quarta-feira, 29 de novembro de 2006

CRÍTICA: SUPERMAN, O RETORNO / Super nostálgico

“Superman” voltou! E, antes de declarar o que achei, um serviço de utilidade pública. O gerente reclamou que o público não tá lá essas coisas por acreditar que se trata de uma refilmagem. Ele ouve bastante gente dizer, “Ah, eu já vi na TV”. Este “Retorno” é bem diferente dos ótimos filmes de 78 e 80, e mais diferente ainda se comparado aos péssimos exemplares de 83 e 87. Mais que uma seqüência do clássico de 78, é uma homenagem. Isso posto, devo acrescentar que o gerente tem muita sorte com o que falam pra ele. Porque pra mim o que o pessoal conta antes de eu entrar na sessão é que este é o “Filme do Pingolim Encolhido”, já que, aparentemente, tiveram que diminuir por computador um pouco do volume da calça do Super. Pra que me contam isso? O resultado é que a Lolinha vai ao cinema só pra se concentrar nas partes pudicas do Homem com a Cueca Fora da Calça. Mas isso é uma besteira, claro, pois todo santo super-herói sofre com o volume dentro daqueles uniformes apertadinhos. Desconfio que essa preocupação excessiva ocorra porque o diretor Bryan Singer (de “X-Men” 1 e 2) é gay assumido, e havia vários rumores que este “Retorno” seria um Super Gay. Não tem nada disso.

Ok, então o que mais a Lolinha viu quando não estava pensando no pingolim encolhido do Super? Viu uma historinha meio chinfrim, mas adequada pra apresentar o paizão dos super-heróis a toda uma nova geração que nem respirava em 87. Na realidade o Super vem de 1938, e isso se nota porque, no universo onde ele vive, o povo se informa através do Planeta Diário, não da Rede Globo. E também porque ele troca de roupa em cabines telefônicas. Como as cabines estão tão extintas quanto os dinossauros, agora ele tira a roupa no meio da rua mesmo. Mas tirar a roupa é fácil, apesar de caro. Quero ver é colocar a roupa. Não sei se o salário do Clark Kent dá conta de tanta camisa jogada fora no poço do elevador. De qualquer jeito, o Super é tão antigo que o maridão narrou que ele e os amigos faziam enquetes na década de 60 pra eleger qual herói voava melhor... e elegiam o National Kid. Eu devia ter pulado essa parte.

Mas pra qualquer um que vivia em 78 a música do John Williams traz uma carga emocional muito forte. Eu me senti com onze anos de novo. O elenco da vez tá bem razoável. O Gene Hackman fez o Lex Luthor definitivo, mas Kevin Spacey também tá bem. Os diálogos mais divertidos são os dele. Todo mundo ri quando ele pergunta pra Lois Lane: “Você tem certeza?”. Ou ele esclarecendo pra amante que o Super sabe quando uma mulher finge. Ou ele dando uma peruca prum menininho e dizendo, “O resto é meu”. Desta vez o Lex quer uma ilha só pra ele, o que tiraria espaço de metade dos EUA. O mapa não mostra direito, mas desconfio que parte da gente aqui (talvez o Nordeste) também seria coberta pelas águas. Felizmente nosso herói salva Porto de Galinhas.

Já o Brandon Routh, que faz o Super, tem uma missão mais difícil. Tem ocasiões que ele parece o Christopher Reeve, noutras um boneco de cera, mas quem ele mais parece mesmo é a Sandra Bullock. Sério, gente, coloca uma peruca nele e temos a Sandra. E ainda assim precisamos tirar o chapéu pro Brandon. O rapaz não tá apenas substituindo o maravilhoso super do Christopher, mas entrando no lugar de um astro canônico, que já era santo antes de morrer, desde o acidente que o deixou tetraplégico. O Brandon conquistou meu coraçãozinho cínico na minha cena preferida, quando ele e a Lois saem pra voar. Ela diz pra ele que seu namorado sempre a leva pra voar, ao que ele retruca “Mas não assim”. No momento seguinte ela sussurra “Tinha esquecido como você é quentinho” (e se o Super não fosse tão sério ele corrigiria: “Quentão! Quentão!”). Até guri de dez anos consegue sacar a conotação sexual.

