quinta-feira, 30 de novembro de 2006

OSCAR PULVERIZADO

Foi um Oscar chato, pra variar. Mas pelo menos foi mais curto e só houve três números musicais (um pior que o outro). Quem só viu pela TV aberta foi brindado com a arrogância da Globo, que achou melhor transmitir Big Brother do que uma festa assistida por um bilhão de pessoas que ocorre apenas uma vez por ano. Assim, perdemos as seis primeiras premiações e todas as piadas da abertura.

Foi também um Oscar bastante previsível e, principalmente, pulverizado, como há muito não se via. Quatro filmes ganharam três estatuetas cada: “Crash – No Limite”, “O Segredo de Brokeback Mountain”, “Memórias de uma Gueixa” e “King Kong”. Esses dois últimos receberam estatuetas técnicas, mas importantes. “Munique” e “Boa Noite, e Boa Sorte” não levaram nadinha. Os Oscars para Philip Seymour Hoffman, por “Capote”, e para Reese Witherspoon, por “Johnny e June”, eram esperadíssimos. Não houve surpresa, nem pra Reese, que agradeceu toda a sua árvore genealógica. O Philip ao menos ficou emocionado e nervoso. Pra atriz coadjuvante deu a lógica, a Rachel Weisz, por “O Jardineiro Fiel”, a única unanimidade do meu bolão. A escolha do George Clooney como ator coadjuvante por “Syriana” já deve ter sido bem mais difícil, já que o Paul Giamatti dividia os votos. Mas foi uma forma de premiar o bonitão mais político da noite.

Eu senti que “Paradise Now” não levaria melhor filme estrangeiro quando o José Wilker, comentarista da Globo, disse que “lógico que iria ganhar”. Não acho que foi propriamente uma surpresa a vitória do sul-africano “Tsotsi”. Pense bem: um drama com uma criança contra um drama sobre homem-bomba, feito na Palestina. O tema de “Paradise” acabou sendo polêmico demais pros velhinhos judeus da Academia.

Surpresa mesmo só na última categoria da noite, a de melhor filme. Todo mundo esperando a consagração de “Brokeback Mountain”, e o Jack Nicholson abre o envelope e dá “Crash”. Mas não diria que foi uma zebra. O que provavelmente aconteceu é que “Mountain” foi pintado como favorito há meses, e o pessoal não agüentava mais ouvir falar. Fora as piadinhas e sátiras de que foi alvo. E também, os votantes certamente adoraram “Crash”, ou senão não o teriam indicado pra seis categorias. Lembre-se que o filme foi ignorado pelo Globo de Ouro. No final, no Oscar, não houve a aguardada celebração gay. Pelo contrário, os três Oscars dados a um melodrama tão anos 40 como “Gueixa” mostram como o conservadorismo segue reinando forte na Academia.

CRÍTICA: PECADOS ÍNTIMOS / No íntimo todo mundo é igual

Faz quase um mês que vi “Pecados Íntimos” em São José, e só agora chegou a Joinville. Até iria ver o ótimo drama de novo, mas começo a suar frio só de pensar no estado da cópia (“Ponto Final” e “Vôo United 93” vêm à mente, cheios de cortes e com os rolos trocados!). Bom, “Pecados” foi um dos filmes importantes de 2006 preteridos pelo Oscar, assim como “Filhos da Esperança”, “Volver” e “O Grande Truque”: praticamente todos entraram nas listas dos melhores do ano, até receberam uma ou outra indicação, mas acabaram saindo de mãos abanando. Sinal de que houve uma boa safra, como há muito não se via.

“Pecados” é um desses raros filmes adultos, o antídoto de “Norbit”. Mais do que moralista, o drama aponta pra uma vida que é um inferno (como se a gente não sacasse isso vendo o trailer de “Norbit”). Eu me senti melhor vendo “Pecados”, porque constatei que os problemas de todo mundo são bem maiores que os meus. Ou talvez o que o drama represente seja igualzinho ao que acontece em outros subúrbios mais pobres. “Pecados” aponta o preconceito e o tédio vividos pelas famílias americanas de classe média alta. O adultério surge como algo inevitável (pesquisas afirmam que um em cada dois brasileiros já traiu a mulher, e como disse um amigo, o outro é um mentiroso). Essa é uma das historinhas: a personagem da Kate Winslet, que fez doutorado em literatura inglesa (parece familiar?), vive uma enfadonha rotina de dona de casa sem intimidade com o marido e sem carinho pra sua filhinha. Ela se envolve com o bonitão paradão Patrick Wilson (convincente também em “Meninamá.com”), cuja esposa, Jennifer Connelly (de “Diamante de Sangue”), é uma profissional de sucesso que não liga pra sexo. Pra completar, há um pedófilo no pedaço (Jackie Earle Haley, indicado ao Oscar de coadjuvante). Todo o elenco tá perfeito (gostei bastante do Noah Emmerich, que faz o melhor amigo do Jim Carrey em “Truman Show”) e, se houvesse uma estatueta pra melhor elenco, o deste filme concorreria com o de “Pequena Miss Sunshine” e o de “Infiltrados”.

