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terça-feira, 9 de agosto de 2022

MACHOPALESTRINHA, A ESTÁTUA

Eis a estátua definitiva para representar a prática do mansplaining, muito bem traduzida para machopalestrinha. Estou esperando os homi virem aqui explicar o que é feminismo pra gente.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

NINGUÉM SAI GANHANDO DO PROCESSO DEPP VS HEARD

Hoje saiu o veredito do caso Johnny Depp vs. Amber Heard, que tanta gente esperava ansiosamente.

O júri decidiu em favor de Depp. Ele deve ganhar US$ 10.35 milhões em indenização (10 milhões em compensações, 5 milhões em punição. A lei da Virginia diz que o limite é 350 mil, portanto, o total é US$ 10.35 mi). Quanto ao contra-processo de Heard, o júri determinou que ela deve receber 2 milhões. Ainda não li se ela vai recorrer. Pelo menos o júri foi mais razoável nos valores do que era pedido (ele pedia 50 milhões de dólares; ela, 100 milhões). Ainda assim, é uma fortuna. Talvez Heard tenha que declarar falência.

Obviamente, os muitos fãs de Depp estão comemorando. Já Heard, que compareceu à corte hoje para ouvir o veredito, lamentou: "A decepção que sinto hoje vai além de palavras. Estou de coração partido que a montanha de evidências ainda não foi suficiente para enfrentar o poder e influência desproporcionais do meu ex-marido. Estou ainda mais decepcionada o que este veredito significa para outras mulheres. É um retrocesso". 

Os comentários por aqui no blog até agora foram do tipo "Chuuuuuupa feminazis!". Ou seja, daqueles bem acéfalos. 

Para Eric Rose, um expert em crime e comunicação (de Los Angeles), o julgamento foi um caso clássico de "assassinato-suicídio". "Da perspectiva de manejo de reputação, não há vencedores", alega ele. "Ambos se machucaram. Fica mais difícil para que estúdios contratem qualquer um deles porque você estará potencialmente alienando um grande segmento do seu público que pode não gostar que você contratou Johnny ou Amber para um projeto específico porque os sentimentos estão tão fortes agora". 

Ainda é cedo para saber como o veredito afetará a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa dos EUA (afinal, o processo foi por difamação, devido a um artigo de opinião publicado no Washington Post em 2018 sem citar o nome de Depp). Mas deve abrir portas para muitos outros processos em que celebridades se sentiram ofendidas. Os advogados devem estar sorrindo de orelha a orelha. 

A Dra. Ann Olivarius, advogada americana-britânica especializada em casos de discriminação e assédio sexual e abuso, pergunta: "Por que uma pessoa que perdeu o processo na Grã-Bretanha vai aos EUA levar um caso que é essencialmente igual?" (Depp perdeu contra o tabloide The Sun em 2020, que o chamou de "espancador de esposa"). "É tudo sobre as redes sociais," ela mesma responde. "Para ele, isso é um circo". E valeu muito a pena. Ele conseguiu se vingar. Há montes de camisetas e hashtags escrito #AmberTurd (Amber M*rda).

A jornalista Liz Plank, da MSNBC, pergunta como fomos do ponto de "acreditar nas mulheres" ao ponto de "torcer pela humilhação das mulheres". Plank aponta o óbvio: "A humilhação pública de Heard só fará com que mais vítimas tenham medo de denunciar". Várias leitoras minhas no Twitter me falaram que essa consequência é culpa de Heard, e minha, e de outras feministas que "defendem Heard" (mostrar o óbvio é sair em defesa de alguém). O ódio que elas têm da atriz parece falar mais alto que tudo. Afinal, como ela esteve longe de ser a "vítima perfeita" (a santa, a virgem, a que não revida, sendo que mesmo as "vítimas perfeitas" são punidas), nunca poderia ter se colocado como figura pública que sofreu violência doméstica. Concordo com Plank: "Milhões de pessoas parecem estar repentinamente interessadas em violência doméstica -- mas só porque há uma chance de uma mulher desprezada e vingativa estar mentindo sobre isso". 

