sábado, 22 de novembro de 2008

CLUBISTAS DA LUTA: USEM O MEU PORÃO

Edward Norton no trabalho, antes de virar homem.

Mesmo que veja com desconfiança uma mensagem anti-consumista vinda de milionários de Hollywood, eu concordo com o lado anti-capitalista de Clube da Luta. Tudo bem, eu também acho que, em geral, temos empregos que não gostamos apenas para comprar coisas que não precisamos. Eu, particularmente, sinto-me superior aos protagonistas do filme, pois quando o Brad Pitt pergunta ao Edward Norton “Como é que nós sabemos o que é um duvet?”, eu penso: eu não sei o que é isso (parece que é um cobertor), nunca ouvi falar, nem dou a mínima pra roupas ou móveis. Eu já sou anti-consumista, e - surpresa! - sem precisar bater em alguém pra encontrar sentido na vida.
Entendo também que eles queiram “despertar” as pessoas - aliás, só os homens (leia sobre a misoginia em Clube aqui) -, fazê-las sair do seu torpor apático causado pelo consumismo. Inicialmente, os planos terroristas de Brad são trocar as imagens nos aviões, para que revelem pânico numa situação de emergência, ao invés de calma; incluir imagens pornôs em filmes de família (funciona: vemos uma menina chorando), e urinar em pratos de restaurantes caros. Esta última parte não serve pra nada, além de satisfazer um desprezo pessoal pelos ricos, e marcar território com urina e esperma (uma característica de machos de várias espécies, essa de marcar território). Mas é só ódio, que não conscientiza ninguém. É como o Patrick Bateman de Psicopata Americano pedindo que sua namorada coma uma sobremesa com cobertura de chocolate que, por baixo, contém a urina de vários homens (a diferença é que, em Psicopata, o próprio título nos avisa que estamos diante de um serial killer misógino, não de um herói admirado por todos, que é como Brad é pintado em Clube). Num segundo momento, os planos terroristas de Brad, mais ambiciosos, são de destruir prédios, empresas de cartões de crédito, e cafés. Quando eles criam uma organização terrorista com hierarquia militar fingindo ser anarquista, o filme fica fascista que dói.
Também acho patético que o antídoto ao anti-consumismo e à apatia seja a porrada. O filme é totalmente sobre male bonding (união entre homens), e deixa claro que essa união só pode acontecer se as mulheres forem 100% excluídas e se eles se reconstruírem como homens através da violência. Edward vira homem quando bate (mesmo que precise bater em si próprio). É a violência que os une e os define. Até mesmo o comportamento esquizofrênico de Brad/Edward diminui quando estão lutando. Eles não têm tanta coisa em comum além desse apetite pela violência. Os outros homens do clube da luta geralmente se abraçam e se cumprimentam após se arrebentarem. São amigos, e vivem pra lutar. O filme não faz qualquer crítica a esse tipo de mentalidade. Pelo contrário, a aplaude.
Eu nem teria grandes problemas com essa ideologia, se o espancamento entre homens fizesse com que eles se tornassem menos violentos com as mulheres. Se clubinhos de porrada fizessem com que as guerras diminuíssem, se extravasar a energia e a agressividade se dessem através de surras apenas entre eles, acho que eu até seria a favor. Eu empresto o meu porão: fiquem à vontade. Só limpem o sangue e os cacos de garrafa ao saírem, por favor. Porém, como é um tipo de união que só pode ser atingido excluindo as mulheres, como qualquer intimidade com mulheres é proibida, como se exclui qualquer característica “feminina” (como solidariedade, empatia, carinho), a gente sabe que uma sociedade alternativa dessas não pararia aí. Esses machos precisariam gastar sua energia sexual em algum objeto, e o que melhor que as mulheres pra isso? Sem tempo ou disposição pra conquista, pra sedução, pras preliminares, eles tomariam as mulheres à força mesmo.
O filme é tão centrado no falo que não é à toa que sua última imagem seja a de um pênis. É até irônico que só o vejamos por um milésimo de segundo. Ué, pensei que tivesse passado as últimas duas horas vendo só isso.Mulheres são um empecilho à masculinidade plena.

34 comentários:

Babs disse...