O título original, “Little Children”, ou “Crianças Pequenas”, pra mim se refere aos homens, todos umas criancinhas que se recusam a crescer. O pedófilo vive com e para a mãe, o bonitão sonha em voltar à adolescência, seu amigo também, e o marido da Kate, idem. Não que a personagem da Kate seja muito madura emocionalmente, mas é diferente. Não é uma imaturidade do tipo “eu quero! Eu quero! Agora!”, é mais de acreditar em amor romântico. Eu fiquei com pena de todo mundo.

A adaptação é a mais literal possível. O diretor Todd Field, de “Entre Quatro Paredes”, pegou o romance de Tom Perrotta (que escreveu “Eleição”. Não li nada dele, mas o cara só pode ser bom), e incluiu até uma voz em off bem esquisita. Acho que o que me incomodou foi que fosse voz de homem. Ou talvez que fosse meio épica: uma voz de épico narrando coisas tão banais. Mas seria difícil deixar a voz de fora. Ao menos não é a voz em off tradicional, acompanhando apenas um personagem (o protagonista, em geral), mas todos. É uma voz onipresente, como a de “Dogville”. Ah, outra coisa que remete à “Dogville” são as estátuas, os brinquedinhos decorativos de gesso. Mas “Pecados” lembra mais “Beleza Americana” e, óbvio, “Felicidade”, que tem o melhor retrato de um pedófilo visto nas telas. Quando apareceu a Jane Adams num papel parecidíssimo ao dela em “Felicidade”, não tive mais dúvidas da inspiração de “Pecados”. É “Felicidade” com menos humor.

Aliás, a trama que fala do pedófilo é complicada. Lógico que a comunidade se foca no carinha pra não ter que lidar com seus próprios fantasmas interiores. Ou seja, pra gente é fácil condenar os suburbanos que tiram seus filhos da piscina pública assim que o sujeito entra (essa cena, além de “Tubarão”, também me lembrou de algum filme com a Halle Berry, em que ela entra numa piscina de um hotel luxuoso e todos os hóspedes saem, por ela ser negra. E só voltam a entrar na piscina depois de trocada a água!). Mas e se eu tivesse filhos, qual seria minha reação? Se há um molestador de crianças à solta na vizinhança, eu não gostaria de tê-lo por perto. Mesmo que eu esteja vigiando e dê pra ver que ele não está fazendo nada de errado na piscina, vai que ele se excita em ver crianças em trajes de banho. Eu odiaria que um molestador se excitasse pensando nos meus filhos. Assim como é irritante pra gente, que é mulher, receber telefonema de um tarado arfando do outro lado da linha e perguntando “O que você está vestindo?”. Se você é homem, só passou por isso na condição de predador. Por outro lado, o pedófilo já foi condenado e solto e tem todo o direito de circular por onde quiser. E ele não molestou nenhuma criança (ainda?), só gosta de se exibir pra elas. Mas seria conveniente se ele evitasse lugares cheios de guris, não?

“Pecados” tem seus pecadilhos, como o personagem do marido da Kate, um cara sem qualidades redentoras. Parece que tiraram algo da história. Mas é um drama pra lá de inteligente, que faz pensar. Só dói ouvir a Kate Winslet reclamar por não ser bonita. Vai te catar, diretor!

CRÍTICA: PEQUENA MISS SUNSHINE / Pequeno grande filme

Finalmente vi “Pequena Miss Sunshine”, só que teve que ser num DVD pirata que alguém me mandou, já que o filme não vai chegar aqui mesmo. E adorei. Eu ri, eu chorei. Ri muito mais do que chorei, pra falar a verdade. Deve ser a melhor comédia do ano passado, e claramente um dos melhores filmes, junto com “Volver” e “Filhos da Esperança” (e também gostei muito de “Os Infiltrados” e “O Grande Truque”; tô esquecendo algum?). Merece todas as quatro indicações ao Oscar. Antes de vê-lo, duvidava que “Sunshine” pudesse repetir o feito de “Crash” e levar a estatueta de melhor filme. Mas agora... É um pequeno grande filme, o único “feel good movie” entre os cinco, desses que elevam nosso espírito e fazem bem à alma. É praticamente impossível não se deixar cativar. Sabe o clássico dos anos 70, “Ensina-me a Viver”? Acho tão bom quanto.

