Este excelente artigo de Sarai Walker publicado na revista do The New York Times foi traduzido por Renata Vilarinho (super obrigada, Renata!).
Não faz muito tempo uma mulher num encontro do clube do livro me fez essa pergunta. Eu tinha sido posta numa sala para conversar via Skype sobre meu romance com um grupo de mulheres profissionais que bebiam vinho e beliscavam esperando pela minha resposta. Eu sabia que minha cara estava num monitor flat-screen gigante, sorri para esconder meu pânico e respondi a ela e ao resto do grupo no piloto automático.
Eu já fui questionada pelo uso da palavra com G muitas vezes, por leitores e jornalistas. Às vezes, eles tropeçam na palavra, como se ficasse presa na garganta.
A maioria das pessoas fica chocada pelo meu uso desavergonhado da palavra “gorda” não apenas para descrever a heroína do meu romance, mas também para descrever meu corpo. Para muitos não há possibilidade de “gorda” ser qualquer coisa além de insulto. Então eu expliquei e expliquei que xs ativistas usam a palavra com orgulho num esforço de desestigmatizar não só a palavra em si, mas, por extensão, o corpo gordo.
No começo eu ficava entusiasmada com esse tipo de conversa, mas não posso negar que me desiludi. Depois de meses presenciando tamanha ansiedade por causa de um inofensivo adjetivo, ficou claro que gorda -– não só a palavra, mas o "ser" gorda –- é aparentemente tão ruim que é impronunciável.
Mês passado a Matel lançou uma nova “Barbie Curvilínea” –- “curvilínea” sendo o único eufemismo elogioso para uma mulher “gordinha”. Uma Barbie gorda seria, óbvio, o fim da picada. Em uma história de capa da revista Time sobre a boneca, garotinhas testando o brinquedo na sede da empresa riam entre si por causa da Barbie gorda. A nova Barbie na verdade não passa de uma aproximação do que seria o corpo natural de uma mulher comum, mas parece gorda em comparação às proporções irreais da Barbie original. As meninas enxergavam a nova Barbie como gorda, mas vacilavam em dizer a palavra na frente dos adultos. Uma das meninas soletrou a palavra “G-O-R-D-A”, como fazemos com outros palavrões. “Eu não quero magoar ela”, disse.
Americanos são obcecados com obesidade, ainda que factualmente pessoas gordas não estejam representadas no nosso panorama cultural. Com poucas exceções, a maioria dos gordos que vemos na mídia e cultura pop odeiam seus corpos -– desde os concorrentes de shows como O Grande Perdedor em que são exibidos como animais de circo até celebridades que se vendem barato em comerciais de redução de peso em rede nacional. Americanos esperam e divertem-se com o espetáculo do gordo infeliz, então desafiar essa narrativa é um ato radical.
Falar com as pessoas a respeito do meu livro me ensinou que, apesar de acreditarmos viver numa época em que é impossível se chocar com alguma coisa, um romance sobre uma mulher de 136 kg que aprende a amar seu corpo como ele é –- sem perder peso –- é um tremendo tabu. Como eu não apenas me atrevi a escrever tal livro, mas também a aparecer em público como mulher obesa eu mesma –- me recusando a pedir desculpas pela minha existência ou me escondendo num saco de estopa -– acabei virando sem querer uma embaixadora dessa ideia revolucionária de que não tem nada de errado em ser gorda e mulher.
Então, respondo perguntas que seriam melhor dirigidas a um terapeuta ou nutricionista do que a uma romancista. Perguntam-me sobre meu histórico de dietas e de luta com minha autoimagem. Sou molestada por bandos de trolls online dedicados a praticar bullying contra mulheres gordas.
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| A autora do artigo, Sarai Walker |
Alguns meses após a publicação do meu livro nos Estados Unidos, eu viajei para a Austrália para promover o livro lá.