Pois é, "clube da luta" tem até algumas críticas pertinentes, mas as respostas que ele propõe são totalmente recusáveis.

Bjs

lola aronovich disse...

Traduziu o que eu penso em pouquíssimas palavras, Babs. Quisera eu ter esse poder de concisão.

Guxta disse...

Lola...

Estou passando aqui para dizer que te premiei como um dos melhores blogs que visito.

Ganhei um desses selos de premiação de qualidade entre os blogueiros e, junto com o seu, indiquei 3 para que tb fossem presenteados.

Não é nada demais, apenas uma forma de dizer que leio todos seus posts e acho um blog indispensável.

Já está registrado em meu blog...

Bjus

;)

Serge Renine disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Gabriela Martins disse...

Lola, nova na área. Ou melhor, nova nos comentos, pq já acompanho o blog há umas duas semanas e já vi arquivos beeeem antiguinhos tb.

Eu sou uma que gosta(va ?) de Clube da Luta pela mensagem anticonsumista e pelas facadas que ele dá na sociedade de consumo e aparências, mas eu confesso que sempre me incomodava essa coisa de ele ser centrado só em homens, e não via coisa boa em todo esse "corporativismo masculino".

Finalmente alguém (você) conseguiu explicar o que me incomodava tanto no filme. Conseguiu traduzir em palavras.

E também concordo que a idéia inicial (o anti-capitalismo/comsumismo) é bopa, mas que no final se perde completamente.

lola aronovich disse...

Guxta, muito obrigada pelo prêmio. Fico muito feliz em saber que vc gosta do meu blog e, mais ainda, que vc o considera “indispensável”. Abração, e comente sempre!


Serge, gostaria de pedir que vc fizesse o seguinte, se possível: deletasse seu comentário e escrevesse a mesma coisa que vc escreveu, mas só dando o link do artigo. É que colocar um artigo tão longo aqui é ruim pra dinâmica dos comentários e, além do mais, não é legal com quem escreveu o artigo (no caso, o Cine Players), porque tira o tráfico de visitas de lá, entende? Mas coloque um link aqui que eu leio, e depois comento.

lola aronovich disse...

Gabriela, que bom que vc começou a comentar. Espero que este seja o primeiro de muitos! Bom, fico feliz em “traduzir” pra vc o que te incomodava no filme. Eu às vezes mudo de opinião a respeito de alguns filmes (por exemplo, quando vi Matrix pela primeira vez não gostei muito, e a cada vez fui gostando mais e mais), e pensei que, talvez, depois de quase 10 anos e da consagração de Clube da Luta, poderia mudar de idéia. Mas não, realmente tive a mesma impressão que antes. Talvez até porque não confie muito num anti-capitalismo e anti-consumismo que não seja também anti-patriarcado, anti-machista. Pra mim, a liberação do mundo passa pela liberação das mulheres, ué.

Serge Renine disse...

Aronovich:

Eu não sei deletar o comentário, como me pediu. Como faço?

lola aronovich disse...

Serge, só coloque o novo comentário aí, com o link, e deixa que eu deleto o antigo, então.

Serge Renine disse...

Segue link respectivo ao comentário.

http://www.cineplayers.com/critica.php?id=1473

Anônimo disse...

Aronovich:

Eu gosto do Clube da Luta pelo seu enfoque pisicológico. Pelofato de ser um amador e não ter argumentos técnicos para me contrapor ao seu post, resolvi, tomar a liberdade de colar uma crítica de um site de cimema, o Cine Players - Crítica,(tomara que o pessoal da Cine Players não fique bravo) que expressa, com embasamento técnico, meu pensamento sobre o filme respectivo. É longo e espero que não se importe com isso.

Aí vai!
(Serge - segue o link abaixo)

Ju R. disse...

lolinha,

sobre meu pai ser militar, ele é exatamente o oposto daquele clichê de pais militares. ele é mais liberal que muita gente que eu conheço. minha mãe é mais repressora que ele, trust me! :)

é....ele tá preguiçoso porque está naquela fase de "fazer merda". tá rebelde, hehe!

aline disse...