Não há dúvida alguma que o julgamento televisionado foi um festival sensacionalista e que, graças a ele, Heard está sendo ameaçada, insultada, humilhada todos os dias. Não há dúvida que existe uma campanha organizada por boa parte dos seus agressores (aliás, não só Heard é alvejada, mas qualquer pessoa que ousa defendê-la ou que se manifesta contra essa perseguição). Gemma Peplow do Sky News pergunta como isso se tornou aceitável. "Você não precisa acreditar em Heard ou gostar dela para ver como o abuso online é perturbador. Imagina perder tempo para mandar uma mensagem pra alguém dizendo que você quer por o bebê dela no microondas?", indaga Peplow.

Das dezenas de mulheres (muitas feministas) que foram ao meu Twitter tentar me convencer de que Heard é uma mentirosa e uma psicopata -- elas sabem porque assistiram a todo o julgamento, logo, viraram especialistas (uma delas disse que viu vários vídeos sobre linguagem corporal, fazendo dela mais expert ainda) --, nenhuma condenou os ataques que Heard recebe. É como se estivesse subentendido: ela merece. Ela mentiu. É ela a agressora. Johnny é a vítima. Feministas não podem ficar do lado de psicopatas -- vai defender a Elize Matsunaga agora? 

É esquisito, porque ao mesmo tempo que tanta gente acha que Heard representa todas as mulheres e Depp representa todos os homens, essa mesma gente não consegue ver o quadro completo, que é basicamente que vítimas de violência são sempre desacreditadas, e que, depois desse carnaval, muitas mulheres deixarão de denunciar agressões, porque o mundo todo viu o que acontece quando uma mulher denuncia. Ah, mas as vítimas verdadeiras serão tratadas de forma diferente. Sério? 

Pros misóginos -- e não estou falando apenas de indivíduos problemáticos que odeiam mulheres, mas de grupos de extrema-direita que se organizam para atacar e desacreditar mulheres, principalmente feministas --, depois de encerrada a comemoração em relação à "vadia foi desmascarada", não muda muita coisa. Eles sempre negaram toda e qualquer acusação de violência doméstica, estupro e assédio vinda de qualquer mulher. Todas as mulheres mentem, juram eles, tudo é falsa acusação. Uma denúncia de estupro ou violência doméstica ou pedofilia só não é mentira quando o acusado é um cara que eles detestam (tipo: o filho do Joe Biden, um assessor da Hillary Clinton -- lembram do Pizzagate? --, P. C. Siqueira, Ciro Gomes acusado de bater na Patricia Pillar, Chico Buarque acusado de bater na Marieta Severo etc). Em outras palavras: tudo é falsa acusação -- exceto as falsas acusações que eles (não as mulheres) inventam pra atacar inimigos. 

No universo paralelo em que misóginos vivem, basta uma mulher denunciar um homem para que ele seja automaticamente preso e sua vida seja destruída (na realidade, menos de 10% das denúncias formais de estupro, por exemplo, acabam numa condenação). E não preciso nem dizer que os autointitulados grupos pelos direitos dos homens não estão nem um pouco interessados em defender homens. Eles gostam de dizer que homens também podem ser vítimas de violência doméstica e de abuso infantil (claro que podem, e são), mas só pra, a partir dessa obviedade, citar algum dado tirado do Instituto de Pesquisa Mascu As Vozes Me Disseram, do tipo "mulheres batem mais em homens do que vice-versa". Eles trabalham unicamente com mentiras. Se alguém acredita, lucro pra eles.

Pra nós feministas, é lógico que o julgamento de Depp vs Heard representa um retrocesso, mas é apenas mais um entre vários que estamos vivendo. Qual será o próximo espetáculo, o processo por difamação que um grande amigo de Depp, o roqueiro Marilyn Manson, está movendo contra a atriz Evan Rachel Wood? O julgamento será televisionado? Manson tem tantos fãs como Depp? Wood é uma vítima menos imperfeita que Heard? Na falta de um BBB para assistir 24 horas e comentar, para fugir do nosso cotidiano cada dia mais difícil, imagino que muita gente adoraria poder acompanhar um outro processo entre celebridades pelas próximas seis semanas. 

