quarta-feira, 26 de setembro de 2012

GUEST POST: MEU EX FRANCÊS É UM PSICOPATA

Ela não quer te ver

Em julho recebi um email assustador da N (ela queria que eu colocasse seu nome completo, mas achei que ela já tinha problemas demais com um só louco atrás dela). Ela morava em Paris com um rapaz francês e o filho dos dois. Estava praticamente em cárcere privado, com medo. Sem julgá-la, eu a aconselhei a fazer o que ela já tinha decidido fazer: fugir de volta pro Brasil, com o filho que tanto ama. E foi o que ela fez. Agora ela me enviou seu relato.

Meu nome é N, tenho 28 anos. No início de 2009, durante uma viagem na Argentina, conheci um rapaz francês. Ele era gentil, amável e me fazia sentir muito bem. Começamos a namorar, e em outubro do mesmo ano fui morar na França.
À princípio fui para estudar francês, já que era a única maneira da gente namorar. Ele tinha um filho lá (guarda compartilhada) e não poderia deixá-lo pra morar no Brasil.
Durante os três primeiros meses tudo ia bem, mas eu sentia que ele era bastante ciumento e possessivo, e que me rebaixava diante das pessoas sempre que podia. Eu tentava superar isso acreditando em quem eu realmente sou. O tempo foi passando, e no segundo semestre de 2010 fui aceita num mestrado na Sorbonne.
Comecei a cursar, e trabalhava muito como babá, pra poder me sustentar por lá. Eram tempos difíceis porque, apesar de trabalhar muito, eu ganhava pouco. Ele ganhava mais do que eu e sempre me jogava isso na cara. Pouco a pouco fui desgostando dele, mas eu estava longe de casa e da minha família. Queria terminar meu mestrado, porque seria muito útil no meu futuro, e porque acreditava que as coisas poderiam melhorar entre a gente, e eis que de repente, em fevereiro de 2011, descobri que estava grávida.
Conversei com ele. Ele ficou p. da vida, como se a culpa tivesse sido minha, como se eu tivesse feito de propósito. Eu juro, Lola, que não foi. Com tudo que eu tinha na minha cabeça, mais um inverno rigoroso, o cansaço, estudo, trabalho etc, eu esqueci de tomar meu anticoncepcional um dia.
Na França o aborto é legalizado, você sabe, então ele queria que eu fizesse. Eu refleti muito e decidi não fazer porque não conseguiria conviver com a ideia de ter abortado o meu filho. Eu não entendia bem o que sentia, mas sabia que não queria tirar, pensava que já era uma vida. Então decidi separar-me desse homem. E fui morar de favor na casa de uma amiga.
Ele fez da minha vida um inferno: me ameaçou de morte, me seguia, me empurrava na rua, me ligava 80 vezes por dia. Depois ele mudou de ideia e dizia que me amava e que queria esse filho. Mas eu não o queria mais. Fiz vários b.os contra ele, e ele contra mim (b.os mentirosos da parte dele, porque eu nunca lhe fiz nada de mal). Ele me roubou livros, roupas, pertences. Mudou meu bilhete de volta, e eu não tinha mais como voltar pro Brasil. Até que finalmente consegui.
Bom, voltei, minha familia me acolheu, me recuperei e vivi um final de gravidez tranquilo.
Dois meses antes do meu filho nascer, esse rapaz voltou a me procurar. Eu, pensando no bebê, pensando em estabelecer a paz, o escutei. Ele me implorou perdão, me disse que errou muito, conversou com meus pais, disse que estava fazendo terapia e que entendeu que agiu mal. Eu o perdoei, porque acreditava realmente que ele poderia ter mudado. Conversamos muito, até que ele me pediu se poderia estar presente no parto. Eu tive medo, pensei muito, conversei com minha família, e no final decidimos que sim e que ele não poderia fazer nada de mau estando dentro de um hospital e com todos os "meus" em volta.
Ele veio pro Brasil, ficou 40 dias, acompanhou o parto do nosso filho e ficou ao meu lado nos primeiros dias. Foi tudo bem e calmo. Todos acreditavam que ele havia mudado.
Depois ele voltou pra França. Meu bebê tinha três semanas; eu estava muito feliz com meu filhinho e com o desfecho de tudo. Ele via a gente pela cam no skype e dizia que eu deveria confiar nele e que devia voltar pra França pra tentarmos reconstituir nossa família, ou pelo menos pra família dele conhecer o bebê, que ele me amava muito, etc etc etc.
