Ela não quer te ver
Em julho recebi um email assustador da N (ela queria que eu colocasse seu nome completo, mas achei que ela já tinha problemas demais com um só louco atrás dela). Ela morava em Paris com um rapaz francês e o filho dos dois. Estava praticamente em cárcere privado, com medo. Sem julgá-la, eu a aconselhei a fazer o que ela já tinha decidido fazer: fugir de volta pro Brasil, com o filho que tanto ama. E foi o que ela fez. Agora ela me enviou seu relato.
Meu nome é N, tenho 28 anos. No início de 2009, durante uma viagem na Argentina, conheci um rapaz francês. Ele era gentil, amável e me fazia sentir muito bem. Começamos a namorar, e em outubro do mesmo ano fui morar na França.
À princípio fui para estudar francês, já que era a única maneira da gente namorar. Ele tinha um filho lá (guarda compartilhada) e não poderia deixá-lo pra morar no Brasil.
Durante os três primeiros meses tudo ia bem, mas eu sentia que ele era bastante ciumento e possessivo, e que me rebaixava diante das pessoas sempre que podia. Eu tentava superar isso acreditando em quem eu realmente sou. O tempo foi passando, e no segundo semestre de 2010 fui aceita num mestrado na Sorbonne.
Comecei a cursar, e trabalhava muito como babá, pra poder me sustentar por lá. Eram tempos difíceis porque, apesar de trabalhar muito, eu ganhava pouco. Ele ganhava mais do que eu e sempre me jogava isso na cara. Pouco a pouco fui desgostando dele, mas eu estava longe de casa e da minha família. Queria terminar meu mestrado, porque seria muito útil no meu futuro, e porque acreditava que as coisas poderiam melhorar entre a gente, e eis que de repente, em fevereiro de 2011, descobri que estava grávida.
Conversei com ele. Ele ficou p. da vida, como se a culpa tivesse sido minha, como se eu tivesse feito de propósito. Eu juro, Lola, que não foi. Com tudo que eu tinha na minha cabeça, mais um inverno rigoroso, o cansaço, estudo, trabalho etc, eu esqueci de tomar meu anticoncepcional um dia. Na França o aborto é legalizado, você sabe, então ele queria que eu fizesse. Eu refleti muito e decidi não fazer porque não conseguiria conviver com a ideia de ter abortado o meu filho. Eu não entendia bem o que sentia, mas sabia que não queria tirar, pensava que já era uma vida. Então decidi separar-me desse homem. E fui morar de favor na casa de uma amiga.
Ele fez da minha vida um inferno: me ameaçou de morte, me seguia, me empurrava na rua, me ligava 80 vezes por dia. Depois ele mudou de ideia e dizia que me amava e que queria esse filho. Mas eu não o queria mais. Fiz vários b.os contra ele, e ele contra mim (b.os mentirosos da parte dele, porque eu nunca lhe fiz nada de mal). Ele me roubou livros, roupas, pertences. Mudou meu bilhete de volta, e eu não tinha mais como voltar pro Brasil. Até que finalmente consegui.
Bom, voltei, minha familia me acolheu, me recuperei e vivi um final de gravidez tranquilo.
Dois meses antes do meu filho nascer, esse rapaz voltou a me procurar. Eu, pensando no bebê, pensando em estabelecer a paz, o escutei. Ele me implorou perdão, me disse que errou muito, conversou com meus pais, disse que estava fazendo terapia e que entendeu que agiu mal. Eu o perdoei, porque acreditava realmente que ele poderia ter mudado. Conversamos muito, até que ele me pediu se poderia estar presente no parto. Eu tive medo, pensei muito, conversei com minha família, e no final decidimos que sim e que ele não poderia fazer nada de mau estando dentro de um hospital e com todos os "meus" em volta.