O julgamento Depp vs Heard, muito mais que o veredito (que condenou ambos por difamação, Heard mais do que Depp), será usado por muito tempo na tentativa de desqualificar acusações e de silenciar as vítimas através de assédio jurídico. Mas mulheres e meninas (e meninos e alguns homens) continuarão sendo agredidos (muito mais por homens que por mulheres), continuarão denunciando, a maior parte distante dos holofotes da mídia. A Justiça continuará falhando em inúmeros casos. E a gente continuará lutando. 

Espero que muitas mulheres (algumas inclusive feministas) que defendem Depp a qualquer custo, e que não sentem nada ao ver Heard ser agredida online sem parar, olhem pro lado e vejam quem está marchando ao seu lado -- misóginos, neonazis, profissionais de fake news. Vocês acham que eles vão defender vocês se vocês denunciarem uma agressão? Vocês acham que o tratamento será diferente porque vocês são mulheres virtuosas, ao contrário de Heard? Vão sonhando.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

JOHNNY DEPP E A MÁQUINA DE MOER A REPUTAÇÃO DE AMBER HEARD

Esta semana deve sair o veredito de um julgamento que diz tudo sobre os dias atuais: o caso Johnny Depp vs Amber Heard. Eles foram casados pouco mais de um ano, Heard pediu o divórcio (ambos assinaram um acordo no valor de 7 milhões de dólares) e uma medida protetiva pouco depois, e no final de 2018 publicou um artigo no Washington Post em que se coloca como vítima de violência doméstica, sem mencionar o nome do ex-marido. O super astro a processou por difamação, pedindo a quantia astronômica de 50 milhões de dólares, e ela processou de volta, pedindo o dobro.

O que temos visto (aliás, eu não vi, só li uma ou outra coisa) foi um julgamento ao vivo comentado por todos, um gigantesco festival sensacionalista. Só na sexta-feira, mais de um milhão de pessoas assistiram ao argumentos finais dos advogados.

Muito do que foi dito nessas últimas seis semanas é uma reprise de um julgamento de 2020, em que Depp processou o tabloide britânico The Sun por chamá-lo de "espancador de esposa". Ele perdeu. O juiz considerou que as afirmações de Heard em relação a 12 dos 14 abusos denunciados eram "substancialmente verdadeiras". Aquele julgamento não foi televisionado. 

Confesso que nunca tinha ouvido falar de Amber Heard antes de 2016, quando apareceram os primeiros boatos sobre ela ter sido vítima de Depp. Até agora, este é o segundo post que escrevo sobre o assunto. O primeiro foi um post de seis anos atrás, em maio de 2016, que se chamava "Sobre Johnny Depp e outras atrocidades", em que eu contava que estava na praia e mencionava três coisas desconectadas. Numa delas, publiquei o comentário de uma leitora sobre Heard e Depp (que foi quando o caso começou a vir à tona): "podem observar a quantidade enorme dos comentários no mundo todo dizendo que 'ele é inocente até que se prove o contrário', mas apressando-se rapidamente em dizer que a Amber Heard 'se maquiou' e é interesseira". Isso há seis anos! Imaginem agora... 

Lógico que este julgamento é um sonho tornado realidade para os mascus e misóginos em geral. Obviamente Depp se tornou um símbolo dos homens falsamente acusados e de homens que são vítimas de violência. A tag pedindo justiça para Johnny Depp foi vista 17.7 bilhões de vezes até ontem. A que pede justiça para Heard, 59.1 milhões (menos de 1%). Não tem a menor chance de Heard ganhar, mesmo se ela ganhar. Ela já perdeu. E, por tabela, o combate à violência doméstica também. 