O tempo foi passando e eu disse que iria pensar. Ele sempre me fazia sentir culpada do meu bebê não ter a oportunidade de ter o pai, sempre dizia que eu era imatura e que depois de tanta tempestade que passamos, tínhamos a oportunidade de viver um relacionamento tranquilo e maduro. Então eu disse que aceitaria fazer um teste de ir pra França pro meu filho conhecer a família dele de lá, e pra tentar algo novo, mas que ele teria que me fazer documentos de que eu poderia voltar pro Brasil quando eu quisesse no caso de dar errado. Seria apenas um teste. Ele fez, e me mandou; tudo parecia muito oficial, eu acreditei.
Também disse a ele que não tinha dinheiro pra pagar o meu voo, porque trabalhei pouco depois que o bebê nasceu. Ele disse pra eu comprar no meu cartão que ele pagaria as parcelas, disse que estava muito bem no emprego dele e as coisas seriam mais fáceis pra gente. Enfim, diversas coisas foram acordadas pra eu poder ir tranquila. Meu bebê tinha seis meses então.
Acontece que vinte dias depois que cheguei lá, veio a primeira bomba: ele saiu do emprego e não me contou. Ou seja, ficaríamos numa situação difícil financeiramente -- completamente diferente do que ele disse que seria, já que uma das coisas que ele dizia por internet é que estava bem no emprego e que não faria a mesma pressão pra eu trabalhar, que me deixaria estudar e cuidar tranquila do bebê.
Segunda bomba: ele não pagaria as parcelas do vôo. Eu não podia aceitar isso, endividar-me era tudo o que eu não queria. Isso significava uma dívida em meu nome, correndo juros de cartão de crédito, que todos sabem como funciona. Não havia previsão de mudar essa situação, já que ele não pretendia buscar outro emprego e queria viver do seguro-desemprego de dois anos que ele iria dispor. Então eu disse que queria voltar, porque ele não estava cumprindo com os acordos. E tomei conhecimento da terceira bomba: os documentos eram falsos. Tudo não passou de uma armadilha pra me prender com meu filho na França.
Então ele começou a fazer pressão pra que eu fizesse os documentos franceses do meu bebê e os meus, e eu disse que não faria. Ele me obrigava a assinar papéis (por exemplo os papéis da CAF, que é um órgão do governo que distribui ajuda pro aluguel e pras crianças até 3 anos, dinheiro este que caía na conta dele e que ele usava como queria) e fazer as coisas como ele queria, me manipulava, chantageava dizendo que não compraria comida e fraldas. Não comprava roupa nem sapato pro bebê, e as coisas iam ficando apertadas e eu tinha que vestir meu filho com o que já era pequeno, ele só usava meias, não tinha mais sapatos, e fazia frio. Eu perdi uns oito quilos em pouco tempo, virei uma caveira e peguei uma gripe fortíssima. Eu ainda amamento e amamentava.
Consequentemente meu bebê também pegou essa gripe fortíssima e ao invés dele nos levar no médico, ele ria de mim, dizia que eu estava horrível, e dizia pra eu cuidar do bebê. Ele não me permitia levar o bebê no pediatra porque era muito caro, tinha que ser no clínico geral que se enquadrasse no setor 1 (porque esse o governo devolve o dinheiro em 100%, os do setor 2 que são mais caros o governo só devolve metade).
Eu não aguentava mais. Fisicamente eu estava péssima, psicologicamente então nem se fale, vendo meu filho doente e sem poder fazer nada. Quando meu filho chorava na madrugada ele trocava de quarto e jamais trocou uma fralda ou lhe deu de comer. Diversas vezes eu acordei no meio da noite e me deparei com ele sentado no pé da cama, me olhando dormir. Ele ficava nervoso quando eu acordava e me assustava, ele ia dormir na sala, e eu tinha a sensação nítida de que ele me mataria. Eu tinha medo.
