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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

CLÁSSICOS DUVIDOSOS: Os primeiros filmes da saga Planeta dos Macacos

Repressão policial humana contra macacos no quarto Planeta

Depois de ver esse ótimo filme que é Planeta dos Macacos: A Origem — que virou xodó dos defensores de animais, com razão — tive vontade de rever os outros. Ok, nada no mundo me faz ter vontade de rever o remake do Tim Burton, que é lamentável. Tô falando das versões velhinhas mesmo. Primeiro revi o filme de 1968 com o Charlton Heston (veja trailer). Acho, sinceramente, que o troço (baseado num romance do francês Pierre Boulle) tá longe de ser um clássico. É inclusive bem trash em vários momentos. Charlton faz um astronauta a bordo do Ícaro (convenhamos: um nome inadequado pra uma nave espacial) que acorda 2 mil anos depois num planeta estranho. Convenientemente, a única tripulante mulher da nave morre. E os três sobreviventes vão explorar o novo mundo. E eles ficam um tempão explorando, explorando, explorando (o filme demora pra começar)... Até que encontram humanos primitivos, com pouca roupa, que não falam nem parecem se comunicar. De cara, Charlton conhece a única humana jovem e dentro dos padrões de beleza. A coitada passa o resto do filme olhando babona pro herói, num dos papéis mais ingratos da história do cinema.
Para explicar por que Charlton passa metade da trama sendo tratado como qualquer outro humano pelos chimpanzés e gorilas, inventam que ele foi ferido na garganta. Mais tarde ele é ameaçado de castração, despido, examinado, enjaulado, espancado, e caçado com redes. Ele faz amizade com um casal de macacos cientistas que acha fantástico que, em outros tempos, o ser humano tenha sido tão evoluído quanto o Charlton, pelo menos quando ele ainda não tinha virado um reaça de carteirinha. Juntos eles fogem, vão até a zona proibida, descobrem uma boneca que fala (prova inequívoca que os humanos já falaram), e, na cena mais marcante do filme, que é também a última, Charlton percebe que aquele é o mesmo planeta Terra de onde saiu. Talvez não seja spoiler (porque tá na capa) dizer que sua descoberta acontece ao ver parte da estátua da liberdade enterrada na areia. O segundo longa da franquia, De Volta ao Planeta dos Macacos (1970), eu ainda não revi (veja trailer). Portanto, não lembro nadinha. Um outro astronauata vai procurar Charlton e encontra a mulher dele, aquela do papel ingrato. Imagino que agora ela fale. Mas não tem jeito: todas as mulheres das cavernas retratadas em filmes se parecem com a Raquel Welch.
O terceiro, Fuga do Planeta dos Macacos, de 1971, sempre foi meu preferido (veja trailer). Eu chorava cântaros no final, com todos aqueles assassinatos. Mas alguma coisa aconteceu. Ou o filme envelheceu mal, ou fui eu. Ele parece muito datado. Desta vez é o casal de macacos cientistas, com mais um, Dr. Milos, que viajam no tempo e chegam à Terra do ano 1973. O sábio Dr. Milos diz a seus colegas que talvez seja uma boa ideia não revelar aos humanos que ei, viemos do futuro, onde a sua espécie será totalmente dominada, escravizada e usada para testes científicos pela minha. No entanto, Dra. Zira é muito vaidosa intelectualmente para se fingir de inferior. Ela logo conta tudo, até que costumava dissecar humanos vivos. Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, essa podia ser a autobiografia da símia. Mesmo assim a gente gosta dela.
Minhas maiores queixas contra o filme são que Dr. Milos é descartado rápido demais (morto por um gorila no zoológico), e que Cornelius, o marido de Zira, se revolta meio sem motivo contra um enfermeiro humano. Ah, sabe quem faz Cornelius? Roddy McDowall, que a galera dos anos 80 pode se lembrar como o caçador de vampiros de A Hora do Espanto. Quem faz Zira é bem mais famosa. É Kim Hunter, vencedora do Oscar de coadjuvante por Um Bonde Chamado Desejo. É ela a Stellllaaaaa por qual berra um ultrasexy Marlon Brando com camisa rasgada (aqui, pra animar seu dia).