Um resumo pra quem ainda não teve a chance de se engraçar com “Sunshine”. Uma família viaja vários quilômetros numa van quebrada pra levar a filha caçula para participar de um concurso de miss mirim. Dentro vão o pai, Greg Kinnear (de “Melhor é Impossível”), um desses americanos pra quem o pior insulto na vida é “perdedor”; a mãe, Toni Collette (mãe também em “O Sexto Sentido” e “Um Grande Garoto”), que mantém a família unida; o avô, Alan Arkin (o embaixador americano de “O Que é Isso, Companheiro?”), viciado em heroína e revistas pornôs; o tio, Steve Carell (de “O Virgem de 40 Anos”, que eu não gostei muito mas ri um pouquinho, e aquele um que rouba a cena do Jim Carrey em “Todo Poderoso” como âncora), um acadêmico que acabou de tentar suicídio; e os dois filhos do casal, um adolescente, Paul Dano (nenhuma referência me diz nada), que fez voto de silêncio e afirma odiar todo mundo, e uma menininha de sete anos, Abigail Breslin (acredite se quiser, a filha do Mel Gibson em “Sinais”, aqui num papel mais interessante do que ser comida de alienígenas fascinados pelo milharal do Mel). O elenco todo tá tão bem que faz a gente querer que o Oscar invente uma nova categoria, a de uma estatueta pra melhor elenco, sem destacar um ator em particular. Talvez quem eu tenha gostado mais tenha sido o Steve Carell, divertidíssimo e até sexy atrás da barba e dos olhos que julgam tudo, mas é difícil dizer. Todos estão fantásticos. Inclusive a garotinha fazendo o perigoso papel de ser criança num filme americano, onde todas as crianças são gênios e gracinhas. Ela é uma gracinha mesmo, muito espontânea, e deve ser a segunda favorita na competição pro Oscar de atriz coadjuvante. O Alan Arkin concorre também, e deve ganhar se o Eddie Murphy não levar. Aposto como o Alan foi indicado pela bela cena em que ele ensina a netinha a rosnar.

Mas ser ótimo ator não vale muito se o roteiro não ajuda (vide “A Grande Família”, só pra ficar num exemplo recente). E no caso de “Sunshine”, cogito uma revolta sangrenta durante a cerimônia se a comédia não ganhar o Oscar de melhor roteiro original (já que “Volver” sequer foi indicado). O incrível é que este é o primeiro roteiro do Michael Arndt, assim como a primeira investida na direção do casal Jonathan Dayton e Valerie Faris, que até então só dirigia clips musicais. Os três conseguiram construir figuras adoráveis, embora repletas de problemas. Desde o começo eu me apaixonei por todos os personagens, até o do Greg, que é insuportável. Gosto desses filmes praticamente sem vilões, em que ninguém é só bonzinho ou só malvado. Bom, talvez haja duas mulheres que ficam com uma pecha mais de vilãs e poderiam ser suavizadas um tiquinho: a do hospital e uma das organizadoras do concurso.

E, claro, desnecessário dizer que “Sunshine” joga no lixo esses concursos de beleza e toda a obsessão competitiva dos americanos. Quiçá o tema seja mesmo aquele levantado pelo adolescente, de que a vida inteira é um concurso de beleza, um após o outro (adoro a cena em que ele escreve no seu caderninho “Abrace a mamãe”). Mas até o concurso é tratado com certa delicadeza. Tudo bem, é um freak show cheio de mães desesperadas, pedófilos disfarçados, e meninas que vão crescer pra se tornar a Reese Witherspoon do ótimo “Eleição”. Mas a gente adora a Abigail, e não a condena por querer participar. E todos na família se esforçam pra que ela chegue lá. O que ela faz no seu show de talento me fez rir em voz alta e acordar o maridão, que dormia ruidosamente ao meu lado (ele não conseguiu nem ver os créditos iniciais, então acho que a culpa não é do filme).

Enfim, ainda não decidi se vou apostar em “Sunshine” no meu tradicional bolão do Oscar (faça o favor de participar), mas certamente já tenho pra quem torcer.

