segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

MINHAS MÃES QUEREM QUE VOCÊ PARTICIPE

Ha ha! Essas pessoas que pensam que podem ganhar da Lolinha no bolão do Oscar...

Participe! Você pode apostar no bolão não-pago, no pago, ou nos dois. Vai logo nos dois! E ri melhor quem não ri da Lolinha se ela por algum motivo escuso não ganhar.

(Eu adoro a Annette Bening e gostaria muito que ela levasse um Oscar. Mas ainda assim vou achar muito injusto se a Natalie Portman não ganhar. Mas acho que ganha, sabe?).

O PENSAMENTO VIVO (MODO DE DIZER) DOS MASCULINISTAS

Macho deitado falando pras suas fêmeas: Pega uma cerveja pra mim

Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas eu conheço de longa data o movimento masculinista. Primeiro porque já escrevi sobre um blog americano. Blogs brasileiros copiam o modelo e vivem linkando os meus posts nas suas comunidades no Orkut. Enquanto eles só me xingam por lá, belê (até porque deve doer na alma deles saber que há muito mais comunidades feministas que masculinistas. Pô, até um grupo de homens feministas tem mais membros ― duplo sentido intencional ― que o dos machões). Mas é péssimo quando eles vêm em bando, com seu típico QI baixo, lotar meu blog de comentários. Um deles eu até gostei porque oferece um excelente resumo de como eles pensam (tudo sic, e se quiser uma trilha sonora pra acompanhar essas asneiras, aqui tem):
“O mundo é machista,o mundo é machista,ah vão caçar o que fazer suas atoas.Desde que o mundo é mundo as coisas são assim!Po#*a.Pq vcs feminazes de araque não vão se depilar,passar maquiagem.Não arranjam macho e ficam aí reclamando dos home.Vcs são insuprtáveis acabaram com a mulher de verdade,as mulheres de hj ñ valem nada,são todas umas vacas indecentes.Queriam tanta liberdade taí suas troxas.Mas essa liberdade que tanto queriam tem um preço.Querem andar de minissaia querem paquera faze sexo de graça,o resultado taí querem matar seus próprios filhos taí.E perguntam pq o homem é tão violento com vcs.Se fossem decentes isso tudo não aconteceria.Vcs provocaram e parem de choramingar o que vcs mesmas fizeram.Eu tenho repulsa de vcs”.
Ok, óbvio que os autores dos blogs masculinistas são um pouco mais articulados que o comentarista repulsivo (errei o adjetivo, mas deu pra entender). Comparado com esse carinha, eles são intelectuais. E acho que podemos concordar que a mensagem acima não é apenas machista, mas também misógina. Só pode ser chamado de ódio às mulheres dizer que moças são vadias e, portanto, merecem a violência cometida contra elas. Mas o divertido é que os autores desses blogs, que adotam exatamente esse discurso, porém com palavras mais rebuscadas, não se consideram misóginos. Masculinistas inventam termos como feminazi pra se referirem às feministas (eleitas suas inimigas número um), gaystapo e gayzista para ativistas GLBT (afinal, o verdadeiro discriminado no mundo é o homem branco hétero), e mangina (mistura de man com vagina) para homens que empatizam com a luta das mulheres, mas não, eles não são misóginos ou homofóbicos. São apenas justos.
Masculinistas costumam ser extremamente conservadores em todas as outras áreas da vida. Quase sempre são de direita politicamente, e radicalmente contra a legalização do aborto. Outro dia um deles escreveu uma frase que diz tudo: “feminismo é uma espécie de comunismo sexual”. É ótima porque já coloca tudo que eles mais odeiam na mesma sentença. Outra frase que adorei é “Quando o homem é viciado em sexo, a mulher vira traficante”. Não é graciosa? Pra eles, mulher não gosta de sexo, só atura (mas o que gosta mesmo é de dinheiro), e regula a oferta para dessa forma controlar os homens. Ao mesmo tempo que os masculinistas ― ninguém disse que precisam ser coerentes ― detestam essa mulher reguladora, também odeiam mulheres “rodadas” (que já fizeram sexo). Às vezes fixam limites de parceiros sexuais que a moça pode ter tido antes de casar (um? Dois? Nenhum? Não há consenso) sem ser considerada uma vadia. Mães com filhos, então, devem ser evitadas a qualquer custo porque 1) são a prova viva de que não são virgens, e 2) o filho não é do machão, e você vai sustentar filho de outro? Seja homi, rapaz!