Há várias curiosidades em Fuga. A primeira é que o presidente dos EUA é um sujeito legal, que não aceita matar os macacos por algo que só vai acontecer daqui a dois mil anos, longe do seu mandato. Aliás, ninguém realmente quer matar o casal exceto um cientista, que acha que, eliminando esses chimpanzés falantes, reverterá o destino da espécie humana. A segunda curiosidade é que o dono de um circo — logo de um circo, instituição não exatamente conhecida por tratar bem os animais — seja um dos três únicos humanos que Zira aprova (os outros dois são cientistas bonzinhos). A terceira é que o filme é bem esperto em cortar o que deve ter sido uma cena tensa: como Zira convence a chimpanzé do circo a trocar os bebês macaquinhos? “Olha, Helô, eu, Zira, vou levar seu filho fingindo que ele é meu. Todo o exército americano estará nos perseguindo e talvez seu filho morra, enquanto meu pimpolho fica aqui na sua jaula toda protegida com você. Pode ser?”.
O quarto filme da série, A Conquista do Planeta dos Macacos (1972; veja trailer), deve ser o que começa melhor, com ângulos inusitados de câmera, tudo muito bem filmado. Agora César, o macaquinho filho de Zira e Cornelius, já tem dezoito anos. Ele, que foi criado pelo dono do circo (Ricardo Montalban, que todo mundo conhece por causa da Ilha da Fantasia, certo?), descobre a triste realidade: que macacos são terrivelmente maltratados por humanos. É este filme que mais ou menos foi refilmado pra gerar A Origem. Só que é totalmente diferente. A explicação dada pro início da evolução dos macacos não é uma poção mágica da ciência, apenas que um casal de chimps sofisticados viajou no tempo. Mas por que haveria tantos macacos e gorilas convivendo com humanos? Conquista cria uma história até plausível: houve uma doença misteriora que matou todos os cães e gatos. As pessoas insistem que querem bichos de estimação e começam a adotar macaquinhos para essa função. Mas os símios crescem e, quando os humanos percebem que os macacos são vinte vezes vezes mais inteligentes que cães e gatos (que o Calvin não me leia), decidem escravizá-los. E dá-lhe macaco para fazer todos os serviços que humanos não gostam de fazer, como limpar a casa, cozinhar e servir comida. Soa familiar? Conquista deixa claro que está falando da condição dos negros, escravizados pelos brancos. César, ao explicar a seu “dono” (porque ele o comprou), um funcionário negro do governo, que está treinando macacos pra se rebelarem, insiste: “Você, de todas as pessoas, deveria apoiar a nossa luta”. E o humano negro apoia.
O filme vai muito bem até dar lugar a muitas cenas de luta, uma mais fraca e confusa que a outra. Um terço da duração deve ser isso — péssimas batalhas entre a polícia humana e os chimpanzés e gorilas. Se ficasse na parte filosófica sobre escravidão, poderia ser uma história fascinante.
O quinto e último da série, Batalha do Planeta dos Macacos (1973; veja trailer), é disparado o pior de todos. É tão ruim que até a maquiagem dos macacos, bastante convincente nos filmes anteriores, aqui parece feita por amadores. Eles nem mexem a boca direito. A trama acontece doze anos depois de Conquista. César é o líder absoluto da aldeia onde vive, depois de uma guerra nuclear (que não vemos) que devasta o planeta. Humanos também vivem nessa aldeia, em situação de inferioridade. E gorilas já começam a se achar os donos do pedaço. No final tudo acaba mais ou menos bem, e a gente fica sem entender o que vai acontecer para que Charlton chegue a uma Terra em que macacos rule, e humanos mudos obedecem.
