terça-feira, 27 de novembro de 2001

CRÍTICA: LEGALMENTE LOIRA / Vamos processar as loiras?

Mantenho-me distante de “Harry Potter”, mas meu empenho vai perdendo força ao ouvir que surgirá nas telonas a próxima produção da Xuxa. Além disso, sinto que alguém que não vai assistir “H.P.”, mas, em compensação, prestigia “Legalmente Loira”, não tem moral para insistir em boicote. Portanto, esta talvez seja minha última semana de “Pedra Filosofal? O que é isso?! Um novo tipo de sabão de coco?”.

Ok, antes de malhar “Legalmente Loira”, quero esclarecer que nada tenho contra loiras, naturais ou oxigenadas. Também não tenho nada a favor. Acho ridículo discriminar quem quer que seja pela cor do cabelo ou da pele. Conheço várias pessoas loiras que são inteligentíssimas. Bem, não são exatamente pessoas... Estava pensando mais no meu gato amarelo. E há o maridão que, se não fosse calvo, seria praticamente fulvo. Logo, é irrefutável que sou alguém sem preconceitos.

Dito isto, ainda bem que sou morena! Sim, porque se esta comédia acéfala destina-se ao público-alvo flavo, isto realmente depõe contra as loiras. A trama é a seguinte: uma moça rica e desocupada, que vive no campus de uma faculdade californiana, numa irmandade que bem poderia se chamar The Doors (As Portas), com dúzias de garotas como ela (serão clones? Admirável mundo novo!), prepara-se para tornar-se noiva de um rapaz parecido com o Bush quando jovem, descontando o alcoolismo e a mirada debilóide do atual presidente. Na hora h, o sujeito desmancha o namoro, afirmando que tem uma reputação a zelar, e que um futuro político como ele se casa com Jackies, não com Marilyns. A loira fica jururu e decide estudar Direito em Harvard, para provar ao carinha que tem algo mais entre as orelhas do que só cabelo. Claro que ela é aceita na prestigiada universidade, claro que ela enfrentará as piadinhas dos colegas, claro que ela não mudará o seu jeito de ser em um centímetro, e claro que no fim ela triunfará, porque, como todos sabemos, o bem sempre triunfa. Aprendemos isso no cinema.

Olha, isso tudo é lindo e confortante e traz lágrimas aos meus olhos, mas “Legalmente Burra” faz Direito parecer algo fácil demais de aprender. Nossa Barbie devora livros constitucionais enquanto pinta as unhas ou se exercita na bicicleta. Sua mente é uma esponja – ela capta todas as letrinhas miúdas. Mas seu vocabulário não muda. Ela continua iniciando cada frase com “tipo assim”. Eu não entendo bulhufas de leis, mas sinto-me uma autoridade em Código Penal se comparada à protagonista do filme. Apesar disso, ela é vista como brilhante. Quiçá seu penteado reluzente tenha ofuscado uma opinião mais consciente dos outros personagens.

Agora, responda rápido. Aliás, pode pensar à vontade. Reflita: você está sendo acusado de assassinato e corre o risco de pegar prisão perpétua ou pena de morte. Você gostaria de ser representado por uma advogada que se preocupa mais com o modelito que vai desfilar no tribunal do que com a sua defesa? Imagina se ela perde e você recebe serviços forçados como punição. Imagine se os tais serviços incluam ver filmecos como este mais de uma vez. Honestamente, acho as loiras umas gracinhas, e rezo pra que a Xuxa vire a Hebe quando crescer, mas se eu tivesse um tumor no cérebro e precisasse optar por um neurologista, preferiria ser operada por alguém que não gaste três horas diárias no cabeleireiro. Não sei quanto a você.

No final desta comédia 100% sem graça, aparece uma sucessão de atores em close, todos com olhar meio esbugalhado. Nossa Vênus Platinada, então, nem se fala. Ela é interpretada por Reese Witherspoon, que já esteve em pelo menos um filme bom (“Eleição”). Certo, ignore o “pelo menos”. Se eu fosse preconceituosa de verdade, diria que “Legalmente Porta” foi dirigido por uma loira. Como não sou, fico por aqui clamando por uma nova lei – uma que regulamente a ilegalidade de se realizar um cinemão tão demente como este.

11 comentários:

Maik disse...

Geralmente gosto dos seus posts, mas esse ficou com um quê de pedantismo pseudocult. Nem todo filme é filosófico, cinema não tem que nos ensinar nada, e existem prazeres meramente fruitivos. Quando se pende para a opinião, não se faz crítica, se faz juízo. Sem falar que pedantismo é coisa de quem não sabe, e duvido que esse seja o seu caso.