Eu sofri demais, e não só porque ele descumpriu o acordo, mas porque ele me humilhava, ele dizia que eu não fazia nada, que não tenho talento, que faz três anos que não faço nada (eu terminei em junho meu mestrado na Sorbonne). Ele dizia que só quero viver encostada nos outros, diz que sou uma menininha besta, coisas assim, daí pra pior.
Tudo dele era trancado a chaves, com senhas, com códigos. Imagine que, um dia, alguém tentou fazer uma compra na internet e ele recebeu uma mensagem no celular dele pra confirmar a operação. Ele pensou que fui eu e por isso escondeu meu computador por 4 dias. Fiquei sem acesso à internet, sem poder me comunicar com minha família e amigos. Ele me prendeu em casa, até pra eu ir ao banheiro ele me acompanhava. Percebi o quanto ele é perigoso. E ele se chegava pra mim depois, me fazendo carinhos... eu queria vomitar. Eu sentia nojo... eu sinto nojo.
No final de julho terminava meu prazo como turista na França. Descobri que poderia sair antes disso com meu filho, porque ele é brasileiro nato e só tem documentos e passaporte brasileiros. Mas não sabia como fazer, porque esse cara me prendia, me deixava sem dinheiro, e nunca permitiria a minha volta. Mas eu não podia mais submeter-me e submeter meu filho a esse pesadelo. Nós continuávamos doentes, e eu com fome.
Finalmente, com a ajuda da minha família, que percebeu a situação, e de amigos que me compraram um voo, eu consegui vir embora pro Brasil. Deixei tudo lá. Peguei apenas documentos importantes e algumas peças de roupa.
Quando cheguei fomos direto ao médico. Meu bebê estava com pneumonia, eu com desnutrição, anêmica. A situação era triste. Mas fui forte e agora estamos super bem. Estamos saudáveis e consegui um trabalho que me permite criar meu filho com dignidade.
Mas o pesadelo não acabou.
O cara atormenta 24h: liga milhões de vezes, faz ameaças, inclusive de morte, diz que sequestrei meu próprio filho, passa o dia todo na internet criando e-mails, perfis falsos, um perfil do meu filho no facebook, me manda milhões de msgs, atormenta toda a minha família e amigos, e até minha avó de 80 anos. Ele conta uma história totalmente mentirosa e a manda pra toda a lista de contatos dos meus pais, irmãos, minha lista de amigos e principalmente de contatos profissionais. Ele diz que acabará com a minha vida e que não me dará paz. Ele jura que vai tirar meu filho de mim.
Eu já fiz b.os, já representei, já entrei com processo pela guarda do meu filho. Obtive a resposta de que a guarda é minha e que ele tem direito de pedir regulamentação de visitas e nada mais. Mas ele não entra na justiça.
Ao invés disso ele faz o que tem feito: manipula pessoas fazendo-se passar por um advogado de São Paulo, diz que sou procurada pela justiça internacional, que não posso sair do Brasil, que se eu estivesse na França eu estaria presa. Diz que isso é uma vergonha nacional, que isso suja a imagem da mulher brasileira. É ridículo.
E tem muito mais coisas, por exemplo, ele telefona dizendo que está na cidade e que vai me encontrar na rua. Ele provoca injúria, depois manda e-mails rindo, dizendo que adora me desestabilizar, e que sou muito vulnerável.
Eu tenho sido forte porque sei que ele é um psicopata. Ele não quer o filho, ele nem pergunta sobre o menino. Mas ele se faz passar por um pai desesperado. O que ele quer é me destruir porque não aceita a separação. Ele só me chama de lixo, de delinquente, e diz que a guerra apenas começou.
O problema é que tem muita gente que não conhece a real história e acredita nele. Não poderia ser diferente nessa sociedade machista que vivemos. Além do mais, ele é muito inteligente.
Mas aí está a real história. Como isso vai acabar e quando eu não sei. Mas eu espero que seja logo, que eu consiga encontrar uma maneira de fazer ele parar com tudo isso, e que eu possa encontrar outras pessoas que também passaram por histórias parecidas, uma forma de obter ajuda.
Obrigada, Lola, pelo seu apoio. Foi de extrema importância pra mim te ler quando eu estava no auge do meu desespero. Sentir o apoio de alguém que entende do assunto foi fundamental e me deu forças.