Vamos ver como os novos filmes da série, agora totalmente recauchutada por A Origem, vão contar a história. Tem tudo para gerar roteiros instigantes e nos fazer refletir sobre a nossa posição de donos do universo — e de como tratamos mal todos os outros animais. A começar por nós mesmos.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

CLÁSSICOS DUVIDOSOS: SOB O DOMÍNIO DO MEDO / Tradição, família e propriedade

Dustin Hoffman usa arma ereta para proteger propriedade particular

Pouca gente hoje ainda fala no Sam Peckinpah, violento diretor americano que fez sucesso nos anos 60 e 70. Ele adorava filmar cenas sangrentas em câmera lenta. Ok, Meu Ódio Será sua Herança (1969) é um clássico, e talvez, em menor escala, Os Implacáveis e até Comboio. Mas Peckinpah, morto em 84, certamente não manteve seu status cult. Eu até gosto da sua obra, se bem que boa parte dela seja reaça, quase fascista.
Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, 1971) é um deles (trailer aqui; não confundir o título com Sob o Domínio do Mal). Assim como Vestida para Matar, de outro machista contumaz, Brian de Palma, Sob (vou abreviá-lo assim) é um dos filmes mais misóginos que tive o prazer de ver. É, lamento dizer, prazer, pois Sob é uma produção eficaz, que prende a atenção, e que é um dos marcos da violência nas telas da década de 70. Só que tem uma ideologia muito, muito torpe. Ele foi lançado no mesmo mês que outros dois filmes ultraviolentos, Dirty Harry e Laranja Mecânica. Tanto que a manchete de uma revista semanal americana, referindo-se ao trio, dizia “Feliz Natal ― pow!”. Hoje, quase quarenta anos depois, os outros dois estão mais vivos que Sob.A história é de um jovem casal, feito por David (Dustin Hoffman, já um astro na época por conta de A Primeira Noite de um Homem e Perdidos na Noite) e Amy (Susan George, então desconhecida e que, depois de famosa, não estreou nada realmente digno de nota). David é um matemático que, para deixar pra trás as revoltas universitárias nos EUA, vai com sua mulher pra cidadezinha natal dela, na Inglaterra. A primeira vez que vemos Amy vemos apenas seus seios. Sério, a câmera enfoca os seios cobertos por uma blusa, aparentemente sem sutiã (David ordena que ela coloque um sutiã, caso contrário os homens ficarão olhando pra ela). Mais tarde a veremos nua. Amy já começa levando pra casa uma armadilha de caça que chama-se “mantrap”, literalmente, armadilha pra homens.
David, entretido com seus cálculos matemáticos, não dá a menor bola a Amy, que parece não ter outra ocupação além de "testar" os rapazes. Ela ergue a saia pra um grupo (um deles seu ex-namorado), toca neles de leve, mostra seus seios ― uma legítima cockteaser (insulto pra mulheres que brincam com o pênis alheio, sem intenção de usá-lo). Todos prestam atenção nela, menos David, que tem diálogos infantis (mas reveladores!) com ela. Tipo, ele a chama de criança e animal. Como os rapazes vivem fazendo gracinhas uns com outros sobre transar com animais (ovelhas), e como David a chama de animal, a correlação é óbvia. Ele pergunta pra ela: “Esta é a poltrona do papai?”, e ela responde: “Todas as poltronas são do papai”. Pô, não precisava nem falar!Tentando se entrosar com os rapazes, David é convidado por eles para ir caçar. Eles o levam até o meio do mato e o abandonam lá durante horas. Enquanto isso, voltam pra casa. Amy está lá. Quando o ex dela a agarra, primeiro ela tenta lutar. Ele bate nela, feio. Enquanto é estuprada por ele no sofá (do papai?), vemos que ela gosta! Até pede pra que ele a abrace (veja a cena gráfica aqui, para maiores de 18 anos). Mas um outro amigo também quer estuprá-la. O ex, o primeiro estuprador, a segura, e fica indignado ao notar que ela gosta do segundo. Ele pensava que ela só gostava de ser estuprada por ele, entende? Não conhece o Peckinpah, tolinho. Se houvesse mais carinhas, ela também gostaria ― porque é um animal. Após seu estupro, a cena seguinte é com ela numa cama, fumando um cigarro. Sabe a típica cena pós-coito? Pessoa na cama fumando um cigarro? É essa. Como ela mesma não dá queixa ou conta sobre o estupro pra ninguém, o filme deixa claro que não foi estupro. Ela que pediu. E até gostou! Ainda veremos as cenas de estupro muitas vezes, em flashbacks. Num deles, crianças brincam com línguas-de-sogra, imitando símbolos fálicos.