De acordo com a professora de Direito de Stanford Michelle Dauber, "Um homem poderoso usou seu julgamento televisionado para publicamente expor uma mulher que meramente contou sua experiência sob sua perspectiva -- sem citá-lo, sem dar detalhes, simplesmente caracterizando sua própria experiência subjetiva de ter se tornado uma 'figura pública' sobre violência doméstica. É uma catástrofe para sobreviventes em todo o mundo". 

A promotora Silvia Chakian diz: "O que mais chama a atenção é o altíssimo engajamento nas redes sociais de pseudoanalistas comemorando fatos que desconstruam a 'verdadeira vítima de violência'. Há um regozijo quase pornográfico nisso, que é revelador da misoginia latente em relação a mulheres que se levantam contra homens poderosos".

"Pense na mensagem que Mr. Depp e seus advogados estão mandando para Amber e, por extensão, para qualquer vítima de abuso doméstico em qualquer lugar. Se você não tirou fotos, não aconteceu. Se você tirou fotos, elas são falsas. Se você não contou pros seus amigos, você está mentindo. E se você contou pros seus amigos, eles fazem parte da farsa", disse o advogado de Heard na sua arguição final. 

"Os comentários online sobre o julgamento rapidamente deixaram de ser um roteiro dramático de 'ele disse, ela disse' para se tornar uma campanha cibernética para difamar Heard", diz Amanda Hess num artigo no New York Times. Ela aponta que, além das milhões de fãs que Depp conquistou durante décadas, a campanha contra Heard também atraiu ativistas pelos direitos dos homens (mascus), figuras da mídia de direita, manifestantes do "Boicote a Disney", conspiracionistas de abuso sexual, detetives de sofá, qualquer um que desconfie da mídia tradicional, e muitos oportunistas querendo captar um pedacinho de atenção. 

Na minha opinião, Heard não parece ser nada simpática. Nem Depp. Mas dane-se a minha opinião. O fato é que não os conhecemos pessoalmente, não somos seus amigos, tudo que sabemos sobre eles é através dos papéis que fazem e de sua persona (sua imagem pública, na maior parte das vezes construída por publicistas que cobram milhares de dólares). Do pouco que vi sobre o caso, pra mim ficou cristalino que ambos viveram um relacionamento abusivo. Ambos foram agressores e vítimas. 

Uma das cenas mostradas no julgamento (gravada por Heard durante o casamento) é inconteste: Depp berrando e batendo portas de gabinete na cozinha. Praticamente todas as vítimas de violência doméstica contam que, antes de serem diretamente agredidas, o agressor destrói e joga coisas, bate portas, aterroriza. Depp também acusa Heard de ter jogado uma garrafa em sua direção, que decepou parte de seu dedo mindinho (um médico que testemunhou disse que essa versão era improvável, pois a unha permaneceu, e os estilhaços de vidro teriam atingido outras partes da vítima; apoiadores de Depp encheram as avaliações de dois médicos que serviram como testemunhas especialistas com uma estrela). 

Mas é o seguinte: se o júri decidir que ambos cometeram violência um contra o outro, Heard será absolvida, porque fica provado que ela não mentiu, não difamou. O processo é de difamação, não de quem foi o pior cônjuge ou de quem é mais popular. 

A  liberdade de expressão é bastante absoluta nos EUA. Para um advogado, astros de cinema mundialmente conhecidos precisam ter uma carga muito alta de provas antes de obterem indenização de quem os critica. Pela definição que a lei americana dá à difamação, a lei favoreceria Heard. Os advogados de cada um quiseram mostrar quem é mais explosivo, mais agressivo, mais vítima. Mas especialistas da lei (nos EUA) clamam que essas alegações não deveriam ser o foco num processo de difamação. O advogado de Heard disse aos jurados que a lei não pede que eles sirvam como árbitros do casamento imperfeito de duas estrelas de cinema. Em vez disso, os jurados deveriam levar em conta o primeiro mandamento da Constituição dos EUA: "a liberdade de expressão e o primeiro mandamento dão a Amber Heard o direito de dizer as palavras que ela disse". 