A Lois não é um papel fácil, até porque o Homem de Aço poderia namorar qualquer uma das 3,5 bilhões de mulheres do mundo e, ouso dizer, uma enorme parte da população masculina, e a gente deve acreditar que o Super Fiel só tem olhos (e capinha, e collant) pra Lois. Aliás, preciso me lembrar de nunca pegar o mesmo avião que a Lois. Tudo bem que o Super a salva, mas ô mulher pra se meter em encrenca. Melhor anotar no meu caderninho pra nunca estar no mesmo país que a Lois, só pra garantir. A Kate Bosworth que faz a Lois é jovem demais. A Margot Kidder parecia mais inteligente. Sei lá, eu até acreditaria se a Lois da Margot ganhasse o prêmio Pulitzer. Mas gostei da Lois, ressentida, escrevendo artigo pichando o Super. É bom pros homens saberem do que uma mulher deixada pra trás é capaz. Se o maridão me abandonar, publico um artigo no jornal chamado “Porque o Mundo não Precisa do Maridão”. E ainda ganho o Pulitzer.

Acho que, de retorno a retorno, prefiro o do Batman, mas este “Superman” dá um bom caldo. Lá pelas tantas um pacotinho tímido despenca do céu e a gente pensa: é um pássaro caindo? Um avião? Nessas horas difíceis minha mãe se confunde e grita: “Não! É o Homem-Aranha!”. Homem de collant é tudo igual.

CRÍTICA: SERPENTES A BORDO / Serviço de bordo completo

Por que Hollywood insiste em fazer filmes trash? Eles não sabem que trash são baratinhos? Um dos motivos que “Serpentes a Bordo” não funciona é que não é suficientemente trash. Qualquer um dos vídeos no YouTube sobre o filme dá de dez em “SAB”. Meu preferido é um chamado “Como Hollywood Trabalha”, que mostra um agente tendo uma idéia brilhante. Ele relê “O Diário de Anne Frank” e acha que dá um “Lista de Schindler encontra O Quarto do Pânico”. Mas a parte dela presa num porão é meio lenta, então pode ser num avião. E como nazistas não são vilões populares hoje em dia, que tal substituí-los por cobras? Ah, e ao invés de uma menina judia amedrontada, por que não um negão valentão? Voilá: “Serpentes a Bordo”.

Não vou resumir a história porque tudo que você precisa saber tá no título. A premissa é ridícula—se bem que mais inverossímil ainda seria “Tiranossauros Rex no Avião”—porque cobras são bichos rasteiros, e aviões são bichos voadores, e os dois geralmente não se cruzam. Mas quem fez esse troço deve ter pensando: “Que medo de avião, que nada! Isso é tão démodé... Vamos potencializar esse medo. O que a gente pode pôr lá nas alturas? Morcegos vampiros? Gente que se intoxica com a comida de bordo e vira zumbi devorador de carne humana? Ah, já sei: cobras de todos os tipos!”. Qualquer coisa num lugar fechado de onde não se pode escapar é horrível. Não acredita? Pense nas ameaças de um Karaoquê a Bordo. Pessoalmente, acho que eu teria mais medo de “Baratas Voadoras a Bordo”. Talvez cobras não me apavorem tanto porque, sendo uma pessoa estritamente urbana, posso contar nos dedos da mão quantas vi na vida, tirando as do Butantã. Se bem que eu nunca peguei o vôo de Honolulu pra Los Angeles...