Praticamente só há duas mulheres no filme. A outra é uma moça mais jovem, também loira, que tem uma queda por David. Como ele mal a nota, a menina vai mexer com um grandalhão com problemas mentais, que está lá quieto no seu canto. É ela, outra cockteaser, que o beija e o agarra. Quando o pai da garota passa a procurá-la, com uns amigos bêbados (os mesmos que estupraram Amy), o grandalhão se desespera e, sem querer, asfixia a menina, o que é previsível, de Frankenstein a Ratos e Homens.Acidentalmente, David atropela o grandalhão e o leva até sua casa. O pessoal descobre que ele está lá e quer linchá-lo. É aí que começa o amadurecimento de David. Ele avisa Amy: “Esse assunto é meu”, e só falta uma legenda piscar na tela dizendo “Agora você é um homem!”. O filme vira uma defesa desenfreada da propriedade privada. Agora é a vez da casa ser violada por machos enfurecidos que jogam tijolos, paus, ratos vivos e fogo dentro dela (não preciso explicar o que realmente está sendo violentado mais uma vez, preciso?). Amy, insensível, egoísta e, gico, histérica, quer que David entregue o grandalhão pra eles. Mas David se importa. Ele liga. Ele sim é moralmente superior. Portanto, ele a manda o tempo todo ficar quieta, calar a boca, ir pro seu quarto. Quando o grandalhão se enerva e bate em Amy, David é carinhoso com ele. E logo em seguida David também bate em Amy ― ele é o quarto homem no filme a bater nela. A câmera repete o ângulo de como o primeiro estuprador puxa o cabelo e esbofeteia o rosto de Amy.
No final, depois que todos os inimigos estão mortos (e todas as cenas contêm a violência estilizada do Peckinpah, com sangue em câmera lenta), David abandona Amy na casa e parte no carro com o grandalhão, sem saber para onde estão indo. Sorri pra ele, provando que um homem só pode mesmo ser amigo de um outro homem. Nunca de uma mulher, aquelas víboras.
Parece machista pra você? Pois é. O extraordinário é que, durante décadas, a maioria dos críticos homens relevou tudo isso. Eles nem acharam o filme machista. Acham apenas violento, mas não contra as mulheres. Tal qual Caio Blinder e seus amiguinhos do Manhattan Connection não viram nada de mais em chamar mulheres árabes de piranhas, os homens não se incomodaram com Sob. Foram as críticas feministas que gritaram “Opa, aqui tem misoginia saindo pelo ladrão!”. Uma refilmagem de Sob vem se arrasando já faz uns anos, e vai ser interessante acompanhar se a misoginia do original será atenuada. O remake ia ser com Edward Norton no papel principal, mas parece que será lançado no final do ano, com James Marsden, a gracinha de X-Men e Encantada, e Kate Bosworth, de Superman - O Retorno e Quebrando a Banca, como o casal em apuros. Quer dizer, uma parte do casal muito mais em apuros que a outra.

sexta-feira, 18 de março de 2011

CLÁSSICOS DUVIDOSOS: CRIMES E PECADOS E PONTO FINAL, DOIS GRANDES WOODYS

Vista de rico em Ponto Final (05).

