segunda-feira, 25 de abril de 2011

NA SOCIEDADE DO CADA UM POR SI E NINGUÉM PELA TRAVESTI

A transgênero Chrissy em entrevista dias depois do ataque

É o assunto do momento: o vídeo de uma transgênero que foi atacada por duas moças (uma de apenas 14 anos; outra de 18) num McDonald's em Baltimore, no estado americano de Maryland. As imagens, feitas através do celular de um dos funcionários (que foi demitido pela empresa) na segunda passada, são realmente perturbadoras. (Atenção: o título acima é mais pra rimar mesmo. A palavra transgênero engloba transexuais e travestis. Aparentemente, a transgênero agredida era transexual. Saiba a diferença. E, antes de eu continuar, sim, é revoltante que as agressoras sejam mulheres e negras. Mas infelizmente só ser parte de minorias não faz ninguém menos preconceituoso).
Só um gerente tentou afastar as garotas que esmurravam e chutavam a transexual. Os outros funcionários apenas assistiram à cena (dá pra ouvir algumas risadas), sem fazer nada. Mais pra frente no vídeo uma senhora interfere, impedindo que o ataque continue. Só quando a trans tem (ou finge ter, de acordo com o rapaz que filmou o vídeo) uma convulsão é que as moças são postas pra fora da lanchonete –- e isso para que não sejam presas pela polícia, que estava a caminho. O rapaz que fez o vídeo depois justificou no Facebook, “Aquela não era uma mulher que estava sendo espancada. Era um homem, vestido de mulher”. Também foi dito que a trans era prostituta, então tudo bem (lembra dos filhinhos de papai no Rio que espancaram uma empregada doméstica num ponto de ônibus e mais tarde disseram que pensavam que era uma prostituta? Ou os riquinhos de Brasília que queimaram um índio achando que ele era um mendigo? Igual).
Parece que o que originou o ataque das duas jovens foi que a transexual (igualmente jovem, de 22 anos) usou o banheiro feminino, o que rendeu uma discussão verbal. Algo banal assim.
Quer dizer, banal pra qualquer pessoa de bom senso. Pelo jeito, pra muitos héteros, a principal preocupação com transexuais e travestis é “Oh meu deus, que banheiro ele [porque, pra um hétero, se alguém nasceu homem, nunca deixa de ser homem] vai usar?!”. Eu lembro de um período em que vivi nos EUA e, sei lá por que cargas d'água, só se falava nisso. E eu pensava, pô, até parece que banheiro público é realmente público. Eu tenho um vaso sanitário e uma porta só pra mim, e não dou a mínima se a pessoa ao meu lado nasceu mulher, virou mulher, vai virar mulher, ou apenas se veste como mulher. Isso não interfere em nada na minha vida. Não interfere nem na minha ida ao banheiro.
É claro que atacar uma transgênero constitui crime de ódio. Ela foi atacada apenas por ser trans. Crimes de ódio contra transexuais e travestis são muito comuns. Fiquei chocada outro dia ao ver no Conexão Repórter (sobre homofobia) como as travestis são rotineiramente ameaçadas. Ano passado 110 delas foram mortas enquanto se prostituíam. É no contato com o cliente que são esfaqueadas, atropeladas ou alvejadas por tiros. Diz a reportagem: “Constatamos que não há travesti que não tenha relatos de violência motivados pelo preconceito”. E não é preciso nem dizer que pra essa gente não existe proteção policial. Pelo contrário, aliás.
Não sei ao certo se a indiferença dos clientes e funcionários do McDonald's (teria sido diferente em outra loja?) diante do ocorrido tenha sido apenas pela vítima ser transexual. Pra ser franca, numa única (e espero que última) vez na vida me meti numa briga física. Eu tinha 14 ou 15 anos e estava num fliperama em Búzios. Uma mulher, adulta, que tinha sido empregada na casa dos meus pais, e demitida por um suposto furto, já entrou no fliperama me batendo. Seguiu-se uma briga feia, com nós duas rolando no chão e uma arrancando o cabelo da outra e se arranhando. Demorou uma eternidade até que alguém nos apartasse. Naquela época (antes da metade dos anos 80) não havia celular, e muito menos celular com câmera. Se houvesse, nossa briga estaria no YouTube em questão de minutos. Colocada lá por alguém que preferisse filmar do que encerrar a briga.
Então não acho que seja de hoje que as pessoas ficam insensíveis e distantes diante da tragédia alheia. Eu já fui assaltada à plena luz do dia por um grupo de trombadinhas na saída de um metrô em SP. Todo mundo passava, olhava, e ninguém se intrometia. As pessoas acham que aquilo não têm nada a ver com elas. É o mesmo princípio do velho (e altamente danoso) “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” que a gente conhece tão bem.
No entanto, se alguém é agredido dentro de um estabelecimento comercial, esse estabelecimento -– no caso, o McDonald's -– tem responsabilidade pela segurança de seus clientes. Imagino, inclusive pelo relato do rapaz que filmou a cena, que se fosse uma outra mulher sendo atacada, e não uma transexual, os funcionários teriam interferido. E se você fosse um(a) cliente lá, o que teria feito? No mínimo o óbvio, certo? Que é chamar a polícia imediatamente. (Agora lembrei da moça que foi mantida em cativeiro durante anos na Áustria. Quando ela conseguiu fugir e pediu ajuda, as pessoas se negaram a fazer uma mera ligação pra polícia).
Ano passado falei de uma experiência feita num programa de TV americano chamado What Would You Do? (O Que Você Faria?). Uma mulher com marcas de violência doméstica entrava num restaurante, e logo depois vinha um homem, que passava a ameaçá-la e humilhá-la. Não fez grande diferença a atriz ser branca ou negra -– em ambos os casos clientes tentaram defender a vítima. Mas a história foi completamente diferente dependendo da roupa que a atriz vestia. Se ela usava roupas mais “ousadas”, @s clientes a sua volta pensavam que ela era prostituta e o agresssor, um gigolô. E não se metiam. Apenas pela roupa que a mulher estava vestindo, já faziam todo um julgamento de valor a respeito dela. E decidiam se ela era ou não digna de ajuda e compaixão.
Pelo jeito, funcionários e clientes fizeram esse mesmo julgamento no McDonald's em Baltimore, na semana passada. E chegaram à conclusão que transgêneros não merecem piedade.