Oi Lola


Minha vez de dar pitaco por aqui.
Eu gosto bastante de Clube da Luta. Acho que eu concordaria 100% com vc, se visse no filme essa apologia explícita à violência e misogenia. Porque eu acho que isso é tipo uma extrapolação que o filme propõe, acho que é mais provocação do que um convite. Foi assim comigo - e eu fico achando que é assim no geral, mas pode ser loucura minha: rapidinho eu achei que eles eram insanos. Que o filme só estava levando a violência e o ódio às últimas consequências. De um modo muito diferente, mas como em Laranja Mecânica (que eu tbm não acho que faça apologia à violência).
Concordo que é na violência que as personagens se subjetivam, que elas constroem sua identidade totalmente colada ao exercício da masculinidade, ou seja, da força e da virilidade. Esse seria a podridão individual masculina, assim como a vaidade excessiva (a lipoaspiração, etc) seria a feminina (mas a subjetivação feminina, sua tomada de consciência não se dá pela violência porque isso não constitui a feminilidade). A Marla, no fim das contas, é a personagem mais equilibrada. Eu tenho a impressão de que toda a crítica ao consumismo e aos costumes médios é meio óbvio pra ela. Então é só a parte podre dos indivíduos (homens e mulheres, violência e bombas) que poderia causar a destruição da sociedade como um todo. Acho Clube da Luta mais apocalíptico, auto-destrutivo. E irônico.

aline disse...

Só mais uma coisa: o fato do filme ser narrado pelo personagem do Edward Northon já indica que o espectador deve manter alguma distância crítica do que ele diz e fala. E como a gente descobre, no fim, que ele é esquizofrênico, nossa desconfiança deveria redobrar.

lola aronovich disse...

Bom, Ju R, tomara que seu pai consiga sair dessa fase.


Aline, o personagem do Edward Norton, pra mim, pareceu de cara um desequilibrado. Totalmente. Mas não o personagem do Brad Pitt. Ele é auto-confiante e fala coisa com coisa. Até que ele peça pro narrador dar um soco nele, eu não tenho muita coisa contra. Bom, pelo menos vc concorda que o filme deixe claro o que é masculinidade e o que é feminilidade, e não faça como os espectadores e críticos homens, que vêem no filme uma mensagem pra TODA a humanidade (querendo dizer, aquela que importa). Não acho a personagem da Marla a mais equilibrada. Ela precisa de grupos de auto-ajuda tanto quando o narrador. Ela tenta o suicício. Ela se envolve num relacionamento destrutivo com um homem que a depreza (ela mesma diz que ele foi a pior coisa que lhe aconteceu). E pronto, isso é TUDO que sabemos sobre ela. Não me parece uma pessoa equilibrada mesmo. Pra mim, o personagem mais equilibrado é o Tyler, o Brad. Não quer dizer que eu aprove o que ela faz. Mas ele pelo menos é seguro nos seus ideais. Ele não existe, mas a gente não sabe disso até o final. Sim, o espectador sabe que precisa manter uma distância crítica. Mas, como o filme festeja aquele estilo de vida, o espectador fica sem muito pra criticar. É acatá-lo ou não.

lola aronovich disse...