Masculinistas acusam as feministas de terem acabado com a família, mas são contra o casamento. Promovem uma “greve de casamento” ― devem casar-se apenas com mulheres “corretas” que veem no homem o chefe da família. Tal qual pensam que mulher só faz sexo por interesse, não por prazer, acham que vivem num mundo em que mulher sonha em casar, e homens são arrastados pro altar. Ignoram o fato de que homens casam tanto quanto mulheres (inclusive ― spoiler alert! ― homens e mulheres se casam entre si, já que o casamento gay não é legalizado em boa parte dos países), ou que é a mulher que pede o divórcio em mais de 80% dos casos. Em outras palavras: homens não apenas querem casar como querem permanecer casados (e também, quem não quereria? Homens casados têm uma taxa de mortalidade 250% inferior à de homens solteiros. Mulheres casadas também vivem mais, mas a diferença entre a taxa de uma mulher casada e uma solteira é de apenas 50%, se a gente confiar nesses números. Outro estudo confirma que homens casados vivem mais que solteiros, mas que o que faz uma mulher viver mais é... ter amigas. Putz, essas pesquisas quase me fazem querer fundar um culto masculinista pra salvar os homens da extinção!).
Alguns masculinistas até acham bom que a mulher trabalhe fora, desde que, lógico, ela não ganhe mais que o chefe de família e essa atividade não interfira nos afazeres domésticos. Outros já pensam que trabalho é coisa de macho, que mulher que labuta é masculinizada e acabou. São contra pagar qualquer tipo de pensão. Seus ídolos são Charlie Sheen e Hugh Hefner, porque eles transam adoidado com garotas sexy. Pois é, já deu pra notar que a relação dos masculinistas com o sexo é ambígua. Afinal, é vício? Pensar com a cabeça de baixo é ruim? (quer dizer, ninguém nunca acusou Charlie Sheen de pensar com a cabeça de cima). Moças que transam sem casar são vagabas? Moças casadas fisgaram um trouxa? Às vezes parece que sexo é fundamental pra eles (homem é homem!); outras, que é o que o levará à ruína. Chamam as mulheres de “receptáculos de esperma”, mas ao mesmo tempo parecem crer que o esperma deles é sagrado demais pra ser gasto com a gente.
O movimento masculinista é minúsculo, mas tem potencial pra crescer. Parece fácil recrutar soldados pra uma causa dessas. Sua mulher se recusa a recolher e lavar as cuecas que você larga pelo chão? Sua mulher te deixou? Você não conquistou a gostosona da escola? Você se sentiu usado por uma garota que só queria sexo? Sua paquera te traiu? Você tem uma chefa que te dá ordens? Sua mãe manda você lavar a louça? Alguma mulher riu do tamanho do pacote? Você não usou camisinha, sua (ex)namorada engravidou, e agora ela exige pensão pro filho? Ou, pior: você não usou camisinha, sua (ex)namorada engravidou, você até quis casar com ela, mas ela preferiu abortar seu herdeiro divino? Você não arranja mulher porque nenhuma presta e elas não apreciam caras super legais como você? Uma feminista disse pra você pensar? Junte-se aos homens de verdade! (e deixe meu bloguinho em paz, pelamor!).

domingo, 20 de fevereiro de 2011

DEIXA DE SER BOBO E PARTICIPA LOGO DO BOLÃO, GAROTO!

Qual frase você prefere? Pra esta foto pensei em duas:

- Você acha que eu quero ser apresentada pros riquinhos? Eu quero é ficar rica participando do bolão do Oscar!

- Você não é desprezado por ser um nerd. Você é desprezado por não participar do bolão do Oscar.

Tá, as duas são meio fraquinhas. Mas vamos parar de falar nas convivências sociais do criador do Facebook e pensar no bolão do Oscar. Todo ano eu organizo um. Este ano teremos duas opções, pago (dez reais por pessoa) e não-pago. É só apostar nos vinte principais prêmios. Aí você arranja um motivo pra ver aquela cerimônia longa e chata no dia 27/2. Será que Rede Social ganha tudo? Será que agora O Discurso do Rei já é o favorito? E a torcida por Cisne Negro, não vale nada?