As leis de difamação nos EUA baseiam-se num caso de 1964 na Suprema Corte, do New York Times contra Sullivan. A corte unanimemente decidiu que criticar figuras públicas é um direito permitido pela liberdade de expressão e liberdade de imprensa. Essas figuras públicas só podem receber indenização quando mentiras forem ditas ou escritas sobre eles com "actual malice" (malícia). Ou seja, que a pessoa sabia que as afirmações eram mentirosas. No caso Depp vs Heard, os advogados de Depp precisaram provar que o que Heard disse no seu artigo de 2018 é falso, e que ela sabia que era falso. Além disso, Heard não precisava provar que houve violência doméstica o tempo todo. Só uma vez já seria suficiente. Depp teve que provar que ela inventou o abuso. 

Ao que me parece, é uma tarefa difícil para ambas as equipes, mais fácil para a de Heard. A torcida para Depp certamente nivelou as forças. Uma reportagem estimou quanto custou a defesa de cada um. Depp tem sete advogados. Supondo que cada um cobre 600 dólares a hora, mais os assistentes e viagens durante o julgamento de seis semanas, calcula-se que ele tenha gastado US$ 5.5 milhões. Como Heard conta com uma equipe menor, pode ser que ela tenha gastado 3 milhões, mais 200 mil nos especialistas. Não são valores de meros mortais. De todo modo, independente do veredicto, é praticamente certo que a parte que perder irá recorrer.

Podem crer que haverá várias teses acadêmicas sobre o julgamento, sobre como os fãs de um astro interpretam e deturpam afirmações complexas. Ativistas lembram que processos por difamação são muito comuns para que os agressores possam controlar e coagir sobreviventes. "Este caso não é a exceção. É a regra", diz uma pesquisadora. O caso fará com que vítimas se calem, não denunciem. Imaginem uma vítima vendo como seus amigos e sua família falam de Heard. 

Mesmo que Heard esteja mentindo, seria justificativa pro carnaval que a mídia faz? Justifica as ameaças de morte e estupro que ela vem recebendo? Heard tem tido que usar escolta, pois é ameaçada de morte várias vezes por dia, todos os dias.

Em 2016, provavelmente depois de Heard pedir medidas restritivas contra Depp, ele escreveu: "Ela está implorando por humilhação global. E ela vai receber". Inspirado por Depp, o roqueiro Marilyn Manson, acusado de estupro e agressão física pela atriz Evan Rachel Wood e outras seis mulheres, também está processando sua ex-noiva (Evan) por difamação. Pode ser um bom negócio pro agressor: ele estupra, a vítima denuncia, não dá em nada, a vítima, desesperada, sem poder contar com a justiça, fala sobre isso nas redes sociais, e o estuprador a processa. Às vezes, processa também quem se solidariza com a vítima. É uma forma de tentar limpar seu nome e ainda ganhar uma grana.

Concordo totalmente com Hess: "Como o Gamergate, que pegou uma controvérsia de uma comunidade gamer obscura e a inflou numa campanha cibernética de assédio antifeminista e num movimento maior da direita, este circo niilista é um evento potencialmente radicalizante. Quando o julgamento acabar esta semana, a campanha elaborada para difamar uma mulher vai continuar, agora com uma enorme massa de apoio pronta e um manual de operações testado e aprovado. Só vai precisar de um novo alvo". 

Este caso fará com que o enfrentamento à violência contra as mulheres retroceda vários anos. Uniu grupos antifeministas organizados e indivíduos misóginos, ensinou passo a passo como culpar vítimas, e recrutou adolescentes para criar memes e montagens para destruir pessoas. Não é à toa que mascus e a extrema-direita de todo o mundo estejam celebrando o carnaval fora de época. Lembrem-se: o que é bom pra eles é péssimo para as mulheres.

terça-feira, 12 de abril de 2022

CASSAÇÃO DO MAMÃE FALEI É HOJE!

Teremos a tão esperada cassação do deputado estadual Arthur do Val, vulgo Mamãe Falei (agora no União Brasil, mistura de DEM e PSL), na Assembleia Legislativa de São Paulo hoje? 