Li o texto, Serge, e até que está bem escrito, se bem que o entusiasmo do autor pelo seu filme favorito, Clube da Luta, torna-se tedioso com as repetições de “perfeito”, “obra-prima” etc. Por ser homem, ele acha que o filme fala sobre “o ser humano”, quando na realidade fala apenas nos homens, como já expliquei nos meus dois textos. Concordo que Marla seja uma catalisadora - é só essa a função dela numa história que exclui as mulheres, ser escada para os protagonistas -, mas o crítico erra quando diz que “Foi para impressionar Marla, para poder conquistá-la, que o Narrador criou uma segunda personalidade na qual teria a confiança necessária para poder ter um caso com Marla”. Hã? O narrador não quer conquistá-la. Ele a despreza. É ELA que telefona pra ele, pedindo ajuda após tentar o suicídio. Se ela não tivesse ligado, eles nunca mais se veriam de novo, pois o Narrador está muito feliz com Tyler/Brad, ou consigo mesmo. Ele não precisa ter personalidade nenhuma para “conquistar” Marla, já que não há conquista alguma ali. Eles só transam, e nos raros momentos em que ela tenta falar com ele, ele é hostil. E ela não foi “conquistada”.
O meu principal problema com o filme é a falta de identificação com ele. Como escrevi, não tenho saco (literalmente) pra ele. Se eu fosse homem, se o filme não girasse inteirinho em torno do que significa ser homem, talvez ele me dissesse alguma coisa. Além disso, isso de “Não são as coisas que nos pertencem, somos nós que pertencemos às coisas”, pra mim é clichê. Já faz parte da minha vida faz tanto tempo que não precisei ver um filme pra questionar a sociedade de consumo. Eu SEMPRE fui anti-consumista. Minha vida não é vazia que eu precise apanhar para despertar para ela. E eu não gosto de viver com dor. Dispenso a violência. Mais uma prova que o filme é todinho feito por homens pra homens é que ele ignora que mulheres sofrem violência doméstica sem nem assim sentirem que suas vidas encontraram algum sentido por causa disso. Os homens no filme se orgulham de suas cicatrizes, ignorando que, na sociedade em que vivemos, muitas mulheres têm cicatrizes, internas e externas, causadas por uma violência que não provocaram, e que são traumáticas, nunca motivo de orgulho.
Quer dizer, violência como um sentido na vida pra substituir o nosso consumismo exacerbado? Tô fora. Não preciso nem de violência, nem de móveis caros.

aline disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
aline disse...

Oi Lola

Ainda que a Marla tenha tentado suicídio e se envolvido em um relacionamento muito destrutivo, ela não é exatamente pirada. Quero dizer, "equilibrada" não é a palavra ideal pra ela, certamente, mas eu a acho lúcida.
Sim, o personagem do Pitt é o mais articulado, o mais convicente, o mais consistente. Mas saber que ele não existe muda, a posteriori, a concepção que dele fazemos. Assim como a bronca que a Marla dá no Norton mostra que ela não é completamente perdida, e que ela tem inclusive iniciativa de retomar sua vida quando percebe que as coisas não vão bem. E no momento em que ela reassume sua vida (e indica estar disposta a se manter bem, fisica e psicologicamente), ela se torna um perigo para o grupo de machões. Ela também e um personagem que sofre uma reviravolta. E que se constroi retroativamente.

Meu, ta tarde.
Vou dormir.

um abraço, Lola

Anônimo disse...

Lola, sempre que posso leio o seu blog porque a maioria das pessoas falam de coisas tão dispensáveis que não me dão vontade de falar. Você, extremista, sempre me dá vontade de falar. Obrigada.
O filme me parece um certo tipo de tradução de uma época, a nossa. Não temos mais conflitos tipo os da Idade Média. As mudanças trazem conseqüências para a nossa natureza. Hoje, as pessoas se escondem atrás da internet onde expõem suas revoltas, suas vontades, seus recalques, suas psicopatologias... Falta o contato. Foi isso que eu vi no filme: um exagero da necessidade de sentir as outras pessoas. O cara era um isolado desesperado por “verdade”. Não acho que o fato da nossa cultura ser machista torna toda e qualquer coisa um produto disso. Acho você, Lola, bem pior que o Clube da Luta no quesito exaltar feminismo/machismo. Você só enxerga machismo. Não digo que o seu ponto de vista está errado, mas existem outros tão certos quanto o seu. Não posso analisar o filme de uma maneira tão pedante, porque não me sinto “informada” o suficiente pra isso. Mas quando eu o assisti, senti uma tradução da minha raiva. E eu sou mulher. Sinto, sim, raiva de muita coisa. Trabalho muito, sofro muita pressão, é muito estresse. Vivo numa sociedade que não permite que minhas verdadeiras vontades venham à tona, pelo menos não profissionalmente. E para onde vai isso? Violência não é uma característica feminina, é? Bom, burrice não é. E eu não sou burra. Não usaria minha violência, minha força, contra um homem (mais forte do que eu), por exemplo. Mas ela, a minha raiva, a minha necessidade de destruir, de contestar, existe. Foi isso que eu vi no filme: uma ficção que traduz minha vontade interior. Uma vontade sufocada por diversas coisas. E essa vontade não tem sexo.
Adorei ver a Helena Bonham Carter ser a mulher do filme. Ela intriga o doente, tem conflitos de igual para igual com ele e não precisa ser uma peituda gostosona para definir sua feminilidade. Sim, é filme do Clube do Bolinha. Mas é muito legal eu, Luluzinha, sentir algo que o Bolinha sente, não é?