domingo, 24 de abril de 2011

FELIZ PÁSCOA, DE NOVO

Quinta à noite tive uma enorme surpresa. Fui convidada pra jantar na casa da Hilma e do Igor, dois físicos e professores da UFC que conheci durante a minha posse, faz um ano. Hilma tomou posse na mesma cerimônia que eu, e de vez em quando nos cruzamos nos eventos de estágio probatório. Com o Igor eu costumo falar mais via Twitter. Enfim, os dois são muito queridos e acompanham o blog, e já vínhamos querendo nos encontrar faz tempo, mas nunca dá, porque professor universitário não tem fim de semana livre. Aproveitamos o feriado prolongado e marcamos pra quinta à noite. Chegando lá, uma das primeiras coisas que vemos é uma linda cesta cheia de barras de chocolate. Presente de quem? Da minha leitora fiel Aiaiai! A Ai eu conheci alguns meses atrás, quando ela esteve de passagem por Fortaleza e aproveitou pra me visitar. Agora eu, o maridão, a Hilma e o Igor sabemos o nome da lindona por trás do pseudônimo! Bom, a Ai, muito ardilosa, viu que o Igor é daqui e encomendou a compra da cesta com ele. E os chocolates chegaram até mim e estão devidamente sendo devorados. Muitíssimo obrigada, gente! Vocês são uns amores (só não estou saltitante de felicidade na foto porque ela foi tirada à uma da manhã).
(Isso eu escrevi antes de quinta:) Eu sou adepta das barras de chocolate. Ovos de páscoa não entram aqui faz tempo, pois estão caros demais. Vi no supermercado um dia desses que um ovo que eu costumava ganhar do meu pai, de uma marca conhecida, com meio quilo, custa 50 reais. É ridículo. Uma barra de chocolate de 170 gramas ainda pode ser encontrada por quatro reais ou menos. Ou seja, a mesma quantidade de chocolate do ovo ficaria por no máximo R$ 12, se é que eu sei fazer contas de cabeça. Então por que pagar quatro vezes mais? Certo, a embalagem é bonita (embora ecologicamente incorreta ― pense quanto papel e plástico foi usado pra embrulhar aquele ovinho, e quanto tempo o material levará para se decompor). A consistência do ovo talvez seja um pouco mais gostosa (ou talvez seja psicológico). E ele é redondo, ou melhor, oval. Mas nada disso justifica pagar um preço tão abusivo.
Eu sempre fico na dúvida se o preço dos ovos aumentou tanto nas últimas décadas ou se minha família que era rica nos anos 80. Sim, porque meu amado pai (ironicamente morto de ataque cardíaco bem no domingo de páscoa, dezoito anos atrás) dava três ovos desses de 500 gramas cada ― a gente comemorava uma semana inteira de páscoa ― pra mim e pros meus dois irmãos. Imagina só, ele gastava R$ 450 num feriado? Não pode ser, não pode ser.
Ok, este post tá tão atrasado que a esta altura todo mundo já comemorou a páscoa. Mas aceite meus desejo
s de feliz páscoa, com muito chocolate. Só posso agradecer pelo carinho das pessoas e leitor@s que importam: vocês me fazem ter vontade de tocar o blog. Já os trolls... Ao lado tem um coelhinho pra eles. Tradução: "Vá embora e morra agora".