Nota da Lola: Muito cuidado, gente, porque psicopatas são parecidos entre si. Tem um modo de agir quase idêntico. Em outro guest post, a Talita explicou como identificá-los. Este guest post da Ana também é revelador: ela conta como se envolveu com um psicopata quando ela era menor de idade, e como conseguiu escapar.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

SEU PÊNIS ENCOLHEU E A CULPA É NOSSA. DESCULPA, MAL AÍ

Marcha das Vadias San Francisco: "É um mundo dos homens. Vamos estragá-lo"

Péssimas notícias, gente. Segundo um estudo italiano que até agora pouca gente leu, o tamanho do pênis diminuiu uns 10% nos últimos cinquenta anos. Parece que os motivos incluem excesso de peso, principalmente na cintura, poluentes no ar, stress, fumo, e álcool. Mas essas são meras hipóteses, claro.
O radialista ultraconservador Rush Limbaugh, um dos grandes nomes da extrema direita americana, tem outra explicação: fomos nós, feminazis! (Ele é quem inventou o termo). Disse ele em seu programa de radio: “Acho que é o feminismo. Se foi nos últimos 50 anos, tem que ter sido as feminazis, a chickification (garotização? Feminilização?), e tudo o mais”.
O caricaturista Taylor Jones até fez esta homenagem a Rush, provando que ele está absolutamente certo.
O A. Luiz Costa enviou um mapa da Europa baseado no tamanho do pênis. O maior de todos é o húngaro, com 16,50 cm em media. Não sei se isso tem alguma relação, mas ultimamente tenho ouvido falar muito na Hungria. Um mascu quer ir viver lá, porque lá o governo é de direita. O pior lugar do mundo pra um mascu brasileiro, depois do Brasil, é a Suécia.
A Suécia é aquele país com os melhores indicadores sociais do planeta, a mais justa distribuição de renda, licença-maternidade de 16 meses para o casal, toda uma cultura em que mulheres também tomam a iniciativa sexual, sistema de saúde realmente universal, e educação pública que é exemplar... Mas mascus de todo o mundo odeiam o país escandinavo e o elegem o inferno na Terra porque alguns suecos fazem xixi sentados. É isso aí: prioridades, cara!
Deve ser por influência feminazi que na Suécia a média do pênis seja de 14,80 cm. No mapa a Suécia tá mesmo parecendo um pênis flácido, não tá? Mas como explicar a Romênia com seus míseros 12,73 cm? Ou toda a potência dos vampiros está no sexo oral, ou os romenos são humildes. Porque esses números todos são auto-declarados pelos entrevistados.
No Brasil é uns 15 cm, certo? Tem quem diga que é 14 cm, tem quem jure que é 16,10 cm, colocando-nos como a 14a no mundo em matéria de tamanho de pênis. Gostaria de dizer que o que importa é a mágica, não o tamanho da varinha de condão (adoro essa frase brega), mas receio que, a esta altura, vocês não vão acreditar em mim.
Certo. Claramente estou fugindo do assunto. Perdão. É que é um tema difícil. O fato, Segundo a Universidade de Pádua, é que os pênis diminuíram. E o segundo fato é que Rush Limbaugh, que nunca erra, desconfia de nós, feminazis. O que fizemos de errado neste último meio século para causar um golpe tão duro na nossa agora diminuta sociedade falocêntrica?
Exigimos ganhar salários iguais, é verdade. Ainda estamos 30% atrás, mas só a pressão de ter uma mulher ganhando quase tanto quanto um cara já deve ser devastadora. E agora que já somos maioria nos cursos de graduação e pós-graduação, sai de baixo. Imagina se um dia essa maior escolaridade resultar em maiores salários? Não quero nem pensar! Aí é que os pênis vão sumir de vez!
Temos um pouco mais de controle reprodutivo, graças à pílula anticoncepcional e à legalização do aborto nos países mais ricos. Entendo perfeitamente como isso pode criar insegurança nos homens. É como o casamento gay ser o fim do casamento hétero!
A virgindade pra gente não é mais um tabu, e, por mais que a sociedade seja rapidinha em nos chamar de vadias, certamente estamos mais livres sexualmente que no início dos anos 60. Mas isso é ruim, portadores de pênis? Sei lá, pensei que uma sociedade com mais liberdade sexual fosse um bom motivo pros pênis ficarem mais alegres e saidinhos e talvez até aumentarem um pouco.
Ah, acho que sei o que é! É que nós feminazis vivemos bombardeando os conceitos de masculinidade e feminilidade, não é mesmo? A gente sai por aí pedindo que “ser mulher” deixe de ser visto como ser frágil, dócil, passiva, e que “ser homem” não esteja mais relacionado a ser violento, insensível, provedor e pegador. É que nós, tolinhas, pensávamos que liberar essas amarras de gênero faria todo mundo mais livre e feliz. Não sabíamos que vocês iriam ficar abatidos. Achávamos que conquistar oportunidades não fosse o mesmo que tirar oportunidades de vocês.
O que dizer agora que o estrago já está feito? Mea culpa, mea maxima culpa. Não posso falar por todas as feminazis, mas reconheço meus erros. Foi mal esse negócio aí de feminismo, gente. Dá pra devolver? Façamos o seguinte: a gente volta a nossa condição de mulheres servis (mas safisfeitas!) do início dos anos 60, e vocês fazem um esforço e recuperam esses 10% de tamanho. Querem retroceder um pouco mais? Anos 20, talvez? É que pode ser que o nosso direito a voto também tenha causado efeitos colaterais incômodos. Não? Tudo bem? Fechamos então com os anos 50 e a franca recuperação dos 10%! Obrigada. Sou grata com o patriarcado. E desculpe qualquer coisa.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SOBRE A VAGINA DE NAOMI WOLF