Patrícia disse...

Eu acho "Legalmente Loira" um filme legal, talvez até goste mais da Reese do que no filme.Confesso que acho chato demais essa coisa de "loira burra" presente em muitos filmes. Mas nem todo filme ta aí pra passar uma grande mensagem, às vezes é apenas pra nos distrair.

Seu blog é ótimo. Adoro ler seus longos posts,embora pouco comente. Suas críticas perante ao mundo são muito inspiradoras. Confesso que aprendo um pouco com o que leio aqui.

beijos Lola.

Paulinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulinha disse...

Lola, leio seu blog há um tempo, embora nunca tenha comentado antes aqui, e gosto muito das coisas que escreve. Me faz refletir ainda mais sobre os assuntos - e há quem diga que pensar demais é ruim. Eu discordo ;)

Curti sua crítica sobre o filme, porque realmente faz parecer que direito é muito fácil e basta dividir seu tempo para aprender tudo e se tornar uma competente advogada. E sabemos que para sermos competentes em uma carreira não basta memorizar coisas. Mas agora vou responder sua questão.

Não acredito que a competência de alguém esteja relacionada a sua aparência. Se meu advogado for bem aparentado, atraente, bonitão, isso é o menos importante, desde que me represente bem. Se ele é bom no que faz, não importa se é feio, bonito ou passa horas na academia. O mesmo é válido para advogada e as horas dispensadas por ela no salão.

Se eu tivesse um tumor no cérebro preferiria ser operada por alguém bem capacitado e que pudesse me curar.

Todos temos direitos à vaidade, ao lazer, enfim, a fazer coisas que nos agrade - desde que isso não nos impeça de realizar bem nossa função social. Inclusive, acredito que se não nos dedicarmos alguns momentos de "fuga" de responsabilidades, não conseguimos arcar bem com elas.

Espero que entenda o que quero dizer.


Não pude deixar de lembrar, porém, de uma figura que você já deve ter ouvido falar: Dr. Robert Rey. Ele é cirurgião plástico, brasileiro sitiado nos EUA e um dos caras mais vaidosos que já vi na tv e no mundo do entretenimento. Você já viu algum programa dele?

Beijos e parabéns pelo blog - um dos raros que gosto de ler!

Ana Paula - 24 - jornalista - Santos, SP
(@paulilinha)

Madrasta do Texto Ruim disse...

é, você realmente precisa ver o filme, pq não é exatamente o que você relatou em sua sinopse:
Trata-se de uma garota "burra", cheerleader de uma high school, que sempre namorou o bonitão jogador de futebol da escola e, agora que os dois estão saindo da high school e ELE vai cursar direito, ela tem total certeza de que ele irá pedi-la em casamento.
aí tem o jantar entre os dois, onde ela acredita que vai receber a proposta de casamento, e na verdade ganha um pé na bunda.
Daí, ela decide ir para A MESMA FACULDADE para a qual o amado entrou, na esperança de mostrar a ele q ela pode, sim, ser inteligente e cursar direito, e assim conquistá-lo. O Pai dela, que tá mais pra CEO da revista Playboy, ri da cara da filha, e diz q isso não é coisa para meninas como ela. Mas lea insisgte, estuda, se esforça horrores e consegue passar POR CONTA PRÓPRIA.
AO entrar na faculdade, seu mundo entra em conflito com o mundo de Harvard, e ela sofre discriminação - principalmente da morena que ela descobre ser a real noiva do ex dela.
E percebe que só conseguirá vencer naquele mundo com os neurônios (ainda que não saiba muito bem como usá-los).
Mas ela também vislumbra outros prazeres do mundo intelectual:
- ela fica sabendo que o ex dela só conseguiu entrar na faculdade depois que o pai mexeu seus pauzinhos - ao passo que ela entrou por mérito próprio;
- ao vencer seu primeiro julgamento, ainda como estagiária, ela vira pro ex e diz: "Vencer esse julgamento é muito melhor do que aquela noite que nós passamos na banheira!"
ao final (ah, vou ser spoiler, mas vc sabe melhor q eu q o filme é um desfile de clichês), ela e a atual noiva do bonitão descobrem q o bonitão em questão é um canalha, e ambas o abandonam.
No meio do caminho, o professor e dono de um escri de advocacia sugere q ela só terá futuro se for pra cama com ele - e ela se recusa.
claro q o filme faz com que o mundinho dela solucione o caso em questão (ela percebe q o jardineiro é gay pq comentou sobre o Prada coleção 2004 dela, e descobre o verdadeiro assassino por causa de um detalhes sobre cuidados com cabelos que sofrem permanente)
Isso sem contar com a auto-estima da manicure maltratada pelo ex-marido, que lhe roubou o cachorro, que ela ajuda a reaver etcertcetc.
Na boa? O filme é uma prova de que existe "coisa de mulherzinha", sim, e de que esse mundo da "coisa de mulherzinha" é perfeitamente compatível com o mundo "intelectual".
Se eu fosse você, tentava ver o filme. Relaxe, estoure umas boas pipoca, prepare uns bons drink e assista sem compromisso (cara, é uma comédia água-com-açúcar de sessão da tarde!). Tenho cá pra mim que você vai gostar do filme, sim!