sábado, 23 de abril de 2011

MEU PAVÊ DE PÁSCOA

Feliz páscoa, gente! Pra mim a páscoa começa na quinta e vai até domingo, no mínimo, ou até quando durar o chocolate. Desta vez espero que vá longe. Eu fiz um belo pavê anteontem, como você pode ver nas fotos. Já é o terceiro que faço desde que eu e o maridão, dengosos, estivemos no hospital pra fazer um dos cinquenta exames de sangue, e o maridão disse que sentia saudades de comer pavê (lógico que ele também disse que não podia mais comer pavê, que comia quando era criança, que a irmã mais velha fazia pra ele, e todo esse tipo de chororô que o maridão desfere contra meus pobres ouvidos). Eu sabia que ia ter que esperar um pouco até que meu fígado se recuperasse. Mas pavê é muito bom, fácil e barato de fazer (deve custar uns dez reais no total). Não me conformo porque outro dia vi uma receita num jornal, e ela mencionava raspas de limão, ovos, bater claras em neve e sei lá que outra frescura. Qualquer receita que inclua separar gema da clara, e aí ainda por cima bater as claras, é um martírio pra mim (e aquelas que dizem pra gente usar apenas as claras? Fico revoltada!). Então não, o meu pavê é a coisa mais simples do mundo. Vai uns dois pacotes de biscoito maisena (sei que o tradicional é com biscoito champanhe, mas a gente não encontrou no supermercado, e biscoito maisena é muito mais barato. E, por incrível que pareça, biscoito maisena de chocolate é mais barato que o de maisena comum, o que me faz evitar pensar no tipo de chocolate que colocam no tal biscoito, e não venha me dizer que maisena é com z, porque o meu computador, que não corrige absolutamente nada, corrigiu o z pelo s automaticamente, e eu procurei no Santo Google e só o da marca registrada é com z, o que obviamente não é o caso do biscoito hiper baratinho que a gente compra. A foto aí é do pavê visto de baixo). Ahn, voltando: além do biscoito, vai uma lata de leite condensado, uns 400 ml de creme de leite, e dois chocolates meio amargos. Pronto. Acabou. Ok, também um pouco de leite pra molhar os biscoitos antes de colocá-los na forma, em camadas. Mas acho leite condensado doce demais, e por isso decidi misturar duas colheres de café em pó dentro da latinha. Quebra um pouco o sabor enjoativo que só você, brasileir@-formigão, aprecia, e fica muito mais gostoso. Nos primeiros dois pavês eu ainda tinha um pouquinho de baunilha, mas acabou e este ficou sem, e lamento dizer que eu não conseguiria distinguir um pavê com e sem algumas gotinhas de baunilha. Eu gostaria de ter algum tipo de licor pra misturar no chocolate, mas o maridão tem ignorado este meu pedido. Bom, depois de derreter o chocolate em banho maria e misturar o creme de leite (se eu fosse uma ditadora interplanetária, creme de leite e chocolate amargo seriam a base para 95% das receitas de sobremesa no mundo; os 5% restantes poderiam ser divididos entre quindins, tortas de morango, pudins de leite, e Patricia, te dedico, receitas com limão siciliano, porque eu sou assim, democrática, e deixo espaço até para aquel@s que não têm o meu bom gosto), é só ir molhando os biscoitos no leite, formando camadas, e intercalando essas camadas com o leite condensado (com café) e o creme de leite com chocolate amargo. Dá umas vinte porções generosas. Serve uma pessoa.
Infelizmente, o pavê já está chegando a sua reta final, mas graças a uma surpresa que recebi também na quinta (adianto com uma foto), e da qual falarei amanhã, minha páscoa terá muito chocolate. Estou negociando hora extra com meu fígado.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

