sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O LADO NEGRO DE QUE FORÇA MESMO?

Não tenho vergonha de confessar que nunca fui fã de “Guerra nas Estrelas”. Embora em 77 eu já fosse uma menina-prodígio de dez anos, eu ainda era isso, uma menina, e sabres de luz não me interessavam. Jedis nunca me disseram nada. Na realidade, celebrar tanto um filme, como vários críticos fazem com “Guerra”, é como adorar uma música de quando a gente era criança ou adolescente: a qualidade do produto em si importa menos que as lembranças que esse produto gera. Ou seja, o filme funciona como pretexto pro pessoal ficar nostálgico da própria infância.

Pra escrever este textículo, fiz minha lição de casa. Entrevistei um amigo de SP, o Maurício Muniz, especialista em quadrinhos e ficção científica. Ele concorda que “Guerra” tenha infantilizado o cinema, mas acha que a responsabilidade não é só do Lucas. “Guerra” seria apenas um dos inúmeros filmes pensados pro público de 12 anos. Pro Maurício, os efeitos especiais foram revolucionários, e, mais ainda, a franquia criou uma venda de bonecos licenciados inédita até então. Porém, meu amigão prefere “Jornadas nas Estrelas” e crê que a primeira trilogia de “Guerra” é muito melhor que a segunda – por não ser totalmente dirigida pelo Lucas. Segundo ele, Lucas é melhor produtor que diretor.

Continuando com a lição de casa, além da entrevista, revi o “Guerra” de três décadas atrás, o que não foi fácil, porque agora o DVD vem como “Episódio IV – Uma Nova Esperança”. O maridão não tinha certeza absoluta que o IV era o antigo I. Colocamos o DVD pra tocar, e o maridão dizia, triunfante: “Olha só, é a mesma música do de 77!”. E eu: “Todos os seis têm a mesma música!”. Ele continuava clamando que eram os mesmos letreiros, e eu insistindo que os letreiros eram sempre iguais. Até que ele se cansou: “Então, meu anjo? Se o filme de 77 é igual aos que vieram depois, qual a diferença em ver qualquer um deles?”.

Enfim, juro que tentei rever “Guerra”. E agora compreendo mais do que antes por que o Han Solo virou símbolo sexual (o Harrison Ford jovem era tudo). E sigo achando estranho que a princesa Lea seja a única mulher da galáxia. Mas toda vez que aparecem os robôs eu caio num sono profundo. Eles funcionam como medicamentos élficos pra mim. Podiam mandar o R2-D2 e o C-3PO pro espaço. Aliás, não é por nada não, mas HAL é que era computador de verdade. Provavelmente, não existiria “Guerra” se não fosse por “2001, Uma Odisséia no Espaço”. E talvez não existiria “Piratas do Caribe” se não fosse por “Guerra”.

CRÍTICA: MOTOQUEIRO FANTASMA / Motoboy fantasma

Pelos trailers de “O Motoqueiro Fantasma”, esperava uma sessão de tortura lenta. Agora tenho até vergonha de dizer em voz alta que o filminho é ótimo passatempo. Tá, claro que é baseado numa história em quadrinhos classe B (ou C). Os de Classe A incluem “Homem-Aranha”, “Superman”, “Batman”, quiçá “X-Men”. Acho que o personagem fantasmagórico da Marvel não tem muito prestígio. Então (tô chutando) ninguém esperava uma grande adaptação pro cinema. A começar pelo Nicolas Cage, que – dizem as más línguas – é tão fã dos quadrinhos que tem uma caveira pegando fogo tatuada em alguma parte do seu corpo. Caveira com foguinho, entenda, é a marca registrada do “Motoqueiro”. Como eu não conhecia a trama direito, demorei até entender por que tinha que ser motoqueiro-fantasma, e não, sei lá, pra ficar nos esportes, enxadrista-fantasma ou futebolista-fantasma. É que o sujeito é, no fundo, uma espécie de motoboy-fantasma, desses que coletam almas perdidas e filhos rebeldes e os entregam ao demo.

Logo no início da aventura, depois de conhecermos os personagens na juventude (principalmente o motoqueiro e sua namoradinha), o Nicolas Cage recebe a visita de uma “velha amiga”. O filme faz questão de mostrar a Eva Mendes (de “Hitch – Conselheiro Amoroso) e, em seguida, inserir uma imagem da atriz que fez a namorada jovem. Sussurrei pro maridão, “Tô me sentindo uma retardada”. Vejamos: o motoqueiro teve inúmeras amigas na sua adolescência, ou apenas uma? A gente podia confundir a Eva exatamente com quem, uma moto?

