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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

GUEST POST: DIA DA VISIBILIDADE TRANS

Travestis e simpatizantes na Marcha da Abertura em Porto Alegre

Ontem foi Dia da Visibilidade Trans, da qual muita gente está falando hoje (porque domingo é meio que um dia de invisibilidade bloguística), através inclusive de uma blogagem coletiva. Por que é fundamental um Dia da Visibilidade Trans? Porque, sem querer entrar nas Olimpíadas da Opressão e ter que escolher o grupo mais estigmatizado e discriminado, sabemos que a sociedade é extremamente preconceituosa com travestis.
Na definição mais simplista, travestis são pessoas nascidas num corpo masculino que, através de hormônios e cirurgias plásticas, passa a ter características físicas de uma mulher, com exceção da vagina (e útero etc). Já transexuais são pessoas que fizeram ou estão pra fazer a mudança de sexo. Há várias confusões e discordâncias a respeito dessas definições.
Gente ignorante (no sentido de não saber nada do assunto) e preconceituosa costuma confundir tudo, identidade sexual (trans/mulher/homem etc) com orientação sexual (homossexual/bissexual/heterossexual etc). E uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Precisamos sair um pouco da caixinha e deixar de pensar em termos de gêneros binários (homem/mulher, geralmente nessa ordem). Claro que isso é mais fácil falar do que fazer. Mas um primeiro passo é respeitar quem é diferente (lembrando que, de uma forma ou de outra, tod@s somos diferentes). Não cabe a ninguém ser um guardião da "normalidade" e sair por aí decidindo a identidade sexual de uma pessoa. Se uma travesti adota um nome de mulher, respeite sua decisão. Chame-a pelo nome de mulher, ué. Se um transexual tem um nome masculino, chame-o pelo nome masculino. Chamar pelo nome que a pessoa escolheu é um primeiro passo até pra evitar termos pejorativos como traveco e afins. A identidade sexual é muito importante, mas não devemos ser restringidos por ela (por exemplo, eu sou mulher, mas não sou apenas uma mulher, e nem quero que todo o meu ser seja resumido a essa identidade).
Pedi a Luisa Helena Stern, mulher transexual e conhecida militante LGBTTT, para escrever sobre o Dia da Visibilidade Trans. Ela escreveu sobre o Dia Nacional da Visibilidade das Travestis, já que a comemoração, quando foi criada, oito anos atrás, referia-se apenas a travestis. Luisa explica que essa é a denominação oficial, e que incluir transexuais na mesma data comemorativa ainda depende de reuniões e encontros. Ela conta como a data foi celebrada no Fórum Social, em Porto Alegre.

