pode piorar! Pouco depois ficamos sabendo que a carta não foi escrita por Bolso, mas por outro golpista, o ex-presidente Temer! Isso foi um pouco demais até para os seguidores mais fanáticos de Bolso, que neste momento estão desesperados, envergonhados, arrependidos, procurando uma quarta via. 

Lógico que esses abutres (principalmente aqueles que são muito bem pagos pra apoiar Bolso, no que o ministro Luis Roberto Barroso, em discurso contundente, chamou de "mercenários", pois ganham com a monetização da mentira) seguirão passando pano pro genocida, até porque não têm outro nome. 

Mas convocar outra manifestação com o gado vai ficar beeeem mais difícil. Pra esse eleitorado raiz, esses 15% ou 20% que ainda defendem o Capetão, a virilidade é fundamental. Bolso tem que ser macho tóxico, e é por isso que ele vive se dizendo "imbrochável", por exemplo. Desta vez ele definitivamente brochou. 

O pior presidente de todos os tempos (pior que Collor! Pior que o escritor de cartas Temer!) sempre "governou" assim, através do morde e assopra. Já já ele morde de novo... e arrega de novo. Sempre foi um covarde. Não vai mudar agora.