Depois dessa derrapada violenta o filminho melhora. Pelo menos ele definitivamente não se leva a sério, e esse é o seu maior trunfo. Quando o Nicolas (parecendo um Clive Owen com muito menos charme) diz “Vamos rodar” no trailer, parece que ele é pior ator do mundo e suas redondezas. Mas no filme a canastrice dele faz total sentido. Ele sabe que não tá interpretando Hamlet. Outro que encarna bem o espírito trash é o Wes Bentley (o vizinho/ traficante/videomaker de “Beleza Americana”). Como ele é bonito demais pra fazer papel de bonzinho, tá ideal como o filho do Coisa Ruim. Aliás, o que ele tem feito de 99 pra cá? Nada? Hibernado?

E eu tô tão decadente que nem reconheci o Peter Fonda (que faz Satanás). Ele é filho do Henry, irmão da Jane, pai da Bridget, e também conhecido como aquele de “Easy Riders – Sem Destino”. Não é à toa que ele e o Sam Elliot estejam no filme. Ambos fizeram vários papéis de motoqueiros. Deve ser uma homenagem. Inclusive, volta e meia um personagem pergunta pra outro: “O que você tá fazendo aqui?”, o que ressona nos ouvidos do espectador. O Nicolas responde essa pergunta difícil com um “Eu tenho um contrato...” Essas piadinhas internas são uma graça. Adorei também a cena em que o Nicolas explica pra Eva porque furou o jantar. “Ahn, é que eu vendi minha alma pro diabo, e agora trabalho pra ele”. Eu não conseguia parar de rir.

E gostei de quando o rapaz pergunta ao demo o que ele quer em troca pela cura do pai, e o Peter passa os olhos pela garagem cheia de bugigangas antes de dizer: “Sua alma, pode ser?”. E de quando o Sam pede pro Nicolas esterilizar alguma coisa, e o Nic se prepara pra incendiar o troço, antes de ser avisado que seus superpoderes não funcionam assim. Tá, não é uma obra-prima, mas compara com a versão horrenda que fizeram pro “Demolidor”. Oops, acabei de descobrir que é do mesmo diretor.

Só espero que toda essa propaganda de motos envenenadas não faça com que o pessoal que anda de moto tente imitar os dublês do filme. Porque uma coisa é cinema, outra é a realidade, e eu já vejo acidentes de moto demais todo dia. Taí algo que não precisa de mais incentivo. Agora, por mais que eu tenha gostado da aventura, quer saber se estou louca pra ver a seqüência? Digamos que eu prefira fazer pacto com o demo. Se bem que vou negociar minha alma em troca de algo melhor: Sata, se estrear por aqui qualquer outra coisa que me permita pular “Norbit”, pode me colocar em cima de uma moto e transformar minha caveira num fogaréu. Sou toda sua.

P.S.: Tem quem ache que minha alma já tem dono. Outro dia uma leitora irada escreveu rebatendo uma crítica minha em que eu dizia que felizmente não sou religiosa, logo jamais serei possuída. Segundo essa leitora, Satanás possui alguém pra incomodar, e ele não teria o que fazer com almas que já lhe pertencem. Bom, a alma do motoqueiro é de propriedade particular do demo há décadas, e mesmo assim o Príncipe das Trevas acompanha a carreira do pobre-coitado com afinco. Não é lindo rebater fanatismo religioso com sabedoria de histórias em quadrinhos?

