sexta-feira, 26 de novembro de 2021

BOLSO VAI MESMO CONCORRER À REELEIÇÃO?

Meu querido leitor Avasconsil faz umas análises políticas bem afiadas. Será mesmo que Bolso pode desistir de concorrer à reeleição? (pessoalmente creio que não, embora ele possa tentar negociar não concorrer em troca da garantia de que nem ele nem seus filhos serão presos). Agora, que o candidato da grande mídia é Sérgio Moro, ninguém tem qualquer dúvida. Leiam o que Avasconsil escreveu e comentem:

Tem uma notícia ou outra de que pessoas no entorno de Bolseboso estão tentando convencê-lo a concorrer ao senado, em vez da presidência. Encontrei-as usando o Google. Mas, a par disso, tá bem nítido que Moro é o Bozo de 2022. Um Bozo mais contido, mas tão autoritário quanto. Com o agravante de que boa parte dos membros do judiciário e do ministério público é morista até hoje (um percentual bem superior aos que são bolsonaristas); ou seja, pouco se importam que no combate à corrupção, ele e a equipe tenham se colocado acima da constituição e dos códigos. 

Segundo Moro, cumprir a lei maior e as demais leis é mero formalismo ou excesso de formalidade, não lembro mais as palavras exatas. Por incrível que possa parecer, boa parte dos juízes e dos promotores concorda com isso. Eles dizem que é impossível combater a corrupção e a criminalidade seguindo todas as regras previstas na constituição e nos códigos. Como sou parte da criadagem do sistema de justiça, canso de ouvir esse tipo de coisa saindo da boca dos lords e das ladies. Ou seja, os fins justificam os meios. E eles são a lei e o estado; são um Luis XIV repartido em vários corpos. 

A candidatura do Bozo está nitidamente sendo desidratada e substituída pela de Moro. E tem a biografia de Bolseboso: ele não tem brilho intelectual algum, todo mundo já sabe. Mas é muito oportunista (todo mundo já sabe também). Caso ele não esteja participando dos planos de desistir da presidência, e é possível que ele já tenha feito essa opção, ele a fará se perceber que não terá chance de ir pro segundo turno, ou que, indo pro segundo turno, vai perder. 

Eu acho que ele tá no balaio dos que querem abrir os caminhos pra Moro tentar vencer Lula ano que vem. Ele sabe que seria um fiasco participando de debates. Sabe também que um novo atentado de mentira soaria muito estranho. 

Não se surpreendam quando ele desistir da candidatura à reeleição. Acontecendo mesmo, faz parte dos cálculos do Bolseboso e dos André Esteves da nossa elite financeira e econômica. De abrupto só vai ter mesmo o anúncio. A preparação está em curso cuidadosamente, como são preparados os jogos mortais de Round 6. Os peões no tabuleiro do jogo somos nós. Lembremos a música que Ney Matogrosso cantou: é por debaixo do pano...

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

COMO DEVE SER UM ABORTO LEGAL E SEGURO

A ONG Cepia publicou no seu Instagram uma história ilustrada mostrando como o aborto por telemedicina pode ser seguro e acolhedor. 

Reproduzo os cards aqui, e também a #audiodescrição

10 cards de fundo verde escuro com história de Lurdinha, menina negra de cabelos crespos e longos.

Dia de sol, diversos meninos e meninas. Texto: Lurdinha estava em um churrasco. Tudo muito animado até que as amigas deram por falta dela. Ao lado, Lurdinha está numa cama e amparada por amiga que diz: Ela está desmaiada!

Lurdinha sentada em um banheiro segura um teste de gravidez Texto: Um rapaz tinha dopado Lurdinha. Com a menstruação atrasada, ela fez o teste de gravidez que deu...

... Positivo. Lurdinha quebrou o silêncio e contou tudo para a mãe. Elas conversaram...Ela abraça a mãe.

No hospital, Lurdinha é atendida. A mãe levou a filha, de apenas 14 anos, pro atendimento a vítimas de violência sexual. O exame de sangue confirmou a gravidez, que Lurdinha decidiu interromper.

A menina é atendida por duas profissionais que estão de pé e uma que está em uma cadeira de rodas. Elas conversam: Foi estupro. Ela está com menos de 9 semanas e quer interromper. O procedimento pode ser feito por telemedicina em casa e com todos os cuidados. Lurdinha e a mãe receberam as orientações para o teleatendimento, o kit de comprimidos e os contatos para dar notícias e tirar dúvidas.

Mãos de Lurdinha que assina um termo de responsabilidade. Lurdinha assinou documentos. Estavam aliviadas de poder receber os remédios pra fazer o procedimento em casa. Tinham medo de ficar no ambiente hospitalar por causa da pandemia.