“SAB” seria melhor se fosse mais irresponsável, menos nojentinho, e não tentasse ser terror. Nos créditos iniciais até pensei que isso pudesse acontecer, porque eles colocam a palavra “Serpentes” no título, dão uma pausinha, e só então põem “a bordo”, criando ironia. Mas, quando aparecem as cobras, e de um jeito super fálico, é de lascar. Uma pica o pênis de um cara que fala com seu bráulio. Acho que suas últimas palavras, antes de “Argh! Larga já isso, sua vadia!”, são: “Como é que vai, bonitão?”. Outra dá o bote no seio de uma loira (aliás, alguém me explique como dá pra transar em banheiro de avião. Mal cabe uma pessoa lá, quanto mais duas e mais uma cobra gigante). Mas a pior sobra pra quem? Ué, pra mulher gorda, claro, vítima preferencial de plantão. Pra gorda não basta um réptil peçonhento subir por entre suas pernas—ela tem que gostar! Sério, se você acha que eu tô invocando, pense só: a gorda não tem uma só fala. Ela entra muda e morre calada. Até um bebê de colo tem mais diálogos que ela, ele fala “Dá dá”. Mas quando surgem bebês e crianças eu bocejo, porque sei que, se tem alguém que não vai morrer naquele avião, são as inocentes criaturinhas de Deus (o cachorrinho corre perigo porque todo mundo odeia Chihuahuas mesmo). O contraste é óbvio: é só a gorda aparecer pra gente prever que seu fim será breve e terrível. Bom, pra falar a verdade, a gente também não imagina um destino próspero pra loira siliconada. Ainda por cima ela gosta de sexo, e sexo sempre acaba em pena de morte na moral torpe de filmes de terror.

Mas nem é pra ficar com pena da gorda. Coitado é o Samuel L. Jackson! Às vezes ele até parece estar se divertindo, como quando olha pro piloto ressuscitado caindo pelas tabelas e lhe pede, rápido, pra acionar o piloto automático. Ou no discurso dele de “Chega de cobras!”, visivelmente exagerado pra ser o mais trash possível. Mas boa parte do tempo ele deve estar pensando em como quase abocanhou o Oscar de coadjuvante por “Pulp Fiction” e onde a carreira dele foi parar. Até que um personagem diz pra ele: “Eu não queria estar no seu lugar!”. Daria pro cinema armar um coro de “Nós também não, Sam!”.

De repente ocorre uma confusão e surge uma anaconda, dessas maiores que o avião. E eu pensei, será que o avião já caiu, quero dizer, pousou? Essas anacondas não me botam medo porque elas comem um inglês, um inglês e uma azeitona no máximo, como aperitivo, e depois têm que fazer a digestão durante dias. E ninguém come agentes do FBI, que são os maiorais. Todos competentes e dedicadíssimos ao seu trabalho. E os homens negros também têm poder, mas só os homens. Mulher negra não entra no filme.

Minha fala favorita é “snakes on crack” (“cobras doidonas”), que, imagino, deve ter sido a segunda opção de título. Gosto também da pergunta típica de filmes-catástrofe. Você sabe, aquela em que uma aeromoça aparece e interroga os passageiros: “Alguém aí sabe pilotar um avião?” E adoro quando o piloto principal se mete em algum lugar esdrúxulo e morre, e o segundo piloto grita “Já vou!”. Pô, não daria pra um dos dois se preservar um pouquinho mais, pelo bem de todos no avião, incluindo as najas e cascáveis? E aí no final um cientista pergunta prum garoto se a cobra que ele viu era a mesma de Indiana Jones. Ahn, nessa hora o guri devia ter falado “Até parece que eu já ouvi falar de filme de 25 anos atrás, seu cientista on crack!”. Mas como “SAB” não é trash, ele faz que sim com a cabeça, o mentiroso.

CRÍTICA: SEPARADOS PELO CASAMENTO / O grande mistério

Após semanas passando em outras cidades, finalmente estreou aqui “Separados pelo Casamento”. Sei, eu mal podia esperar. Aliás, que diacho de título é esse? Em inglês é simplesmente “A Separação”. Mas o filme tem tudo pra agradar quem adora ouvir um casal discutindo a relação durante uma hora e meia. O quê, você não acredita que sádicos assim existam? Ué, então por que fariam um filme desses? Taí uma boa pergunta.

