terça-feira, 25 de maio de 2010

PROGRAMA TESTA EMPATIA COM MULHERES QUE APANHAM

Vi a parte um e dois do que parece ser um programa interessantíssimo da TV americana, o What Would You Do? Nesse programa, atores representam situações conflitantes, e uma câmera registra a reação das pessoas em volta. Por exemplo, um episódio mostra um vendedor numa loja dando o troco errado a um homem cego; ou alguém roubando uma bicicleta num parque. Desta vez, o programa enfocou uma mulher (com marcas visíveis de espancamento) entrando num restaurante. Pouco depois, aparece seu namorado, que passa a gritar com ela e ameaçá-la.
O programa, que deixa claro que apanhar do parceiro é uma tragédia que ocorre com 25% das mulheres, usa um casal de atores brancos e negros para ver se há mudança na reação das pessoas. Não: em ambos os casos, alguns “espectadores” intervém. No primeiro caso (do casal branco), um homem se levanta e vai falar com a mulher com marcas no rosto assim que ela entra no restaurante. Depois, tenta conversar com o namorado. No segundo caso (do casal negro), duas moças tentam ajudar a mulher, e é um momento ultra comovente (eu chorei horrores) quando uma delas, tomada pela emoção, passa a chorar. Nos dois casos, as pessoas interferem, ajudam a vítima, condenam a situação. Bem diferente do que o mesmo programa, alguns anos atrás, havia registrado: um homem ameaça bater numa mulher num espaço livre (parque ou praça), e um grupo de homens o impede ― mas pelos motivos errados. Eles argumentam que ali não é o lugar ou a hora de fazer isso. Quer dizer, bater na sua mulher tudo bem, desde que seja na intimidade do seu lar. Aí não é da nossa conta.
Então este programa mais recente nos enche de esperança, certo? Hmm... Mais ou menos. Quando o programa decide vestir as mesmas atrizes com roupas mais “provocantes” (vestido curto e decote), a reação das pessoas próximas é totalmente diferente. Ninguém se mete. Um homem diz apenas que o casal está envergonhando a si mesmo e aos outros por agir assim, escandalosamente. Duas senhoras insinuam que a vítima é provavelmente uma prostituta e seu parceiro, um gigolô, e preferem mudar de mesa a interferir. Tudo por causa das roupas! Triste, triste.
Claro que tudo isso não tem nada de científico. É provável que um estudo estatístico chegasse a conclusões bem contrastantes, mas o programa entrevista uma socióloga que aponta que é isso mesmo, infelizmente: dependendo de como a mulher está vestida, ela terá um ou outro valor. E, se o valor for baixo, poucos sentirão empatia por ela. Prostitutas praticamente merecem ser espancadas ou estupradas, diz o senso comum. São os ossos do ofício. Lembra quando o grupo de pitboys playboyzinhos bateu numa empregada num ponto de ônibus, e depois se defendeu dizendo que pensava tratar-se de uma prostituta? Pois é.
Seria ótimo se uma emissora brasileira pudesse mostrar algo parecido para testar nossos limites éticos. Creio que um programa assim tem algo de educativo, apesar da manipulação (é feito pra chorar ou pra chocar) e do sensacionalismo. Se mais pessoas aprenderem que não vivemos isoladas no nosso mundinho particular, que seu vizinho não tem o direito de bater na mulher ou nos filhos dele só porque está no aconchego de seu lar (porque este não é um assunto privado; pelo contrário, algo que acomete 25% da metade da população deve ser considerado uma epidemia), poderíamos sonhar com um lugar mais humano. Em que humano fosse realmente um adjetivo positivo.

21 comentários:

cronicasurbanas disse...

É mesmo um programa muito interessante da ABC. Pra quem tem NET, ele passa no GNT há algum tempo, só não me lembro do dia e horário exatos.
Mônica

Luciane disse...