CRÍTICA: UMA NOITE NO MUSEU / Profissão perigo

Até que enfim estreou “Uma Noite no Museu”. Eu não estava ansiosa, é que o trailer foi o que mais vi na vida. Pelo menos, com a estréia espalhafatosa do produto principal, fico livre do trailer. E pode me chamar de ingênua, mas pelo trailer eu não tinha sacado que era filme pra criança. Tudo bem, é lógico que não imaginei que fosse uma aventura pra adultos pensantes, mas não sabia que era um tipo de “Jumanji”. Acho até que esqueceram de avisar o público porque, na sessão lotada em que estive, mal havia crianças. Mas os espectadores aparentemente adoraram. No final, houve até uma tentativa de meia dúzia de aplausos. E pude notar que a adolescente atrás de mim, que tagarelou com a amiguinha o tempo todo, realmente se envolveu. Quando um símio rouba a chave e abre a janela pela milésima vez, ela gritou: “Que macaquinho filho da mãe!”. Portanto, falar mal de “Museu” significa ir contra o entusiasmo do público e pode implicar em risco de linchamento. Como disse o maridão, sempre muito solidário: “Eu não queria estar na sua pele. Se alguém me perguntar, não te conheço”.

Daí decidi não detonar “Museu”. Claro que este filme, baseado num livro infantil, sobre a profissão perigosa de ser vigia noturno num museu que ganha vida, deveria ter vinte minutos a menos, no mínimo. Chega uma hora que cansa, porque a piada é uma só. E o Ben Stiller já fez este papel quantas vezes antes mesmo? Mas até que o negócio é inofensivo. Além de não conter nenhuma gag machista ou racista, as mensagens são edificantes. Deixe-me ver se lembro de alguma. Ah é, todas as profissões são nobres. Outra mensagem é que a História, com H maiúsculo, pode ser divertida. Não é uma novidade, mas, sei lá, talvez os fãs do Ben não conheciam. De qualquer forma, quer um exemplo melhor do que o rival romântico do protagonista não ser um babaca total, ou a ex não ser uma nojenta que ainda não descobriu o valor do pai do seu filho? O deslize, moralmente falando, é tentar endeusar um presidente americano. Aqui o Teddy Roosevelt, interpretado pelo Robin Williams, é um modelo de sabedoria. Inteligente, amigão, e ainda apaixonado por uma índia (que é a única mulher do museu. Quem conta a história é mesmo o vencedor). Na vida real o Teddy era mais adepto da Política do Porrete e de meter o bedelho no cotidiano de todos os paisinhos, o nosso inclusive.

Eu gostei do dinossauro, o Rex, que só quer brincar, apesar da gente já ter visto isso nos Flintstones. E do Átila, o Huno. E por falar em peças de museu, foi bom ver o Mickey Rooney e o Dick Van Dyke como velhos vigias. Só que o Mickey, assim como os leões (deve ser porque leão é o bicho mais difícil de gerar por computador, vide “Nárnia”), está desperdiçado. O Dick ao menos mostra seus dotes de dançarino no final, que remete à “Mary Poppins”. Ou seja, somando tudo, “Museu” definitivamente deve ser o melhor filme do Shawn Levy, o que não quer dizer muito, já que o sujeito dirigiu atrocidades como “Doze é Demais” e “Recém-Casados”.

Tem também uma personagem bem perdida no meio de toda a correria: a guia do museu. Ela está escrevendo uma tese de doutorado sobre a índia. Dá pra ver que ela não tem vida social, pois fica andando de táxi até altas horas da manhã. Até aí, normal. Mas as possibilidades são imensas. Imagina essa guia levar a índia pra defesa, à noite, pra impressionar a banca. O filme desperdiça esse potencial. Por que não juntar vários personagens históricos e ver como eles se saem? “Museu” só junta cowboys e romanos, e deixa os pobres maias trancafiados. Que sacanagem com os inventores do chocolate!

Ao sair da sessão, o maridão fantasiou o que ocorreria se os manequins das lojas do shopping também ganhassem vida durante a madrugada. Não ia ter muita graça, ia? Isso prova que museus são mais interessantes que shoppings. Aliás, um tempão atrás, eu estive no maior museu do mundo, o Smithsonian, em Washington. Eles diziam no panfleto que, se a gente dedicasse um minuto pra ver cada peça, levaria cem anos pra ver tudo. É fascinante. Eu me lembro de uma cozinha cheia de baratas que mostrava o que aconteceria no nosso dia a dia se houvesse um desequilíbrio ambiental no planeta. Pois é, naquela época ainda se usava o “SE”.