Só no fim, ele se livra da doença-Tyler e segura na mão dela enquanto assiste à destruição. Diz “everything is gonna be fine!” enquanto o mundo desmorona ao redor deles. Romântico.

Daniela

Anônimo disse...

bom, o texto não ficou confuso, e]mas que fique claro: não uso violência física contra ninguém, nem homens nem mulheres.
Daniela

lola aronovich disse...

Aline, pra mim a Marla parece bastante pirada. Mas “pirada” inclui um juízo de valor muito maior que “desequilibrada”. Eu acho o mais lúcido o Brad/Tyler. Mesmo quando a gente sabe que ele não existe, isso não muda suas ações, que são consistentes com seu personagem. Acho que qualquer reviravolta/reconstrução que ocorre com a Marla é muito corrida e mal explicada, porque o foco do filme não é ela, de forma alguma. Eu acho toda a parte em que ela é colocada num ônibus, e depois ela volta pra cena final, pra dar a mão pro narrador, muito forçada e mal contada. Não sei como é no livro, mas no filme parece mesmo algo como “Vamos lidar logo com isso e tirar ela do caminho”. Tanto que, apesar da cena final das mãos dadas, a cena final, final mesmo, é um pênis. Aí a ordem foi recomposta. E a ironia encobre qualquer vestígio de romantismo da cena anterior.

lola aronovich disse...

Daniela, bom, que bom que vc lê o meu blog, apesar de vc me achar extremista e de achar que eu só enxergo machismo. Ahn, eu enxergo muitas outras coisas: racismo, homofobia, gordofobia... E também misoginia, que é mais violento que machismo. Mas não é em tudo. Ontem mesmo eu tava pensando nisso. Como que eu gosto de, por exemplo, American Psycho (o livro e o filme), e não o considerei misógino nas duas vezes que li o livro (o filme, feito por uma feminista, muda muito o livro e não é misógino mesmo)? Ontem sem querer entrei num blog feminista em que comentavam que Os Infiltrados era um filme machista, e eu não senti isso. Noutro blog feminista, pichavam o Polanski por ser um estuprador foragido da justiça, e pra mim a sua obra sempre falou mais alto que sua vida pessoal. Mas consigo ver o ponto delas, totalmente, apesar de não concordar.
Mas, voltando a Clube da Luta, é interessante como a internet fica de fora do filme. Talvez porque naquela época ela estivesse engatinhando. Mas acho que vc tem razão: os trolls certamente usam a internet pra extravasar sua agressividade, como se fosse seu clubinho da luta particular. Pra mim, são uns dementes.
Fico contente que vc, vendo o filme, sentiu uma tradução da sua raiva. Talvez meu problema é que eu não tenha raiva, nem sinta muita pressão. Mas vc mesma diz que o filme não te dá uma fuga pra isso que vc sente. O clube da luta não é pra mulheres. Mulher não se sente melhor batendo nas coisas. Se bem que tenho lido sobre mulheres fazendo boxe, e elas gostam justamente por isso. De repente, pode ser uma solução pra algumas pessoas. Eu sou da paz. Não preciso, nem quero, violência como válvula de escape pra nada. Mas como eu disse no meu texto: se os homens vão ficar menos violentos conosco se se espancarem uns aos outros, ótimo, meu porão está às ordens (quer dizer, não tenho porão, mas deu pra entender). Pra nossa frustração feminina o filme não oferece escape nenhum. Ou seja, devemos continuar consumindo, ou nos envolvendo com homens esquizos.

The Crow disse...

Amiga Lola, essa coisa de consumismo e vaidade é realmente complicado: hoje fiquei sabendo que uma prima minha, rica e moradora do interior de São Paulo, fará uma operação na boca, isto é, irá extrair todos os dentes e substitui-los por uma arcada de porcelana, e o valor dessa brincadeira ultrapassará os sonoros R$ 50.000,00 reais.

É pra rir ou não é?