“Separados” não é comédia nem drama. Na realidade é meio que suspense, sabe, um filme de mistério: o mistério de por que duas almas sem nada em comum acabam se casando. Imagina se uma mulher que ouve MPB enquanto cozinha algo chique vai se envolver com alguém que conheceu comendo seis cachorros-quentes na torcida de um jogo de baseball. Mas, pelo jeito, como a Jennifer Aniston (a gracinha de “Friends”) e o Vince Vaughn (da refilmagem de “Psicose”) estão de xaveco na vida real, os realizadores devem ter pensado que rola química entre eles. Erraram feio. Deu quinze minutos depois do começo e uma espectadora já resmungou, “Ai, que chato!”. Meia hora e tinha gente deixando o local. E poucas vezes vi tanta gente checando e atendendo o celular durante um filme. Ninguém falava “shhh!”, porque a conversa no celular era mais interessante do que tava acontecendo na tela.

O pior é que o casal não discute a relação apenas entre si. A Jennifer conversa com sua melhor amiga, e o Vince com o seu, que, convenientemente, é um barman.

Outro lado péssimo é que as duas partes do casal são insuportáveis. A Jen é tão chata que dá importância em decorar a mesa com limões prum jantar em família. E o Vince é o típico garotinho de dois metros de altura: deixa as meias jogadas pelos corredores pra mamãe pegar. E quando ele não mora mais com a mamãe, serve a esposa mesmo.

Agora, vale a pena pagar um ingresso de cinema pra ver um casal brigando? Isso tem de graça. Qualquer um que seja casado ou tenha um relacionamento de mais de dois meses conhece o roteiro. É muito simples. A mulher acusa o companheiro de ser um inútil, de não ajudar nas tarefas domésticas, e de não lhe dar valor. Não quero tomar partido, mas obviamente ela tem razão. O homem pode até se revoltar um pouquinho, mas, depois de meia hora de indignação, no máximo, deve bater na porta do quarto da mulher e implorar-lhe perdão. Palavras recomendadas: “Me desculpe, minha paixão, eu sou um verme rastejante e você é minha deusa, e eu não mereço você. Ou você merece alguém melhor do que eu. Por favor, releve meus erros e eu prometo melhorar. Eu não sou nada, e você é tudo”. E a vida segue. (Nesses momentos difíceis não convém a mulher abusar e questionar: “Ah é? Quais são os seus erros?”, porque o cara não vai saber).

O talento desperdiçado por “Separados” é incrível: a Ann-Margret (de “Ânsia de Amar”), velhinha e esticada, aparece num pedacinho, como a mãe da Jen. A Judy Davis (“Maridos e Esposas”) é sua chefa, a neurótica dona da galeria de arte. O Vincent D’Onofrio (“Nascido para Matar”) é o irmão do Vince, e eu que não pensava que alguém pudesse ser mais alto que o Vincent em Hollywood. O maridão até perguntou por que o nome do Vince aparece antes do da Jen nos créditos. A resposta veio fácil: porque ele é produtor do filme, amor. E a culpa pela história também é dele. Mas o público de sábado à noite tava mais preocupado em patrulhar possíveis personagens gays. O colega da Jen, por exemplo. Era só ele aparecer pro público gritar “Hmm....” e “Ihhh”. Ahn, o que esse pessoal faz da vida quando não aparece personagem gay pra pegar no pé?

Fora a implicância com o gay, o público só rompeu sua apatia mesmo quando ouviu que dois copos de cerveja custam oito dólares lá em Chicago. E por falar em dinheiro, por que nos filmes ninguém se preocupa com o vil metal? A chefa da Jen lhe dá um cheque em branco e, como ela é tão virtuosa e mais encucada com limões que com dólares, ela recusa. Um cliente simpático, bonitão e rico o suficiente pra comprar um quadro horrendo por 35 mil dólares dá em cima, e ela nem tchun. Serei eu a única pessoa na face da Terra a pensar em dinheiro? Nessas horas eu lembro sempre de um amigo meu. Na época do impeachment do Collor, rolavam boatos que os deputados tavam recebendo cem mil dólares cada pra votar em favor do nosso mui honroso presidente. Eu quis testar a ética do meu amigo, e perguntei: “Por esse dinheiro, você votaria pela absolvição do Collor?”. E ele: “Por cem mil dólares, eu DAVA pra ele!”. Fim da discussão. Mas em filme americano é diferente.

Olha, só sei que o maridão pode me acusar de tudo, menos de fazer com que ele se vista de vaquinha, como faz a Jen. Assim não tem amor que agüente, tem?