Deitada numa cama, a menina conversa ao telefone com a médica. Ao lado, a mãe lê um bloco escrito: orientações. Lurdinha foi feliz em ter sempre a mãe apoiando.

Em uma chamada pelo computador a médica pergunta: Como está Lurdinha? Posso falar com ela? A mãe responde: Ela está muito bem, doutora. Nem está aqui. Foi tomar banho de rio no sítio do avô.

Lurdinha sorridente num rio com outras três crianças.

Lurdinha retornou ao hospital. Conversou com a psicóloga. Estava feliz e cheia de planos para o futuro. No consultório, é atendida, por uma mulher que está sentada em uma cadeira de rodas.

A CEPIA participa dessa iniciativa com @nempresanemmorta, @grupocurumim, @coletivohelenkeller, @portalcatarinas

terça-feira, 23 de novembro de 2021

LEI MARI FERRER FOI SANCIONADA E JÁ ESTÁ VALENDO

Ontem foi sancionada a lei no. 14.245/2021, que ganhou o nome de Lei Mariana Ferrer em homenagem à influencer que denunciou um estupro em dezembro de 2018. 

A lei prevê punição para quem constrange vítimas de violência sexual e testemunhas em julgamentos. Ao contrário do horror que aconteceu na audiência de Mari Ferrer em julho de 2020, a lei estipula que todos os presentes num julgamento devem assegurar a integridade física e psicológica da vítima. 

Tem otários (que eu não sei se são otários pagos ou voluntários) que gritam que foi uma edição, que a gente não viu a audiência (de cinco horas!) inteira, que o juiz tão bonzinho perguntou a Mari se ela estava bem e se ela queria parar um pouco para tomar água. Como o patriarcado é gentil!

Na realidade, a fatídica audiência ocorreu em julho do ano passado, online, mas só veio à tona quando a jornalista Schirlei Alves, primeiro no Nd+ (de Santa Catarina) e em novembro no Intercept Brasil, escreveu sobre ela (pouco depois Schirlei foi demitida do jornal catarinense). O que a jornalista contou revoltou o Brasil. Primeiro que a sugestão de absolver o acusado veio do promotor, que agiu mais como advogado de defesa ao inventar o tipo penal "estupro sem intenção de estuprar". Segundo que Gastãozinho, o advogado do acusado, fez de tudo para ofender Mari, dizendo "graças a Deus não tenho uma filha do teu nível, graças a Deus, e também peço a Deus que meu filho não encontre uma mulher feito você" e condenando a "pose ginecológica" de Mari numa foto. 

Bem antes de qualquer julgamento legal, uma médica legista analisou algumas fotos que Mari postava no Instagram e escreveu um laudo ressaltando "um traço narcisista e exibicionista". Quer dizer, todo e toda jovem que tira selfies, posa pra fotos e as posta nas redes sociais deve ter esse traço, não? 

O que a médica legista e o advogado de defesa fizeram é clichê: culparam a vítima. Sugeriram que Mari ou foi responsável pelo que sofreu, ou que está mentindo, ou ambos. Qualquer pessoa que já viu algum filme relacionado a julgamento sabe como vítimas são tratadas. São vistas como criminosas e mentirosas. Às vítimas cabe relembrar nos mínimos detalhes uma das piores violências sofridas e serem questionadas, desacreditadas e culpadas a cada instante. Isso é cultura de estupro.

O procurador Vladimir Aras, muito ligado à defesa dos direitos humanos (tive a honra de compartilhar uma mesa com ele em Brasília sobre a aplicabilidade da Lei Lola), escreveu uma thread no ano passado, depois da terrível audiência, lembrando que em países que "adotam regras precisas de direito probatório", a escandalosa audiência em que Mari foi humilhada não aconteceria. Nos EUA, por exemplo, diz ele, existe o "rape shield act", que "visa proteger a vítima ou a suposta vítima de invasão de privacidade, de sujeição a estereótipos sexistas ou de humilhação, que poderia advir da revelação de detalhes de sua vida sexual pretérita. Evita-se a introdução de insinuações no processo decisório". Essa regra, que foi adotada primeiro em Michigan, depois foi reproduzida na Nova Zelândia, Austrália e Canadá. Mas aqui não havia nada do tipo. 

Pra quem acha que o pior presidente de todos os tempos tem alguma coisa a ver com a lei só porque a sancionou, vale ressaltar que uma das funções presidenciais é justamente essa -- a de sancionar leis aprovadas pelo poder legislativo. Assim como o então presidente em exorcismo Michel Temer sancionou a lei no. 13.642, a Lei Lola, o genocida sancionou a Lei Mari Ferrer. Isso não o faz de maneira alguma autor da lei. O projeto de lei é de autoria da deputada federal Lídice da Mata (PSB-BA) e outros 25 deputados. A lei foi votada e aprovada primeiro na Câmara de Deputados, e depois no Senado. Se o Capetão vetasse a lei, ela voltaria para o Congresso, que tem poder para derrubar vetos presidenciais. 