ÍNDIOS DE VERDADE NO CINEMA

Vi um documentário muito bonito esses dias: Reel Injun, que faz trocadilho entre as palavras reel (bobina de filme) e real. Já Injun é como Indian é pronunciado por cowboys não muito espertos. Ou seja, Índio de Filme. O doc explica como o índio foi retratado por Hollywood, desde o começo do cinema até hoje. Fiquei com a impressão que eles receberam um tratamento um tiquinho mais digno que negros, gays, mulheres e muçulmanos. Tem aquilo que qualquer pessoa de bom senso já desconfiava ― que John Wayne e a ideologia por trás dele prestaram um enorme desserviço aos Native Americans. Mas há uma discussão boa sobre Dança com Lobos (filme que eu particularmente adoro). Certo, o protagonista é um homem branco. Mas os índios saem bem na fita. E o épico que deu o Oscar a Kevin Costner ressuscitou um gênero que foi praticamente extinto nos anos 80. Hoje, afirma o doc, esse nicho do cinema passa por uma Renascença Índia, com várias produções feitas por índios de verdade, e não mais por caras-pálidas falando por eles. Dê uma olhada no trailer (sem legendas) e me conte: você tem alguma impressão dos Native Americans (melhor nem falar dos nossos índios) que não seja uma visão passada pela sétima arte? Porque eu não tenho. E aí me lembro do comecinho de South Park, o filme, em que os meninos vão ao cinema ver uma produção canadense que repete aquela musiquinha que nunca mais vai sair da sua cabeça. E, no caminho, eles cantam: "Vamos ao cinema aprender tudo o que sabemos / porque os filmes vão competar a nossa vida". Eu me sinto assim.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

FÊMEAS SENTEM-SE ATRAÍDAS POR MACHOS SUPERIORES

Ontem meu humilde bloguinho chegou à marca dos 50 mil comentários, o que me deixa muito feliz. A maior parte deles é inteligente, mas tem os neandertais de sempre. Um leitor, o Viktor, que nunca mais apareceu (e não deixou saudades), está incluso nesta segunda categoria.
Quem é Viktor? Longa história. Ano passado escrevi um texto criticando a posição de um psicólogo evolucionista. Ele dizia que as feministas fazem as mulheres infelizes por insistirem em deturpar a ordem natural das coisas, que é, simplesmente, que mulheres sempre procuram homens poderosos, mas isso não significa que os homens tenham poder. Quem tem poder é a mulher, que, graças a seus atributos físicos, consegue manipular o homem poderoso a fazer tudo que ela quer. Enfim, aquela ladainha que ouvimos sempre, e que ainda por cima é vista como ciência (e, não por acaso, a ciência mais divulgada pelos meios de comunicação desde a década de 80, que, por outra mera coincidência, foi quando o backlash, a reação conservadora ao feminismo, veio com tudo). Pois bem, no meio dos muitos comentários a esse post apareceu uma figura exótica, um tal de Viktor, que já apareceu dizendo que nós, feministas, não poderíamos nunca nos sentir sexualmente atraídas por nossos companheiros, já que, por sermos feministas e, consequentemente, anti-naturais, procuramos homens iguais a nós,o superiores. Mas o nosso desejo ainda age no nosso inconsciente, segundo ele, e como nós mulheres só nos sentimos atraídas por machos superiores, adeus sexo. Algo assim. Este é um breve resumo, porque Viktor deixou montes de comentários naquele texto. Dei destaque pra um deles em outro post sobre comentários cretinos. E aí ele escreveu mais besteira ainda – toda na linha “Quem gosta de sexo é gay, mulher gosta é de dinheiro” (se tiver tempo, leia os comentários). Na ocasião, a Ana Flávia já resumiu o alcance desse tipo de pensamento limitado: “O casamento é o sacrificio do homem pelo sexo, e o sexo é o sacrificio da mulher pelo casamento". O chato é que um monte de gente acredita nessa asneira, de psicólogos evolucionistas a mascus.