O Dia Nacional de Visibilidade das Travestis é comemorado no dia 29 de janeiro, em referência ao lançamento da primeira campanha específica para esta comunidade, chamada “Travesti e Respeito”, feita pelo então Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde, em 2004.
A partir de então, a data se tornou uma referência nacional, e a cada ano se realizam dezenas de atividades pelo Brasil, sendo uma delas de repercussão nacional.
Neste ano de 2012, as atividades oficiais do Dia Nacional da Visibilidade das Travestis foram realizadas em Porto Alegre, na programação do Fórum Social Temático, sendo a principal atividade promovida pela ANTRA - Articulação Nacional de Travestis e Transexuais, com apoio da ABGLT e parceria/financiamento dos Ministérios da Saúde e dos Direitos Humanos (SDH/PR).
A entidade responsável pela organização foi a Igualdade RS - Associação de Travestis e Transexuais do Rio Grande do Sul, com a presença de lideranças nacionais e artistas travestis de várias regiões do Brasil.
Então, como cidadã de Porto Alegre e militante da Igualdade RS, tive a oportunidade de colaborar na organização das atividades e participar delas da maneira mais intensa, desde que esta data foi criada.
As manifestações foram as seguintes:
24/01 – Marcha de Abertura do Fórum Social Temático: as travestis portaram uma faixa com os dizeres “Sou travesti, tenho direito de ser quem eu sou” (foto acima), trazendo a sua visibilidade aos milhares de participantes do Fórum e ao público que estava assistindo.
26/01 – Mesa de Diálogos - Dia da Visibilidade das Travestis: Saúde, Educação, Segurança Pública: roda de conversa entre lideranças nacionais das travestis, representantes de vários Ministérios e de órgãos públicos estaduais e municipais, debatendo as dificuldades, prestando contas das conquistas e propondo novas soluções.
27/01 – Noite Cultural e Miss Igualdade: apresentações de artistas travestis, como Renata Perón, que gravou um CD em que canta apenas músicas de Noel Rosa e ainda interpreta várias outras canções da nossa MPB, Angela Leclerry, que com seu vozeirão de cantora lírica faz arrepiar o público e a versatilidade de Marina Garlen.
No meio de tudo isso, a entrega de troféus por Marcelly Malta, Presidenta da Igualdade RS, a diversas autoridades, personalidades e ativistas que são parceiros tradicionais das travestis na busca pela conquista da sua cidadania.
Se neste ano foi assim, pretendemos fazer muito mais em 2013, porque provavelmente o Fórum Social Mundial voltará a ser sediado em Porto Alegre, dando uma dimensão ainda maior a todos os eventos que acontecerem dentro da sua programação.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