Crimes e Pecados (1989) é a prova cabal no cinema de que deus não existe. É um filme sobre moralidade, mas sem muita esperança. O oftalmologista que manda matar a amante não só escapa sem culpa, como prospera. O produtor mulherengo e ditatorial (comparado a Mussolini) só melhora de vida. Já as pessoas com um centro moral não terminam bem. O filósofo judeu se suicida (deixando nada mais que um bilhete dizendo “Vou sair pela janela”). O rabino fica cego sem explicação. A produtora executiva acaba sucumbindo aos encantos do Mussolini. Mas claro que nem tudo é tão certinho como eu tô contando. Mussolini tem um lado que a gente não conhece (ele é inteligente, sensível à poesia). E a alternativa imediata da produtora seria o personagem do Woody Allen que, apesar de ser boa gente, é meio loser. Começa documentários que não termina, e não ganha um centavo com eles.E lógico que Crimes tá cheio de ótimas piadas também, se bem que quase todas vêm da boca do Woody (uma vem da Mia Farrow. Alan Alda lhe diz: “Se você se esforçar bastante, pode ter o meu corpo”. E ela: “Tem certeza que não prefere deixá-lo pra ciência?”). Woody, que não transa com a esposa faz um ano (ele se lembra da data por que foi o aniversário de Hitler), reclama com a irmã: “A última vez que entrei numa mulher foi quando visitei a Estátua da Liberdade”. Ele manda uma carta de amor à amada, que meses depois a devolve. Woody diz: “Minha única carta de amor. Mas tudo bem, porque eu plagiei quase tudo do James Joyce mesmo. Você provavelmente estranhou todas as referências a Dublin”.
E tem toda uma paixão pelo cinema também, que é sempre uma marca registrada do Woody. Ele vai com a sobrinha e com Mia ver matinês de filmes antigos. No final, ele, o diretor, se encontra com seu protagonista, o oftalmologista, e os dois discutem a trama. O veredito: “Se você quer um final feliz, vá ver um filme de Hollywood”. Pois é, só que final feliz, neste caso, é algum tipo de castigo (judicial ou divino) pra quem comete crimes. E não acontece nada.
(Aliás, 89 foi um bom ano de Oscar. Além de um dos grandes Woody's, teve o melhor Spike Lee, Faça a Coisa Certa, Sexo, Mentiras e Videotape, Harry e Sally, Parenthood, Sociedade dos Poetas Mortos, Valmont, Glory, Cinema Paradiso, Camille Claudel etc).
Ao rever Crimes, pensei: opa, tá cheio de ligações com Match Point (Ponto Final), que Woody fez 26 anos depois. Mas não tem não. As únicas semelhanças é que ambos estão entre as obras-primas do Woody e são sobre sujeitos que, pra facilitar a vida deles e não terem que pagar pelos seus adultérios, matam a amante. Só que, enquanto Crimes é judaico até a medula (deve ser o filme mais judeu do Woody, e logo nessa produção ele decidiu mostrar que deus está morto!), Ponto não tem religião. A questão religiosa é substituída pela luta de classes, por assim dizer. Ponto é sobre alpinismo social, e em Crimes todo mundo é da mesma classe (se bem que a amante assassinada, feita pela Anjelica Huston, é comissária de bordo e não sabe quem é Schubert, o que a coloca numa outra classe). Em Ponto é o assassino que está em desvantagem cultural e precisa aprender as referências pra se encaixar na high society. Em Crimes tem algo de gênero, da amante admirar e querer aprender com o adúltero. Além do mais, há a diferença de idade. Em Ponto o casal é muito mais jovem, e isso interfere. E a discussão gira mais em torno do destino que da moralidade. Mas ambos estão entre as melhores obras da longa filmografia do Woody.Ponto é o filme mais incomum do Woody. É praticamente como se fosse um filho bastardo, fazendo minha imaginação correr sobre se o que é mostrado em Você Vai Encontrar o Homem dos Seus Sonhos é ficção mesmo (um carinha ficar com o manuscrito de outro que morre, e publicá-lo como se fosse seu). Não tem nada a ver com o Woody. Ok, ele trata de ambição e pobreza em O Sonho de Cassandra, mas não tem comparação. Em Ponto fala-se de dinheiro o tempo inteiro, do começo ao fim. É a história de um jovem pobre, esforçado, ganancioso, que cultiva (é a palavra certa no caso) seu amor pela cultura da classe alta (ópera, pintura, literatura) como um meio de ascensão social. Ele não sóCrime e Castigo ― ele estuda a obra, certo de que saber analisá-la pode render frutos. E aí ele se casa por dinheiro com uma rica herdeira. Mas o estranho é que ele é todo formal e evasivo desde o início, na entrevista de emprego para ser professor de tênis num clube de ricos. Ele só parece ser ele mesmo quando está com a única outra pessoa de sua classe, a americana aspirante a atriz e noiva