Deveria haver duas disciplinas nas escolas do ensino médio, Estudos de Gênero e Crítica da Mídia. Só isso já ajudaria a criar um mundo com menos preconceito e mais seres pensantes. E O Mito da Beleza: Como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres seria leitura obrigatória em ambas as matérias. É esse tantão que eu adoro Naomi Wolf e seu Mito.
Se você ainda não leu esta que é, pra mim, a maior obra feminista da terceira onda, bom, não sei o que você tá esperando. Eu só li Mito em 2007, e ele existe desde 1991. Teria me poupado muitas angústias se o tivesse lido antes. Por favor, leia. Tem em português, em pdf, de graça aqui, mas é um desses livros que vale a pena guardar na estante, pra poder consultar sempre.
Depois li Promiscuidades que, apesar de não ter a importância de Mito, ainda assim é muito interessante. Nele, Naomi conta como foi crescer na Califórnia nos anos 60 e 70. Ela tem seu estilo próprio, que é quase sempre partir de acontecimentos pessoais da sua vida para fazer análises mais aprofundadas.
É isso, aparentemente, que ela tenta fazer em seu mais recente livro, o recém-lançado Vagina: Uma Nova Biografia. Primeiro o livro virou notícia porque a Apple censurou uma das palavras do título (adivinha qual? Eu nem sabia que vagina era palavrão!). Ironicamente, a obra trata de como esta parte da anatomia ainda não é bem vista na sociedade, e aí a Apple vem pra ilustrar. Enfim. Assim que as críticas começaram a aparecer, no entanto, Vagina virou alvo de pichações quase unânimes. Este artigo (em inglês) traz um bom resumo (o título do post já é engraçadinho: "'Vagina' de Naomi Wolf recebe mais críticas públicas e elogios vagos que qualquer vagina que conhecemos"): não há nada de novo no livro, nenhuma vagina é um buraco místico, tem muitas referências tântricas, é simplesmente embaraçoso, e por aí vai. 
O livro já seria um sucesso mesmo sem toda essa polêmica. Tanto que as editoras brasileiras estão fazendo leilão pra traduzi-lo e lançá-lo aqui. Ontem, a Folha publicou um trecho. Logo o trecho que está rendendo mais piadinhas a Naomi! Nele, ela narra que um amigo de um amigo convidou uma turma, ela inclusa, para comer em sua casa. E lá serviu "bucetini", ou massa no formato de vagina. E linguiça de símbolo fálico e acompanhamento. E peixe, pra sugerir que este é o cheirinho característico das nossas partes pudentas. Naomi não gostou nada da brincadeira, que lhe rendeu seis meses de bloqueio criativo (writer's block, é assim que se traduz?). Eu posso achar seis meses de trauma por uma brincadeira idiota um exagero, mas a gente não vive falando que cada pessoa tem sua reação?
Ainda não li o livro. Pretendo lê-lo, se bem que a ideia da vagina como um órgão transcendental não me atrai muito, nem pro bem (visto como algo místico), nem pro mal (visto como puro mal, à la vagina dentata). Mas o que não me agrada nem um pouco é ver todo mundo pichando a Naomi, feministas inclusas. Já li gente escrevendo que a Naomi é "feminista", sabe, entre aspas, pseudofeminista, ex-feminista...
Eu gostaria de saber como uma das feministas mais conhecidas (e, até agora, mais respeitadas) do nosso tempo merece ser tratada como feminista entre aspas porque alguma feminista não concordou com alguma coisa que ela escreveu. Sinceramente? Todo mundo vai escrever ou falar, cedo ou tarde, algo com que você discorde veementemente. Acontece sempre. Deal with it. E nem por isso uma feminista deixa de ser feminista, ou um ativista LGBT deixa de ser um ativista LGBT, ou deus Chico deixa de ser Chico. O chato é ver feministas e outras pessoas de esquerda satirizando Naomi da mesma forma que conservadores que odeiam o feminismo estão satirizando a Naomi.
Eta turminha rápida em linchamentos coletivos, hein? Desculpe a comparação desproporcional, mas eu sei como é isso. Sou conhecida entre uma dúzia de pessoas, digamos assim, entre gente que conhece blogs com textos longos. Outro dia, semana retrasada, por aí, desenterraram um post meu de dois anos atrás em que eu (aquela que acredita na recuperação das pessoas) analiso as vantagens e desvantagens de votar no Netinho pra senador. É um texto reflexivo daquele contexto, daquelas eleições, em que precisávamos votar em dois senadores. Na época, o post foi bem recebido (leia os comentários se duvida), até porque um grupo de mulheres do PC do B (partido do Netinho) havia defendido o voto nele. Mas meu post foi trazido à tona por reaças que sempre me atacam, e hipsters, haters usuais, pessoas de esquerda, e até feministas vieram jogar pedra na "defensora de um agressor de mulheres". 
Quer dizer, vieram jogar pedra é um termo incorreto. Até agora, em quase cinco anos de blog, posso contar nos dedos das mãos quem veio me criticar diretamente. Os que me criticam (se é que fazer piadinhas ou escrever "hoje sonhei que mijava na cara da Lola", como disse não faz muito tempo um gay misógino no seu twitter, possa ser encarado como crítica) ou são anônimos que vêm ao blog xingar, mas não têm coragem de assinar, ou são pessoas que falam mal pelas costas, por exemplo, escrevendo meu nome sem citar a arroba (eu só fico sabendo quando me avisam, e só me avisam quando o negócio é virulento mesmo). E o pessoal lá, crente que tá abafando criticando!
Sei não. Cá pra nós, temo que feminista insultar feminista seja muito parecido com mulher chamar mulher de vagabunda: um dia, quando você menos espera, a ofensa será usada contra você. E, assim como não precisa fazer absolutamente nada além de ser mulher pra ser xingada de vadia, uma feminista não precisa fazer nada pra ser atacada por ser feminista. Portanto, recomendo mais respeito com Naomi. Vamos pelo menos ler Vagina antes de se juntar à massa? E, se o livro realmente for ultrajante, o que acontece? Devemos queimar nossos exemplares de Mito da Beleza numa fogueira? Naomi se transforma numa "feminista" que presta desserviço à causa e não nos representa? Porque, só pra lembrar, eu já ouvi todas essas asneiras sobre a minha insignificante pessoinha.