CRÍTICA: MIAMI VICE / Velhos vícios

Lembra da série de TV “Miami Vice”? Pois é, eu também não. Pra mim é uma coisa tão anos 80... Lembro do Don Johnson usando óculos escuros e carrões envenenados, e mais nada. Mas, pra falar a verdade, acho que confundo o troço com “Chips”. Ok, peçam a minha caveira, amantes da série. Porém, o filme tem pouquíssimo a ver com o que eu não vi na TV. A única semelhança é que o diretor é o Michael Mann, que na época era produtor da série. Não sei se você sabe que os críticos babam pelo Michael, colocando “Colateral” num pedestal. Eu gosto de “Fogo Contra Fogo”, gosto de “O Informante”, mas “Colateral” é um porre. E aquelas imagens em câmera digital, marca registrada do Michael, pra mim só distraem.

De todo modo, o “Miami Vice” feito pro cinema é bom, embora um pouco cansativo. Jamie Foxx (“Ray”) e Colin Farrell (“Alexandre”) interpretam dois agentes infiltrados no mundo da droga. Os caras têm os melhores brinquedinhos que o dinheiro do contribuinte pode comprar: helicópteros, aviões, lanchas, armas de última geração e ternos bem feitos, mas não conseguem um corte de cabelo decente. E nem um barbeiro pra cortar todos aqueles pêlos faciais. Quando eu não tava me concentrando nisso, pensava na inutilidade do combate ao tráfico. Os policiais matam um traficante e imediatamente aparece outro no lugar. Enquanto houver demanda, vai haver droga. Ainda mais no que deve ser o maior mercado consumidor do mundo (tô chutando, mas o terceiro país do planeta em população é tão top de linha em tantas coisas que consumo de droga não deve ser exceção).

Outro pensamento que tomou meu tempo foi calcular quanto ganha uma alta executiva da droga, papel da Gong Li (a malvada em “Memórias de uma Gueixa”). A Gong é o tipo de atriz que só fica linda em filmes de época. Em “Miami” ela não tá exuberante como nos seus outros trabalhos, tanto que nem a reconheci. E ela não fala inglês. Teve que memorizar suas falas foneticamente, o que soa estranhíssimo. Numa superprodução que custou mais de 135 milhões de dólares, não dava pra pagar um curso superintensivo pra Gong? (legal é ouvir os críticos americanos reclamando que não conseguem entender o que ela diz). Bom, o Colin se envolve com a Gong, pro desespero de seu parceiro. E, quando o Colin diz pro Jamie que está 100% do lado da Gong, pensei que o Jamie iria gritar “Eu mato essa Yoko!”.

“Miami” tem várias cenas de sexo que matam o ritmo do filme. Mas chega uma hora em que algo explode e alguém meio importante quase morre. Isso me levou a pensar nas raras vantagens de ser gordo. Calma que preciso contar minha experiência. Semana passada um vendedor desses produtos de “Quer enriquecer? Pergunte-me como” me avisou que pessoas com gordura abdominal estão com um pé na cova. Respondi que o preconceito contra os gordos é a única forma de discriminação politicamente correta hoje em dia, porque tem até o aval da ciência, mas que, em séculos passados, a ciência também era usada pra discriminar outras pessoas, como gays e negros. Aí saí da lojinha e levei o maior tombo da minha vida. Literalmente. Tropecei num desnível de calçada e caí feio, de frente, estatelada no chão. Mas não bati a cabeça e estou aqui vivíssima pra contar a história porque tenho, hum, como direi, amortecedores naturais. E isso me deu poder, porque descobri que jamais vou bater a cabeça numa queda. Depois fiquei sabendo que a mãe de uma amiga minha foi atropelada por uma moto, jogada longe mesmo, e só sofreu alguns arranhões porque foi protegida pela sua massa corporal. Ninguém fala nisso, né? Então quando uma mulher em “Miami” sofre uma perfuração no pulmão ou algo do gênero, eu realmente fiquei pensando que, se ela fosse gordinha, os ossos não perfurariam órgãos vitais com essa facilidade. Mas a gente é massacrada diariamente pra trocar essa camada protetora de matar agentes do FBI de inveja por shakes emagrecedores de 100 reais.

Certo, certo, o filme. Outro motivo razoável pra ver “Miami” é que o Brasil é mencionado algumas vezes, se bem que não pelas suas belezas naturais. Pelo menos não é tão citado como Colômbia, Paraguai, Haiti... O pessoal também fala bastante de Cuba, mas como um lugar onde o comércio de drogas não é bem vindo (ponto pro Fidel?). Ou seja, esses países subdesenvolvidos vivem querendo invadir os EUA com drogas pesadas. Ainda bem que os americanos contam com superagentes infiltrados e acima de tudo honestos no combate ao crime. E ainda bem que o Jamie não precisa se infiltrar no meio de supremacistas arianos, porque ia ser difícil.