Esperamos muito que sim! O julgamento dos 9 membros do Conselho de Ética é agora no início da tarde, e Mamãe Falhei está tão desesperado, tão certo de que será cassado -- afinal, o relator rebateu seus argumentos e recomendou a cassação --, que solicitou ao Tribunal de Justiça de SP uma suspensão do processo, que foi negada (se a cassação for aprovada pelo Conselho, segue para votação por todos os deputados. Ainda não há data marcada).

O MBL, liderado pelo Tour de Blonde, sabe que há grandes chances dos deputados votarem pela cassação. Tanto que mandou seu séquito cada vez menor de reaças acéfalos bombardearem os deputados com mensagens (muitas delas ameaçadoras), e imploraram para que compareçam na frente da Assembleia para pressionar. 

O perseguidor de padre Mamãe Chorei já se envolveu em inúmeras confusões e faltas disciplinares e não tem aliados, ao contrário do asqueroso deputado apalpador que conseguiu se livrar da cassação. Mas a gente sabe como os políticos são corporativistas. Qualquer punição menor que a cassação será uma enorme vitória pro MBL e pra direita e extrema-direita em geral. 

Se ele não for cassado, ele certamente será candidato a deputado federal, com chances de ganhar, porque reaça só vota em lixo mesmo. Seria um respiro também para outros colegas do MBL que estão com a corda no pescoço, caso do vereador Gabriel Monteiro (filiado ao PL, partido de Bolsonaro), e de Kim Kataguiri. O ex-PM Gabriel está sendo acusado de pedofilia e corre o risco de ser preso. 

Que Mamãe Falhei seja cassado pelas suas falas misóginas e por ter ido fazer turismo sexual num país em guerra. Que perca seus direitos políticos por oito anos. E que o mesmo aconteça com Gabriel e Kim. E, se vão nos deixar sonhar, que já já o próximo seja o excrementíssimo, aquele que o MBL ajudou a eleger.

UPDATE: Deu tudo certo! Os nove membros do Conselho de Ética decidiram, por unanimidade, cassar Arthur do Val. Do lado de fora, cem homens (todos homens) da claque do MBL gritavam e ameaçavam, mas não adiantou. Em discurso patético e vitimista, Mamãe Chorei disse: "A verdade é que todos aqui me odeiam". Agora no mínimo 48 dos 94 deputados da Alesp precisam aprovar a cassação. A data da votação em plenário ainda não foi marcada, mas tem que ser já! Hoje marcou o começo do fim do MBL!

quarta-feira, 23 de março de 2022

SERVIÇO SECRETO DOS EUA APONTA QUE INCELS SÃO PERIGOSOS


Um relatório do Serviço Secreto dos EUA mostra que tudo o que eu (e muitas outras feministas) venho falando sobre incels é a mais pura verdade: eles não são garotinhos inofensivos. São terroristas.

Incel, pra quem ainda não sabe, é abreviação para "celibatário involuntário", o popular virjão. Na realidade, são homens que odeiam mulheres e nos culpam por todos os seus (muitos) fracassos.

O estudo de 26 páginas do Serviço Secreto analisou quatro ataques terroristas: um de julho de 2020, em que o filho de uma juíza foi assassinado na porta de sua casa; um de novembro de 2018, em que duas mulheres foram mortas numa aula de ioga na Flórida; um de abril de 2018, em que onze pessoas (9 delas mulheres) foram mortas e 15 feridas, atropeladas por uma van; e um de maio de 2014, cometido por Elliot Rodger, que matou 6 e feriu 14 em Isla Vista, Califórnia. Em todos os quatro casos, os assassinos eram incels.

Não existe um perfil definido de um indivíduo que planeja ou executa um ato de violência (nesses quatro casos, a idade dos assassinos ia de 22 a 72 anos; todos são homens, óbvio; três são brancos, Rodger era mestiço -- a mãe dele nasceu na Malásia). O que eles têm em comum, segundo o estudo, é "um conjunto de comportamentos preocupantes antes de cometerem atos de violência". 