domingo, 23 de setembro de 2012

UM POUQUINHO DE TUDO

Algumas das pessoas lindas na quinta no auditório da UFRN

A venda do meu livinho está oficialmente encerrada! Ainda preciso enviar quatro exemplares pelo correio. Os poucos que sobraram são pros alunxs que tiverem interesse, e pra doar pra algumas bibliotecas universitárias.
Mas a boa notícia é que talvez a editora faça uma segunda edição. Ainda estamos negociando. Quem sabe eu tenha mais duzentos livros pra vender pra vcs. Quero muito publicar as fotos do pessoal que comprou um exemplar e mandou seu registro. Por enquanto, publico esta do Marcelo, direto de Timor Leste. 
Vcs lembram que quinta e sexta estive em Natal? Foi maravilhoso. Adorei mesmo. Fiquei num lindo hotel na Via Costeira (e não aproveitei a piscina mais uma vez), comi num restaurante chique chamado Camarões (eu não como essas coisas, mas lá tinha outros pratos deliciosos, e é um belo lugar), almocei com meu querido Patrick, conheci sua mulher, Juliana, sua irmã, Flavia, e uma amiga (sou péssima pra nomes, desculpem), e recebi bombons, brownies, brigadeiros, e toda a trilogia Millenium de leitoras e leitores queridos. Obrigada, gente! Eu não mereço tanto. Quer dizer, no máximo mereço os chocolates.
A mesa redonda sobre (In)Justiça Penal foi excelente. Confesso que estava receosa porque, vamos dizer assim, não é um assunto que eu domino. Tanto que sexta retrasada, quando estava indo pra noite de autógrafos na Livraria Cultura, comuniquei a minha mãe que eu iria palestrar na UFRN sobre Código Penal. E ela, que sempre me apoia muito: "Mas você nem sabe o que é isso!" Quem precisa de trolls, né? Eu já tenho minha mãe! (Tadinha, tô brincando: foi super espontâneo. Eu me lembro da reação dela e rio).
Felizmente eu me preparei, li uns textos que a magnífica Maíra me mandou, incluindo um ótimo artigo seu e da Georghia, "Análise ideológica da coisificação da transgressora e de sua subordinação dentro do crime", trechos de Mulheres que Matam: Universo Imaginário do Crime Feminino (a autora, Rosemary de Oliveira Almeida, fez sua pesquisa na penitenciária de Caucaia, pertinho de Fortaleza), e o livro Sistema Penal e Gênero: Tópicos para a Emancipação Feminina, além de uns posts que encontrei na internet. Não preciso nem dizer o quanto aprendi. Assim que eu tiver tempo, escreverei um post sobre essas descobertas.
Acho que tudo correu muito bem. Meus companheiros de mesa, entre eles o prof. Fábio Ataíde, foram perfeitos. Foi muito interessante o que ele respondeu para uma das perguntas do público, esta sobre a Lei Maria da Penha. Ele disse que, em 95, houve um relaxamento da lei para lesões corporais. Na teoria, isso parecia bom -- muitos de nós queremos um controle menor do Estado e penas mais flexíveis, que não punam tudo com cadeia. Só que, na prática, descriminalizou-se a violência doméstica. Marido que batia na mulher não ia mais preso; pagava cesta básica. A Lei Maria da Penha, decretada seis anos atrás, foi uma tentativa de reestabelecer o direito penal, de por fim a esta impunidade.
Na sexta, me reuni com um grupo do Lições de Cidadania, um programa de educação popular em direitos humanos que conta com estudantes de vários cursos, principalmente de Direito. Foi uma conversa muito produtiva, e é maravilhoso ver jovens idealistas, empenhados em transformar o mundo.
Bom, agora vou falar das minhas próximas palestras, pra que depois ninguém diga que não foi convidado. Esta terça, 25 de setembro, das 18 às 20 horas, na UFC, no Auditório José Albano, campus Benfica, darei uma paletra sobre o poder, a ambição e a submissão de Lady Macbeth nas suas adaptações fílmicas. Será em português. Não precisa se inscrever nem nada, é só aparecer.
Sexta, dia 28, às 14 horas, participarei de uma mesa no Departamento de Ciências Sociais da UFC, campus Benfica, Centro de Humanidades III. E o tema, pra aproveitar o Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina, é esse mesmo, aborto. A organização é do coletivo Liberdade Caça Jeito, ligado a ANECS (Articulação Nacional dos Estudantes de Ciências Sociais). Podem vir! (E assinem esta petição a favor do aborto legal, seguro e gratuito. Parece que já tentaram duas vezes entrar na página para tirá-la do ar).
Dia 5 de outubro, às 14 horas, estarei no Centro Cultural Marques de Melo (R. Joaquim Antunes - Pinheiros) para falar sobre Censura e Humor, em evento organizado pela ECA-USP. Vocês precisam se inscrever através deste link. É grátis e aberto ao público. Vocês podem aproveitar e se inscrever em mesas durante a semana toda (do dia 2/10 ao 5/10) da "Censura em Debate". Programação aqui. 
No dia seguinte, 6/10, às 10 da manhã, na Fundação Rosa Luxemburgo, participarei de um debate organizado pela Marcha das Vadias de SP: Mulher e Mídia: Olhares Feministas. Terá a mediação de Priscila Bernardes e a participação, além de mim, da Heloísa Buarque de Almeida. (clique para ampliar o poster).
Por enquanto é só. Só! Não tenho tempo nem de respirar. Mas fiquei sabendo que o hotel em que ficarei em SP tem piscina. Essa não escapa. 

