segunda-feira, 22 de junho de 2009

O HUMOR DA PROFESSORA DE ABSTINÊNCIA

Mais um pouquinho sobre The Abstinence Teacher, até pra que eu não me esqueça do livro quando o filme estrear (que é o que vai acontecer com The Road, do Cormac McCarthy, que chegará como A Estrada, com o Viggo Mortensen. Eu li faz um ano, não anotei, não lembro de nada). O romance do Tom Perrotta é gostoso de ler e muito bem construído. Não é simples fazer o que ele fez, que é falar um monte de uma personagem, Ruth, pra depois de um tempão introduzir outro, Tim, e deixar Ruth de lado, pra só depois de muuuuitas páginas meio que juntar os dois. Meio. Pra Perrotta ser bem-sucedido, os dois protagonistas têm que ser interessantes. E são.
Acho também que Perrotta respeita bastante os evangélicos. Convenhamos que seria fácil pra um escritor liberal cair na tentação de satirizá-los e fazer com que nós, leitores liberais, ríssemos deles. Ele não faz isso. A religião realmente vira a tábua de salvação de Tim, um ex-viciado com enormes tendências destrutivas. O pastor da seita se preocupa com seus fieis, tem a convicção que está numa missão divina, e em nenhum momento cobra o dízimo (o que seria impossível se Tim pertencesse à Igreja Universal, por exemplo). Perrotta não tira sarro nem na parte em que o pastor recomenda um livro pra apimentar o casamento de Tim, Hot Christian Sex (Sexo Cristão Picante). Lá Tim descobre que, entre os casais casados, pode praticamente tudo, até sexo anal (mas só entre os casais heterossexuais, lógico). Casais heteros podem até realizar fantasias sexuais com papeis, tipo enfermeira e paciente, desde que, na fantasia, os personagens sejam casados. Tim acha isso um pouco estranho: “Ok, você é a enfermeira e eu sou o paciente... e, ahn, nós nos casamos quinze minutos antes da minha cirurgia de hérnia” (114). Tá, talvez Perrotta tire um pouquinho de sarro.
Mas ele não destroi completamente a razão de Tim. A filha de nove anos do evangélico vive com a mãe e o padrasto e não tem nada a ver com sua religião. Na escola, ela tem que escrever sobre o homem que mais admira no mundo, e escolhe... Donald Trump! Juro que se eu estivesse nessa situação de ter uma filha que idolatra um canastrão por ele ser rico e poder comprar tudo o que quer, eu preferiria mil vezes que ela escolhesse Jesus.
Pra mim, o único momento que Perrotta escorrega um pouco e descamba no satírico (que é delicioso, mas digamos que ele toma posições) é quando ele põe Ruth e outros três professores de Abstinência Sexual juntos num sábado de manhã para levarem bronca da coordenadora do programa. Esses são quatro professores que ensinaram educação sexual a vida toda, e de repente tem que se adaptar ao novo currículo conservador, e estão sofrendo. Uma delas é uma lésbica que se recusa a dizer a seus alunos para só fazerem sexo após o casamento. Afinal, gays não podem casar, e condenar alguém a uma vida sem sexo é uma tremenda sacanagem. Outro é um professor de educação física de 60 anos pra quem tudo é uma gozação. Ele fez a besteira de mostrar uma revista Playboy a seus alunos para provar a diferença entre seios siliconados e naturais. Esse cara é divertido, embora (concordo) totalmente inadequado. Quando a coordenadora lhe diz “Não acredito que deixem você ensinar crianças”, ele retruca: “Não só isso. Eles me dão estabilidade no emprego” (outro diálogo impagável é um em que o professor de educação física diz, brincando: “Eu acredito que sexo é ruim e que meu pênis é um instrumento do diabo. Opa, não, espere, é a minha mulher que acha isso”. E a lésbica se intromete: “Bom, pelo menos ela está metade certa” (244).) A coordenadora manda que cada um deles escreva sobre uma experiência sexual de que se arrepende. Quando uma professora jovem (que está lá porque cometeu a falha grave de admitir pros alunos que se masturba) diz que não quer lê-la para os outros, porque se envergonha do que fez, a coordenadora lhe diz: “Imagina, ninguém está aqui para julgar ninguém”. Só que assim que a moça começa a narrar sua saga (ela transou uma vez com o marido de sua melhor amiga), a coordenadora passa a fazer caretas e dizer “Que horror!”. Quando a moça reclama que está se sentindo julgada, ela responde: “O que você esperava? Um tapinha nas costas?”. A professora lésbica conta que a única experiência da qual se arrepende foi ter feito sexo com um homem, um excelente posicionamento político praquele momento. Mas o relato de Ruth é o melhor de todos. Ela pergunta se, daqui a cinquenta anos, quando estiver pra morrer, vai se arrepender mais do que fez ou do que deixou de fazer? “Duvido que me parabenizarei por nunca ter feito sexo no banheiro do avião”, ela diz. “Eu provavelmente estarei deitada numa cama de hospital, com o corpo cheio de tubos, olhando pro jovem doutor bonitão, e vou pensar que gostaria de não ter sido tão covarde. Que tivesse arriscado mais, errado mais, e acumulado mais arrependimentos. Que pudesse ter vivido quando tive a chance” (264). Touché. Esse é um super discurso anti-abstinência.
Mas é muito legal o que acontece entre Ruth e Tim, a tensão sexual entre eles, e como tudo anda. Eu só acho que alguns personagens não estão bem-desenvolvidos. Tipo: a esposa de Tim. Sua ex-mulher recebe um tratamento melhor do narrador. Dá pra saber mais sobre ela que sobre a atual. O ex de Ruth também é meio que deixado de lado, mas pô, é o ex. Já a mulher de Tim mereceria um destaque maior, pra gente entender o que se passa naquele coração. Desconfio que Perrotta não conseguiu de jeito nenhum se identificar com ela, uma exemplar esposa cristã, que vem de família cristã desde o berço, e que foi condicionada a crer que Deus quer o homem no leme, sabe como é.