No caso de 2020, um advogado antifeminista e ativista pelos direitos dos homens se disfarçou de um entregador do FedEx e bateu na porta da juíza Esther Salas, que ele andava stalkeando. Atirou e matou o filho (adulto) da juíza, e depois se matou. Ele achava que a masculinidade corria sério perigo nos EUA e pedia uma "revolução". 

No caso do homem de 40 anos que abriu fogo numa aula de ioga e se matou em seguida (muito parecido ao que outro incel, George Sodini, fez em 2009), havia vários avisos de que ele poderia cometer um massacre.

Foi militar, demitido de diversos empregos, expulso
de bares e prédios, e foi preso três vezes por assediar mulheres em público. Teve que ser tirado da festa de aniversário de sua sobrinha ao tocar meninas. Na infância, seus pais dormiam com a porta trancada com medo do que ele poderia fazer. Desde a adolescência, o assassino já stalkeava colegas na escola. Numa fantasia de vingança de 81 páginas que escreveu sobre um garoto que vira serial killer, as vítimas eram aquelas alunas do ensino médio. Entre os colegas de quarto ele era chamado de Ted Bundy. Nas redes sociais, era o nazi. O recado que deixou antes de cometer seu massacre: "Se eu não posso encontrar uma fêmea decente pra viver, vou encontrar muitas fêmeas indecentes para morrer". 

Os dois outros casos são muito mais famosos. Elliot Rodger foi de fato quem popularizou o termo incel, ao escrever um longo manifesto se queixando de continuar virgem aos 22 anos (antes dele, o termo mais usado para definir mascus em inglês era MRA, ou Men's Rights Activist, ativista pelos direitos dos homens, o que engloba MGTOWs -- homens trilhando seu próprio caminho, que pregam a separação das mulheres --, e PUAs -- pick-up artists, ou artistas da sedução, que prometem sucesso sexual para homens frustrados). O passatempo de Rodger era parar seu carrão (seu pai era rico) em praias e praças da cidade californiana e se enraivecer ao observar mulheres brancas namorando homens não brancos, em vez de namorarem um cara bonzinho como ele. 

Alek Minassian, que dirigia a van em Toronto em 2018, também deixou uma mensagem antes do seu massacre: "a revolução incel já começou". Ele era um grande fã de Elliot Rodger. Aliás, é ainda, porque, ao contrário dos outros, Minassian está vivo. Ele tentou o que chamam de "suicide by cop" ("suicídio pela polícia"), mas não conseguiu. Está preso e, no julgamento, a juíza jogou pra escanteio sua defesa de "sou autista, eu não sabia o que estava fazendo". Sua sentença definitiva vai sair este ano. 

O estudo identificou alguns temas entre incels que podem servir de alerta: dificuldade de interação, história de bullying, instabilidade financeira, fracassos pessoais, e, principalmente, incapacidade de estabelecer relações pessoais com mulheres. Ideologicamente falando, os assassinos dos quatro casos eram todos antifeministas e acreditavam que o mundo é dominado pelas mulheres, além de serem de extrema-direita. É como eu sempre digo: nesses onze ou doze anos em que sou atacada por mascus, nunca conheci um que fosse de esquerda. Não que homens de esquerda não possam ser misóginos, mas pra atingir esse nível de misoginia organizada, em grupo, tem que ser de direita. Há muitos outros estudos que mostram conexões indeléveis entre mascus e supremacistas brancos. 

O Serviço Secreto do EUA lida mais com a proteção de seus presidentes, mas também examina ameaças terroristas. A agência observou que a misoginia não está apenas por trás dos massacres, mas da maior parte dos atos de violência, como stalking e violência doméstica. Como tal, a resposta para essas ameaças deve ser uma colaboração entre as polícias, as cortes, e ativistas que combatem violência e grupos de ódio.

Aqui no Brasil, a supervisão de grupos de ódio pela polícia começou a dar alguns resultados. Só em maio do ano passado, cinco massacres em escolas conseguiram ser impedidos a tempo. Demorou, mas as autoridades finalmente passaram a ver incels como os terroristas que são. Não foi por falta de aviso.