É óbvio que quem acha que não existe estupro e que toda denúncia é falsa e parte de mulheres fingidas e oportunistas (todo misógino acha isso, exceto se a denúncia for contra alguém que ele não gosta) vai considerar a lei uma violência contra eles. Onde já se viu, não se pode desmascarar uma golpista numa audiência acusando um pobre homem inocente? Porém, qualquer pessoa que não seja incrivelmente estúpida ou monstruosa entende que a enorme maioria das vítimas de estupro não mentem e não merecem ser culpadas e tratadas como criminosas. 

A Lei Mari Ferrer é, portanto, uma conquista de todas as mulheres. É uma conquista para Mari, que viu o acusado de seu estupro ser absolvido duas vezes, e que continua lutando para anular o processo e levá-lo ao STF, já que a justiça de Santa Catarina se mostrou bastante suspeita. Continue, Mari, não desista! Parabéns e obrigada pela sua garra, guerreira!

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

TOURO DE OURO, OURO DE TOLO

Terça-feira passada foi inaugurada no centro de São Paulo o "Touro de Ouro", uma enorme estátua feita pelo artista plástico e arquiteto Rafael Brancatelli sob encomenda para a B3 (que, fiquei sabendo agora, antes se chamava Bovespa). 

Um dos faria limers responsáveis pela instalação da estátua de uma tonelada em fibra de vidro tem um programa na Jovem Klan em que ele grita "Vai, tourinho!" quando a bolsa sobe, se eu entendi direito. Esse cidadão de bens vê a escultura como um presente para SP e diz que esculturas de touro "representam o otimismo com o mercado financeiro".

Otimismo de quem? Na Praça da Sé, a 350 metros da frente do edifício da Bolsa de Valores, famílias sem teto dormem em barracas. Na bolsa, agora adornada por um bezerro de ouro, homenageia-se o deus mercado.

Já que o touro é visto como símbolo do capitalismo, não tem como a estátua não representar a desigualdade econômica e social no país. No dia seguinte à inauguração, os movimentos Fogo no Pavio e Raiz da Liberdade colaram um cartaz escrito "Fome" na escultura. Segundo a integrante Tabata Luz, o protesto foi "um recado direto ao governo Bolsonaro e a toda a elite brasileira que sustenta o presidente". Em setembro, manifestantes do MTST (Movimentos dos Trabalhadores Sem Teto) e da Frente Povo Sem Medo já haviam protestado contra a fome, ocupando o saguão da Bolsa. 

Na quinta, o movimento Juntos fez um escracho, colando lambes de "taxar os ricos" na estátua e lançando a campanha "Nem a fome, nem os bilionários deveriam existir: taxar os ricos para combater a crise". À noite, a ONG SP Invisível distribuiu churrasquinhos em frente à estátua. 

Guilherme Boulos, candidato do Psol ao governo de SP, entrou com uma ação popular pedindo que a prefeitura retire o touro. Para ele, o espaço público está sendo usado indevidamente. Mesmo assim, a escultura tem autorização para ficar no local por apenas três meses. Até lá, suponho que seja palco de protestos diariamente.

Muita gente anda dizendo que o Touro de Ouro é uma cópia da famosa "Charging Bull" (touro em investida), colocada clandestinamente em Wall Street, Nova York, em dezembro de 1989 pelo escultor Arturo Di Modica (que morreu em fevereiro). Tanto que a família do escultor parece estar pensando em processar o escultor brasileiro. 

Para O Partisano, "Deve ser algum tipo de humor inglês, pois o boi brasileiro claramente não é uma réplica do estadunidense – como aliás o próprio Brancatelli faz questão de reforçar. Feito com estrutura de aço e fechamento de fibra de vidro pintada de dourado, o bicho de uma tonelada lembra mais um boneco de carrossel que o Charging Bull de Wall Street. Nada da sutil musculatura e as costelas visíveis produzidas pelo siciliano: em seu lugar uma massa amorfa. Os chifres estão na horizontal, ameaçando os olhos dos transeuntes; o rabo apoiado no costado – provavelmente por falta de estrutura – parece espantar moscas e não ensejar um ataque; os glúteos avantajados dão a entender que o animal era frequentador de alguma academia de Faria Limers; curiosas argolas próximas aos cascos, nas quatro patas, lembram mais uma tornozeleira da Polícia Federal que os mocotós de um bovino saudável; a feição apaspalhada de quem ouviu uma piada e não entendeu talvez remeta à mentalidade de seus idealizadores". 