Devo confessar que ontem revi Rede Social e constatei tudo que achei da primeira vez: é um baita filme, com um
roteiro fantástico e ritmo ágil, e um espírito meio esquizofrênico (dá pra ver que o roteirista não gosta do Mark Zuckerberg, e o diretor gosta, daí vira uma produção que morde e assopra, só que no bom sentido). Acho um dos melhores de 2010 sim. Mas seria difícil de assistir se não fosse a reserva moral que é o Eduardo (Andrew Garfield). E gosto dos gêmeos também. E da namorada que dá um chute no Mark. E acabou.

OS DONOS DO PEDAÇO

Viram essa notícia recente sobre o gato ladrão na Califórnia? Parece que, em três anos, o pequeno felino surrupiou 600 dos mais diversos objetos de seus vizinhos. Uma câmera o pegou no flagra (adoro essas fotos de flagrantes de gatos! Observem as pupilas!). Imagino que ele coletava uma esponja num banheiro de alguém, levava pra casa, e a deixava de presente pro seu dono. Melhor que encontrar baratas e lagartixas decapitadas na cama da gente, à la Poderoso Chefão. Mas esse tipo de comportamento felino pode acabar com um casamento: de quem é essa calcinha aqui? Se bem que se todo dia você encontrasse objetos estranhos na sua casa (“esse dinossauro de brinquedo é seu?”), você desconfiaria. E o gatuno deve dormir o dia inteiro depois de uma noite tão movimentada... Mas o mais legal é que ninguém pode acusar o dono de treinar o gato pra roubar. Porque tente treinar seu gato pra fazer qualquer coisa (não quero me gabar, mas meu Calvin joga futebol que é uma beleza).

*Palavras como meu gato e dono são puramente ilustrativas. Se é pela hierarquia na casa, eu sou a humana do Calvin.

A crônica que segue é antiga, tem vários anos, mas nunca foi publicada na internet.

ZONA FRANCA DE JOINVILLE
Preciso relatar que os gatinhos da região estão em pé de guerra contra meu vizinho, que trocou o portão de sua casa. Eu explico: tenho a honra de ser vizinha do Silvestre, c
onsagrado diretor de teatro da cidade. Ele é meio indiferente aos animais, não gosta nem desgosta, então sua casa é a única por perto sem cachorros no quintal. E os gatos adoravam essa zona franca. O portão do Silva tava velho, tinha uns buracos, e os gatinhos aproveitavam a passagem pra se divertirem lá à noite. Não no sentido de diversão que você tá pensando, já que o Calvin, meu gatinho amarelo, a Blanche, minha gata esplendorosamente preta, e o gato de outro vizinho, que minha mãe chama de Sadô porque ela jura que ele gosta de sofrer (o gato, gente, pelamordedeus, não o vizinho!), são todos castrados. Ninguém sabe ao certo o que os gatos fazem nesses territórios comunitários, sem dono (o Silvestre não conta, coitado). Mas há relatos que eles deixam as desavenças de lado, pois as desavenças costumam ser territoriais, e nas zonas livres não existe o rei da cocada preta. Pode até ser que a Blanche e o Calvin, que normalmente olham feio pro Sadô, dêem banho de língua nele quando estão na Terra de Ninguém. Ou talvez eles só conversem. Quer dizer, agora não mais. Agora o portão novinho do Silva não dá mais acesso.
Só pra você saber, os gatos têm meios de marcar território, entre eles arranhar, fazer xixi e se esfregar nas coisas. Portanto, quando um gatinho se esfregar em ti, ele não está necessariamente declarando seu amor, mas avisando os outros gatos que “este humano é meu, cheguei primeiro”. Outro dia presenciei uma cena bizarra – o Calvin se esfregou no meu cachorrinho Hamlet que, sentado, imóvel, tentava vigiar sua comida. O Cal não quis nem saber: passou deixando suas glândulas aromáticas no Ham até chegar à comida dele, e aí pôs a patinha no prato, só pra garantir. Ao cão, só lhe restou ficar estupefato com a cara de pau felina. São ou não são bichinhos admiráveis?

sábado, 19 de fevereiro de 2011

SEJA AMIG@ DA RAINHA: PARTICIPE DO BOLÃO

- Vai lá que você é capaz de participar do bolão mesmo sem ter visto os filmes, meu rei.