Ele veio pro Brasil, ficou 40 dias, acompanhou o parto do nosso filho e ficou ao meu lado nos primeiros dias. Foi tudo bem e calmo. Todos acreditavam que ele havia mudado.Depois ele voltou pra França. Meu bebê tinha três semanas; eu estava muito feliz com meu filhinho e com o desfecho de tudo. Ele via a gente pela cam no skype e dizia que eu deveria confiar nele e que devia voltar pra França pra tentarmos reconstituir nossa família, ou pelo menos pra família dele conhecer o bebê, que ele me amava muito, etc etc etc.
O tempo foi passando e eu disse que iria pensar. Ele sempre me fazia sentir culpada do meu bebê não ter a oportunidade de ter o pai, sempre dizia que eu era imatura e que depois de tanta tempestade que passamos, tínhamos a oportunidade de viver um relacionamento tranquilo e maduro. Então eu disse que aceitaria fazer um teste de ir pra França pro meu filho conhecer a família dele de lá, e pra tentar algo novo, mas que ele teria que me fazer documentos de que eu poderia voltar pro Brasil quando eu quisesse no caso de dar errado. Seria apenas um teste. Ele fez, e me mandou; tudo parecia muito oficial, eu acreditei.
Também disse a ele que não tinha dinheiro pra pagar o meu voo, porque trabalhei pouco depois que o bebê nasceu. Ele disse pra eu comprar no meu cartão que ele pagaria as parcelas, disse que estava muito bem no emprego dele e as coisas seriam mais fáceis pra gente. Enfim, diversas coisas foram acordadas pra eu poder ir tranquila. Meu bebê tinha seis meses então.
Acontece que vinte dias depois que cheguei lá, veio a primeira bomba: ele saiu do emprego e não me contou. Ou seja, ficaríamos numa situação difícil financeiramente -- completamente diferente do que ele disse que seria, já que uma das coisas que ele dizia por internet é que estava bem no emprego e que não faria a mesma pressão pra eu trabalhar, que me deixaria estudar e cuidar tranquila do bebê.
Segunda bomba: ele não pagaria as parcelas do vôo. Eu não podia aceitar isso, endividar-me era tudo o que eu não queria. Isso significava uma dívida em meu nome, correndo juros de cartão de crédito, que todos sabem como funciona. Não havia previsão de mudar essa situação, já que ele não pretendia buscar outro emprego e queria viver do seguro-desemprego de dois anos que ele iria dispor. Então eu disse que queria voltar, porque ele não estava cumprindo com os acordos. E tomei conhecimento da terceira bomba: os documentos eram falsos. Tudo não passou de uma armadilha pra me prender com meu filho na França.
Consequentemente meu bebê também pegou essa gripe fortíssima e ao invés dele nos levar no médico, ele ria de mim, dizia que eu estava horrível, e dizia pra eu cuidar do bebê. Ele não me permitia levar o bebê no pediatra porque era muito caro, tinha que ser no clínico geral que se enquadrasse no setor 1 (porque esse o governo devolve o dinheiro em 100%, os do setor 2 que são mais caros o governo só devolve metade).
Eu não aguentava mais. Fisicamente eu estava péssima, psicologicamente então nem se fale, vendo meu filho doente e sem poder fazer nada. Quando meu filho chorava na madrugada ele trocava de quarto e jamais trocou uma fralda ou lhe deu de comer. Diversas vezes eu acordei no meio da noite e me deparei com ele sentado no pé da cama, me olhando dormir. Ele ficava nervoso quando eu acordava e me assustava, ele ia dormir na sala, e eu tinha a sensação nítida de que ele me mataria. Eu tinha medo.
Eu sofri demais, e não só porque ele descumpriu o acordo, mas porque ele me humilhava, ele dizia que eu não fazia nada, que não tenho talento, que faz três anos que não faço nada (eu terminei em junho meu mestrado na Sorbonne). Ele dizia que só quero viver encostada nos outros, diz que sou uma menininha besta, coisas assim, daí pra pior.