CRÍTICA: SE EU FOSSE VOCÊ / E se fosse um ajuste?

Tem quem afirme com todas as letras que 2005 foi um ano de qualidade pro cinema brasileiro. Deve ser gente de SP, porque eu e o resto do país não temos acesso a filmes ultra-badalados como “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Cidade Baixa”. Por aqui tenho mais é que me contentar com “O Coronel e o Lobisomem” e outro que não sai da minha listinha dos piores do ano, “O Casamento de Romeu e Julieta”. E fico feliz que “Dois Filhos de Francisco” tenha estourado a boca do balão na bilheteria, mas, cá entre nós, essa produção só é uma obra-prima pra quem ama Zezé di Camargo e Luciano, o que definitivamente não é o meu caso. Ou seja, pra mim o cinema nacional deixou um gostinho amargo na boca. E “Se Eu Fosse Você”, último filme que vi no ano, só confirmou esta impressão.

Não que a comédia seja péssima. Ela é bonitinha, tanto quanto outra com título similar, “E se Fosse Verdade”. Notou que estamos enfrentando uma epidemia de “Se Fosse” nos títulos em cartaz? Deve ser homenagem ao Bob Fosse. Ou isso ou é pra me confundir mesmo. Enfim, este produto global do Daniel Filho traz o Tony Ramos e a Glória Pires acordando um dia e, por causa do alinhamento de planetas ou algo assim (não vamos procurar comprovação científica), mudando de corpo. As confusões que se seguem são óbvias, tipo: o Tony no corpo da Glória menstrua e não sabe usar um o.b. Certo. Ahn, talvez o defeito mais grave do filme seja que ele não mostre muito o cotidiano de Tony & Glória antes da transformação. O personagem da Glória, por exemplo, acaba ficando mais frágil na pele do Tony, e isso cria inconsistências mil. Alguém tímida e insegura realmente daria show na piscina durante uma festa? Ou talvez meu desdém se deva à classe econômica do casal. Tem quem odeie filme nacional que exiba pobre porque essa incrível revelação pode afetar a imagem do Brasil no exterior. Eu já acho meio revoltante ouvir um personagem discutindo finanças da família dizer pro outro: “Ah, benhê, a gente não precisa ir pra Aspen”.

Mas, claro, o Tony é um ator excepcional e a Glória não faz feio, então “Fosse” vale pelo carisma de seus atores. Só que pra mim teve uma vantagem adicional: é bom ver esses filmes tão clichês-ambulantes porque aí que eu noto como algo deu errado no meu condicionamento. Eu me sinto pertencendo a uma outra espécie se comparada com o que prega uma canção no fim da comédia. Parece que mulher gosta de batom, mulher gosta de salto alto, mulher gosta de comprar roupa, mulher gosta de ir ao banheiro com outras mulheres... E eu que aprendi a ir ao banheiro sozinha aos três anos! E, desde que não se seja adolescente, é legal ser diferente (rimou). Quero dizer, a gente não nasce vestindo rosa ou azul, nasce?

Uma feminista dos anos 70 já dizia que as mulheres deviam parar de ser as maiores consumidoras do capitalismo. Por outro lado, se você não se importa em ganhar menos exercendo a mesma função ou em varrer a casa, é ótimo ser mulher. Acho até que a única coisa que a gente realmente deve invejar nos homens é esse negócio de fazer xixi em pé. Aliás, todo o equipamento masculino já é uma gracinha. Opa, eu disse invejar? Ato falho: leia-se admirar. Ou pode ser que esse papel tão bem-definido do que significa ser homem e mulher seja ruim pra ambas as partes. É lógico que nessa sociedade vale mil vezes mais a pena nascer homem branco do que mulher negra, mas tenho um amigo que freqüenta o psicanalista pra reaprender a chorar, porque aquela ladainha de “menino não chora” funcionou com ele. No fundo, um filme como “Se Fosse” só reforça nosso condicionamento. É como se fosse um recall pra ajustar os parafusinhos da infância.