Participe! Você pode apostar no bolão não-pago, no pago, ou nos dois. Sabia que a cerimônia já é no domingo que vem? E será que O Discurso do Rei leva? (vou ver se consigo escrever sobre ele pra quarta). Interessante como no começo o franco favorito era A Rede Social. Mas agora parece mesmo ser o da monarquia. Estou indecisa. E lógico que, a julgar pela vontade do pessoal aqui do bloguinho, só tem pra Cisne Negro. Se pudesse eu votaria na Origem do Discurso do Cisne Social.

HISTÓRIAS DE JOINVILLE

Neste sábado, dia 19 de fevereiro, no Ed. Hannover, estreia História de Joinville – O Projeto, do Fábio Porto. Entrada franca. Eu iria se morasse aí. E, se precisasse de mais motivos pra ir, vi na ficha técnica do filme que a trilha sonora é do Albanir, vizinho querido que vendeu a minha casa. E o Fábio eu me lembro bem. Quando fiz estágio de ensino médio do meu curso de Pedagogia, ele me autorizou a usar seu belo vídeo sobre “Construção” (a música do Chico) numa das minhas aulas. Os alunos adoraram.

POLÍCIA ALGEMA E TIRA ROUPA DE UMA POLICIAL

Desolador o que mostra essa reportagem exclusiva do Jornal da Band (no YouTube tem o vídeo inteiro, ainda pior e mais desesperador). Isso aconteceu em 2009 e foi filmado. Numa delegacia. Por policiais. Contra uma policial. A moça, uma escrivã, era suspeita de receber 200 reais para arquivar um inquérito. Um delegado queria revistá-la. Ela disse que podiam revistá-la, desde que a revista fosse feita por uma policial mulher. Seu pedido foi ignorado. Mais pra frente, ela foi algemada e despida à força pelos homens, na frente de uma câmera, que a filmou nua. Os duzentos reais misteriosamente apareceram na mão do delegado. Mas é totalmente irrelevante se a escrivã é ou não culpada. O que a filmagem deixa claro é que os policiais agiram de forma totalmente errada.
Ah sim, quem fez isso foi a corregedoria. Sabe o órgão da polícia constituído para investigar desvios da própria polícia? Esse aí.
A Secretaria de Segurança Pública de SP (que, só pra lembrar, pertence ao Estado mais rico da Federação, um que é governado pelo mesmo partido há 16 anos) guardou as imagens em segredo. A única pessoa punida até agora foi a escrivã, que foi expulsa, apesar de não ter sido julgada. Não aconteceu absolutamente nada com os seis homens e as duas mulheres presentes, todos agentes públicos. Ainda hoje, a corregedoria jura que não houve nenhum equívoco de sua parte. Pelo contrário, diz que sua ação foi “correta e moderada”. Despir uma mulher à força na frente de seis policiais homens é moderadíssimo.
Isso me fez lembrar o que Susan Brownmiller conta em seu clássico dos anos 70, Contra a Nossa Vontade. Era comum vítimas terem que narrar nos mínimos detalhes o seu estupro para policiais homens que ora não acreditavam nelas, ora pareciam se excitar com a narrativa. Isso quando essas vítimas não ouviam do policial: “Mas quem iria querer te estuprar?” Em 72, Susan foi dar uma palestra sobre estupro a tenentes da polícia de Nova York prestes a serem promovidos a capitães. Um dos policiais no auditório perguntou, rindo, entre assobios dos outros: “Docinho, você não acredita mesmo que estupros existam, acredita?” Os policiais ali presentes achavam que estupros eram lenda urbana, queixas de prostitutas que não conseguiam cobrar de seus clientes ou eram roubadas pelos seus gigolôs.
Obviamente o despreparo dos policiais americanos em lidar com “assuntos de mulheres” não se limitava apenas a estupros. Mulheres espancadas pelos companheiros, mulheres ameaçadas, mulheres assediadas – tudo era motivo de chacota para policiais homens sem nenhuma empatia. Mesmo assim, a mera ideia da criação de delegacias das mulheres foi recebida a pontapés. Seria um sexismo contra o homem, incharia a máquina estatal, e, como as pessoas são iguais perante a lei, não haveria por que mulheres terem uma lei especial só pra elas. Muito parecido com o que vem sendo dito hoje sobre a Lei Maria da Penha, não? Só que depois de ver essas imagens da reportagem da Band, quão alienad@ alguém tem de ser pra afirmar que mulheres são iguais perante a lei?
Se policiais fazem isso com uma policial colega deles, numa delegacia, com uma câmera filmando, imagine o que não fazem com mulheres comuns na rua. Por exemplo, com prostitutas, com quem os policiais têm um histórico de abuso, simplesmente por não considerá-las cidadãs. E elas vão reclamar pra quem? Pra corregedoria?
De modo geral, a polícia de quase todos os países é uma instituição autoritária e violenta que existe apenas pra defender a propriedade privada e humilhar quem já não tem direitos. E toda vez que eu digo isso vem algum sem-noção perguntar se eu gosto é de bandido. Lógico que não tenho o menor carinho por criminosos, mas eles são isso, criminosos. Agem contra a lei, e devem ser combatidos. Já a polícia, teoricamente, é um braço da lei. Então como pode se comportar de forma criminosa? Como podemos aturar uma atitude criminosa de alguém que deveria nos defender?
Tenho uma vergonha imensa dessa polícia.