No meu primeiro dia, durante uma entrevista ao vivo no rádio, um outro escritor, Will Self, monopolizou a discussão para me palestrar sobre como pessoas gordas eram doentias e feias. Citou o Holocausto para provar seu ponto sobre a relação entre tamanho corporal, exercícios e consumo de alimentos (“Você nunca viu um gordo sair de Auschwitz”, ele disse, citando um consultor sobre abuso de drogas); e para espalhar horror acerca do iminente apocalipse gordo, declarando, entre outras coisas, que “estatisticamente, no lugar onde moro na Inglaterra, até 2030 ninguém mais vai conseguir andar.”
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| Sarai com Will Self, escritor que acha pessoas gordas feias e doentias |
Em outro show eu debati com um especialista em obesidade e ainda em outro tive de responder chamadas ao vivo de ouvintes sobre se era ok ser gorda –- um debate que se seguiu depois de uma discussão sobre a a guerra na Síria.
O último evento da minha turnê na Austrália foi um discurso no Festival de Ideias Perigosas. No palco do Sydney Opera House eu abri minha fala sobre como era ok ser gorda dividindo um exemplo da minha própria vida. Alguns anos atrás eu postei no Twitter um link para uma entrevista de 1969 de Jim Morrison em que ele dizia “gordo é lindo”. Minutos depois uma amiga me respondeu, furiosa, que ser gordo não é saudável porque causa pressão alta e outros problemas de saúde. Esse tipo de resposta, eu disse aos presentes, é um exemplo do que chamo de “Síndrome da Desordem Gorda”, onde até pessoas que se consideram mentes abertas, pensadoras críticas, ficam perplexas se o assunto "ser gordo" seja tratado de maneira positiva.
Durante a sessão de perguntas e respostas, as pessoas se levantavam uma após a outra fazendo comentários negativos sobre meu corpo. Me senti como uma bruxa cercada por aldeãos com tochas. Era claro que, mesmo para sofisticados cosmopolitas que pagaram para estar num festival sobre ideias difíceis, pensar em gordura como outra coisa que não fosse ruim era impossível. Como a minha protagonista percebe no romance, uma pessoa nunca pode ser simplesmente gorda; um corpo gordo precisa sempre ser consertado.
Nos bastidores, membros da turnê me perguntaram se eu estava bem. Não era a primeira vez que alguém me puxava num canto para me perguntar a mesma coisa. Eu disse que sim, mas de volta ao hotel, eu simplesmente me enfiei na cama, aliviada de não precisar me apresentar como gorda profissional. Eu queria ir pra casa e me esconder. Tenho vergonha dessa reação. Escrevi um romance para dar voz às mulheres gordas, mas me esgotei usando a minha. Eu começava a me sentir como aquela mulher gorda num freak show -– exibida em público para divertimento.
As trincheiras do debate sobre obesidade são um péssimo lugar para quem quer que desafie a retórica onipresente do “gordura é ruim” e alegue que o principal problema das pessoas gordas não são seus corpos, mas o ódio e o abuso da sociedade. Em um dos lados do debate está a multibilionária indústria de perda de peso e cuidados de saúde, além do preconceito enraizado. Do outro lado está um pequeno grupo de ativistas relativamente sem poder.
No centro deste debate sobre obesidade está um declarado cuidado de saúde, como se a dignidade de qualquer grupo devesse se atrelar à condição de seus membros serem saudáveis. Mas assuntos de saúde não são preto-no-branco e movimentos como “Health at Every Size” (Saúde em Qualquer Tamanho) oferecem uma crítica legítima das abordagens simplistas de perda de peso para saúde.
Numa cultura em que a maior parte das pessoas gordas na mídia não têm cabeça -- os borrões anônimos, decapitados, intercaláveis cujas fotos acompanham notícias assustadoras sobre obesidade -- uma mulher gorda com voz pode ser ameaçadora, não apenas para bullies, misóginos e "guerreiros" anti-obesidade, mas para muitos daqueles que se consideram iluminados. Às vezes penso que seria mais fácil ser uma dessas pessoas gordas anônimas e sem cabeça. Mas se você não tem cabeça, você não pode falar alto.


























