Viktor escreveu naquele post: “Se a mulher for visualmente atraente para o homem, não importa se ela é analfabeta, desempregada, extremamente acanhada, o homem vai querer transar com ela. Se ela não for visualmente atraente, ela pode ser a mulher mais bem sucedida do mundo, como a Oprah, que os homens estão se lixando do ponto de vista sexual.
Impressionante. Viktor fala de atração sexual como se houvesse um padrão único, e como se isso fosse acessado apenas pelo aspecto visual. Não somos animais complexos, com vários sentidos, como olfato, tato e audição. Não, somos apenas visuais. Quer dizer, os homens são. Como bem respondeu uma leitora, “Para o Viktor, um homem cego é um homem castrado”. Touché. E a pobre Oprah provavelmente não consegue pegar ninguém.
Fico muito incomodada com essa história de que homens fazem sexo pelo sexo e, portanto, gostam de sexo muito mais que as mulheres, e de que homem está sempre pronto pra transar. Por favor, levante a mão a mulher que gosta mais de sexo que o companheiro. Ótimo. Agora levante a mão a mulher que afugenta homens por gostar mais de sexo que eles e por dizer que só quer sexo, sem envolvimento emocional. Parece que só homem pode dizer isso. Experimente dizer isso pra um homem e observe o terror nos seus olhos (eu passei por isso durante toda a minha adolescência). Mulher gosta de sexo – não é que nós apenas o toleramos. Homens e mulheres se casam por um monte de motivos, e sexo é apenas um deles. Além do mais, casais com mais anos de casados costumam transar bem menos com o correr do tempo. Casais com filhos, então, nem se fala. Isso só pode ser culpa da mulher, lógico. O homem continua prontíssimo pra transar, mas a mulher, depois de conseguir o que quer (uma aliança no dedo e um marido para sustentá-la), passa a regular sexo. Certo. Por que um homem nunca pode estar cansado, né?
Mas o pior mesmo é essa história de que homens não querem casar, de que só mulheres querem casar. É uma das mentiras mais descaradas. Primeiro que ninguém tá arrastando um cara pro altar. Os héteros se casam porque podem (o que é negado aos gays, num claro desrespeito à qualquer constituição) e porque têm vontade de ficar junto, de construir uma vida juntos. Isso inclui mulheres e homens, sabe? Homem também quer ter filhos, quer alguém pra conversar, pra dar e receber carinho e, lógico, pra transar. Sinceramente? Não parece tão diferente do que as mulheres querem. A menos que a gente acredite no que a mídia nos dita – que homem é um ser em estado pré-evolutivo ainda plenamente comandado pelo seu pinto e que, se pudesse, passaria o dia bebendo cerveja com os amigos (não amigas – mulher é só pra transar). Ou que homem é um pateta a la Homer Simpson (e mesmo o Homer é apaixonadíssimo pela esposa).
Por incrível que pareça, estudos mostram que um casamento saudável (sem violência doméstica, entre outras pragas) é bom pro homem. Homens casados costumam ser mais felizes que os solteiros. E vivem mais! Ironicamente, essa equação não se repete pra mulher casada. Mulheres casadas não vivem mais que as solteiras (mas vivem mais que homens em geral), nem são mais felizes. Então, vamos pensar: quem é mais favorecido pelo casamento?
E o negócio de garantia de sexo (casamento não é bem garantia de nada), se for verdade, vale tanto pro homem quanto pra mulher. Eu acho ótimo ter um maridão quase sempre disposto a transar comigo. Porque aí esbarramos num outro clichê: de que mulher solteira pode ter sexo o tempo todo, se quiser. Não é bem assim. “Arranjar” sexo pra quem não tem alguém exige um mínimo de esforço (sair, colocar-se em evidência, e sei lá mais o quê, porque ando completamente fora de forma nesse quesito e, hum, em outros também).
Como o homem, a mulher também precisa sentir-se atraída. E a oferta não costuma ser tão fantástica. Pode acreditar que, assim como não falta homem pra Gisele, não falta mulher pro Gianecchini. Mas isso, segundo o Viktor, é porque o Giane é rico e famoso, não porque é bonito. Ahn, a Gisele também é rica e famosa. E imagino que, beeem antes de serem ricos e famosos, não devia faltar parceiro sexual pra nenhum dos dois.