Oi Lola! Olha só, há alguns anos atrás eu e meu ex-marido estávamos voltando da faculdade numa van, discutindo baixinho por causa de ciúme absurdo dele. A violência psicológica já existia a ponto de eu não poder sequer cumprimentar um amigo sem que ele ficasse incomodado. Bem, naquela noite ele teve uma dessas crises absurdas e num dado momento começou a me bater dentro da van que estava lotada. Eu pedi ajuda e um colega até se levantou, mas preferiu não interferir. . .e eu continuei ali, apanhando no último banco enquanto as pessoas preferiam não tomar conhecimento da "briga de casal". Só depois de alguns socos o motorista percebeu o que estava acontecendo, parou a van no meio da rua e desceu para me socorrer. Talvez mais do que os socos e pontapés que levei foi o fato de que as pessoas que ali estavam simplesmente se recusaram a me ajudar. . .e olha que eram pessoas conhecidas, hein?? O discurso é fácil, todo mundo afirma que ajudaria uma vítima da violência, mas ainda duvido que alguém realmente tenha coragem de reagir. Um abraço!!

Lord Anderson disse...

Sensacionalista ou não, esse programa prestou um serviço importante.

Infelizmente eu acho que aconteceria o mesmo aqui no Brasil.

"Em briga de marido e mulher ninguem mete a colher","cada um cuida dos seus problemas" "ela tá com ele pq gosta",etc

Todos esses ditados mostram bem como a questão da violência é encarada por grande parte das pessoas.

Sobre a questão de alguns verem isso como assunto "particular", se vc fosse p/ fazer fofoca, falar da infedelidade da esposa, de problemas financeiros, do filho homosexual, etc, garanto que esses mesmo não iam se preocupar com a intimidade do fato.

Hipocrisia.

Giovanni Gouveia disse...

O Programa "Legendários", da Record, fez algo parecido recentemente.
Foi testar o racismo, aí combinou com 4 atores (e com a direção de um shopping paulistano), um dos quais negros, para passarem ao mesmo tempo com uma mercadoria com o detector nela.
Advinha quem foi abordado?

Noutro programa vestiram uma atriz, que na verdade tinha 20 anos, como uma menininha de 14 ou 15 anos, e colocaram-na num espaço público "namorando" com um homem.
Quando era um rapaz de seus vinte e poucos anos quase ninguém se importou, mas quando colocaram um velho com ela deu confusão...

rayssa gon disse...

cara, gostei muito do post. muito claro e informativo. parabens. :)

Bruno Stern disse...

Outro dia fui num casamento e escutei o padre, metido a moderno e liberal, soltar a famosa frase.

"Em briga de marido e mulher ninguem mete a colher"

Tive que completar para os que estavam próximos "a DEAM* deve se meter sim".

*Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (DEAM).

Marilia disse...

O CQC faz matérias parecidas de vez em quando. É sempre muito interessante. Belo post.

Lolla, uma professora reprimiu uma colega esses dias por ela estar usando um short curto (mas não indecente) em sala de aula. Disse que não é adequado para uma universitária. Me senti mal com isso...o que acha?

Roberta disse...

Se mais pessoas aprenderem que não vivemos isoladas no nosso mundinho particular, que seu vizinho não tem o direito de bater na mulher ou nos filhos dele só porque está no aconchego de seu lar (porque este não é um assunto privado; pelo contrário, algo que acomete 25% da metade da população deve ser considerado uma epidemia), poderíamos sonhar com um lugar mais humano. Em que humano fosse realmente um adjetivo positivo.(2)



Seu texto foi LINDO Lola!