CRÍTICA: MOTOQUEIROS SELVAGENS / Porcos mais engraçados que selvagens

“Motoqueiros Selvagens” é uma comédia beneficiada por ser o único filme passando em Joinville fora “Homem Aranha 3” (talvez tivesse algum Tartarugas Ninjas na jogada). Imagine a cena: a galera chega ao cinema pra prestigiar o aracnídeo e tá tudo lotado. Acaba vendo o dos velhinhos motociclistas. Tá, não são tão velhinhos. Não é bem “Cowboys do Espaço” ou “Cocoon”, mas já já o quarteto composto por John Travolta, William H. Macy, Tim Allen e Martin Lawrence chega lá. E também não é que esta comédia acéfala seja tão última opção assim. Afinal, três dos quatro componentes do elenco são astrosi. Do Travolta nem preciso falar. E só porque você, como eu, teve a sorte grande de escapar do maior sucesso do Tim, “Santa Clause”, e do Martin, “Vovó...Zona”, não faz deles menos famosos. Os críticos americanos deram nota média de 27 em 100 para “Motoqueiros”, mas o público ignorou e lotou as salas. Acredite se quiser, o troço fez 40 milhões de dólares no fim de semana de estréia. Se você me perguntar se eu iria ver esse filme se houvesse praticamente qualquer outra coisa passando, tirando “Norbit” e “Mr. Bean”, eu diria que não. Mas agora que já vi, e o estrago já foi feito à minha frágil mente, devo dizer que me diverti.

Esta baboseira escapista trata de quatro amigos de meia idade cansados de suas vidinhas que pegam suas motos e vão andar por aí sem destino e, óbvio, se metem em enrascadas com motoqueiros barra pesada. Menos piadinhas escatológicas viriam a calhar. Deve ser por isso que eles se chamam porcos selvagens no título original. É meio estranho que uma história com quarentões seja usada pra atrair espectadores de dez anos. Ou homens de meia idade gostam do mesmo humor infantil? De minha parte gostei do pessoal empurrando motos no meio do deserto e do urubu indo na cola. E também do Travolta vendo o bar explodir pelo espelhinho retrovisor e de todas as caretas que ele faz depois disso. Aliás, desde “Pulp Fiction”, parece que todo projeto com o Travolta envolve seu personagem dançando ou ensinando alguém a dançar. Já passou da hora de outro “Pulp” pra ressuscitar a carreira dele.

No começo de “Motoqueiros” há um grande pânico homofóbico (inclusive com uma referência a “Amargo Pesadelo”)ii. Todo santo filme com amiguinhos de infância que deixam suas mulheres de lado pra curtir uma aventura tipicamente masculina tem medo da homossexualidade. Precisam provar que a amizade que eles têm é coisa de homem. Mas pouco a pouco a homofobia se dissolve e “Motoqueiros” parte pra algumas cenas menos previsíveis. Por exemplo, a gente observa montes de insetos estourando na cara deles, já que esses fãs de roupa de couro não são muito afeitos a capacetes. O Travolta vê seus amigos de cara suja e ri com a boca aberta. A gente tem certeza que ele vai engolir algum inseto nojento, mas não. É um pássaro que se choca com ele.iii E sou só eu que penso que seria mais fácil pra todo mundo se as motos tivessem rodinhas laterais, sabe, que nem bicicleta pra criança? Pelo menos o William H. Macy não cairia tanto.

O filme fica embaraçosamente ruim, até trava, na cena em que o grande William diz pra Marisa Tomei que é um “geek” (traduziram pra infomaníaco; tá mais pra nerd), e a atriz tida como o momento mais esquizo da história do Oscar (quando ela ganhou uma estatueta por “Meu Primo Vinny”) responde que não, que ele é uma pessoa sensível, única e especial. Nesse instante o roteiro não tava falando com o William, mas com todos os sujeitos de meia idade que lotam feiras de pornografia nos EUA e aparecem fantasiados em convenções de Jedis. Meu ódio cresceu, mas foi apaziguado pela aparição-surpresa do Peter Fonda logo em seguida. “Motoqueiros” é tão trash que quase chega a ser bonitinho. Se eu me lembrasse do filme no futuro, até poderia me envergonhar por ter rido em várias cenas. Mas esta comédia vai ficar na memória tanto quanto “City Slickers” (“Amigos, Sempre Amigos”), sua clara inspiração. Só se a carreira do Travolta continuar sem destino é que vamos ouvir alguém dizer “Puxa, que saudades de ‘Motoqueiros’!”. Será ele mesmo.


i Dos quatro o que mais se destaca é interpretado por William H. Macy. Por pouco William não abocanhou um Oscar de coadjuvante em 1997 por sua performance no fantástico “Fargo”, dos irmãos Coen. O marido da Felicity Huffman, de “Desperate Housewives”, é especializado em papéis esquisitões, como o de “Boogie Nights – Prazer sem Limites” (1997). “Boogie” é ótimo até o seu terço final. Depois fica sério e trágico demais e perde seu ritmo. Mas ainda assim o épico de Paul Thomas Anderson sobre a indústria pornô americana é muito bom. E eu poderia seguir fazendo mil e uma conexões para evitar falar de “Motoqueiros”.


