terça-feira, 27 de novembro de 2001

CRÍTICA: A SENHA / A senha é espada

Tá, eu mereço: fui ver um filme sobre computadores bem na semana em que o meu morreu. A autópsia revelou vírus. “A Senha” não é totalmente sobre pentiums; enfoca mais o mundo encantado dos hackers. Ou seria sobre terrorismo internacional? Ou sobre o futuro do elenco do “X-Men”? Não sei direito. Não me peça pra resumir a trama, que não existe uma trama linear, que faça qualquer sentido. Tudo é pretexto para cenas de ação.

“A Senha” até que começa bem, com um monólogo do vilão (o John Travolta com uma baba estranha no queixo – vão dizer que é um cavanhaque, mas não acredite), seguido por uma mulher que explode em mil pedacinhos. O discurso do John fala do baixo nível do cinema americano. Só que aí se vê que ele não centra a munição na rastejante produção atual, e sim num dos clássicos dos anos 70, “Um Dia de Cão”. Ninguém em sã consciência se arriscaria a dar mais argumentos contra os policiais de hoje sabendo estar entregando um produto ruim. Pra você ver como tem gente que não tem simancol. O Dominic Sena, diretor desta meleca aqui, deve achar que suas outras obras são artísticas. Ahn, isso vindo de alguém que cometeu “Kalifórnia” e “60 Segundos”. Camisa de força nele!

Se o John é o elemento mau do filme, o mocinho deve ser um cara aí cujo nome ainda não decorei. Hugh Jackman ou algo assim. Aquele um que fazia o Wolverine em “X-Men”. Aqui, a gracinha é um expert em computadores. Pois é, se você achava que rato de internet era aquele sujeito mal saído da puberdade, coberto com espinhas e óculos grossos, pense de novo. Certamente não é desse jeito que Hollywood vê os hackers. Hackers, segundo o cinema, são todos sujeitos atléticos e divinos. Deuses gregos. Não dá pra entender o que homens com esta aparência privilegiada fazem escondidos atrás de um teclado.

E parece ser facílimo virar hacker. Eu mesma talvez vire uma, agora que sei os benefícios que este tipo de atividade traz para a forma física. Basta ficar horas na frente da tela do computador, dar umas reboladinhas, fazer uma espécie de dança da chuva e pronto: qualquer senha é decifrada. Quer dizer, sem uma cadeira giratória pra rodar em cima deve ser impossível. A cadeira é imprescindível.

Você também pode tornar-se um hacker. Tem uma cena incrível em que descobrimos que o recorde mundial pra se entrar num sistema do governo é de 55 minutos. Apontam uma arma na cabeça do ex-Wolverine e avisam: você tem um minuto, ok? E ainda colocam uma loira pra fazer sexo oral nele. É claro que ele será bem sucedido. Olha, mesmo que o ex-Wolv seja um garanhão, desconfio que as chances de se conseguir uma ereção nessas circunstâncias são mínimas. Aliás, eu nem sabia que nerd tinha pênis.

No original, o filme carrega o título de “A Senha: Swordfish”, que quer dizer peixe-espada. Desista de encontrar qualquer explicação para este nome. Quiçá o espada sirva pra lembrar que todos os machões da estória são isso, espada. Há um carro que explode e fica cheio de buracos, mas são poucos se comparados à densidade burocrática da produção. Há um monte de pontos sem nexo. Por exemplo, uma subtrama mostra que o protagonista tem uma filhinha, como se isso servisse pra dar mais peso ao personagem.

Pra quem gosta de perseguições de carro, tem aquelas cenas que, após “Operação França”, parecem todas exatamente iguais. Conhece o tipo, né? O cara dirige um automóvel em velocidade máxima, cruza umas três avenidas, ninguém nem arranha o espelhinho dele. Enquanto euzinha aqui bato até em carro estacionado se não olhar pra onde vou.

Mas assistir à “Senha” inspira ações benevolentes. Saí do cinema prestes a começar uma nova campanha. Inclusive, já preparei alguns cartazes com os dizeres: Tarantino, tá na hora de salvar a carreira do John de novo! Lembre-se dele pro seu próximo filme!”. Pra não me chamarem de mal-humorada, vou acabar com uma piadinha. Qual a diferença entre um argentino e um terrorista interpretado pelo John Travolta? O terrorista tem simpatizantes. E ninguém precisa saber que sou argentina.

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