10 comentários:

asnalfa disse...

Lola.. vao lancar em dezembro "Dezonra" (do livro do Coetzee) com o John Malkovich no papel de professor. Mal posso esperar!!!

Mas sobre esse livro citado por vc, me parece q sequer fizeram o escalonamento de atores. Mas sobre a historia em si, como o EUA podem fazer para mudarem essa cultura? Alem disso, tem aqueles Johnas Brothers e McFlay que usam aneis de castidade... duvido q eles sejam virgens de verdade... lemrab da Britney Spears q se dizia virgem e santa. Pois é... tud mentira.. depois ela descambou de vez, engordou, ficou careca e ate sedeixou fotografar com a calcinha suja de sangue de menstruação e ate pelada com micro-vestido onde se via a marca da cesaria...

Mel Savi disse...

A frase “Imagina, ninguém está aqui para julgar ninguém” é geralmente balela. A pessoa que diz isso geralmente é curiosa e só quer que a outra comece a falar. (Acho que a palavra "geralmente", que usei duas vezes aqui, é fruto da academia, que me diz o tempo todo que não posso ser "assertive" demais. Grrr...)

:)

Luana Inaudita disse...

ADOREI a crítica. Fiquei super curiosa para ler... Antes de assistir ao filme. Gostei bastante do seu blog!

Drixz disse...

Eu tbm não li o livro, mas fiquei bem curiosa. Uma vez estava numa estúdio de tatoo e a tatuadora me contava de uma cliente que queria tatuar na bunda um pênis com o sinal de proibido. Eu perguntei se era lésbica e a tatuadora disse que não, que era evangélica. Eu realmente fiquei confusa, mas não dava pra perguntar pra menina.

PS: Adorei o blog. Descobri por indicação de uma amiga.

infobot disse...

Olá,

Quero te convidar para um evento de blogueiras que estamos organizando.

Aguardo um retorno por email

abs,

claudio@infobot.com.br

Marcelo Tazzi disse...

"Convenhamos que seria fácil pra um escritor liberal cair na tentação de satirizá-los e fazer com que nós, leitores liberais, ríssemos deles (os evangélicos)."

Essa é uma das frases mais preconceituosas que eu li em anos. Parabéns Lola, você se supera cada dia mais no manueseio de sua metralhadora de senso comum e opiniões preconceituosas (devidamente proferidas sob o escudo do liberalismo, feminismo, etc etc etc)...

Alana disse...

Se o filme chegar as telinhas aqui da minha cidade antes de eu ter lido o livro certamente ficarei um tanto frustrada. Porém, as duas críticas que vc escreveu no blog são mais do que incentivadoras à leitura do livro.

lola aronovich disse...

Putz, eu nem tenho tempo pra responder as leitoras(es) legais, e perco tempo respondendo os mal-educados. Marcelo, explique por que essa frase que vc citou é preconceituosa. Não seria fácil pra um escritor liberal cair na tentação de satirizar os evangélicos? Há uma guerra cultural nos EUA, caso vc não saiba. E um lado vive brigando (e satirizando) o outro. Eu não falei que o autor estaria certo em fazer isso, ou que nós, leitores liberais, estaríamos corretos em rir dessa satirização, se o autor fizesse isso. Realmente não consigo ver como essa frase chegou ao pódio “das mais preconceituosas” que vc leu em ANOS. Vc não anda lendo muito, né?

Marcelo disse...

Eu ando lendo sim Lola, mas infelizmente tenho perdido tempo de leitura com comentários preconceituosos como o seu. Pelo que eu entendi, você não se importa se rir das sátiras aos evangélicos é certo ou não. Você certamente se sente superior por ser livre de convenções sociais, ser de esquerda, liberal... e não há problema nisso. O que certamente me incomoda é o fato de você acreditar que todos aqueles que diferem de você são necessariamente inferiores. Rir dos evangélicos, tudo bem! E rir das gordas, pode?

Giovanni Gouveia disse...

Mary had a lamb...