ii Deixe-me interromper para um serviço de utilidade pública, pra que se você comparecer a “Motoqueiros”, possa rir com a piadinha amarga. “Amargo” é um drama da década de 70 lembrado pelo célebre duelo de banjos e muito mais conhecido por conter uma cena de estupro masculino. É o mesmo roteiro, versão terrível: um grupo de homens sai pra viajar e se dá mal.


iii Por falar em insetos nojentos, já falei que esta semana comi um chocolate inteiro, e só depois vi que havia uma minhoquinha rosa, viva, no papel? Acho que essa foi a única sobrevivente de uma grande família de minhoquinhas.

CRÍTICA: SHREK 3 / Bicho verde pra criança

É, com quase todas as salas do Brasil passando arrasa-quarteirões infantis com o número três no título, não consegui escapar de “Shrek Terceiro”. A sessão que eu fui era noturna, e ainda assim tava cheia de criança sobrando na poltrona. Perguntei pro maridão como ele se sentia vendo um filme pensado pra pessoas quarenta anos mais novas que ele, e ele respondeu: “Me sinto bem, desde que ninguém me reconheça aqui...”. Pois é, o problema principal é que isso não é pra gente. Eu posso até compartilhar algumas risadas com alguém de 4 aninhos, mas suponho que eu tenha interesses diferentes, inclusive um senso de humor diferente. Esses filmes claramente agradam seu público-alvo.i O que me aborrece é que a) não haja opções, já que todas as salas exibem a mesma coisa; e b) os críticos adultos elogiem uma dessas atrações só porque não sentiram vontade de esmurrar a tela. Aturar não é igual a adorar, é? Parto do princípio que o máximo que um adulto pode sentir por esses produtos infantis é tolerância. “Shrek” não vai se tornar o filme de cabeceira de um adulto, a menos que seu gosto esteja tão infantilizado após anos e anos do mesmo tipo de cinema que ele pode vestir uma camiseta escrito “Hollywood, você conseguiu!”.

Eu devo ter sido a única no planeta a achar o primeiro “Shrek” insuportável. É que não agüentei ver um monte de mesmice tratada como se fosse algo inovador. O segundo eu não vi no cinema, felizmente, mas vi agora em DVD, até porque queria entender quem era a mulher-homem que faz companhia às princesas (acho, não tenho certeza, que é a irmã feia de alguma delas) e como o rei vira sapo. Dormi em certas partes do segundo, e me pareceu que o ogro verde deu lugar a um humano durante todo o desenho, mas gostei do Antonio Banderas como o Gato de Botas. Agora, com “Shrek 3º”, as expectativas são muito mais baixas, e ninguém em sã consciência ousa pôr a animação e a palavra “criativa” na mesma frase. Então me permiti aturar melhor o filme.

A história, escrita por oito (!) roteiristas, é idêntica à formula usada pelos seriados cômicos: no primeiro episódio os pombinhos se conhecem, no segundo se casam, no terceiro tem filhos. E no quarto o ogro, cansado, começa a se engraçar por outras saias. Mas sempre volta pra saia original (a separação só ocorre no sexto episódio, sem ser definitiva). Pelo menos em “Shrek 3º” a trama é simples.ii Tem uma mensagem fofinha contra os “bullies”, os valentões que atormentam seus colegas nas escolas de países ricos.iii A mensagem em si é um pouco ambígua, porque não condena abertamente os malvadões, só explica pra vítima que o essencial é não se deixar afetar. Ainda assim há um recado direto pros valentões: ninguém precisa ser vilão o tempo todo. De todas essas lições de moral, só não gostei do elogio à monarquia. Tá certo que o Shrek acha mais importante ser pai do que ser rei, mas mesmo assim reis são louvados. A monarquia é ótima, desde que o rei seja bonzinho. Se eu tivesse filho, não sei se gostaria que ele crescesse ouvindo que hierarquia e poder absoluto são ótimas pedidas.iv