Isso que ela já tinha feito tratamento em todos os dentes devido a uma infecção, gastando aproximadamente 2 mil reais por dente. Dizem que temos em média 32 dentes na boca, aí você faz as contas...

Esse mundo está cada vez mais bizarro!

E o pior disso tudo é saber que ela já foi pobre, muito pobre um dia...

gustavo disse...

Primeiro você vai ter que me convencer que empatia é um sentimento genuinamente feminino. haha. Achei interessante o seu ponto de vista feminino/feminista do clube da luta. E adivinhe? nós homens temos sim um par de coisas balançando entre as pernas e toda a testosterona deixa a gente meio tolo mesmo. E o filme acaba sendo bastante contundente nesse ponto. Mas só nesse..

Serge Renine disse...

Aronovich:

Como sabe, não concordo com sua análise do Clube da Luta, entretanto, agradeço a sua atenção em ler o outro site http://www.cineplayers.com/critica.php?id=1473 e me responder.

Muito obrigado!

lola aronovich disse...

The Crow, nem posso falar muito, porque eu TIVE que ir correndo a um dentista nos States (porque tive a pior dor de dente da minha vida), e ele disse que eu podia estar com princípio de periodontite, é isso? Às vezes dá a maior vontade de deixar os dentes pra lá e adotar uma dentadura de porcelana. Mas por esse preço fica difícil. No caso dessa sua amiga, se ela teve infecção antes e precisou tratar dente por dente, é porque o negócio era sério. Sei lá, consigo pensar em MUITAS coisas mais terríveis pra se gastar uma fortuna que com dentes...

lola aronovich disse...

Gustavo, tá, não é que empatia seja um sentimento genuinamente feminino. É que nós, mulheres, somos criadas pra sermos mais sensíveis, mais caridosas. Eu choro quando vejo um cãozinho abandonado, ok? Acho que isso é empatia. Apesar de eu gostar desse par de coisas que vcs têm balançando no meio das pernas, vcs precisam controlar toda essa testosterona pra não ficarem tão agressivos. Depois nós é que somos perigosas porque temos TPM! Humpf!


Serge, de nada. Sempre às ordens.

Anônimo disse...

Você critica com tanto fervor o machismo que parece não perceber a overdose de feminismo que demonstra em seus posts.

Anônimo disse...

também não gosto do filme, por todos os motivos que você citou. não me sinto representada como mulher, nem como "pessoa alienada que trabalha loucamente ambicionando ficar rico e depois se sente frustrado e não-correspondido" já que 1) é uma falácia do capitalismo e raramente um pobre fica rico e 2) ninguém precisa ficar rico, basta que algumas necessidades sejam preenchidas q dá pra ser plenamente feliz.

por último, também acho que violência não é a única solução para extravasar nossa raiva. acho que combater (não fisicamente, por favor) o que nos causa raiva seria mais eficaz.

eu já tive esses ímpetos de agressividade numa fase da adolescência, antes de amadurecer e me resignar sobre coisas na minha vida que não são culpa dos outros (ou mesmo que sejam: não podem ser solucionadas com agressividade). acho que se eu tivesse feito aulas de luta, nessa época, teria sido mais fácil eliminar essa energia negativa. mas não precisei e a raiva passou, né. há outras atividades físicas, aliás, que podem ajudar nisso, não apenas as violentas. fora que não entra muito na minha cabeça gente que gosta de levar porrada (ou será que esse povo acha q só ia DAR porrada?).

mas quanto à defesa pessoal, que vocês falaram no post anterior, eu sou obrigada a concordar. é péssimo e totalmente contra oq eu acredito, mas talvez eu ainda faça algum curso sobre isso, algum dia, pq parece que pra cada pessoa sã, como a lola, há 100 outras, muito loucas e agressivas. e se eu der o azar de esbarrar com uma dessas?

Jefferson Reis disse...

Lola, comecei a ler suas críticas sobre este filme concordando com você, mas já não estou concordando mais.

Miranda disse...

Lola, entendo o q vc quer dizer.. mas se vc analisar mais um pouco, ira perceber q o "Jack" fica louco, ou seja, o comportamento agressivo que eles admitem não é nada menos do q a loucura de UMA pessoa q consegue alienar as outras e assim cometer os maiores crimes como a guerra.

Camila Carvalho disse...