Update: Folha explica que o caso ocorreu em junho de 2009, e que o inquérito já foi arquivado (já esta notinha do Correio Braziliense jura que o Ministério Público vai investigar). Uma corregedora disse que os delegados "agiram dentro do poder da polícia”, e ainda afirmou que os policiais envolvidos são “corajosos e destemidos” (ahã, de fato é preciso muita coragem pra algemar e despir uma mulher "histérica e relutante", como escreveu um leitor fascista). Para um promotor, não houve nada de mais, “apenas um pouco de excesso na hora da retirada da calça da escrivã, todavia, em nenhum momento vislumbrei a intenção do delegado que comandava a operação de praticar qualquer ato contra a libido da escrivã”. Nah, nada contra a libido. No vídeo, uma das frases mais chocantes é quando o autoritário diz pra ela, "Você não tem que querer". E, pasmem! O vídeo não foi aceito como prova no inquérito por causa da postura de vítima da escrivã.
É exatamente isso que é machismo. Não é um caso individual. Não é a violência de um ou dois ou dez policiais contra uma mulher. É todo um sistema que legitima essa violência.
Update em maio 2014: Em janeiro de 2014 a escrivã ganhou 30 mil reais de indenização por danos morais do Estado de SP. Em maio, saiu no Diário Oficial que a escrivã foi absolvida por falta de provas. Ela agora quer voltar à polícia.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CRÍTICA: 127 HORAS / Empatia, só pelo James Franco

Infelizmente não poderei ir aí te salvar, James.