sábado, 22 de setembro de 2012

"O QUE ME DÓI É ESSA IMPOTÊNCIA"

A S. me mandou este email:

"Fui numa festa aqui em Brasília, chamada criolina. Muito boa, boa companhia, bom ambiente. Eu estava com meu namorado, um amigo dele e uma amiga do amigo dele.
O que me irritou aconteceu quando entramos na fila pra pagar nossa consumação. O amigo do meu namorado e a amiga estavam na frente, eu e meu namorado atrás. Estávamos lá esperando quando vi um homem passar no meio da gente e passar a mão nessa amiga que estava conosco. Eu fiquei assustada na hora e minha primeira reação foi falar pra ela: "Eu vi quem foi!", mas o cara já tinha entrado no banheiro. Então ela me disse que não tinha sido a primeira vez. Ela estava muito irritada.
Eu fiquei realmente nervosa com o que tinha acontecido e quando paguei a minha parte vi que o cara também estava na fila. Falei para a amiga: "foi ele?", ela confirmou. Então eu perguntei: "Vc se importa se eu for falar com ele?" Ela respondeu que não.
Nesse momento eu já não era a pessoa mais calma da festa. Cheguei no cara e disse: "Eu vi o que vc fez! Eu vi que vc passou a mão na minha amiga! Vc tem noção de que esse tipo de coisa, na lei atual, é estupro?!" Ele tentou responder, mas não consegui formular uma frase. Eu continuei: "Vc quer ir pra delegacia comigo agora só porque vc é um babaca e acha que isso é aceitável?! Vamos pra delagacia comigo, senhor estuprador? Vamos?". Nisso meu namorado chegou, me tirou de lá e disse pro cara: "A gente tá vendo o que vc tá fazendo e isso não tá certo! Fica na sua!", e então saímos da festa.
Quando meu namorado foi me deixar em casa, nós brigamos. Ele disse que a minha abordagem está errada, que eu não vou mudar o mundo assim, que eu me arrisquei demais, que ele sabe que mesmo se eu estivesse sem nenhum homem por perto pra me defender, eu teria agido da mesma maneira. Que eu estava errada, que eu deveria ter convencido a amiga a denunciar o cara ao invés de tentar mudá-lo. Que se eu quero fazer a diferença que eu entrasse pra uma ONG, fizesse um blog e o c*ralho a quatro.
Ele tava bem irritado com a minha atitude e foi um tanto agressivo. Depois se desculpou e disse que concorda comigo em tudo, mas era um risco muito grande a se correr.
O que me dói também é o seguinte: no início do ano passado, eu fui atacada em um banheiro da UnB em dia que rolava festa lá. Eu já fiz boxe (por quatro meses, muito pouco tempo) e consegui dar uns três socos no cara e me livrar dele. Eu tinha um amigo me esperando do lado de fora do banheiro, e os seguranças da UnB já tinham sido avisados porque uma menina tinha sido ataca cinco minutos antes no mesmo banheiro. Então os seguranças aparaceram antes que o cara pensasse em sair do banheiro. Seguraram o cara até a polícia chegar.
OK, a polícia chegou. Eu, a outra guria que foi atacada e o cara que nos atacou, na mesma viatura. Na primeira metade do caminho, a gente escutou o cara pedindo desculpas. Na segunda metade, foi ele falando que ia nos matar, que ia nos perseguir e matar nossos amigos também.
No nosso depoimento, a gente citou isso e a policial (era na delegacia da mulher) perguntou se alguém poderia confirmar. Falamos dos policiais que conduziam o veículo, ela perguntou pra eles, e a resposta foi: "Não me recordo muito bem [não faziam nem dez min], mas ele pediu desculpas."