A escultura de Wall Street rapidamente se tornou uma atração turística. De tanto serem esfregadas, as bolas do touro já mudaram de cor. Alguma superstição promete que tocar os testículos de um boi traz prosperidade. Por aqui, já pipocam fotos de pessoas sem a menor vergonha com as mãos no saco do touro de ouro.

E lógico que o touro de Wall Street coleciona protestos anticapitalistas. Aliás, um dia antes da inauguração da estátua dourada em SP, o movimento Occupy Wall Street, que reuniu milhares de pessoas em vários lugares do mundo para protestar contra a ganância e corrupção, com aquele slogan bacana do "Nós somos os 99%", completou dez anos

Em 2019, ambientalistas jogaram sangue falso no touro de Wall Street, e uma manifestante do grupo Extinction Rebellion ficou de pé na estátua com uma bandeira verde. O protesto reproduziu um cheque de vinte bilhões de dólares, simbolizando como o mercado financeiro tem subsidiado a indústria petroleira.

Mas meu protesto favorito contra o touro nova-iorquino nem é um protesto de fato. 

Em 2017, na véspera do Dia Internacional da Mulher, surgiu em frente ao "Charging Bull", também ilegalmente e de surpresa, uma estátua de um metro de uma menina que ficou conhecida como "Garota Destemida". Di Modica não gostou nada da escultura feita por Kriten Visbal e disse que ela "distorcia a impressão" da sua arte. 

Apesar da beleza e simbologia da estátua da garota (uma corajosa menininha de um metro enfrentando um touro gigantesco), a Menina Destemida é uma peça publicitária do próprio mercado, criada por um empresa do ramo financeiro para incentivar a entrada de mulheres nos negócios. Ou seja, um exemplo do capitalismo se apropriando do feminismo. A estátua ficou treze meses encarando o touro, e depois foi recolocada a três quadra de distância -- já fazia três anos que ela não desafiava mais o touro. Sua licença expira agora, em 29 de novembro, e a prefeitura de NY ainda tem que decidir se vai deixá-la lá, colocá-la em outro lugar, ou despejá-la de vez.

Independente da intenção original de seus autores, estátuas representam coisas, pessoas, ideologias.  No Brasil de Bolsonaro, cada vez mais afundado na miséria, em que os pobres comem ossos e pés de galinha, uma cafona estátua dourada lembra demais o gado que idolatra o falso messias. 

Sem falar que este deve ser o pior timing possível para se fazer uma homenagem ao capitalismo. O planeta inteiro empobreceu com a pandemia (que ainda não acabou), mas a concentração de renda só aumentou. Os bilionários não faliram. Pelo contrário, lucraram com a desgraça alheia. No Brasil, o 1% mais rico era dono de 46,9% das riquezas do país antes da pandemia. Agora, é dono de 49,6%, praticamente a metade. É exatamente isso que o touro dourado celebra.

UPDATE em 24/11/21: O touro de ouro foi removido pela B3. A Comissão de Urbanismo de SP decidiu que a estátua era uma peça publicitária e não tinha licença para estar lá. A empresa Dmaisb, responsável pela peça, será multada. Que vexame, hein? A Bolsa de Valores mais uma vez pondo seus interesses como se fossem representativos do povo...

sábado, 20 de novembro de 2021

20 DE NOVEMBRO: DIA DE LUTA NEGRA E ANTIRRACISTA

Hoje, dia nacional da Consciência Negra, tem manifestações em todo o Brasil para derrubar o maior racista do país. A tag é #20NForaBolsonaroRacista 

Na última quinta, o Senado aprovou um projeto do senador Paulo Paim (PT-RS) que, ao classificar a prática de injúria racial como racismo, aumenta a pena para o crime, o que pode resultar em prisão de dois a cinco anos. O projeto ainda precisa ser aprovado na Câmara dos Deputados para passar a valer. 

Ontem houve um ato inter-religioso online para marcar um ano do assassinato de Beto Freitas, no Carrefour em Porto Alegre. O movimento Minha fé é antirracista foi um dos responsáveis pelo protesto.

Anielle Franco, diretora do Instituto Marielle Franco e irmã da vereadora assassinada há quatro anos no Rio de Janeiro, será a entrevistada de segunda-feira do Programa Roda Viva, na TV Cultura, às 22h. Imperdível.

Vale a pena também ver os vídeos da Abong (Organizações em Defesa dos Direitos e Bens Comuns) para o Novembro Negro. São vídeos com reflexões para enfrentar o racismo institucional. Há também uma cartilha.

Para as negras e negros, todo dia é dia de luta.