Esse discursinho altamente preconceituoso e elistista de que mulher só se sente atraída por homens superiores dá a entender que homens com pouca instrução, poucos dentes, pouca beleza convencional, e nenhum dinheiro, não se casam. Hello? A maior parte da população mundial é pobre. E a maior parte é casada. Na maior parte das vezes, pessoas se casam com gente do seu próprio meio social. Sei que é um choque, mas homens pobres também fazem sexo!
No entanto, Viktor diz que mulheres só procuram “homens especiais”. Putz, todo mundo, homem e mulher, quer alguém especial. Duvido muito que alguém pense: “Quero me envolver com a pessoa mais comum do mundo”. Se a pessoa é ou não especial, não importa: pra quem a escolhe, fica sendo. Muitas mulheres talvez não achem meu maridão um lindo tesudo (espero que não mesmo, suas assanhadas!), mas eu acho. E continuo muito atraída sexualmente por ele, mesmo após vinte anos juntos, mesmo eu sendo feminista e agora tendo mais estudo e ganhando mais que ele (e pesando mais -- isso conta?). Ele não se tornou inferior ou menos especial por causa disso.
Viktor fica indo de um espectro ao outro, dependendo do que lhe convem. Primeiro, ele fala de noitadas, de sexo pelo sexo. Depois, fala de relacionamentos mais sérios, casamentos. Pra ele, toda mulher é hipergâmica, ou seja, procura um macho superior. Se o macho não for superior em algum sentido, não sentiremos atração sexual por ele. Essa é a psicologia evolucionista que eu odeio. Por que procuramos um macho superior? Ah, porque somos guiadas pelo nosso instinto de escolher um parceiro com os melhores genes pro nosso bebê. Tudo em nome do bebê! Se você passa a vida toda dizendo que não quer filhos e nem vai tê-los (meu caso), ou você é uma mentirosa, ou está fugindo da sua natureza. Aí o Viktor diz que até pra transas eventuais, sexo pelo sexo, sem envolvimento (coisa que mulheres não fazem, já que gostam de sexo muito menos que os homens), as mulheres são hipergâmicas e guiadas pelo instinto de receber o esperma de melhor qualidade.
Viktor diz à certa altura: “O homem comum, mediano em tudo, não tem lugar nas fantasias femininas, e quando as feministas dizem estar buscando um homem igual a elas para relacionamento, considerando que a maioria das mulheres também são medianas em tudo (em beleza, em condição financeira, e status, etc.), vemos que elas mentem, ainda que inconscientemente, pois no fundo elas estarão buscando homens que sejam superiores no máximo de atributos que elas puderem exigir. Isso do ponto de vista de ATRAÇÃO SEXUAL, que fique bem claro. Do ponto de vista emocional, um homem mediano em tudo poderá satisfazer a mulher, e até ponto de vista sexual, mas não será por meio daquela atração fatal que a mulher sentirá diante de homens superiores, mas sim pela capacidade de despertar emoções na mulher, seja levando-a para fazer sexo em lugares proibidos, seja em uma viagem exótica, seja fazendo outras loucuras, pois o sexo pelo sexo, sexo rotineiro, será enfadonho para a mulher. É neste ponto que eu digo que o desejo sexual da mulher está atrelada a fatores de ordem emocional.
Ah, senti uma mudança de rumo. Antes um homem mediano não poderia satisfazer a mulher do ponto de vista sexual, agora “até pode”? Mas não será a mesma atração "fatal" sexual que uma mulher sentiria se visse o Brad Pitt, é isso? Mas pra homem é tudo a mesma coisa, seja transar com sua esposa, seja transar com a Angelina Jolie! Aí Viktor fala de levar a mulher para fazer sexo em lugares exóticos ou proibidos (mulher não pode ir sozinha ou levar o homem!). Imagino que isso seja pra relacionamentos longos, certo? Tipo casamento? Porque numa noitada é raro ir pro Havaí transar. E sexo no casamento, com o mesmo parceiro durante décadas, só é enfadonho pra mulher! Pro homem, tudo bem, que vagina é vagina. E se a gente for casada com o Brad Pitt durante trinta anos, o sexo nunca ficará rotineiro! Porque, né? O Brad é um macho superior! Ele tem uns genes e tanto! Não, confessem, fêmeas: quando vocês olham pro Brad Pitt, a primeira coisa que vem à mente é: “Hmmmm.... Que genes!...”. Não adianta mentir!