Luci disse...

isso eh mesmo uma tragedia, lola.

ontem estavamos eu e meus amigos almocando quando alguem comecou a falar sobre violencia domestica. eu moro na franca, mas meu frances nao pôde captar exatamente o que eles estavam falando, mas entendi quando uma menina disse que teria mais medo de apanhar de uma mulher que apanhar de um homem (?). aih o namorado dela disse que achava normal isso porque homens tem mais controle do que mulheres quando decidem bater alguem. hehehehe pois eh! nao sei de onde ele tirou isso, mas nao lembro de nenhuma estatistica, por exemplo, que mostra que os homens sofrem maior violencia pelas mulheres. mas cada um pensa o que quer, neh? :)

beijos!

luci - www.casomeesquecam.blogspot.com

Mari Moscou disse...

Isto me lembre bastante aquela jornalista que publicou no The Guardiam uma análise de uma pesquisa no reino unido sobre estupro. A repotagem traduzida está o meu blog: http://www.mulheralternativa.net/2010/02/culpem-o-estuprador-nao-vitima-traducao.html

Em suma, o que o estudo apontava era que as pessoas tendem a ter mais empatia pelo ESTUPRADOR do que pela vítima. :P

Carol disse...

Esse programa é mesmo muito bom. E até que eles seguem alguma coisa de método científico sim.

Faz a gente pensar. No fundo no fundo, acho que também muita gente não interfere por medo: e se o cara começa a bater na pessoa que ajuda?

Enfim... é complicado.

Loy disse...

Seria mesmo ótimo se uma emissora brasileira pudesse mostrar algo parecido para testar nossos limites éticos.

Lola, um dia eu me meti em uma briga, mas eu não fui corajosa o suficiente. O namorado passou aqui em frente a minha casa empurrando a namorada - que, a proposito, era uma amiga de infancia com quem eu perdi contato - e ninguém fazia nada, então eu me meti. Eu gritei, mandei ele parar, falei que ia chamar a policia, mas eu nao a tirei de perto, não cheguei perto deles e no fim eles entrataram na casa dela, não sei o que houve depois. Senti-me tão ridícula, por não enfrentar o cara, por não fazer mais do que um cachorro pequeno faria, latindo para o cachorro grande a uma quadra de distância. Uns dias depois, encontrei com ela, e pedi desculpas pra ela, disse que não sei se fiz bem intervir, ou se deveria ter feito mais. Ela agradeceu, disse que tinha feito um BO, e eu disse que ela podia me chamar pra testemunhar quando quisesse. Sabe o que aconteceu? Dois meses depois, eles passaram juntos de novo aqui em frente de casa. De mãos dadas. E aí? Será que se eu tivesse sido mais corajosa e me arriscado a lhe dar uns bofetões, teria tido esse desfecho a história? Ou teria terminado do mesmo jeito, com o diferencial que talvez eu também tivesse apanhado dele?

Laurinha (Mulher modernex) disse...

Uma vez eu me meti em uma confusão muito grande, que nem gosto de lembrar...
Um conhecido meu, mentiu pra mim que estava solteiro e eu, pensando se tratar de uma pessoa legal, saí com ele. Só que o cara mentiu pra mim, ele não tinha terminado com a menina e ela acabou aparecendo onde a gente estava e os dois começaram a brigar feio. Quando dei por mim, ele já estava espancando a garota, foi uma cena horrível. Eu fiquei uns segundos paralisada, quando ia entrar no meio, um colega dele apareceu e com muito custo conseguiu imobilizar o cara e levar ele pra fora. A menina saiu gritando que a culpa era toda minha e foi embora... Uns meses depois ela ainda estava com ele, mas quando me vê na rua vira a cara e ainda fala mal de mim pra todo mundo... Tem coisas que a gente realmente não consegue compreender. Era normal que ela ficasse com raiva de mim, mas e o cara, o que fez essa menina achar perdão pro que ele fez e continuar com ele?...
Não consigo entender. Li o post e acabei lembrando dessa história que realmente me deixa muito mal...

Abraços Lola

Vivien Morgato : disse...

