sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

MINHAS CENAS FAVORITAS DE PECADOS ÍNTIMOS

Jennifer Connelly, desfocada, observa Kate Winslet

“Crianças pequenas” é um título inteligente pro que foi traduzido pro português como Pecados Íntimos, porque não se refere apenas aos filhos dos adúlteros ou ao objeto de desejo do pedófilo, mas também a como esses adultos se comportam. Eles são egoístas, querem sua satisfação pessoal e imediata antes de tudo e, no caso do Brad (Patrick Wilson), tem uma nostalgia excessiva pelo passado, como se nunca quisesse ter saído da adolescência. Esta é a cena mais bem filmada. Eu amo. Kathy (Jennifer Connelly) convida Sarah (Kate Winslet) pra sua casa, já que a filhinha de Sarah virou amiga do filhinho de Kathy. E ela fica desconfiada após tentar falar com Brad sobre essa mulher, e Brad dizer que nem se lembra o nome dela. Então ela chama Sarah e seu marido para um jantar.E Kathy nota que há uma tensão sexual no ar e que Sarah e Brad são amantes. Isso acontece principalmente nesta cena, em que Sarah reclama que “não sabia” que Brad era amigo de um ex-policial, ou que jogavam futebol americano juntos ― uma revelação de que Sarah sabe bastante da vida de Brad, tanto que sente-se no direito de se queixar por ele não ter lhe contado tudo. Adoro como a câmera se mantém em Sarah, apesar de toda a narrativa da cena centrar-se na desconfiança de Kathy, e só vemos ao fundo, desfocado, o rosto de Kathy. Mas dá pra ver claramente que ela não está nada feliz. Acho que essa escolha da câmera dá um toque irônico, e deixa a cena menos séria.A sequência de outro jantar, entre dois desajustados, sempre acaba com minhas defesas. O pedófilo ― que a história atenua para que seja apenas um exibicionista, não necessariamente um molestador de crianças ― sem dúvida é uma “criança pequena”. Tem 48 anos mas mora com a mãe, que faz tudo por ele. Ele é totalmente dependente. Sua mãe, sabendo que ela não tem tanto tempo de vida pela frente, quer que ele conheça uma mulher para cuidar dele, e coloca um anúncio pessoal. Quem entra em cena? A Jane Adams, ótima atriz que tem ampla experiência com encontros desastrosos (blind dates). Ela esteve no magnífico Felicidade, em que seu encontro catastrófico com um carinha abre o filme (e que acho que serviu de inspiração para o começo de A Rede Social).No início, Ronnie (Jackie Earle Haley, de Watchmen) e Sheila (Jane) estão num restaurante. Sheila está tão em outra, por estar medicada, que Ronnie precisa chamá-la à realidade (como a mãe do rapaz do vídeo em Beleza Americana). Ela é sincera demais (não uma boa ideia quando se tem depressão, um longo histórico de rejeição, e nenhum amor próprio), e o maior elogio que Ronnie lhe faz é dizer que ela não é tão horrível. Esse é um elogio e tanto vindo de cara sem nenhum traquejo social como Ronnie, e Sheila, que também é uma outcast, reconhece isso. Mas, no carro dela, quando estão voltando pra casa, Sheila conta que no seu último encontro, o carinha havia ido ao banheiro e fugido, deixando-a sozinha para que pagasse a conta. Portanto, a noite com Ronnie havia sido muito boa (olha os critérios de comparação!). Só aí ela, tímida, olha pro lado e vê que ele está se masturbando. Ela chora ao perceber que, mais uma vez, não terá sorte num encontro. E ele ainda a ameaça de ir atrás dela se contar sobre isso a alguém. Eu vejo essa cena e fico com muita, muita pena deles. Claro, mais da Sheila, óbvio, mas dele também. No livro Little Children, de Tom Perrotta, a cena não funciona tão bem. Ronnie mal fala com ela durante o jantar, boceja sem parar, e diz que esqueceu sua carteira para não ter que pagar a conta. O resto da noite é bastante parecido, mas mais eficaz no filme. Em compensação, no livro há este trechinho falando do classificado pessoal que a mãe de Ronnie põe pra ele: “O classificado pessoal de Ronnie funcionou como um ímã, atraindo mais de 27 cartas apenas na primeira semana. [...] Ronnie tinha lido as cartas em voz alta, e quase todas tratavam diretamente da frase 'Não sou perfeito e não espero que você o seja'. Devia haver muitos homens exigindo perfeição, a julgar pelo alívio que as mulheres sentiam pela ausência dessa exigência”. É de partir o coração.

4 comentários:

Cirilo Vargas disse...

Esse filme é realmente muito bom. E cheio de cenas impressionantes, como a do pedófilo no final do encontro e após a sua saída do hospital, com a mãe morta. Memorável.

Marussia de Andrade Guedes disse...

Não gostei deste filme! A história é clichê, as personagens são clichês. O filme é uma defesa do ridículo mito da monogamia e da exclusividade sexual. O que redime o filme é o próprio título: crianças pequenas, ou seja, adultos bobinhos na tradução!

Josimar disse...

Nossa, lola, que delícia encontrar, assim, de repente, um texto seu falando deste filme que eu amo tanto!

Fernando Borges disse...

Gostei bastante do filme e achei interessante a sua análise.
Gosto da maneira como o filme expõe a fragilidade das personagens e o descontentamento de alguns com a própria mediocridade.