Pelo que vi, todo mundo adorou 127 Horas ― menos eu. Não é que eu tenha detestado o mais recente filme de Danny Boyle (Oscar por Quem Quer Ser um Milionário, e brilhante por Trainspotting), longe disso, só não achei nada de mais. Lógico que o drama (baseado em história real) sobre um carinha que passa cinco dias e uns trocados preso num vão de montanha nos EUA é interessante. Como poderia não ser? E é mérito do diretor que um ambiente claustrofóbico em que muito pouco acontece, com poucos diálogos, prenda nossa atenção em todos os momentos. E mérito maior ainda, talvez, do lindo James Franco (namorado do protagonista em Milk, melhor amigo e maior rival do herói do Homem-Aranha), fazer com que a gente empatize com alguém que, na minha opinião, não deveria estar lá. Porque sabe quando eu seria pega escalando uma montanha ou pulando de precipícios em lugares desertos e inóspitos? Bom, nunca diga nunca -- talvez se eu fosse sequestrada e largada num desses locais, ou se meu avião caísse e eu tivesse que sobreviver. Mas euzinha sair do meu conforto de cidade grande, com geladeira, água gelada e supermercado próximo pra me aventurar no meio do nada? Jamais! E é aquele negócio: se você pratica um esporte radical desses, você está se colocando em situações de risco. E poupe-me, por favor, do discurso “Viver é uma situação de risco. Atravessar a rua é um risco. Você pode morrer a qualquer momento” etc. Digamos que ir sozinho pra natureza selvagem, sem avisar ninguém, e sem equipamento muito adequado, aumenta os riscos, né? E as pessoas que praticam esses esportes praticam exatamente pelos riscos. Pela adrenalina que dá. E por se colocarem nessas situações de risco consideram que nós, aversos a riscos e que gostamos de conforto e água gelada, somos uns manés. Por isso, permita-me não ter tanta empatia por pessoas que sofrem acidentes em atividades onde acidentes são esperados (e empatia zero por colocar em risco outras pessoas que irão ao seu resgate porque você se põe em situações de risco pra fugir do seu cotidiano monótono. Eu gosto do meu cotidiano monótono! Viva a minha vidinha! Yay! Uhú! Acho que vou comer um chocolate pra comemorar).
Mas a gente tem toda a empatia do mundo pelo James Franco. Não só por ele ser lindo de morrer, se bem que isso ajuda. Ele passa toda uma aura simpática. Seu personagem é querido. Note como ele se relaciona com as moças que encontra pelo caminho. Ele não é ameaçador, nem quando as enfia num vão entre duas montanhas que se mexem e de onde elas só podem sair nadando (aliás, não entendi como alguém sai vivo de lá, mas isso daria outro filme). Li que Boyle queria o Cillian Murphy no papel, e o Cillian tem um olhar meio psicopático, como se pode conferir em Vôo Noturno e Batman Begins (ele faz o Espantalho). Não deu certo, e Boyle pensou no Ryan Gosling (A Garota Ideal), excelente ator também, mas com um ar um pouco arrogante. E James é pura bondade. Mas, apesar d'ele me fazer querer passar cinco dias sem água num precipício escuro com ele, não me parece material pro Oscar. Deve ter havido outros papéis masculinos mais bacanas no ano, não? E James ainda fará montes de filmes e certamente ganhará suas merecidas estatuetas.Enquanto via o filme, me lembrei de um documentário fascinante que vi graças ao meu irmão, anos atrás, chamado Touching the Void (Tocando o Vazio, 2003). Dois alpinistas enfrentam uma montanha nos Andes peruanos; um deles cai, quebra a perna, e fica pendurado na corda do parceiro, que deve decidir o que fazer: ficar lá pros dois morrerem de frio e fome ou romper a corda e safar-se, sacrificando o amigo? Pra mim essa questão existencial é um no brainer, como se diz nos States, não precisa pensar muito pra decidir. Mas, como eu disse, não sou a pessoa adequada pra opinar, porque eu nunca estaria presa com uma corda a um alpinista. Será que ainda tem chocolate aqui em casa pra comemorar?
O problema desse tipo de filme que lida com a força do espírito humano (e agora, pensando em chocolate, lembrei que, no quesito vencer desafios, o que está reservado ao “heroísmo” das mulheres é fazer dieta pra emagrecer. A força de vontade nos faz sobreviver comendo 500 calorias por dia em situações de fartura) é que ele é extremamente previsível. A gente sabe tudo que vai acontecer: a pessoa sofrerá, pensará em morrer, lutará e, no fim, triunfará. Porque senão não viraria livro nem filme. Uma das poucas vezes que vi história real transformada em filme com final infeliz (o espírito humano não triunfa) foi em Mar Aberto. E só faltou os espectadores incendiarem o cinema. Eles se perguntavam: pra quê a gente veio ver isso? (ninguém tá nem aí pro triunfo dos tubarões, né?).
Mas em 127 Horas não tem tubarões. Nem escorpiões, nem cascavéis, bichos que parecem combinar com aquela decoração. O ambiente pode ser inóspito, mas pelo menos é limpinho ― tanto quanto a ilha de Náufrago onde Tom Hanks passa alguns anos. Em 127 há apenas formigas. Uma formiga, pra ser mais exata. E ela nem perturba muito o James. E o filme apresenta suas inovações, como o protagonista beber seu próximo xixi, mas quer saber o que mais chocou o público americano, tão conservador? Que tem uma hora em que o carinha pensa em se masturbar. Gente, ele não tem muitas opções de lazer!
O que mais me incomodou na trama foram duas coisinhas. Uma, que no final um detalhe é tratado como premonição. Premonição carrega tons fortes do sobrenatural, e não cabe na história. A outra é que, em algumas partes, eu não sabia o que James estava fantasiando e o que acontecia de fato (essas fantasias funcionam maravilhosamente bem em Cisne Negro e A Origem. Aqui não). Ok, sei que é proposital, mas essa dúvida faz colocar em xeque tudo que ocorre, inclusive quando ele finalmente se salva. Por exemplo, a cena da chuva. Choveu? Ele quase foi afogado? Ou nem choveu? Isso tira a força dos fatos reais.
Essa conversa me deu sede. Vou lá na cozinha pegar um copo de água gelada.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

