sábado, 29 de novembro de 2003

CRÍTICA: X-MEN 2: Mutantes a granel

Fui ver “X-Men 2” me lembrando vagamente de que tinha gostado de “X-Men 1”. Mas a sequência já começa de um jeito preocupante, com uma das mutantes dizendo “Sinto que alguma coisa terrível está pra acontecer”. E acontece. É o filme em si, que se estende por mais duas horas. Se eles tivessem matado o presidente americano no início ainda ia. Qualquer produção que mate presidente americano tem o meu apoio. Mas não. Eles vão matar, chegam bem pertinho, e na hora h o carinha se safa. Pelo menos o presidente não aparece como salvador do universo.

Tá, talvez “X-Men 2” não seja tão ruim assim. O maridão defendeu que, gostando dos quadrinhos da Marvel, dá pra engatar o cérebro em ponto morto e deixar-se levar pelas aventuras. A minha queixa é que o filme demora demais pra começar. Enchem a tela de esquetezinhos que não dão em nada. Ou melhor, dão sono. Ah, sim, a história. Você conhece: há uma legião de super-heróis mutantes. A sociedade humana às vezes não gosta deles, tem medo do que não entende. Um vilão quer exterminá-los. Ele não vai conseguir.

Tem mutante de tudo que é tipo. Tem mutante careca, mutante deficiente-físico, mutante-mirim, mutante azul-com-escamas, mutante roxo com bolinhas rosas (deve ter). Só não tem mutante gordinho, mutante bigodudo (pra não lembrar o Saddam), e mutante negro. Opa, a Halle Berry é negra?! Sei, sei. A moça que faz a Tempestade é divina e maravilhosa, mas o Michael Jackson tem pele mais escura.

Então, tem tanto super-herói em “X-Tudo” que é inevitável que vários fiquem ociosos. O meu preferido é o Wolverine, interpretado pelo Hugh Jackman. A gente sempre pode confiar no Wolvie pra aparecer carregando uma criança no colo. Tem também o mutante-mauricinho, que já vem com óculos escuros. Acho que o nome dele é Ciclope, codinome Scott. Eu perguntei pro maridão qual mutante ganhava o Oscar de pior ator. Ele respondeu: “o Scott”. Resposta correta! Aí eu perguntei qual o mutante mais mala, e ele respondeu: “o Scott”. Errado, anjo. Este título cabe ao mutante-crente, vulgo Noturno. Não basta ser mutante, ainda tem que proferir “O Senhor é meu pastor e nada me faltará” a cada vôo?! Santo porre, Batman! Sei que é pra cativar a direita-fundamentalista-cristã no poder nos EUA, mas cansa.

Outro problema com o excesso de super-heróis é que a gente acaba perdendo juízo de valor. Por exemplo, numa luta entre o Wolverine e o mutante-mauricinho, digo, o Ciclope, quem ganha? Quem é mais forte, o Magneto ou o Prof. Xavier? Deve ser o Xavier – a gente espera a Enterprise entrar em cena a qualquer momento. Mas sabe, é aquele negócio de facas Ginzu versus meias Vivarina. As facas Ginzu cortam qualquer coisa, as meias Vivarina resistem a qualquer coisa. A pergunta que não quer calar é: as facas Ginzu cortam as meias Vivarina? Ou: o mutante-congelador tem alguma outra função na vida fora esfriar a cerveja do Wolvie?

Gostei muito da cena em que a Vampira resgata os heróis aterrissando um avião em cima deles. É a velha tática americana de destruir um povo para melhor salvá-lo. Ahn, precisa ser super-heroína pra estacionar avião daquele jeito? Eu comecei a rir descontroladamente. O maridão olhou pra mim e perguntou, “Que foi, tá se identificando com a piloto?”. Não, sério, outra coisa que gostei foi do subtexto gay. Parece que o diretor Bryan Singer e o Ian McKellen são abertamente homossexuais. Isso deve explicar a existência de piadinhas como uma mãe questionar o seu filho mutante se ele não pode tentar deixar de ser mutante, ou do Noturno querer saber da Mística, que pode assumir qualquer forma, por que ela não assume definitivamente uma forma “normal”. Claro, não sei se o público fisgou essas mensagens subliminares de aceitação do diferente. Que o público não se empolgou com “X-Bacon”, eu tenho certeza. Tanto que o cinema tava cheio de adolescentes pipoquentos loucos pra berrar e eles só puderam extravasar numa ocasião. Foi quando um telefone celular tocou na platéia. Um dos maiores “êêêê” que já ouvi.

3 comentários:

Milla disse...

Huahuahuahuhauahuhauhauhauhauh...
Suas críticas sao insuperáveis!!

Koppe disse...

Não tinha lido esse post ainda. Só pra constar: Noturno não foi caracterizado como religioso só pra agradar a direita cristã. Ele é assim nos quadrinhos, desde os anos 80, e pelo que consta nas HQs ele quase chegou a ser padre. Se isso fosse invenção do filme, teriam arranjado briga com os leitores que reclamam de qualquer mudança desse tipo.

GLStoque disse...

Os filmes dos X-men estragaram toda a magia... e o segundo é o que eu mais gosto.

Simplesmente, por causa de três cenas de luta.

A primeira do Noturno contra tudo, a segunda da Lady Letal (a mulher que cresce as unhas) com o Wolverine (tirando a parte que ela do nada, perde a briga) e a da Mística contra todos no final.

O resto é lixo. Poderiam ser duas horas dessas sequências.