Basta trocar "homem" do clube da luta por "homens" "sociedade", incluindo mulheres, pra perceber a crítica. Clube da luta, pra mim, se trata de um rito de passagem, tal qual as inúmeras tribos indígenas fizeram e fazem, é o processo do homem deixar os valores atuais, infantis, (de consumismo principalmente)e amadurecer as ideias e criar responsabilidade com o que tem valor real na vida dele,(demonstrado no final, segurando a mão da Marla). A exclusão das mulheres pra mim é uma forma de negar a zona de conforto, quando ele diz "Será que é de uma mulher que precisamos?" ele sai da zona de conforto que tinha com sua mãe [seus pais], e nega os valores femininos que você mesma atribuiu no texto "como se exclui qualquer característica “feminina” (como solidariedade, empatia, carinho)".

Anônimo disse...

Eu gosto muito desse filme e creio que muitos interpretam erroneamente e a idéia da formação do clube do luta.
Vejamos. Quando funda-se o Clube da Luta, o objetivos dos sócios não é bater e vencer a luta (isso é o que a sociedade impõe). É apanhar e perder o maior objetivo. Só com essa observação já se desfaz muitas fantasias sobre o filme. Você vai apanhar, perder e a dor física criada vai estancar outra dor, a psíquica. Dentro do Clube da Luta, apanhar é a única maneira de não ser engolido pelo sistema, de manter autonomia.

O protagonista é um personagem torturado pela sua insônia, sua inquietação, suas manias de compra e angústia. Sua primeiras fala no filme é “que tipo de porcelana me define como pessoa?”, e neste momento percebe-se o vazio existencial intolerável do personagem. O filme mostra um sujeito que viaja de lugares à lugares, não cria vínculos e tudo é descartável. Ele cria uma compulsão por objetos de griffe para garantir seu precário narcisismo. “Compro, logo sou eu”, ele diz. Em seu trabalho, o personagem tem uma relação submissa, rancorosa com o chefe. Ele não tem nome no filme (já notaram?). Ele assumia falsos nomes em grupos de auto-ajuda. Jack ou seus Jacks perdem a sonoridade frente a Tyler Durden.

Sua frequência em grupos de auto-ajuda contrasta com irrealidade de seu cotidiano. Jack não tem câncer nos testículos, ele tem outro câncer: Marla (que tb não tem câncer nos testículos...rsrsr). Esta é uma garota igualmente saudável, perdida na vida e dependente deste grupos. Ela mórbida, em lugar do consumo desenfreado, usa o sexo e as drogas para preencher o vazio de sua existência. Marla tenta manter seu equilíbrio às custas dos outros. "A mentira dela refletia a minha", diz Jack. A garota funcionará, ao longo do filme, como o real e terá a função de resgatá-lo da loucura.

É um problema assistir o filme buscando virilidade ou louvar aquilo como o ápice da masculinidade. Abrir clubinhos e sair dando porrada ou anticapitalista: não entendeu o filme. Seu viés psicológico é mais intenso...

Tyler é o desejo de Jack, a forma como ele queria conduzir sua vida. É somente um delírio, o ideal de ego de Jack, que se torna “real”, seu ideal, sua psicose.

A subversão do filme está em afirmar que o importante não é bater, e sim apanhar. Baixar a guarda, abrir mão do conforto e da segurança, somente assim se encontra a verdadeira liberdade. Desejar "apanhar" é, paradoxalmente, a única maneira de buscar o próprio desejo, do alívio psíquico. A dor física estanca a dor psíquica.

A base do surto psicótico de Jack é a depressão narcísica que cede ao desejo a possibilidade de circular em novos objetos: agora ele é líder ou o eu amado pelo líder. E não somente ele, e sim a todo os sócios do Clube da Luta que são sujeitos castrados, com seios, perdedores, em posição depressiva, trabalhadores mal pagos, desempregados...

Eles excluem as caracteríscas femininas? Sim. Mas eles também exclui muita coisa do universo masculino que esses clubinhos de machinhos brigando não perceberam no filme...

deixar apanhar é algo masculino e viril?

Anônimo disse...

Alguém pelo menos entendeu o filme de uma maneira madura e coerente, parabéns pela interpretação anônimo