de seu futuro cunhado. Com ela ele é sexualmente agressivo e obcecado. Só com ela. Com todo mundo ele desempenha um papel. Outra diferença com o Woody de sempre é a falta de humor. Claro, há vários momentos em que a gente ri (talvez mais de nervoso), como a ironia máxima da frase “todos sabemos que você é perfeitamente capaz de engravidar uma mulher”, sendo que, apesar das dificuldades pra engravidar a esposa, sua amante está grávida. Mas não tem alívio cômico. Não tem alívio, ponto. É um filme tenso. E tem tanta coisa incrível. O anel bater na cerca e voltar é um achado; eu até me arrepio com essa cena. Adoro que a gente pensa que o sonho no final, em que o protagonista conversa com suas vítimas (a frase “Você foi um efeito colateral” é muito política) parece ser dele, mas não é: é do detetive que desvenda o caso. E gosto muito também como o filme se transforma no seu terço final, e como toda a sequência do assassinato é inesperada e implausível, mas a gente fica sem escolha e torce pelo crápula. E é uma graça como os ricos não acreditam em sorte. Pra eles, é tudo meritocracia. Eles são ricos porque mereceram, não porque nasceram com o bumbum pra lua, já num berço de ouro.
Então, nada disso é sequer sugerido em Crimes e Pecados. São duas obras bem díspares, com parte de uma trama em comum. Mas é muito pouco pra desmerecer Ponto como não original. Quer dizer, o cara faz um filme por ano, todo ano, praticamente desde 1966 (são 46 filmes dirigidos por ele já). Algum dia ele teria que repetir alguma coisinha. E é ridículo que a gente fale em repetição logo no seu filme mais atípico, o grande Ponto Final.

sexta-feira, 11 de março de 2011

CLÁSSICOS DUVIDOSOS: THELMA E LOUISE / Um raro filme feminista

A famosa cena final. Não dava pra acabar de outro jeito.

Thelma & Louise está completando vinte anos de vida (trailer aqui), e por isso a Vanity Fair escreveu uma longa reportagem sobre o filme. Infelizmente só dá pra ler um pedacinho (se alguém encontrar tudo, me avise). Mas o que se pode ler é bem mais saboroso que o comentário do diretor Ridley Scott feito pro dvd em 97 (é, eu ouvi inteirinho!). Por exemplo, algumas atrizes que foram pensadas para o papel de Thelma ou Louise antes de Geena Davis (Thelma) e Susan Sarandon (Louise) fecharem: Holly Hunter, Frances McDormand, Jodie Foster (que, diante da demora, foi fazer Silêncio dos Inocentes), Michelle Pfeiffer, Meryl Streep, Goldie Hawn. O papel do Brad Pitt foi originalmente conseguido pelo William Baldwin, só que ele desistiu pra fazer Cortina de Fogo. Levante a mão quem acha que Brad está muito mais bonito hoje que vinte anos atrás. No início, Ridley (Alien, Blade Runner, Gladiador) iria apenas produzir a obra da roteirista Callie Khouri, que é do Texas (e depois, ao ganhar o Oscar por este roteiro muito bem amarrado, disse ao público: “Vocês queriam um final feliz? Tá aqui o seu final feliz”. De fato, é tão raro roteiristas mulheres ganharem o Oscar — isso só ocorreu em 9% das vezes, e esse número inclui times de roteiristas, ou seja, homens e mulheres — que uma façanha dessas precisa ser comemorada). Mas, depois de ver diretores como Bob Rafelson (O Destino Bate a sua Porta), Kevin Reynolds (Robin Hood, Conde de Monte Cristo) e Richard Donner (A Profecia, Superman, Máquina Mortífera) serem sondados e diminuírem a história como “duas vadias num carro”, Ridley decidiu ele mesmo dirigi-lo. Bem que podia ter sido uma diretora, não?Outro dia li a versão machista dos acontecimentos. Não vou dar o link (americano) porque inclusive ele está proibido por incitação à violência, mas, apesar de parecer exagerado, o carinha realmente tá falando sério. Olha como ele descreve o começo do filme: Thelma é casada com um carinha super legal, que não se sabe por que cargas d'água permite que sua esposa bastante normal seja amiga de uma neurótica como Louise. As duas pegam o carro e viajam, e param num bar à beira da estrada, onde um outro carinha super legal começa a flertar com Thelma, que está bêbada. Quando ela passa mal, ele só quer ajudá-la, mas fica excitado ao encostar nela sem querer. Ela recusa sexo apenas porque quer proteger sua reputação, então lhe dá um tapa, e ele a estapeia de volta. É só um joguinho sexual, entende? E aí Louise aparece para arruinar tudo. Isso porque ela odeia homens e quer Thelma só pra ela. O carinha super legal faz uma oferenda de paz pra Louise, convidando-a a chupar seu pênis, e o que aquela histérica faz? Atira nele! É um filme anti-homem! (Clique aqui para download a cena e fazer o jogo dos 70 erros).