Há várias piadinhas legais. Gostei daquela em que alguém diz “o maior culpado é você”, apontando pra um pobre coitado; todos gritam “Pega ele!” e tem início um linchamento. As primeiras três das 25 mortes do Rei Sapo são gracinhas. E é bacana que as mulheres resolvam a situação e queimem sutiãs.v Gostei do “Just Say Nay”, que o pessoal daqui nem tentou traduzir.vi E a cara do gato é tudo (se bem que quem tem gato de verdade já tá acostumado). A adolescente do meu lado adorou, e gritava “Muito massa!” a cada aparição do gato, principalmente quando ele dança e canta rap. Já a criançada vibrou mais com os puns no fim. Quem diria, hein, que adolescentes e crianças de quatro anos têm tanto em comum?... E pro pessoal mais crescidinho, o que sobra?vii

i Por exemplo, um amiguinho meu de 9 anos adorou “Piratas do Caribe 3”, e o coloca no topo da lista dos melhores que ele já viu. Ele só não gostou dos beijos. Contou seis cenas de beijo, e nessa idade isso é insuportável.

ii Não vou narrar a trama aqui, porque qualquer um que viu o trailer já tá cansado de saber. Além disso, trama?! Isso importa num desenho?

iii Certamente existem “bullies” aqui também, mas acho que não é um problema tão sério como em outros lugares. Ou é?

iv Meu comentário favorito envolvendo morais e bons costumes vem de um site cristão: “o longa-metragem tem momentos de flatulências e outros gases, mas nada que incomode profundamente uma boa família cristã”. Fora, incômodos profundos!

v Depois elas voltam a sua condição “normal”, claro, que não é governar, mas ser lindas e cuidar da prole. Aliás, notou como o Shrek pode ser gorducho e feio que é engraçado? Já a Fiona tá mais magra do que nunca, mesmo agora que ela está grávida de, o quê, sêxtuplos? Perdi a conta.

vi Eu também não sei como traduzir: “Apenas diga não”, talvez. O chiste tá em “nay” ser inglês antigo. Mas “just say nay” soa bem melhor que “just say no”. Até rima!

vii Só porque eu mais ou menos gostei do desenho não quer dizer que eu queira ver “Shrek” 4, 5, 6, e sabe-se lá quantos vierem pela frente.

CLÁSSICOS: PIERROT LE FOU / O que ver nos EUA? Um clássico francês

Fui ao cinema ver um filme de 42 anos de idade: “Pierrot Le Fou”, de Jean-Luc Godard (acho que teve alguma época no Brasil em que levou o título de “O Demônio das Onze Horas”, mas não consigo imaginar por que). Vi “Pierrot” por livre e espontânea vontade e também por total falta de opções. Era isso ou “Bratz”, “Desbravadores” ou “Stardust”. Única grande estréia da semana aqui nos EUA? Uma refilmagem pouco convidativa de “Antes Só do que Mal Casado”. Se for comparar qualquer filme da Nouvelle Vague com a maior parte da produção atual de Hollywood, chego à conclusão que as produções devem ser de outra galáxia. Não são do mesmo meio, nem pertencem à mesma arte. Godard, que foi eleito o 31o melhor diretor da história por uma revista de entretenimento dos EUA (dependendo da fonte essa posição sobe bastante), disse certa vez: “Houve um tempo em que talvez o cinema podia melhorar a sociedade. Esse tempo se perdeu”. “Pierrot Le Fou” (algo como Pierrô, O Louco) certamente é desse tempo (1965, pra você não precisar fazer contas).

“Pierrot” tem uma história, não muito linear, mas tem: um executivo de TV deixa pra trás seu cotidiano burguês pra viver uma paixão com uma mulher envolvida com o crime. No meio do caminho o casal rouba e mata. Se a trama lembra o magnífico “Bonnie & Clyde, Uma Rajada de Balas” (1967), é porque Godard se inspirou no roteiro do filme do Arthur Penn. Mas o roteiro, pro Godard, é apenas o ponto de partida pra várias improvisações (bom, pra mim “Bonnie” é muito mais marcante que qualquer coisa do Godard, mas eu sou daquelas pra quem o cinema americano dos anos 70 é mais importante que Fellini, Bergman, Glauber Rocha e Godard – juntos. Pra mim o período dourado do cinema foi a década de 70 nos EUA. Eu me sentia mal por pensar assim, até descobrir que minha ídola Pauline Kael também achava isso).