Tudo dele era trancado a chaves, com senhas, com códigos. Imagine que, um dia, alguém tentou fazer uma compra na internet e ele recebeu uma mensagem no celular dele pra confirmar a operação. Ele pensou que fui eu e por isso escondeu meu computador por 4 dias. Fiquei sem acesso à internet, sem poder me comunicar com minha família e amigos. Ele me prendeu em casa, até pra eu ir ao banheiro ele me acompanhava. Percebi o quanto ele é perigoso. E ele se chegava pra mim depois, me fazendo carinhos... eu queria vomitar. Eu sentia nojo... eu sinto nojo.
No final de julho terminava meu prazo como turista na França. Descobri que poderia sair antes disso com meu filho, porque ele é brasileiro nato e só tem documentos e passaporte brasileiros. Mas não sabia como fazer, porque esse cara me prendia, me deixava sem dinheiro, e nunca permitiria a minha volta. Mas eu não podia mais submeter-me e submeter meu filho a esse pesadelo. Nós continuávamos doentes, e eu com fome.
Finalmente, com a ajuda da minha família, que percebeu a situação, e de amigos que me compraram um voo, eu consegui vir embora pro Brasil. Deixei tudo lá. Peguei apenas documentos importantes e algumas peças de roupa.
Quando cheguei fomos direto ao médico. Meu bebê estava com pneumonia, eu com desnutrição, anêmica. A situação era triste. Mas fui forte e agora estamos super bem. Estamos saudáveis e consegui um trabalho que me permite criar meu filho com dignidade.
Mas o pesadelo não acabou.
O cara atormenta 24h: liga milhões de vezes, faz ameaças, inclusive de morte, diz que sequestrei meu próprio filho, passa o dia todo na internet criando e-mails, perfis falsos, um perfil do meu filho no facebook, me manda milhões de msgs, atormenta toda a minha família e amigos, e até minha avó de 80 anos. Ele conta uma história totalmente mentirosa e a manda pra toda a lista de contatos dos meus pais, irmãos, minha lista de amigos e principalmente de contatos profissionais. Ele diz que acabará com a minha vida e que não me dará paz. Ele jura que vai tirar meu filho de mim.Eu já fiz b.os, já representei, já entrei com processo pela guarda do meu filho. Obtive a resposta de que a guarda é minha e que ele tem direito de pedir regulamentação de visitas e nada mais. Mas ele não entra na justiça.
Ao invés disso ele faz o que tem feito: manipula pessoas fazendo-se passar por um advogado de São Paulo, diz que sou procurada pela justiça internacional, que não posso sair do Brasil, que se eu estivesse na França eu estaria presa. Diz que isso é uma vergonha nacional, que isso suja a imagem da mulher brasileira. É ridículo.E tem muito mais coisas, por exemplo, ele telefona dizendo que está na cidade e que vai me encontrar na rua. Ele provoca injúria, depois manda e-mails rindo, dizendo que adora me desestabilizar, e que sou muito vulnerável.
Eu tenho sido forte porque sei que ele é um psicopata. Ele não quer o filho, ele nem pergunta sobre o menino. Mas ele se faz passar por um pai desesperado. O que ele quer é me destruir porque não aceita a separação. Ele só me chama de lixo, de delinquente, e diz que a guerra apenas começou.
O problema é que tem muita gente que não conhece a real história e acredita nele. Não poderia ser diferente nessa sociedade machista que vivemos. Além do mais, ele é muito inteligente.
Obrigada, Lola, pelo seu apoio. Foi de extrema importância pra mim te ler quando eu estava no auge do meu desespero. Sentir o apoio de alguém que entende do assunto foi fundamental e me deu forças.
Nota da Lola: Muito cuidado, gente, porque psicopatas são parecidos entre si. Tem um modo de agir quase idêntico. Em outro guest post, a Talita explicou como identificá-los. Este guest post da Ana também é revelador: ela conta como se envolveu com um psicopata quando ela era menor de idade, e como conseguiu escapar.















