NA SOCIEDADE DO CADA UM POR SI E NINGUÉM PELA TRAVESTI

A transgênero Chrissy em entrevista dias depois do ataque

É o assunto do momento: o vídeo de uma transgênero que foi atacada por duas moças (uma de apenas 14 anos; outra de 18) num McDonald's em Baltimore, no estado americano de Maryland. As imagens, feitas através do celular de um dos funcionários (que foi demitido pela empresa) na segunda passada, são realmente perturbadoras. (Atenção: o título acima é mais pra rimar mesmo. A palavra transgênero engloba transexuais e travestis. Aparentemente, a transgênero agredida era transexual. Saiba a diferença. E, antes de eu continuar, sim, é revoltante que as agressoras sejam mulheres e negras. Mas infelizmente só ser parte de minorias não faz ninguém menos preconceituoso).
Só um gerente tentou afastar as garotas que esmurravam e chutavam a transexual. Os outros funcionários apenas assistiram à cena (dá pra ouvir algumas risadas), sem fazer nada. Mais pra frente no vídeo uma senhora interfere, impedindo que o ataque continue. Só quando a trans tem (ou finge ter, de acordo com o rapaz que filmou o vídeo) uma convulsão é que as moças são postas pra fora da lanchonete –- e isso para que não sejam presas pela polícia, que estava a caminho. O rapaz que fez o vídeo depois justificou no Facebook, “Aquela não era uma mulher que estava sendo espancada. Era um homem, vestido de mulher”. Também foi dito que a trans era prostituta, então tudo bem (lembra dos filhinhos de papai no Rio que espancaram uma empregada doméstica num ponto de ônibus e mais tarde disseram que pensavam que era uma prostituta? Ou os riquinhos de Brasília que queimaram um índio achando que ele era um mendigo? Igual).
Parece que o que originou o ataque das duas jovens foi que a transexual (igualmente jovem, de 22 anos) usou o banheiro feminino, o que rendeu uma discussão verbal. Algo banal assim.
Quer dizer, banal pra qualquer pessoa de bom senso. Pelo jeito, pra muitos héteros, a principal preocupação com transexuais e travestis é “Oh meu deus, que banheiro ele [porque, pra um hétero, se alguém nasceu homem, nunca deixa de ser homem] vai usar?!”. Eu lembro de um período em que vivi nos EUA e, sei lá por que cargas d'água, só se falava nisso. E eu pensava, pô, até parece que banheiro público é realmente público. Eu tenho um vaso sanitário e uma porta só pra mim, e não dou a mínima se a pessoa ao meu lado nasceu mulher, virou mulher, vai virar mulher, ou apenas se veste como mulher. Isso não interfere em nada na minha vida. Não interfere nem na minha ida ao banheiro.
É claro que atacar uma transgênero constitui crime de ódio. Ela foi atacada apenas por ser trans. Crimes de ódio contra transexuais e travestis são muito comuns. Fiquei chocada outro dia ao ver no Conexão Repórter (sobre homofobia) como as travestis são rotineiramente ameaçadas. Ano passado 110 delas foram mortas enquanto se prostituíam. É no contato com o cliente que são esfaqueadas, atropeladas ou alvejadas por tiros. Diz a reportagem: “Constatamos que não há travesti que não tenha relatos de violência motivados pelo preconceito”. E não é preciso nem dizer que pra essa gente não existe proteção policial. Pelo contrário, aliás.
Não sei ao certo se a indiferença dos clientes e funcionários do McDonald's (teria sido diferente em outra loja?) diante do ocorrido tenha sido apenas pela vítima ser transexual. Pra ser franca, numa única (e espero que última) vez na vida me meti numa briga física. Eu tinha 14 ou 15 anos e estava num fliperama em Búzios. Uma mulher, adulta, que tinha sido empregada na casa dos meus pais, e demitida por um suposto furto, já entrou no fliperama me batendo. Seguiu-se uma briga feia, com nós duas rolando no chão e uma arrancando o cabelo da outra e se arranhando. Demorou uma eternidade até que alguém nos apartasse. Naquela época (antes da metade dos anos 80) não havia celular, e muito menos celular com câmera. Se houvesse, nossa briga estaria no YouTube em questão de minutos. Colocada lá por alguém que preferisse filmar do que encerrar a briga.
Então não acho que seja de hoje que as pessoas ficam insensíveis e distantes diante da tragédia alheia. Eu já fui assaltada à plena luz do dia por um grupo de trombadinhas na saída de um metrô em SP. Todo mundo passava, olhava, e ninguém se intrometia. As pessoas acham que aquilo não têm nada a ver com elas. É o mesmo princípio do velho (e altamente danoso) “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” que a gente conhece tão bem.
No entanto, se alguém é agredido dentro de um estabelecimento comercial, esse estabelecimento -– no caso, o McDonald's -– tem responsabilidade pela segurança de seus clientes. Imagino, inclusive pelo relato do rapaz que filmou a cena, que se fosse uma outra mulher sendo atacada, e não uma transexual, os funcionários teriam interferido. E se você fosse um(a) cliente lá, o que teria feito? No mínimo o óbvio, certo? Que é chamar a polícia imediatamente. (Agora lembrei da moça que foi mantida em cativeiro durante anos na Áustria. Quando ela conseguiu fugir e pediu ajuda, as pessoas se negaram a fazer uma mera ligação pra polícia).
Ano passado falei de uma experiência feita num programa de TV americano chamado What Would You Do? (O Que Você Faria?). Uma mulher com marcas de violência doméstica entrava num restaurante, e logo depois vinha um homem, que passava a ameaçá-la e humilhá-la. Não fez grande diferença a atriz ser branca ou negra -– em ambos os casos clientes tentaram defender a vítima. Mas a história foi completamente diferente dependendo da roupa que a atriz vestia. Se ela usava roupas mais “ousadas”, @s clientes a sua volta pensavam que ela era prostituta e o agresssor, um gigolô. E não se metiam. Apenas pela roupa que a mulher estava vestindo, já faziam todo um julgamento de valor a respeito dela. E decidiam se ela era ou não digna de ajuda e compaixão.
Pelo jeito, funcionários e clientes fizeram esse mesmo julgamento no McDonald's em Baltimore, na semana passada. E chegaram à conclusão que transgêneros não merecem piedade.