“Pierrot” tá repleto de metalinguagem. O casal de protagonistas – interpretados por Jean-Paul Belmondo e Anna Karina, ambos lindos de morrer – ou fala com a câmera ou faz um take depois do outro, sem cortes. Ficamos sabendo o nome de uma pessoa sem nada a ver com a história e sua profissão – figurante de cinema. E, numa festa, o diretor americano Samuel Fuller (de “Cão Branco”) discursa que cinema é “amor, ódio, violência e morte: emoção”. É bacana como a trilha sonora se interrompe, e volta nos momentos mais dramáticos. E é ótimo que a gente veja logo no início a personagem da Anna derrubando um frentista com um peteleco porque, quando ela aparecer com outra roupa, sem que tenha se trocado, a gente vai saber que está num filme com regras próprias, em que continuidade não vale nada.

Além das referências ao cinema, o filme traz inúmeras alusões a tudo e a todos, desde à Guerra do Vietnã ao assassinato do Kennedy. O teórico Fredric Jameson disse que “Pierrot” pode ter sido o primeiro exemplar pós-modernista do cinema. Faz sentido, porque o filme mistura a cultura de elite (Renoir, Velásquez, Joyce) com a baixa cultura (quadrinhos, música pop, o Gordo e o Magro), uma das marcas do pós-modernismo. E não dá pra negar que “Pierrot” continua atual e influenciando gente. Identifiquei pelo menos dois instantes em que a Uma Thurman em “Pulp Fiction” imita a Anna (um deles é quando ambas estão com a cara sangrando). Tarantino deve ser um grande fã, já que na parte dirigida por ele em “Sin City”, as luzes coloridas do Godard iluminando o carro também estão lá.

A maior qualidade de “Pierrot” é seu humor. Isso torna o filme leve e desnorteia o clima existencial/pretensioso causado por um dos personagens, que gosta de recitar poesias e escrever em seu diário. Eu, como a Anna, prefiro o Belmondo imitando um cowboy e atirando numa vietnamita, pra entreter um soldado americano e descolar uma grana. Vi o filme num museu de arte, cercada por americanos, e a maior parte ria das gozações godardianas contra os EUA. Mas liga a televisão na Fox daqui pra ver o que eles pensam de quem critica americano e de quem é francês...


Coisas que não cabem no texto mas eu quero dizer

- Impressionante como a moda se apropriou do termo “alta cultura”. “High culture” em inglês é comum, mas em português a gente tem que traduzir o termo pra “cultura de elite” ou “cultura elevada”. Bizarro.

- Na festa do começo de “Pierrot” os convidados discursam como se fossem um comercial ambulante. Nesse instante o filme pareceu datado (a festa lembra as orgias de “Blow Up – Depois Daquele Beijo”) e ao mesmo tempo muito atual. Hoje há empresas que pagam gente pra narrar comerciais em festas, pra se tatuar com logomarcas...

- Numa hora a Anna se olha no espelho e vê o rosto de uma mulher junto a um homem prestes a se jogar de um precipício a 100 km por hora. Olhei pro maridão e me identifiquei com ela, bien sur. Talvez tirando a parte dos 100 km por hora.

- Noutro momento fiquei preocupadíssima com uns bichinhos. Tá, talvez o pessoal não tivesse essas inquietações na época, mas no filme tem uma arara e uma raposa, ou será um cachorrinho, e eles ficam amarrados. Nada pior pra animais do que serem bichinhos de estimação de um casal narcisista em crise existencial. Porque a gente sabe que o casal vai viajar por aí e abandonar os coitadinhos, sem nem sequer soltar a corda. Passei o resto de “Pierrot” pensando na raposa...

- “Pierrot” faz entender por que os melodramas hollywoodianos adoram pintar uma paixão eterna como algo que dura alguns dias, e de preferência em que um dos dois pombinhos morra antes que os dois comecem a se odiar. A Anna quer ir pra Las Vegas. O Belmondo, pra Florença. Não tem como o relacionamento dar certo. Melhor morrer mesmo.

- Um diálogo no final não tem relação com o resto, mas é divertido. Um homem conta e canta sua vida amorosa. O quê, eu não mencionei que “Pierrot” tem números musicais? Pois tem.

- O último filme que vi do Godard antes deste foi o polêmico “Je Vous Salue, Marie”, de 85, se não contar um episódio de “Aria”. Vi por causa do escândalo que a Igreja Católica fez em cima, e gostei. Truffaut é muito mais acessível. Faça o favor de ver pelo menos “A Noite Americana”.