Lembrei na hora dos pity boys..o argumento do pai energúmeno era esse, realmente, deplorável.
Quando eu era adolescente e fazia teatro amador ( humpf!) a gente gostava de criar cenas assim: brigas em públicos, desmaios e outras coisas...pra ver a reação.
Várias vezes eu fui a "outra" na cena e sempre tomava ( e dava, claro..rs) uns tabefes da "oficial", sem que ninguém interferisse.
Em uma dessas "obras primas"...o "ator" tomado por Stanislawiski...QUEBROU O BRAÇO da "namorada oficial"...sem que ninguém, NINGUEEEEEEMMMM...fizesse nada.

bianca disse...

Lola, no CQC tem Teste do Cidadão, ou algo do tipo.
O que eu assisti era o motorista de transporte escolar, ator, que parava no bar, ficava bêbado e ia dirigir. Ninguém se incomodou com o fato. Foi preciso colocar crianças dentro do carro, gritando pela janela, pra que alguém reagisse.
Eles já fizeram o do cego também.
Beijos

Glória Maria Vieira disse...

Muitas vezes as pessoas são movidas pelo egoísmo. TIPO: Não é comigo, então pode descer o cacete, ou a esculhambação primeiro pra depois vir os tapas 'de amor'.
E outras vezes pela capa/aparência:
Ah, ela está com os seios muito expostos? Só pode ser quenga! Desce o cacete, porque 'prostituta' não é 'gente' e não tem direito algum de reclamar já que é a 'recompensa' por ser o que é.
Só pode ser esse o pensamento de quem apoia, ou fica inerte a uma situação como essa!
Enfim, lamentável!/:

GiGi disse...

Eu nunca me deparei com essa situação perto de mim. Por isso, fico tentando imaginar: eu interviria?

Se sim, correria riscos. E se o cara partisse pra cima de mim e ao invés da outra mulher o alvo agora fosse eu? Por isso mesmo, eu não interfiro.

Se perante a mesma cena eu estivesse com meu companheiro, eu falaria com ele para que pudéssemos ajudar a vítima, caso ninguém se pronunciasse.

GiGi disse...

Laurinha, mulher modernex:

Desencana, não fique mal. Aquela moça escolheu isso. Talvez, ela goste mesmo de apanhar, por que não? Aliás, gente assim também contribui para que a violência continue se espalhando por aí.
Tem doido pra tudo nesse mundo...

Hugo disse...

O quadro do CQC, referido por alguns aqui, chama-se 'Cidadão em Ação', se não me engano, e, de fato, já fez um teste com essa situação da agressão, passando, inclusive, por situações diferentes, como o pai agredindo o filho, e até mesmo a mulher agredindo o marido. Vale a pena ver, não só o quadro, como o programa, que é muito bom.

Alex Castro disse...

Oi Lola

Essa situação é complicada mesmo. Eu consigo ver uma solução a longo prazo, de tanto educar os homens para serem menos machistas, como educar mulheres para não aceitarem isso, mas o q se pode fazer na hora?

A mulher é independente e livre e pode fazer o que quiser. No final das contas, as mulheres ficam em relações abusivas pq querem - pq foram educadas para serem submissas, pq foram convencidas que não merecem ser melhor tratadas, etc, uma série de problemas culturais - mas pq querem.... Alias, essa é a maior tragedia.

Se é uma amiga ou pessoa conhecida, com certeza, eu vou tentar convence-la a sair dessa relação... mas como posso eu, um estranho, convencer uma mulher a largar o homem com quem ela decidiu/escolher viver e/ou namorar?

Se o cara quebrar a lei, por exemplo, bater nela ali na frente de todo mundo, ou se ela pedir ajuda, ou se ele quiser arrasta-la pra fora e ela disser nao (ou seja, se partir dela dizer NAO), aí eu iria interferir, dizer algo como "calma, colega, a moça disse que não quer ir com vc", etc.

De qq modo, eu sinto que eu só poderia interferir se a vitima deixasse claro que NAO quer estar ou ficar naquela situação.

Carlos Yuri disse...

Passa sábado de manhã, na GNT, lá pelas 10:00, 10:30