CRÍTICA: SENTINELA / A primeira-dama e o vagabundo

“O Sentinela” seria mais atraente se ousasse contar a história que não quer contar: o escândalo do adultério da primeira-dama com o guarda-costas. Imagine os tablóides e suas manchetes (“A dama e o vagabundo”, “Orgia na Casa Branca”). Seria uma delícia, não? Ao invés disso, temos um suspense muito inferior à “Na Linha do Fogo” sobre um agente secreto, o Michael Douglas, fazendo de tudo pra proteger o presidente americano. Ou seja, é pura propaganda imperialista, mostrando que nada pode ser mais importante que preservar o manda-chuva do planeta. O próprio cartaz já é um comercial pra anunciar que “Nunca houve um traidor em 141 anos de Serviço Secreto”. Mas em nenhum momento alguém faz a pergunta que não quer calar: ahn, por que será que tem tanta gente doida pra liquidar o presidente dos EUA? E é por isso que geralmente detesto filme desse tipo—sempre torço pra que (que a CIA não me leia) o presidente morra.

A impressão é que dá pra trocar o mandatário da nação por qualquer um de seus guarda-costas e ninguém sentiria falta. Nem a mulher, vivida pela Kim Basinger. Aqui a Kim tá meio magrinha e abatida, mas devo dizer que nenhuma primeira-dama na história dos EUA se pareceu com ela. Lembra da Nancy Reagan e da mãe do Bush? Ambas aparentam ser as tataravós da Kim. A Hillary e esta agora de plantão são loiras, mas sinto que esta é a única coisa que elas têm em comum com a estrela de “9 e ½ Semanas de Amor”. Agora, eu entendo perfeitamente a primeira-dama. Ela olha pro lado e vê seu marido de três décadas com um rosto tipo o do Bush. Olha pro outro lado e se depara com um monte de guarda-costas saradões. Não é uma decisão difícil. Difícil é só saber por onde começar: com o Michael, o Kiefer Sutherland (amaldiçoado a salvar presidentes pro resto de seus dias), ou o Martin Donovan (de “Insônia”), que é um pitéu?

O que levou o maridão a sugerir que, pra trabalhar na Casa Branca, todos os seguranças deveriam ser eunucos. Mas no fundo eu não acredito que esse pessoal faça sexo, pelo menos não com seus respectivos cônjuges. Poder substitui qualquer outro prazer. E tem tanta gente o tempo todo que é impressionante que o Bill Clinton tenha conseguido ficar alguns segundos sozinho com a Monica.

“Sentinela” (daria pra fazer alguns trocadilhos vulgares com o título, mas não neste horário) tá cheio de pistas que não fazem sentido. Por exemplo, suponha que você seja um terrorista que planeja liquidar o presidente. Vai ficar enviando mensagens pra CIA? E não posso entrar em detalhes pra não entregar segredos, mas se alguém descobrir quem chantageia o Michael com fotos da primeira-dama, por favor, me avise. Ademais, poderia dizer que minha cena preferida, fora aquela em que o helicóptero presidencial vai pelos ares, ocorre quando um agente atira num vilão. O vilão tá lá, sem respirar, prestes a morrer em alguns segundos, e o agente acha que essa é a hora certa pra uma confissão e grita: “Rápido! Diga o nome do seu chefe!”. Mas o que eu realmente quero dizer é que morro de vontade de passar por um detector de mentiras. Como não minto, passaria tranquilamente num desses testes. Mas, se eu tivesse que mentir, qualquer um perceberia no ato. Nem precisaria do tal polígrafo.

O legal desses filmes de direita é que manifestantes anti-globalização são pintados como vagabundos sem outro propósito no mundo, além do de infernizar a vida dos seguranças. E “Sentinela” não revela quem quer riscar o presidente do mapa-múndi. A gente só sabe que os vilões obviamente são estrangeiros, porque americanos jamais cometem crimes contra o seu próprio país. Aquele prédio detonado em Oklahoma, os caras que atiraram no Lincoln e no Kennedy, o outro demente que tentou matar o Reagan—esses sujeitos provavelmente só cometeram esses atos anti-patriotas porque algum terrorista árabe ameaçou matar a família deles. Ai, ai. Só quero chegar aos 60 anos com a disposição física do Michael. E de preferência com um presidente americano menos reaça no poder.