Aham. A própria Callie Khouri teve que responder a inúmeras críticas de ser uma feminista exaltada e de seu roteiro ser anti-homem. E ela respondeu assim: “Que se danem esses críticos. Eles que vejam o tratamento dado às mulheres no cinema antes de me ofenderem pelo tratamento dado aos homens. Existe todo um gênero chamado exploitation film baseado na degradação das mulheres, e todo um grupo de críticos caipiras que aplaudem as virtudes desse gênero. Até que exista todo um subgênero que faça a mesma coisa com homens, calem a boca”. Eu acho sim que T&L é um dos filmes mais feministas já feitos. Mas muitas feministas discordam. Elas vêem que um final tão infeliz (as duas continuam dirigindo, o que faz com que caiam no Grand Canyon e morram) não pode ser feminista. Pô, precisa acabar tudo bem pra ser visto como pró-igualdade de gêneros? Não pode só denunciar os obstáculos? (e não é possível o filme acabar de modo diferente, a menos que vire uma minissérie. Ou seja, elas são capturadas, e aí lutam por justiça. Do jeito que está, não tem como ter um happy ending). Outras pessoas creem que Thelma não sofre o suficiente após quase ser estuprada. Ah, sei não. Tem uma receita pra como vítimas devem se comportar? É igual pra todas? E digamos assim, existe o tempo real, que não é o mesmo do tempo do filme. A gente não acompanha tudo que ocorre.Mais outra crítica costumeira: o personagem do Harvey Keitel é bonzinho demais e surge como salvador. Verdade que ele é o homem que mais empatiza com as mulheres em todo o filme, e que ele quer ajudá-las. Mas entendo por que seu policial/detetive tenha que estar presente. Se mesmo com sua presença (um tanto abusiva às vezes) há babacões que considerem T&L anti-homem, imagina sem ele? Que mais? Tem quem pense que Hollywood poda aqui um relacionamento lésbico, como obviamente faz com Tomates Verdes Fritos. Ahn, eu não vejo nada sexual entre Thelma e Louise. Ambas pra mim são bem hétero, o que não as impede de se tornarem grandes amigas (o machismo jura que mulheres não podem ser amigas porque estão sempre competindo. Logo, exemplos de female bonding são sempre bem-vindos). E todos os temas feministas, não valem pra nada? Louise já pergunta sobre o marido escrotossauro de Thelma: “Ele é seu marido ou seu pai?”. Ambas concordam que vivem num sistema patriarcal em que não conseguirão mandar um estuprador pra cadeia, ou alegar legítima defesa por atirar em um. A culpa cai sempre na vítima. Thelma muda 100% no decorrer do filme, e afirma que não pode voltar atrás, e que agora vê tudo por um ângulo diferente, que antes era como se estivesse sedada. E muito da sua mudança deve-se a um orgasmo. Quando ela toma as rédeas da sua sexualidade, e dispensa o único parceiro que teve na vida até então (desde que tinha 14 anos), ela torna-se confiante e dona de si. Embora Geena e Brad tenham uma química fantástica, ela não se apaixona por ele. Ela só o quer pra sexo mesmo. E ela não se interessa por ele porque ele é o Brad Pitt ou porque ele tem um bumbum sexy, mas porque ele é gentil e educado. Jimmy, o personagem do Michael Madsen (que no ano seguinte entraria pra galeria clássica dos psicopatas por sua atuação como torturador de policiais em Cães de Aluguel), faz par romântico com Louise e é o segundo homem que mais empatiza com as mulheres. Mas o Mr. Cool (e às vezes o Michael é tão cool que me cansa) tem várias