FIQUE DE FORA E CONHEÇA A BRAVEZA INDÔMITA DA LOLINHA

- Ih, vc tá pensando em não participar? A Lolinha coloca um prêmio na cabeça de quem não entra no bolão!

E a Lolinha brava é muito mais perigosa que o John Wayne fazendo cara feia. Do Jeff Bridges eu nem falo, porque pra mim ele é meio bonachão demais pra ser vilão. Então, gente, participe do bolão do Oscar. O prêmio do bolão pago é a aposta de todo mundo que pagou dez reais. O prêmio do não-pago é apenas tripudiar da Lolinha. Coisa pouca!


GUEST POST: ACREDITE NAS CRIANÇAS

Mais uma história de horror que aconteceu com uma leitora quando ela era criança. Embora ela venha de uma classe social bem mais alta que a de outra leitora que foi dada pelo pai para servir de escrava doméstica, os relatos têm bastante coisa em comum. Em ambos, o mesmo desespero de estar sendo abusada por um adulto de confiança, que deveria cuidar delas. A mesma impotência de sentir que não pode fazer nada, de que ninguém acredita no que uma criança tem a dizer. Fique com o relato sofrido - e anônimo - desta leitora. E vamos levar as crianças mais a sério!

Eu venho de uma família perfeita, por assim dizer. Meus pais sempre tiveram um relacionamento tranquilo e estável; eles planejaram meu nascimento com todo cuidado, e o da minha irmã também. Meus avós sempre ajudaram e sempre foram dedicados. Tinha tudo para dar completamente certo, ser uma vida tranquila -- padrão. Eu vivia cercada pelos meus primos mais novos, e cuidando deles feliz. Era tudo tão simples.
Meus pais, sempre apaixonados, deixavam muito eu e minha irmã com meus tios para curtirem um ao outro. Era só mais uma dessas noites, e estávamos todos deitados na cama vendo Cinderela, quando meu tio - que sempre fora carinhoso - passou todo o filme fazendo carinho em minhas costas. Ele sabia que eu tinha dificuldade de dormir, e me pediu, caso eu não conseguisse, para chamá-lo porque ele faria carinho em mim até eu pegar no sono...
Eu devia ter então 8 anos, mais ou menos. E, claro, confiava nele. Então, quando percebi que não ia conseguir dormir com aquela claridade, fui falar com ele. Eu parecia uma bonequinha, e ele puxou assunto sobre minhas aulas de ballet, me desafiando a colocar o joelho na cabeça. Quando eu o fiz -- que criança não gosta de um desafio? -- ele imediatamente esticou a mão e pressionou meu clitoris. Eu tremi, e abaixei a perna, e ele tornou a me dispensar para ver futebol, prometendo que iria lá depois.
Não entendia bem o que estava acontecendo, mas sabia que não era certo. Fiquei assustada, mas o que poderia fazer? Minha tia não estava em casa - trabalhando - e naquela época não existiam celulares. E quem acreditaria em mim? Fui para o quarto, cheia de medo, e chorei até dormir. Eu pensei - tola - que ele fosse me achar dormindo e fosse embora. Mas ele não o fez, pelo contrário, fez questão de me acordar para poder me oferecer todos os carinhos que deveriam ser dados apenas a sua esposa, e tentar me obrigar a lhe dar os mesmos carinhos, entre elogios confusos, intimidações peculiares e ameaças veladas.
Eu não disse nada para meus pais, no dia seguinte. Estava tão cheia de vergonha, e achava que era minha culpa -- que eu estava ajudando-o a ser infiel. Que era minha culpa -- porque o corpo é uma máquina e reage, ao menos enquanto você não tem consciência do que acontece. Lembro claramente, nesta vez, que ele me disse que eu não deveria falar nada ou eu "partiria o coração da sua tia, ser trocada por você". Nunca fui covarde, mas não tinha a coragem necessária para contar para meus pais. Ou a confiança.