Bjoquíssimas!
Bruxa

Mais um blog. disse...

Eu particularmente amo aquele filme, mesmo, ela descobre que é capaz e conseguir qualquer coisa desde que se posicione: ela não só lê enquanto se exercita: ELA ABRE MÃO DA VIDA SOCIAL na faculdade um bom tempo e estuda muito! Enquanto mostram pessoas indo à festanças de universidade ela estuda, essa parte não foi citada.
Eu amo uma tinta de cabelo, mesmo que não seja loira, só ando de unhas feitas e amo mesmo roupas e sapatos O PROBLEMA É SE A PESSOA SE TORNA SÓ ISSO, amo meu curso, amo as pessoas amo tanta coisa uma delas é a vaidade e acho que todos temos o direito sagrado de nos portarmos como nos faz sentir bem, desde que ouros não sejam agredidos.
Eu amo mesmo seu blog, mas, eu vou ser uma museóloga FODA com um super salto e cabelo impecável assim como aquela minha amiga da engenharia que não se arruma e vai ser excelente, o que vale é a hora que corremos atrás do prejuízo essa é a mensagem do filme! =D
Esse é só meu ponto de vista, respeito sua opinião, mas eu posso ficar na internet, correr na rua, ir ao cinema, ou ir ao salão, isso não vai fazer meu cérebro diminuir nem vai me fazer uma profissional ruim desde que eu sabia dividir meu tempo.

Mais um blog. disse...

Errata desde que OUTROS não sejam agredidos.

Diane disse...

Então, quer dizer que a mulher tem andar de qquer jeito, ou então vestida que nem homem que daí ela convence?
Tudo bem, sei que não é isso que vc quis dizer, mas é isso que muita gente vai interpretar.
E, sinceramente, ia sentir muito orgulho de ser defendida por uma advogada MULHER que nao tem medo de se afirmar eqto MULHER e nao tem medo de ser feminia, só porque vai ter homem babando nela.
As melhores FEMINISTAS, são as FEMININAS!

Anônimo disse...

Olha, cada um tem o seu gosto quanto ao filme e respeito sua opinião. Agora você foi burra ao dizer que só porque ela é vaidosa ela não é inteligente, ainda sim disse que prefere ir em um medico que não se preocupe com o cabelo então vai em um medico sujo sua tola. Olha vaidade não tem nada ver com inteligencia e eu prefiro alguém como ela toda de rosa e sincera. Acho que você só diz isso porque tudo que representa no filme você não consegue ser. Nem bonita, nem bem sucedida e nem consegue homens lindos. Acho que tudo que disse é algo como raiva de sí mesmo antes de fazer um post sobre critica pense bem no que vai escrever...

Divas do Pop disse...

Adoro seu blog , vc escreve muito bem , conheci ele a pouco mais de um mês e me apaixonei , só que esse seu texto em si , me decepcionou muito , eu sei que esse não é o melhor filme do mundo , e que ele é até bem clichê , não muito inovador , mas a mensagem que passa nesse filme é muito bacana , é uma mensagem de superação a protagonista se esforçou pra conquistar tudo o que conquistou , msm tendo a oportunidade de ir pelo caminho mais fácil , ela lutou contra os esteriótipos , e principalmente seguiu os seus ideais até o fim , esse que é o bacana do filme , que apesar de ser um típico filme clichê americano , no final das contas ele nos passa uma mensagem coisa que muito que fizeram ou fazem até mais sucesso não passam !

lola aronovich disse...

Querida Divas do Pop, concordo contigo. Meu posicionamento mudou bastante de lá (a crônica é de 2001) pra cá. Foram 15 anos de amadurecimento. Tem várias crônicas antigas que nem me reconheço.
Tenho que ver o filme de novo! Não sei se gostarei dele, mas certamente vou vê-lo com outros olhos...
Abração e obrigada pelo puxão de orelha!