nuances. Ele é violento — quando arrebenta o quarto de hotel, há uma sugestão que ele já bateu em Louise ou a ameaçou. Ele só vai atrás de Louise e a pede em casamento depois de perceber que ela vai deixá-lo (e que pode estar apaixonada por outro homem). Ela não o vê como uma opção.O filme é ótimo inclusive pelo seu senso de humor. Com um tema pesado desses de tentativa de estupro, sistema judiciário contra a mulher, e implicações de violência doméstica, seria fácil fazer uma trama pesada. Mas não é o que acontece, e nisso Christopher McDonald, o ator que faz o marido de Geena, ajuda enormemente. O cara é quase uma caricatura do marido mandão e sem noção. Quase, porque a gente sabe que esse tipo existe. Uma das melhores piadas é com ele. Thelma liga pra casa pra saber até que ponto seu esposo sabe o que está acontecendo. Lá está todo o FBI, pronto pra identificar o local da ligação. Um agente pede ao marido que ele seja gentil com a esposa, pra que ela fale o máximo possível. Thelma liga, ele atende, e suas únicas palavras são “Thelma! Olá!”. Só isso já basta pra ela identificar a saudade forçada de sua voz e desligar. A segunda melhor piada é a linha “The police radio, Louise!”. Thelma, já no comando da situação (elas trocam de posição durante o filme), pede para que Louise atire no rádio do carro policial. E Louise atira no rádio normal, a fofa, como qualquer pessoa sem antecedentes criminais faria.O filme cai muito no seu terço final, e não se levanta mais. Primeiro quando o diretor passa a incluir montes de cenas bonitas de vales pontuadas com música. Elas não acrescentam muito e param a história. E aí a gente vê que Ridley se perde mesmo ao incluir um esquetezinho que não tem nada a ver com nada. Vimos que Thelma e Louise prenderam um policial no portamalas do carro, não sem antes atirarem para fazer furos na porta e permitir que ele respire. Até aí, ótimo (e a cena com o policial funciona muito bem). Mas pra que colocar um ciclista rastafari parando no carro de polícia e soprando maconha lá dentro? Essa é a visão de quem, do ciclista? E daí, quem é ele? O que isso tem a ver com a trama? É mais do que óbvio que isso não consta no roteiro. Foi improvisação, diz Ridley nos comentários do dvd. Eles estavam filmando cenas de vale que também não deveriam estar no filme e viram o rastafari. E então Ridley pediu pra que ele fizesse a cena. O editor não queria incluir nem isso nem todas aquelas imagens lindas do vale, mas Ridley insistiu. Da próxima vez, escute o editor!Eu também não gosto de quando as duas amigas atiram e explodem o caminhão do tarado. Acho que elas podiam atirar apenas nos pneus, sem apelar pra explosão que nem combina com o filme. Entendo por que deixaram isso — tem um efeito catártico pro público feminino, cansado de ver e ouvir grosserias de homens que só estão exercendo seu poder de “olha quem manda aqui”. Portanto, é bacana que as duas se vinguem do caminhoneiro em nome de tantas mulheres. Mas seria mais honesto se o homem em questão não fosse tão exageradamente imbecil. Se a gente só ouvisse idiotices de caras com QI negativo, até que nossa vida não seria tão difícil. Por isso, acho que boa parte das cenas com o caminhoneiro falham.
Embora o filme esteja longe de ser perfeito, ele ainda é dos poucos hollywoodianos que segue uma agenda feminista. Só por esse motivo já mereceria destaque. Mas ele também é bom pacas.