O meu ponto é: se nosso apoio na lei é falho, que segurança temos de procurá-la? Não digo que é errado! NUNCA! Sempre que sei que a lei está ao meu favor eu corro atrás, sendo fazendo BO, indo no Procon, etc. Mas eu entendo quem não tem total confiança. Eu entendo quem não se sente à vontade pra denunciar.
Acho que eu devia ter incentivado a amiga a denunciar de fato! Mas eu também penso... eu entro em muitos blogs que fazem a conscientização contra o estupro, acho linda essa divulgação. Mas os estupradores leem isso? Eles não querem saber disso, eles não pesquisam isso, eles não se interessam por isso, porque o que eles acreditam é outra coisa! Lola, me diz que estou erradíssima! Me diz que estou sendo extremamente radical. Por favor, estou frustrada demais com isso tudo! Me sentindo totalmente impotente!
Outro dia me ligaram a respeito do meu processo contra o cara que me atacou no banheiro. Perguntaram: "Vc que propor um acordo?", eu: "Como assim? Ele propôs algo?", responderam: "Não...", eu: "Vc quer que eu proponha que ele se arrependa, me peça desculpas e diga que isso nunca mais vai acontecer com ninguém?", do outro lado da linha: "Err...", eu: "Eu não tenho absolutamente nada pra propor, se ele tiver, me avise que eu penso a respeito." E desliguei.
É muita impotência. Um sentimento de impotência que parece não ter fim. Sinto que não tenho braços nem pernas, que não posso fazer nada, apesar da violência ter sido contra mim!"

Minha resposta: Esse sentimento de impotência é muito comum pra qualquer pessoa que já foi atacada (verbal ou fisicamente), que denunciou o agressor, e viu que nada foi feito. Dá muita raiva mesmo. Mas acho que temos que denunciar sempre.
É verdade, estupradores não leem blogs feministas. Mas há vários tipos de estupradores. Quem sabe esse cara que acha que tudo bem passar a mão numa menina leia blogs e reflita? (Sou otimista.) Já recebi várias mensagens de rapazes que achavam até engraçado aterrorizar uma mulher numa rua à noite, gritando-lhe "elogios", e que se arrependeram desse comportamento. E tem os caras que acham que "forçar um pouco" não têm nada de mais. Esses podem muito bem ser leitores de blogs. Além do mais, vai que o sujeito que passou a mão na sua amiga ficou completamente apavorado e nunca mais faça algo assim novamente? Pode acontecer.
Quer dizer, se dependesse da vontade de blogs feministas pra erradicar o estupro no mundo, acredite, o estupro não existiria mais. Mas nossa incapacidade de erradicar o estupro não quer dizer que não devemos falar sobre ele. Ademais, creio que falamos muito mais de cultura de estupro que de casos individuais.
Não acho que você está errada. Temos mais é que nos revoltar com a situação mesmo. E precisamos reagir, como vc reagiu: você foi pra cima do cara que passou a mão na sua amiga, você, em legítima defesa, socou um homem que queria te agarrar no banheiro, e ainda abriu processo contra ele. Isso é reação. Isso é a gente dizendo que os dias fáceis em que um sujeito nos agarrava e a gente só ficava com vergonha acabaram. Esses caras vão pensar duas vezes antes de tentarem repetir o feito.