Aqui eu faço uma pausa, para explicar: no meu lindo mundo infantil, por volta dos 5 ou 6 anos, eu tinha me decidido apaixonada por um amiguinho. Ele era lindo, e nós nos dávamos muito bem, e eu queria namorar com ele quando chegasse a hora. Juntei toda a coragem necessária para contar para minha mãe como eu me sentia. E quando eu finalmente consegui, ela me respondeu: "Deixe de ser boba, você não tem idade para isso".
Se ela não acreditava no que eu sentia, como iria acreditar no que eu contava?
Então eu fiquei em silêncio e esperei que nunca mais acontecesse nada do gênero. O que, obviamente, foi em vão. Pelos anos seguintes, cada visita era motivo para mais um abuso, em maior ou menor grau. Eu fui entendendo o que acontecia, cada vez melhor, e comecei a reagir, negar, tentar fugir. E as ameaças ganharam novos contornos de terror. Ele mataria meus pais sem deixar rastros, só precisava de uma agulha. Ele contaria a minha tia que eu vinha traindo a confiança dela. Ele faria pior. Mas, aos poucos, essas ameaças deixaram de surtir efeito. Eu me protegia de toda forma que podia até ele achar a ameaça última, aquela que me deixava tão dócil quanto uma estrela do mar estatelada.
"Você não quer? Então tá", disse ele, e se aproximou da minha irmã. Ela é seis anos mais nova do que eu, e isto sim me deixou aterrorizada. Eu nunca a deixaria passar pelo que eu passava -- eu vigiava cada momento para que nenhuma das outras ficasse a sós com ele. Eu já estava completamente na paranoia - devia ter então uns 10 anos. Então eu passei a 'deixar' (antes eu do que ela!), embora fosse ríspida e demonstrasse não querer. Embora meu corpo respondesse, minha boca ficava completamente em silêncio. Eu aprendi a calar o prazer e odiá-lo, porque era forçado e não real.
Meus tios se separaram quando eu tinha quase 13 anos, e de uma forma muito dolorosa. Eu continuei calada, porque achava que meus primos precisavam do pai, que talvez ele só fizesse aquilo com garotas, que talvez eu fosse a grande questão. Assumi para mim a responsabilidade do silêncio, porque nunca seria capaz de destruir uma família por algo que não poderia ser mudado.
Mas, talvez, se eu tivesse falado alguma coisa, as coisas poderiam ser melhores. Talvez, se eu tivesse falado, não teria acontecido por tanto tempo, deixado tantas marcas. Talvez meu primo mais novo nunca passasse por isso. Só que eu fui arrogante, como apenas os muito jovens podem ser, achando que poderia proteger todo mundo. E tudo que eu consegui foi deixar a coisa se disseminar sem que ninguém visse por mais algum tempo.
Eu sempre me pergunto que tipo de horrores eles passaram nas mãos do pai -- se ainda passam -- e se eu tivesse falado daquela primeira vez, ou em qualquer outra, eu poderia ter diminuído o tamanho do problema. Eu tinha medo demais que duvidassem de mim, as crianças geralmente têm. Nós damos sempre mais valor à palavra dos adultos que das crianças, e não falamos nada para elas sobre esses assuntos, porque não queremos estragar sua inocência.
É preciso que a gente denuncie, sim. Mas, primeiro, precisamos ensinar nossas crianças que elas pode e DEVEM falar. Que não importa o que elas sentiram, não tem problema, não é culpa delas. Que nós as escutamos, e acreditamos.